Confessei-vos, assim que vim para aqui morar, que pendia sobre mim um terrível cadastro. Várias condenações. Todas “por romantismo pueril por me emocionar com histórias de amor belas e simples”. Era assim que rezavam as sentenças. E este que se segue foi o primeiro dos crimes que cometi:
“Saíra de casa com a cabeça nas memórias que o filme evocava, o que era o mesmo do que dizer com a recordação das suas mãos entrelaçadas nas minhas, do sorriso dela a invadir-me a alma de todas as vezes – já não sabia quantas – em que, juntos, tínhamos ido de Viagem a Itália, guiados por Rossellini. Sempre que o filme passava na Cinemateca, eu cumpria o ritual: dois bilhetes, na mesma fila, nos mesmos lugares, e um lugar vazio do meu lado esquerdo, o mesmo, também, que ela ocupara na noite em que, lavada em lágrimas, e tomada pela inquietação de Ingrid, me dissera, depois da sessão, que tinha de partir. Não sabia por quanto tempo, nem se para sempre, mas tinha de partir.
Durante muito tempo alimentara a esperança do seu regresso. Se era Ingrid a sua inspiração, a Ingrid que simplesmente se afastara por momentos sem chegar a partir, ela teria de voltar. Mas os anos foram passando e o lugar vazio ao meu lado continuou sem ser ocupado. Até ao dia em que me fiquei por um único bilhete. Pouco me importava já que alguém se sentasse no lugar que, em espírito, a ela era destinado. Bastava-me a recordação da minha mão na dela, dos diálogos ditos em uníssono pelos dois enquanto viajávamos por terras italianas.
Só que, nesse dia, de tão diferente, tudo foi igual ao que sempre tinha sido. Uma mão procurou a minha e numa fracção de segundo percebi que era a dela, a mão dela. E quando, duas horas depois, pronunciámos, naquela sintonia tão perfeita que o lugar vazio do lado prometera durante anos, o I Love You do “recomeço” de Ingrid e George, eu soube finalmente. Soube que, tal como Ingrid, ela nunca chegara a partir. Que ela se afastara apenas por momentos a uma distância de algumas filas atrás de mim. Foi a distância que ela se impôs para ver melhor o que estava bem perto dela. A distância que, sessão após sessão, ela ia encurtando. Desde a última fila até encontrar a minha mão de novo. ”
Nada disto seria muito grave se tivesse parado por aqui. Mas não. Continuei a prevaricar. E sem sinais de arrependimento.

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