A minha primeira condenação por romantismo pueril

Confessei-vos, assim que vim para aqui morar, que pendia sobre mim um terrível cadastro. Várias condenações. Todas “por romantismo pueril por me emocionar com histórias de amor belas e simples”. Era assim que rezavam as sentenças. E este que se segue foi o primeiro dos crimes que cometi:

 

“Saíra de casa com a cabeça nas memórias que o filme evocava, o que era o mesmo do que dizer com a recordação das suas mãos entrelaçadas nas minhas, do sorriso dela a invadir-me a alma de todas as vezes – já não sabia quantas – em que, juntos, tínhamos ido de Viagem a Itália, guiados por Rossellini. Sempre que o filme passava na Cinemateca, eu cumpria o ritual: dois bilhetes, na mesma fila, nos mesmos lugares, e um lugar vazio do meu lado esquerdo, o mesmo, também, que ela ocupara na noite em que, lavada em lágrimas, e tomada pela inquietação de Ingrid, me dissera, depois da sessão, que tinha de partir. Não sabia por quanto tempo, nem se para sempre, mas tinha de partir.

Durante muito tempo alimentara a esperança do seu regresso. Se era Ingrid a sua inspiração, a Ingrid que simplesmente se afastara por momentos sem chegar a partir, ela teria de voltar. Mas os anos foram passando e o lugar vazio ao meu lado continuou sem ser ocupado. Até ao dia em que me fiquei por um único bilhete. Pouco me importava já que alguém se sentasse no lugar que, em espírito, a ela era destinado. Bastava-me a recordação da minha mão na dela, dos diálogos ditos em uníssono pelos dois enquanto viajávamos por terras italianas.

Só que, nesse dia, de tão diferente, tudo foi igual ao que sempre tinha sido. Uma mão procurou a minha e numa fracção de segundo percebi que era a dela, a mão dela. E quando, duas horas depois, pronunciámos, naquela sintonia tão perfeita que o lugar vazio do lado prometera durante anos, o I Love You do “recomeço” de Ingrid e George, eu soube finalmente. Soube que, tal como Ingrid, ela nunca chegara a partir. Que ela se afastara apenas por momentos a uma distância de algumas filas atrás de mim. Foi a distância que ela se impôs para ver melhor o que estava bem perto dela. A distância que, sessão após sessão, ela ia encurtando. Desde a última fila até encontrar a minha mão de novo. ”

 

Nada disto seria muito grave se tivesse parado por aqui. Mas não. Continuei a prevaricar. E sem sinais de arrependimento.

Música para dor de corno

Que se esclareça, em primeiro lugar, de quem é o corno a que a música faz juz, presta homenagem ou serve de consolo. Na verdade, a dor de corno pode ser de quem faz a música ou de quem a ouve. Se tomarmos o termo no seu sentido mais amplo, que não envolve necessariamente a troca e o engano que a protuberância supõe, mas se estende a todas as situações que habitualmente designamos como de “desgosto amoroso”, o tema parece ter pouco interesse do ponto de vista do criador ou autor (da música e/ou da letra). Isto porque a larga maioria da música – boa ou má, para o caso não interessa – que tem sido produzida desde que a criação artística se libertou do vínculo religioso, foi buscar a sua inspiração, justamente, às atribulações das relações amorosas, e em especial à sub-categoria das ressacas.

Por isso, o que nos importa aqui é a perspectiva de quem ouve. De quem procura a música feita por outros para exorcizar a mágoa da separação ou rejeição, para se consolar no alívio da dor que as lágrimas alheias provocam quando se juntam às próprias. Julgo não estar sozinho nesta particular opção de terapia para o desgosto de amor que consiste em mergulhar na escuridão de uma sala, com uma banda sonora em que se cantam desgraças que parecem ser as nossas, ou que nós gostamos de imaginar que são as nossas.

Isto tudo para vos dizer que tempos houve em que dois extraordinários álbuns cumpriram em pleno essa função. Tão bem a cumpriram que fiquei, para sempre, com uma dívida de gratidão que me leva a prestar-lhes tributo regularmente, ainda que fora do contexto em que os procurei. É essa a marca da intemporalidade da grande música, a de resistir às particulares circunstâncias com que nos foi introduzida, a de ir muito para além das especiais propriedades com que a investimos. Apenas uma condição imponho sempre que ouço os intemporais Come From Heaven (1997) dos Alpha e Dead Bees on a Cake (1999) de David Sylvian: que se faça silêncio. Faça-se então silêncio para deixar respirar dois excertos desses álbuns, os magistrais Sometime Later e Darkest Dreaming.



  

Post para cantar a crise

O JNA já nos deixou aqui algumas sugestões práticas para enfrentar a crise. E a pergunta é: terá o país a capacidade de fazer o que o exercício sugere, a de se rir dos males que o aflige, a de esquecer por uma vez um outro terrível mal que também o persegue, que é o de insistir em viver das (falsas) aparências e acima das suas possibilidades, mal este que estará, provavelmente, na origem, se não do eclodir, pelo menos do agravamento da crise económica que ameaça levar (ou levou já) à falência o Estado português?

Tenho dúvidas. Tenho dúvidas de que o país prescinda, de um dia para o outro, da maior ratio mundial por habitantes de telemóveis, de Mercedes e BMW, e de “empresários” e “RP” (leia-se desempregados envergonhados). Mas, para que isso aconteça, talvez não seja má ideia o país começar a interiorizar que está mesmo de bolsos vazios. E, antes que o famoso grito de José Mário Branco volte a ecoar em todas as casas portuguesas, talvez seja recomendável convocar a classe artística para fazer, à escala portuguesa, o que Aloe Blacc conseguiu nos Estados Unidos: pôr um país inteiro a cantar a crise. E, sobretudo, a cantá-la sem vergonha nenhuma de o fazer.

Resta, agora, encontrar alguém que se ofereça para adaptar o I Need a Dollar à boa maneira portuguesa.  

Uma boa moldura

Fora a última fotografia que Eva lhes tirara. Junto ao lago, os quatro em traje de banho com o olhar imerso na revista que a fizera saltar, de vez, para a ribalta dos holofotes e passerelles do mundo da moda e, daí, para o estrelato de Hollywood. Mal sabiam eles, naquele momento, o triste destino que iria ter aquele orgulho que cada um deles sentia em ver a sua querida Eva assim exposta aos olhos do mundo. Triste destino para eles, porque para o dela, Eva, eles não passaram de uma nota de rodapé na vertiginosa escalada para a fama que se iniciou com a reportagem da revista. Pobres coitados, estavam longe de imaginar que ela apenas se serviu deles, que se limitou a retirar de cada um o necessário para nunca mais ter de por os pés no Midwest. Um pelo dinheiro, outro porque era filho do Principal, outro ainda porque tinha primos influentes nas majors, e o último porque – tinha de admiti-lo – lhe dava um prazer sexual nunca antes experimentado. Cada um se julgava único no amor que lhe merecia, e cada um guardava para si, a pedido dela, o segredo da exclusividade das brincadeiras lascivas a que ela se entregava. Nenhum deles suspeitava não ser o único da vida dela. Cada um acreditara sem pestanejar naquela história mal amanhada do hímen que se rompera acidentalmente durante um exercício na aula de educação física.

Depois daquela tarde da fotografia, não só nunca mais os vira como nunca mais quisera saber deles. Afinal de contas, já tinha o que queria deles. A conta bancária que um deles lhe abrira para tratar a doença do irmão imaginário, a High School concluída sem nenhum esforço, as portas abertas em Hollywood. E quanto ao prazer sexual, estava certa que, dali em diante, não lhe iriam faltar amantes de qualidade em NY e em LA. Embora fosse grande o desprezo pelos seus provincianos amigos de ocasião da vilória onde cresceu, chegara-lhe vagamente aos ouvidos, anos mais tarde, que nenhum deles se recompusera da sua súbita partida. Claro que, como ela previa, nenhum deles saíra do Midwest. Parece que um se suicidara, outro, pobre infeliz, mergulhara na voragem das drogas, e os outros dois acabaram funcionários de uma daquelas insuportáveis seitas evangélicas a vender bíblias de porta em porta.

Apesar de já não se lembrar sequer do nome deles, a fotografia lá estava, ainda, na estante da sala em LA. Na verdade, dava-lhe muito jeito naquele mundinho de ficção onde ela agora vivia. Os rapazes davam uma boa moldura. Ficava sempre bem dizer que eram os seus muito cool amigos gays. Se a Naomi Campbell e a Kate Moss os tinham, ela não lhes podia ficar atrás. E, nas festas lá de casa, era difícil não reparar neles, desde que ela se lembrou de os transformar em tabuleiro de linhas de coca.

Yo, El Sicario


Chegou a hora de vos fazer uma confissão. Ando a enganar-vos há mais de um ano, desde que por aqui apareci com um nome, um perfil e uma fotografia falsos. Pois é, não sou quem pensam que sou. Infelizmente, não vos posso, por enquanto, revelar a minha verdadeira identidade. Se o fizesse, teria rapidamente à perna aqueles que me perseguem pelo mundo inteiro e que oferecem pela minha cabeça uma considerável recompensa. Posso dizer-vos, sim, que estou profundamente arrependido pelas malfeitorias que cometi no passado na minha anterior pele de sicário. Se não sabem o que é um sicário, vão ao dicionário, que eu não me atrevo a explicar-vos, assim à frente de tanta gente. É verdade, um sicário a soldo de uma organização que actua lá para os lados de Ciudad Juarez, no México. Julgo que, mesmo sem a ajuda do dicionário, já estarão a imaginar o que fazia eu para essa gente abominável. Um dia, com calma, conto-vos com os detalhes todos. Mas o que interessa é que já não o faço agora. Vim para aqui, para este cemitério à beira-mar plantado, que me acolheu sem me fazer muitas perguntas sobre de onde vinha. Através do conhecimento que o mesmo me proporciona, tenho procurado expiar os meus pecados passados e atingir a via da redenção que espero, um dia, poder levar-me à absolvição. Espero que não levem a mal que passe a apresentar-me, assim encapuzado, como na fotografia lá de cima. Enquanto não puder andar de cabeça destapada, prometo, no entanto, não vos faltar com nada que seja compatível com o meu estatuto de anonimato.

Perante esta confissão que acabo de vos fazer, compreendo que só tenham uma de duas alternativas. Ou vão a correr participar o facto às autoridades competentes, para que elas apurem rapidamente quem é este impostor que andou a enganar-vos e o façam pagar pelas atrocidades que cometeu até ser iluminado pela graça deste cemitério. Ou – segunda alternativa – procuram uma sala de cinema onde passe o filme que, mais coisa menos coisa, corresponde à história que vos contei lá em cima. Dá pelo título de El Sicario, Room 164 e foi realizado por Gianfranco Rosi. Só têm de substituir a parte da iluminação através do conhecimento pela revelação (e redenção) através da religião. E, quanto aos detalhes do que faz um sicário em Ciudad Juarez, está lá tudo, com a grande vantagem de me pouparem ao embaraço de ser eu a fazer-vos o relato em primeira mão.

É certo que, caso optem pela segunda alternativa, terão de ter alguma paciência, a equivalente ao tempo de espera até que alguém se decida a exibir o filme no circuito comercial, sabendo nós que, tratando-se de um documentário, isso talvez nunca venha a acontecer em Portugal. Mas, caso tenham o privilégio de assistirem a El Sicario, Room 164, estou certo que irei merecer o vosso perdão. É que o filme – Prémio da Crítica Internacional do Festival de Veneza 2010 e Melhor Longa-Metragem do DocLisboa deste mesmo ano — é mesmo um extraordinário momento de cinema.

Erotismo — Parte 2

Pouco me importa se existe ou não a tal essência do erotismo que o Sr. Leth persegue ou diz perseguir. Mas, se existe, desconfio que sei onde pode ser encontrada. Um simples clique e já lá está, quem havia de ser, a própria Anais Nin a dar-nos as boas vindas, sussurrando-nos ao ouvido um misterioso “I take pleasure in my transformations. I look quiet and consistent, but few know how many women there are in me” a anunciar a multiplicidade de formas que a essência pode revestir. Formas feitas de imagens, deslumbrantes imagens de um bom gosto raramente fotografado em corpos femininos. Formas feitas, também, de palavras e sons que estão lá, pois é, para nos confirmar que a temperatura é muito, mas muito elevada. Uma espécie de banho turco onde a Monica Bellucci desfila a toda a hora. Eu disse Monica Bellucci? Se disse, queria dizer Patrícia Manhão. É ela, a intrigante Patrícia que nos atrai para o seu universo de Acesso Restrito, o tal que, pelos vistos, Leth fez mal em não ter visitado. Vão lá espreitar, vão, mas não se admirem se ficarem presos na armadilha. Entretanto, para quem não se quer aventurar a tanto, e com a devida cortesia da Patrícia, aqui ficam algumas amostras da essência. Parece que afinal existe mesmo.

 

 

Erotismo — Parte 1

Uma das meninas que se prestou a ajudar Jorgen Leth

na sua busca da essência do erotismo

 

Fui atraído pela proposta, a de um ensaio cinematográfico sobre o erotismo. Em forma de documentário, em que um homem – o próprio realizador – dá a volta ao planeta à procura da verdadeira natureza do erótico. O facto de o realizador — Jorgen Leth, apresentado como grande mestre do cinema documental dinamarquês dos últimos quarenta anos, e a quem o doclisboa dedicou uma retrospectiva na edição deste ano – ser também poeta com obra publicada mais estimulou a minha curiosidade. Convém dar um passo atrás para explicar que vai para vinte anos que embirro com teorizações e ensaios sobre erotismos e afins. Mais precisamente, desde que tomei consciência de que o Sr. Francesco Alberoni se transformara num mercenário quase da laia de um Paulo Coelho (vade retro), insistindo em escrever o mesmo livro vezes sem conta com embrulhos ligeiramente diferentes, de títulos tão sugestivos como Erotismo, Enamoramento e Amor, Amizade, etc. (eu disse quase, porque, justiça lhe seja feita, o Sr. Alberoni escreve muito melhor do que o impostor Coelho, o que nem é especialmente difícil). Mas enfim, culpa minha, quem me mandou ler o Erotismo do Alberoni em vez do outro do Bataille, que marcou tanto o nosso MSF mais ou menos pela mesma idade? Quanto muito, isso era coisa que, a assumir forma de palavra, devia ser deixada só aos poetas. Ou então a prosadores, como Vargas Llosa ou Philip Roth, capazes de por os seus personagens a pensar sobre os mecanismos do desejo.

Estava eu neste estado de repulsa por tudo o que fosse ensaio sobre o erótico, quando me apareceu o tal Sr. Jorgen Leth e o seu Erotic Man. É certo que a ideia do filme, a de captar a essência do erotismo do corpo feminino, me parecia dificilmente realizável – e podia, até, ser confundida com pura manobra de marketing. Mas, sendo Leth poeta para além de realizador/documentarista, e remetendo-nos a proposta para o território das imagens, lá lhe concedi o benefício da dúvida, esperando ultrapassar de vez a minha difícil relação com a racionalização de um fenómeno que pertence ao mundo das sensações, da pele, dos cheiros, dos desejos, e me continuava a parecer pouco compatível com cogitações do cérebro.

Cedo percebi, no entanto, que o método usado por Leth não podia conduzir senão a mais um logro. Ao longo de uma boa hora e meia, não faltaram corpos femininos, bem nuzinhos como se impunha. Mas deu logo para perceber que, salvo algumas honrosas excepções, as meninas não estavam à altura dos altos desígnios do mestre. Recrutadas através de um pouco exigente processo de casting (que no filme nos era dado a conhecer), ficou evidente que não havia nelas a mais leve sombra de preocupações artísticas, e que aquilo de ficaram prostradas, deitadas nuas numa cama, à frente do mestre, a “pensar” (como este lhes pedia) numa maravilhosa noite de sexo que tinham vivido ou iriam viver, não podia levar à descoberta de essência nenhuma a não ser a do dinheiro que as movia. E, não fosse a provecta idade do mestre – que deveria ter uns cinquenta anos de idade a mais do que qualquer uma delas –, ficaria mesmo a dúvida se ele próprio não estaria à procura, antes da essência de coisa alguma, das sensações fortes que os corpinhos das meninas lhe inspirassem, ou pelo menos da recordação das que experimentara no passado com corpos tão frescos e jovens como aqueles.

Moral da história: de uma vez por todas, não quero que me expliquem onde está a essência do erotismo. E se quiserem fazer de mim um voyeur, deixem-me escolher o alvo do meu olhar à vontade. Sem palavras a acompanhar. A não ser, claro, se vierem da contemplada. E, quanto a tentar saber o que pensa uma mulher antes, durante ou depois do tempo que passa com o seu amante, digam lá os cavalheiros se não preferem que esse mistério se mantenha insondável. Aliás, sem querer dar o dito por não dito, não estará aí mesmo, nesse mistério, a própria essência do erotismo feminino?

Procura-se musa

Gala nua vista por trás (1960)

Salvador Dali

Ou a musa (ainda) de costas voltadas para nós

 

Procura-se musa. Não estou a brincar. Faz-nos mesmo falta uma musa, aqui no cemitério. Viva, bem entendido, porque mortas temo-las em grande abundância e qualidade. Uma musa colectiva, que traga inspiração quando ela nos falta, a quem possamos recorrer nos momentos de bloqueio criativo, que nos resolva as angústias da página em branco. Sim, porque só se conhecem duas formas de ultrapassar crises de escrita. Ou se transforma o bloqueio, ele próprio, em tema de post, como eu agora estou a fazer, caso não tenham ainda reparado. Ou simplesmente se chama a musa para que ela se quede, bem à nossa frente, em todo o seu esplendor, e os resultados surgirão inevitavelmente, sob a forma de prosas desenvoltas e escorreitas.

A primeira alternativa está, como sabem, caucionada por figuras da importância de Federico Fellini – que transformou a mais absoluta falta de ideias em matéria de argumento na sua obra-prima Oito e Meio – e de Paul Auster – que, recorrentemente, usa como catalisador das suas narrativas um escritor (ele próprio, está visto) confrontado com a dita angústia da página em branco. Mas, convenhamos, é uma solução limitada que deixa poucos caminhos ao criador. E que pode mesmo ter um efeito perverso, que é o de conduzi-lo a passo acelerado para um beco sem saída. Para além de que parece estar esgotada de tão usada. Ao ponto de Charlie Kaufman, o mais aclamado argumentista americano dos últimos dez anos, e o último a quem imaginaríamos que pudessem vir a faltar ideias para um filme, ter recorrido a tal expediente na sua estreia na realização – mais ou menos falhada, talvez por isso mesmo – com Synecdoche, New York.

Resta-nos pois eleger uma musa. Apenas dois requisitos no caderno de encargos: que tenha a capacidade de nos inspirar e que não nos leve à desgraça. Assim, para evitar que acabemos pendurados numa corda pelo pescoço ou a passear bonecas insufláveis pela rua, serão liminarmente excluídas as candidatas com pretensões a Annick Honoré ou a Alma Mahler, para só referir dois exemplos que já aqui e aqui foram citados. Os bons costumes também desaconselham as candidaturas das Marianne Faithfull da vida, por mais talentos que tenham. Já os estilos Emilie Floge e Serena Lederer que o PN aqui e aqui nos trouxe serão muito bem vindos.

As inscrições estão abertas.

 

P.S. Eugénia, Joana e Teresa: escusam de vir aqui reclamar de qualquer pretensa derivação machista que o género feminino “musa” vos sugira. Como sabem, “musa” não tem masculino e o seu mais próximo equivalente do sexo oposto, o fauno, tem poucas ou nenhumas capacidades inspiradoras.

O meu amigo Varguitas

 

Varguitas e a minha tia Júlia

Conheci o Varguitas ainda adolescente. E rapidamente deixei de o ser com aquelas fantasias com que ele me encheu a cabeça. Primeiro, a obsessão pela tia bem mais velha do que eu. É certo que só era tia por afinidade mas, em todo o caso, aquilo foi suficiente para me deixar mal aos olhos da família e da sociedade. Depois, quando fui cumprir o serviço militar, o escândalo das visitas das meninas ao regimento, que me tornou indigno de continuar a usar a farda. E, a partir daí, foi sempre a subir na escala da dissolução de costumes e a descer na da consideração social. De aprendiz de mulheres experimentadas passei a predador de ingénuas mas surpreendentemente fogosas donzelas. Conheci mundo. Graças ao Varguitas, conheci personagens fascinantes. Algumas infames sim, mas sempre fascinantes ao ponto de me inspirarem a simpatia que só se reconhece aos sedutores. Ao mesmo tempo, crescia em mim uma vontade de conspirar. De conspirar contra o poder, de fazer revoluções, de espalhar a anarquia. Perseguido e incapaz de o derrubar, decidi então fugir do mundo, refugiando-me numa ilha perdida no Pacífico para pintar jovens, muito jovens libidos femininas. Voltei um dia sob identidade falsa para não me deixar apanhar nas malhas das sempre tão vigilantes convenções sociais, eu que, desde que conhecera o Varguitas, me tornara um espírito liberto de quaisquer constrangimentos. Mas acabei mesmo preso sim, mas nas garras de – quem havia de ser — uma mulher. Uma menina má. Uma mulher que me consumiu quase até à morte, deixando-me sem fôlego para manter a minha dignidade de pé. Provavelmente, pensava eu, era esse o castigo por ter seguido Varguitas tantos anos. Acabava vítima dos jogos perversos que cultivara no passado. Os tais que Varguitas me ensinara a jogar, ao mesmo tempo que me transmitira – julgava eu – o dom da invencibilidade. Mas fora derrotado. E já não tinha forças para me reerguer.

Até que soube da notícia. Já ouvira uns rumores lá fora a que não dei credibilidade. Só aqui tive a certeza. E, num ápice, tudo mudou. Primeiro a explosão da alegria pelo meu amigo Varguitas. E depois, ah depois, a vontade de fazer regressar o velho mundo que julgava perdido. Que venham de novo as tias encher-me de fantasias. Que o Pantaleão – ah Pantaleão! — mande vir as meninas. Meninas boas, más, virgens ou matronas. Que me ponham nas mãos aqueles cadernos que fazem subir a temperatura. E que me tragam uma horda de combatentes dispostos a fazer uma boa revolução para tirar os infames do poder. E que venha o Varguitas pôr ordem nisto tudo. Ordem? Qual ordem, o que se quer é desordem. O que se quer é a desordem dos corpos, das emoções, das rupturas que só o meu amigo Varguitas é capaz. Que o mundo inteiro abra alas para o Varguitas passar. Que o mundo inteiro aplauda o Varguitas.

Fully Connected

Fully Connected, dos Micro Audio Waves. Esta é uma das melhores canções pop da (escassa) colheita musical portuguesa dos últimos anos. Só isso seria razão suficiente para a trazer para aqui. Mas o meu interesse vai mais longe. Reparem bem no clip. Não por capricho meu mas porque julgo que não haverá outro de origem portuguesa que tenha recebido tão elevada distinção. É verdade: em 2006, os Micro Audio Waves foram honrados com dois prémios nos “Qwartz Electronic Music Awards”, com sede em Paris e, talvez, o mais importante conjunto de distinções a nível mundial na área da música electrónica. Um, relativo ao melhor álbum – No Waves, onde se insere este Fully Connected. Outro, justamente o tal de melhor clip, da autoria de Marco Madruga (realização) e de Daniela Krtsch (artwork e fotografia). A nossa amiga Daniela Krtsch, nem mais, que transformou os membros da banda (Claudia Efe, Flak e Carlos Morgado) em bonecos de plasticina, numa indiscutível prova, se dúvidas houvesse, do seu talento e versatilidade.

 

Toda a verdade

Não tenho alternativa. E a culpa é minha. Fui eu que lancei o desafio à Joana. E agora que a coisa atingiu proporções que nunca imaginei, não tenho como fugir. O melhor mesmo é acabar já com a chinfrineira de portas a bater com estrondo na manif que se organizou espontaneamente nas traseiras deste cemitério, às ordens do potente megafone da (quem havia de ser) justiceira Joana.

Aqui fica então toda a verdade sobre a “Daniela”:

- A tela apresentada é um auto-retrato (um díptico a óleo) da própria artista, Daniela Krtsch, de nacionalidade alemã e radicada em Portugal desde 2001;

- A Daniela Krtsch, embora não seja ainda uma estrela de primeira grandeza no circuito da arte contemporânea portuguesa, é uma talentosíssima artista (em múltiplos suportes, embora com predominância da pintura) que para lá caminha a passos largos;

- Tenho o privilégio de ter a referida tela no meu quarto, bem à frente dos meus olhos quando me deito e quando acordo;

- Embora tenha, também, o privilégio de conhecer pessoalmente a Daniela (uma belíssima mulher, por sinal), a dita tela não me foi oferecida pela própria; foi, sim, por mim adquirida, e por uma razão muito simples: um irresistível “love at first sight” – pela tela, e não pela Daniela, para que não haja dúvidas;

- Não vou jurar – como muitos de nós, provavelmente – nunca ter pronunciado o nome errado num momento menos conveniente, mas posso jurar, sim, que o nome, certo ou errado, nunca foi “Daniela” e que, se o fiz, não terá sido certamente – para bem do meu pescoço — num momento de tanta intimidade;

- A Daniela Krtsch serviu de inspiração para a short pelo mérito exclusivo da obra em causa, e não por qualquer atracção de outro tipo que a autora me tenha provocado – e, nada de confusões com a matéria ficcional, pois que os meus laços com a Daniela nunca foram além da admiração pela artista e da cordialidade e simpatia no trato;

- Tudo o mais não especificamente ressalvado é do domínio da mais pura fantasia; mas já que alguém se atreveu a lançar para o ar a ideia, estou certo que a Daniela (que compreende e se expressa bem em língua portuguesa) não desdenharia as shorts aqui postadas, ou pelo menos algumas delas, como possíveis ilustrações da sua obra, e que, se algum dia chegar à Tate ou algo de vagamente aproximado (estou a fantasiar, atenção), quem sabe não se esquecerá de as reunir numa publicação única, com o apoio e produção de uma editora que eu cá conheço.

 

E, agora que foi divulgada toda a verdade, o que me dizem de eu mostrar o produto do nosso labor ilustrativo à própria Daniela?  

The last of the famous international playboys

Morrissey não estava a pensar em Porfirio Rubirosa quando escreveu a canção, disso não parece haver dúvidas. Basta espreitar o vídeo e atentar na letra para reforçar essa certeza. Mas, depois de ler o exemplar retrato que o António Eça de Queiroz dele fez, apetece dizer o contrário, que sim, que este The Last of The Famous International Playboys foi uma justa homenagem ao homem que nenhuma mulher – com a ainda hoje incompreensível excepção de Zsa Zsa Gabor – recusou.

 

A lágrima de Georgia

Four Friends

Esta semana, morreu Arthur Penn.

E, esta semana também, como foi já anunciado com toda a pompa e circunstância, nós, Gente Morta, fizemos um ano de vida.

Mas, perguntarão os meus co-bloggers e os leitores, o que há de comum entre uma coisa e outra?

Pois, para mim, há. Há a ligação entre a primeira e a última lágrima que, orgulhosamente e sem pudor algum, partilhei com outros. É verdade: Arthur Penn foi o responsável pela primeira lágrima que me lembro de ter soltado à procura de outra, de outras, com quem partilhar a comoção que a gerou. Pela primeira lágrima não furtiva, a primeira a sair de peito feito cá para fora sem vergonha da sua condição de lágrima. Não, caros coleccionadores de marcos da História do Cinema, não aconteceu com Bonnie and Clyde. Nem com Duelo no Missouri. O culpado foi um filme de Penn, sim, mas um daqueles que não deu origem a tratados académicos ou a ciclos temáticos em cinematecas. Um filme que, de tão despretensioso e simples, não passou de uma nota de rodapé na filmografia de Penn. Mas que, apesar disso, ou talvez por causa disso mesmo, tocou bem fundo num coração que, até então, desconhecia o seu lado sentimentalão. Eu deveria ter pouco mais de quinze anos e o filme apresentou-se nas salas de cinema, lá para 1982, como Quatro Amigos, tradução literalíssima do original Four Friends. A história conta-se em duas penadas: quatro amigos como o nome indica — uma mulher, Georgia, e três homens — e as suas vidas desde os tempos idealistas da adolescência até às amarguras da quase meia-idade, tendo como pano de fundo a luta pelos direitos civis, a guerra do Vietname e a libertação sexual. Como fio condutor da trama, a paixão – quase sempre platónica, se bem me lembro — que cada um dos três rapazinhos depois feitos homens alimentou por Georgia ao longo de mais de vinte anos. A banda sonora para as fantasias dos três apaixonados amigos não poderia ser mais apropriada: o magnífico Georgia on My Mind, original de Carmichael/Gorrell, na versão interpretada por Ray Charles que vos deixo em baixo. Tudo isto enquanto Georgia se julgava a reencarnação de Isadora Duncan e se convencia sobre o destino grandioso de bailarina que a esperava.

Do filme, entre muitas cenas que me comoveram até ao tutano, uma houve que retive em especial: um poema/declaração de amor dito a Georgia por um dos amigos, iam eles a caminho da vida universitária, em que ele lhe confessava amá-la “como o cego ama a recordação dos dias em que via”, repetido, depois de um longo interregno em que ambos seguiram rumos separados, durante um concurso televisivo de grande audiência que ele suspeitava estar a ser visto por Georgia. Escusado será dizer que, enquanto Georgia reconhecia, vinte anos depois, a voz e o poema do “amigo” no seu écran de televisão, e se ia às lágrimas com a declaração que percebeu, uma vez mais, ser-lhe dirigida, eu e todos os outros, que comigo soltaram a lágrima de Georgia, lhe jurámos amor eterno.

Enquanto Jodi Thelen, a actriz de 19 anos que incarnava Georgia, desaparecia para não mais voltar (PMS, sabes dela?), a lágrima de Georgia, a primeira lágrima, essa cristalizou para se juntar a todas as outras que tiveram a sua marca. A marca daquele filme (e foram muito poucas as que encontrei com essa origem) e a de outros filmes, músicas e livros que, ao longo dos anos – mais ou menos, os mesmos anos que mediaram entre as duas declarações de amor, a privada e a pública, do “amigo” de Georgia – tiveram a sua força contagiante. Até à última. A lágrima interior que, timidamente, se começou a formar a 1 de Outubro de 2009 e não mais parou de se expandir desde então.

 

Daniela


Daniela. Mais uma vez saíra-lhe. Mais uma vez sussurrara o nome maldito na altura mais inconveniente. Porque é que era sempre ali, no pico do prazer da intimidade de dois corpos feitos um só, que o nome lhe saía? A papel químico das outras vezes. Quantas foram antes? Três, quatro, cinco, já não se lembrava, porque a verdade é que só dela se lembrava, sempre ela em todos os corpos que o enganavam. Sempre a mesma cena, a porta a bater com estrondo a anunciar o fim daquilo que nunca começara. E, a seguir, o mais absoluto vazio no quarto cheio dela. Cada vez mais cheio dela. Sim, ela estava lá sempre, omnipresente mesmo nas breves ilusões que se intrometeram quando conheceu as outras. Estava presente, sabia ele, só para ter o prazer cínico de o fazer soltar aquele maldito Daniela que fazia cair por terra todas as ilusões com que procurava enterrar a Daniela que via em todas as outras.

Maldito nome. E maldita noite em que insistira – por amor louco, já o sabia então e agora sabia-o mais do que nunca – em ficar com o quadro no quarto, bem à frente dos seus olhos quando se deitava, quando acordava. Fora um presente dela, sim, de um tempo em que aquele auto-retrato dela, na brancura imaculada do roupão e na serenidade do pensativo cigarro, anunciava uma promessa de amor eterno. Culpa sua, o ter decidido, no momento em que ela saíra para não mais voltar, ficar com ela, a encher o seu quarto em cada uma das noites, das muitas noites, das centenas, milhares de noites que se seguiram depois de ela o ter deixado à sua sorte. Entregue à imagem dela, no seu roupão branco que ele já não vestia, no seu cigarro que ele já não fumava, mas que continuavam ali, a atormentá-lo em cada corpo sem outra vida que não fosse a dela que por ali passava, e ficava, até à noite em que lhe saía o maldito Daniela.

Maldito sorriso. Maldito sorriso cada vez mais rasgado. Não, não era impressão dele, ele tinha a certeza que aquele sorriso não era o que lá estava quando ela se foi. A cada porta que batia com estrondo, o sorriso crescia. De centímetro em centímetro o sorriso passou a riso. Riso descarado. Gargalhada. Ensurdecedora. E ele, no mais absoluto vazio de um quarto cheio dela, mergulhado no silêncio ensurdecedor da sua gargalhada.

…………….

Acabou, pensou ele. Finalmente iria refazer a sua vida. Ainda hoje viriam buscar o quadro ao quarto. Hoje já não adormeceria com ela. Amanhã já não acordaria com ela. E – tinha a certeza – nunca mais a porta de casa se fecharia com estrondo. Afinal de contas, o amor tinha mesmo um preço. O dela, Daniela, se ter transformado numa estrela de primeira grandeza do meio artístico. O dele se ter lembrado de a tornar pública numa short story lá do blogue. Tornara-a pública para acabar com o segredo que o destruía por dentro. Tão pública que agora até ela, Daniela, estrela de primeira grandeza do meio artístico, iria expor o agora famoso auto-retrato na Tate, imagine-se. E, com o auto-retrato, lá iam também as short stories, a dele e a de todos os companheiros lá do blogue, transformadas em livro catálogo da exposição. E até já se imaginava lá com ela. A sorrirem um para o outro com o sorriso de uma tranquilidade que nunca tiveram. Ela com um pensativo cigarro. E ele sem portas a bater com estrondo. E um nome, Daniela, que nunca mais por ele será sussurrado. A ouvido nenhum. Nem da própria.

Para variar das reprimendas europeias

Já tínhamos a Cidade Branca do Tanner e a Lisbon Story do Wenders. E, embora desconfiemos que pouco devem à nossa Lisbon mas a uma sua homónima americana, as irmãs Lisbon virgens suicidas da mui em voga Sofia Coppola e, mais recentemente, a agente Teresa Lisbon da série de culto The Mentalist. Agora, temos também o recentemente premiado Mistérios de Lisboa, realizado pelo chileno Raul Ruiz (embora com produção nacional de Paulo Branco, tal como os filmes de Tanner e de Wenders).

Mas ou muito me engano ou nunca um álbum vindo de fora tinha sido inteiramente dedicado à cidade de Lisboa. Os Durutti Column não foram tão lisboetas com o seu Amigos em Portugal. E Devendra Banhart limitou a sua homenagem portuguesa a uma canção, e bem nortenha, o delicioso Santa Maria da Feira que já aqui ouvimos.

Façam então favor de receber bem estes americanos de gema, The Walkmen, que nos visitarão muito em breve (14 de Novembro, no Coliseu dos Recreios), para promover o seu último álbum. Nem mais nem menos do que Lisbon de seu nome. A avaliar pelo que já ouvi, e que vos deixo em baixo, é uma bela vénia a Lisboa. Só para variar, durante uns minutos, das reprimendas europeias.

 

Viaje a la Habana

Isso de um charuto ter adquirido forma humana já não é coisa que me espante por aí além. Nem sequer por artes mágicas da Eugénia (ó, e se a Eugénia as tem, desde que a vimos transformada em Natalie Portman!). Quando vi o Partagas Série D n.º 4 (e saberão os conhecedores que mete o Fonseca a um canto) convertido em sobremesa, passei a acreditar em milagres. Pelo menos em milagres gastronómicos.

Eu explico. Tempos houve da minha vida em que, por circunstâncias que não vêm ao caso, me deslocava com frequência a Barcelona. E, se na altura já conhecia Barcelona como Cidade dos Prodígios (foi assim que Eduardo Mendoza lhe chamou no seu épico e inesquecível romance sobre a cidade), estava longe de imaginar o prodígio que me esperava durante as minhas estadias no Hotel Omm (numa das esquinas do Paseo de Gracia, por trás da gaudiana Pedrera). Pois bem, o Hotel Omm, entre outras de relevo, tinha e tem como preciosidade máxima o seu restaurante, de nome Moo. Se todos nós temos direito a ter o nosso “melhor restaurante do mundo”, esse é o meu. Digo-o, obviamente, sem a selectividade e o rigor do gourmet que não sou (faltam-me uns bons quilos para ser levado a sério como tal), e muito menos sem o enciclopedismo do viajante que gostava de ser mas não sou o suficiente (não, nunca escolhi uma viagem de lazer pelo circuito gastronómico). E porquê o “melhor restaurante do mundo” logo numa categoria – a de restaurante de hotel – que nenhum crédito tem para os tais gourmets e a que normalmente só recorrem os que lá estão instalados? Bom, a verdade é que, sendo um restaurante de hotel, o é de um hotel com um hype muito especial. Poderia falar-vos do espaço trendy, da beautiful people e da música de fundo que segue as últimas tendências, tudo muito fashionable sim (para usar termos, tantas vezes enganadores, que abundam nas revistas de viagens), mas que estará longe de explicar o fenómeno. Poderia dizer-vos ainda que a cozinha – de autor, pois é — está nas mãos de uns afamados irmãos Roca, três estrelas Michelin pelo seu trabalho à frente de um outro restaurante, o Celler de Can Roca, na também catalã Girona. Três irmãos três que se ocupam um dos fornos, outro das sobremesas e outro ainda dos vinhos. E poderia enumerar-vos as virtudes de uma ementa de degustação, servida em pequenas mas variadas doses, e sempre acompanhadas de um vinho diferente (ao copo claro), aquele que o chefe Roca do sector considera adequado para cada prato. Fico-me, no entanto, por uma dessas virtudes, o tal prodígio entre os prodígios, que justifica o meu título lá em cima. O Viaje a la Habana, nome que é dado a uma das sobremesas da carta.

E o que tem de especial essa viagem a Havana? Bem, voltamos às capacidades transformatórias do charuto, que já fizeram um Fonseca virar Manuel e que, aqui, nos fazem aparecer um Partagas Série D n.º 4 – para alguns, o melhor charuto do mundo – em forma de gelado, acompanhado de um falso copo de mojito, também ele sorvete para justificar a classificação como sobremesa. Tudo se assemelha a um charuto tombado num cinzeiro, com um anel de cinza em estado avançado (não sou especialista, nem perto disso, mas parece que os que o são dizem que a cinza no charuto deve sempre cair naturalmente, nunca ser forçada a cair). Com a particularidade que este vai sendo ingerido – como gelado que é — e não fumado. E o incrível é que, a cada ingestão, as narinas se abrem para deixar passar o aroma do fumo do dito Partagas. Como se, de facto, fosse um verdadeiro Partagas série D n.º 4 que estivesse para ali a ser fumado. Quem vos fala é um não fumador que julga ter aprendido, numa viagem à genuína Havana há largos anos, a disfrutar, muito episodicamente embora, os prazeres de um bom charuto (e, como deve ser, sem nunca inalar o fumo). É tal a ilusão que toma conta de nós que não temos outra alternativa senão pedir, logo a seguir, o tal Partagas a sério, para o compararmos com o aroma libertado pelo gelado – e olhamos à nossa volta e temos o restaurante inteiro a fazer o mesmo.

Resta dizer que é tal a unanimidade que o Viaje a la Habana gera que os prémios e distinções se têm sucedido um pouco por todo o mundo. E, quanto ao Moo, o maior elogio que se pode fazer é o do que, aí, não há qualquer veleidade de conversa fluente, pois qualquer tentativa de diálogo é sistematicamente – ao ritmo de cada garfada — interrompida por onomatopeias de puro prazer gastronómico. Huuummm…

 

Phoenix Renascidos

River, Rain, Leaf, Liberty and Summer. Não sei bem se a ordem é esta. Se não é — e julgo que é – é assim, com este encandeamento entre o musical e o poético, que a sequência me soa bem. Só por isto, os pais, que só podiam mesmo ser hippies nómadas dedicados a uma vida em comunhão com a natureza, mereciam ficar para a posteridade. A verdade é que serão sempre lembrados muito para além dos bucólicos nomes de seus filhos (e, by the way, o de River foi, também, uma homenagem ao rio do Siddharta de Hermann Hesse).  Serão lembrados, pelo menos, por aquilo que na vida e na morte fizeram, e fazem, pelo menos dois dos seus filhos. Pelas melhores razões, as de um talento extraordinário que fez de um deles, River o mais velho, imortal depois da morte trágica que o levou em 1993, e de outro, Leaf, mais conhecido por Joaquin, um dos maiores actores de uma geração há muito órfã de De Niro, Hoffman e Pacino.

De River, uma espécie de James Dean dos anos 90 (pelo talento e juventude, pela aura de sex-symbol e ambiguidade sexual e, até, por alguma rebeldia, embora camuflada sob a veste do activismo social), o mínimo que se poderá dizer é que nenhuma outra figura foi mais celebrada na música (e ele, para além de actor, também era músico) depois da morte nos últimos vinte anos. Milton Nascimento (ainda em vida), REM, Red Hot Chilli Peppers, Natalie Merchant, Rufus Wainwright, foram alguns dos que lhe dedicaram canções, mais ou menos melodramáticas.

De Joaquin, acabou de vir a confirmação do seu génio de actor. É verdade que poucos acreditaram quando anunciou ao mundo, por alturas do Late Show de David Letterman que aqui se exibe, que abandonava a representação para se dedicar a uma nova carreira de músico de hip-hop (tanto mais que acabara de nos presentear com mais uma assombrosa interpretação no magnífico “Two Lovers”). Mas a consistência e constância que o seu personagem decadente revelou durante mais de um ano – com espectáculos que acabaram em cenas pouco edificantes com o público – acabaram por convencer os mais cépticos. O homem tinha, simplesmente, enlouquecido. Nada que não tivesse já acontecido aos melhores.

Mas eis que, quando o assunto parecia arrumado, veio a revelação. Afinal, ele andou mesmo a enganar-nos durante este tempo todo, com a cumplicidade do seu cunhado Casey Affleck (casado com a irmã Rain), que filmou a trapaça toda para a exibir num documentário (melhor dizendo, um “mockumentary”), “I´m Still Here”, exibido recentemente no Festival de Veneza. Qual a ideia? Bom, de Joaquin Phoenix espera-se o melhor, e não um exercício meramente humorístico. Sem ter visto o documentário, acredito que tenha querido questionar – como outros já o tinham feito, embora nunca talvez de forma tão radical — os limites entre ficção e realidade com que a Arte se debate, ou a ténue distância que separa o sucesso da decadência na indústria de entretenimento. Aguardemos que as salas de cinema portuguesas se dignem a satisfazer-nos a curiosidade.

Pyramid Song

I jumped in the river and what did I see?
Black-eyed angels swam with me
A moon full of stars and astral cards
And all the figures I used to see
All my lovers were there with me
All my past and futures
And we all went to heaven in a little row boat
There was nothing to fear and nothing to doubt

 

Conta-se que, para compor e escrever esta fabulosa canção, Thom Yorke se inspirou em Hermann Hesse e no seu Siddharta, onde um rio (ou todos os rios do mundo em sentido metafórico) desempenhava(m), com o próprio Siddharta (ou o Gautama Buda, se preferirem), papel central na narrativa, e que se transformou, em certos tempos da adolescência e pós-adolescência, uma espécie de guia iniciático filosófico/místico/religioso de muitos de nós (embora, no meu caso e de quase todos com quem partilhei a descoberta do livro, com poucas ou nenhumas consequências nos tempos que se seguiram). 

Tenha ou não fundamento essa inspiração, não se pode negar que, para além do rio em que Thom mergulha, há qualquer coisa no som envolvente e misterioso de “Pyramid Song” que nos leva a uma dimensão transcendental. Como se, de cada vez que se ouve a canção, todo o universo nela estivesse contido e nada mais contasse para além do que ela tem para nos dizer. Como se, mesmo quem não acredita em qualquer forma de comunicação com o Além, fosse forçado, nos cinco minutos da canção, a vergar-se à evidência da espiritualidade para que ela nos remete. Como se, de súbito, uma iluminação caísse sobre nós, sem que outra alternativa nos restasse senão rendermo-nos à sua força conversora. 

Será esse um dom exclusivo de “Pyramid Song” e dos profetas Radiohead? Talvez não. Há quem diga que é esse o traço distintivo de toda a Grande Arte. Que seja. 

 

Dino Buzzati

“Se não fosse mais do que um homem comum a quem, por direito, cabe apenas um destino medíocre?”

in “O Deserto dos Tártaros”


“Soube assim da estranha particularidade daquele hospital. Os doentes eram distribuídos pelos andares de acordo com a sua gravidade. No sétimo, ou seja, no último, eram alojados os doentes muito ligeiros. O sexto destinava-se aos doentes não graves mas também não negligenciáveis. No quinto já se tratavam afecções sérias, e assim sucessivamente de piso para piso. No segundo estavam os doentes muito graves. No primeiro, aqueles de quem já não havia nada a esperar.”

Assim começa uma das mais belas – e também mais aterradoras – caminhadas para a morte que a literatura alguma vez produziu. Quando, há uns bons anos, por recomendação do Pedro Norton, me dispus a iniciar a leitura da colecção de contos “Os Sete Mensageiros”, de Dino Buzzati, estava longe de imaginar que, duzentas páginas à frente, teria ganho uma familiaridade com a morte próxima do encantamento. Pela amostra citada, a do hospital do conto “Sete Andares”, os que ainda não se aventuraram pelos caminhos labirínticos de Buzzati não conseguirão certamente antecipar o exacto impacto que eles podem provocar. Até porque esse impacto se vai manifestando subrepticiamente, sem que o leitor se aperceba para onde está a ser levado, mas sempre na certeza de que quer continuar em frente. É essa a armadilha de Buzzati: sem nos pedir licença ou sequer nos dar a mais leve pista para onde vamos, começa por nos seduzir recorrendo aos truques que só a grande literatura é capaz. E, só quando já estamos bem enredados na teia em que a sua poética nos envolveu, se começam a manifestar os primeiros sintomas do chamamento que Buzzati nos dirige. Primeiro, achamos que não é nada connosco, que tudo não passa de um universo fantástico que nenhuma conexão tem com a nossa percepção do Bem e do Mal, com a nossa vidinha de todos os dias. Mas, à medida que as histórias e as “não histórias” se vão sucedendo – sim, porque as ficções de Buzzati muitas vezes não passam do grau zero da lógica narrativa convencional -, vamos sendo tomados pela inquietude de quem sabe estar a ser interpelado. Sabemos então que já não controlamos a nossa vontade, que já estamos num território onde Buzzati nos tem cativo. E chegamos, finalmente, à última etapa do percurso de descoberta a que a escrita encantatória de Buzzati nos conduz. Momentaneamente, saímos de nós próprios para observamos as nossas acções ao longe. Como aquele contabilista do conto “Quando Se Faz Sombra” que, no dia em que foi promovido a director financeiro, encontra uma criança no seu sótão, que vem a descobrir ser ele próprio com menos trinta e cinco anos de idade. Tal como o contabilista é interpelado, também nós o somos pela criança que fomos, e que continua a habitar o sótão das nossas expectativas frustradas. Com Buzzati, damos por nós a vestir a pele da morte para assistirmos à inexorável passagem do tempo e ao efeito que esta produz sobre a vida. E é a morte em toda a sua glória e esplendor que Buzzati nos traz. A morte como contraponto da mesquinhez e insignificância da vida. A morte como libertação e redenção de uma vida onde há muito se morreu sem se saber.

Antes de “Os Sete Mensageiros”, publicado originalmente em 1942, já Buzzati escrevera aquela que muitos consideram a sua obra-prima, “O Deserto dos Tártaros”. Dizer que “O Deserto dos Tártaros” é uma obra-prima é, convenhamos, muitíssimo redutor. É mais ou menos o mesmo do que dizer que a mulher da nossa vida é linda e nada mais. Mais justo seria assumir que “O Deserto dos Tártaros” é o livro de uma ruptura, mesmo de uma revolução. Depois de o lermos, corremos o risco – e é um risco que vale a pena correr, isso garanto-vos eu – de nunca mais olharmos para nós, para a nossa vida, da mesma maneira. Corremos o risco de mudar de vida, e até de mudar radicalmente de vida. Mais uma vez, Buzzati lança-nos um isco que se vem a revelar uma armadilha. Mas, se em “Os Sete Mensageiros” o processo de sedução é estilisticamente rebuscado e conduz ao enfeitiçamento através de um sofisticado jogo de espelhos, em “O Desertos dos Tártaros” o estratagema é outro. A narrativa (que só o é falsamente) aparece-nos nua e crua, aparentemente sem artifícios, num despojamento e simplicidade que desarmam. Deixamo-nos levar, despreocupadamente, ao ritmo de uma vida que até nos é levemente familiar à espera do que aí vem. E esperamos. Esperamos. Esperamos como o tenente Giovanni Drogo espera pelo inimigo na fortaleza Bastiani onde vai permanecendo. À espera que se passe qualquer coisa. Que venha o inimigo ou o que quer que justifique a continuação da leitura. Mas as páginas vão ficando para trás e nada acontece. Só o deserto bem à frente dos olhos do tenente Drogo. E acabamos a culpar Buzzati por mais um dos seus logros. Como se não bastasse pôr-nos à frente dos olhos a criança que fomos com perguntas incómodas, Buzzati tem o descaramento de nos confrontar com o deserto da existência das nossas vidas.

Pela parte que me toca, desde que o li, Buzzati não mais deixou de me interpelar. Aparece-me, ciclicamente, quase sempre quando está prestes a entrar no esquecimento. E que irritantes são esses momentos. Já perdi a conta aos dias que as suas aparições estragaram. E ele sabe muito. Aparece sempre quando estou mais tranquilo. Quando estou perto de me sentir em paz.

Crónicas da Ilha de São Tomé (2)

Como um filho rebelde que renega o seu pai para lhe provar que é capaz de tomar conta de si sozinho, S. Tomé anda a inventar-se a si própria para fugir à herança que recebeu de Portugal. Desse processo faz parte a rejeição do património – não só arquitectónico, mas também histórico, social, cultural, afectivo e simbólico — das roças. Tudo porque o santomense nunca foi dono da roça nem trabalhou nela. Tudo porque, se de uma alguma particularidade santomense podemos falar, ela se construiu, justamente, pela recusa ao trabalho na roça, um apanágio dos serviçais angolanos, cabo-verdianos e moçambicanos que ainda hoje habitam o que resta delas.

Isto para vos dizer que andei por S. Tomé mas não a encontrei. Não encontrei aquilo que faz duma comunidade uma nação, e duma nação um Estado (e digo “faz” mas devia dizer “fazia”, porque os nacionalismos fáceis ou fabricados entraram na rotina nos dias que correm): uma identidade só sua, ancorada numa história e numa cultura que lhe dão carácter distintivo na comunidade internacional. Poderão dizer-me que uma semana de estadia e umas horas de leitura são pouco, muito pouco para descobrir a essência de um país. Verdade. Mas serão porventura suficientes para que se entranhe uma bizarra sensação em qualquer português que não lá vá – só e sobretudo — pelos banhos de mar (para os banhistas de resort, fica já o aviso que haverá certamente outras paragens mais recomendáveis). Uma sensação que se estranha por não obedecer propriamente aos cânones do politicamente correcto. Que tentamos reprimir para não ficarmos mal aos olhos de quem nos recebe tão amavelmente. Mas a que se nos vai colando à pele à medida que vamos desbravando os caminhos da ilha. E, passada uma fase inicial em que inevitavelmente vêm à superfície os complexos de culpa do domínio ou opressão colonial, acabamos a dar uma espécie de grito de Ipiranga ao contrário. E a questionarmo-nos porque deixou S. Tomé e Príncipe de ser portuguesa. Porque deixou tão radicalmente de ser portuguesa. Ao ponto de transformar um auto-denominado Museu Nacional (que, na verdade, nem dignidade tem para justificar uma exposição na associação recreativa do meu bairro) num manifesto de incitamento ao ódio pelo passado português, polvilhado de expressões provenientes da mais pura ortodoxia marxista que nem os irmãos Castro se atrevem já a usar em Havana. Ao ponto de deixar delapidar um riquíssimo património arquitectónico, hoje transformado em mera curiosidade arqueológica. E de nem sequer procurar aproveitar alguns dos méritos (sim, porque o poder colonial português também os teve) de uma organização social centrada na roça que, com mais ou menos traços feudais, com mais ou menos dúvidas sobre a liberdade de recrutamento e de desvinculação, facultava cuidados de saúde gratuitos à porta de casa e impunha uma disciplina, um sentido do dever e da responsabilidade e uma cultura de trabalho de que hoje não há sinal. E, acrescente-se, que criava riqueza. E, se noutros tempos ela era muita e distribuída por muito poucos, não parece que a revolução social tenha feito juz às preocupações igualitárias que a justificaram. Com a diferença, agora, que o pouco dinheiro que ainda existe, e que vem todo da ajuda internacional (por enquanto, o petróleo não passa de uma miragem), não é nem do capital nem do trabalho e acaba, sim, invariavelmente, nos bolsos corruptos dos que estão no poder. Pelo menos é o que diz um país inteiro, que não tem água nem luz eléctrica em casa, e que só não passa fome porque a terra e o mar são generosos.