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	<title>É tudo gente morta &#187; Diogo Leote</title>
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		<title>Para além da milionésima parte de diferente</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Jul 2011 16:52:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[  Fora uma fotografia feliz. Era um ritual seu, o de as fotografar depois do duche que lhes apetecia, sempre, a seguir ao prazer. Mais do que nos momentos de intimidade partilhados momentos antes, era nesses instantâneos que nelas captava aquilo que Kundera chamara a “milionésima parte de diferente” que distinguia cada uma de todas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p><img class="aligncenter" title="Christopher Williams, Kodak Three Pont Reflection Guide, 1968 ... (Miko Laughing)" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/07/Christopher-Williams-Kodak-Three-Pont-Reflection-Guide-1968-...-Miko-Laughing-500x405.jpg" alt="" width="500" height="405" /></p>
<p style="text-align: justify;">Fora uma fotografia feliz. Era um ritual seu, o de as fotografar depois do duche que lhes apetecia, sempre, a seguir ao prazer. Mais do que nos momentos de intimidade partilhados momentos antes, era nesses instantâneos que nelas captava aquilo que Kundera chamara a “milionésima parte de diferente” que distinguia cada uma de todas as outras. Mas desta vez a diferença ia muito para além de milionésimos. E, por isso, ao contrário de todas as outras que saíam, ainda a pingar a água do duche, para não mais voltarem, desta vez quis o que nunca quisera. Que ela ficasse. Que ela voltasse. Que voltasse, uma, duas, três vezes, até ficar para sempre. Ela era, não tinha dúvidas, aquilo que Teresa fora para o Tomaz de Kundera. Ela era a síntese dos milhares de milionésimas partes de diferente (uma por noite nos últimos vinte anos, assim o provavam as fotografias) que somara ao longo da sua vida de predador. A essência viera, finalmente. Se era isto a que chamavam amor, ele aí estava em todo o seu esplendor.</p>
<p style="text-align: justify;">Nunca percebera por que se fora ela, de forma tão repentina. Aquela sua cara, que ele captara a seguir ao duche retemperador do prazer, parecia ser a imagem da felicidade pura. Parecia. Mas ele sabia que ela não era uma mulher como as outras. Para o bem e para o mal, a sua diferença ia para além de milionésimos. Aparecera-lhe, assim, sem mais nem menos, para lhe mudar a vida. E mudara. Depois dela, nunca mais tivera uma mulher. Se não a tinha, pensava ele, não podia ter mais nenhuma. Porque a tinha para sempre. E tudo, por causa de uma fotografia que nunca mais o largou.</p>
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		<title>Klaus Kinski</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Jun 2011 19:22:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[Queridos Mortos]]></category>

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		<description><![CDATA[Klaus Kinski um querido morto? Convenhamos que, de querido, o homem pouco teve ao longo da sua vida. Não me terei enganado na coluna? Pensarão alguns, enquanto juram a pés juntos que o actor fetiche de Werner Herzog assentaria que nem uma luva numa história de infâmia, muito mais do que numa homenagem como esta. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-30066" title="imagesCA66NNDH" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/06/imagesCA66NNDH.jpg" alt="" width="303" height="166" /></p>
<p style="text-align: justify;">Klaus Kinski um querido morto? Convenhamos que, de querido, o homem pouco teve ao longo da sua vida. Não me terei enganado na coluna? Pensarão alguns, enquanto juram a pés juntos que o actor fetiche de Werner Herzog assentaria que nem uma luva numa história de infâmia, muito mais do que numa homenagem como esta. E quem sou eu para os desmentir. Se o próprio Herzog sofreu na pele os excessos do seu <em>best friend</em> Kinski, ao ponto de, segundo reza a lenda, o ter ameaçado de morte na rodagem de <em>Fitzcarraldo</em>, nada mais me resta senão juntar-me ao coro de todos (e são todos mesmo) os que dele guardam a imagem de um demente violento, narcísico e obsessivo, capaz de explosões coléricas em pleno <em>plateau</em> pelo motivo mais insignificante, de deixar pendurada uma equipa inteira de filmagem enquanto não lhe satisfizessem o capricho mais extravagante e outros devaneios do género.</p>
<p style="text-align: justify;">Bastam umas breves pinceladas biográficas para nos rendermos ao lado atormentado da personagem. Uma infância e adolescência atribuladas em Berlim, que o levaram inclusive a ter de roubar para comer, o recrutamento forçado na <em>Wehrmacht</em> na Segunda Guerra Mundial, a deserção e a rendição às tropas britânicas e o aprisionamento num campo inglês ajudam a explicar o seu comportamento pouco convencional. Foi na prisão, aliás, que começaram a despontar dois traços marcantes do seu percurso: o seu talento nas artes da representação, que deixou à prova nos espectáculos organizados para manter o moral dos seus colegas de campo; e o seu temperamento obsessivo, perto da loucura, bem evidenciado nos estratagemas que usou para merecer o privilégio da deportação reservado aos doentes: permanecer nu na zona exterior da prisão pela noite fora; beber urina, comer cigarros, e outros que tais. De regresso à Alemanha, decidiu apostar numa carreira de actor autodidacta mas só mais de dez anos depois – após alguns despedimentos, um diagnóstico de esquizofrenia e duas tentativas de suicídio falhadas – começou a adquirir uma certa reputação na Alemanha, Áustria e Suíça como <em>spoken word artist</em> e declamador de François Villon, Shakespeare e Oscar Wilde. No cinema, ao longo dos anos 50 e 60, vieram os filmes de guerra, uma especialização em personagens de Edgar Wallace, os <em>western spaghetti</em>, os <em>série b</em> e os <em>exploitation movies</em>, antes do reconhecimento internacional à larga escala com Herzog e o seu <em>Aguirre, The Wrath of God</em>, em 1972. A partir daí, muitos grandes mestres, de Fellini a Visconti, de Pasolini a Spielberg, quiseram tê-lo nos seus elencos, mas a todos deu negas, preferindo continuar a trabalhar com realizadores de menor notoriedade para nunca correr o risco de ver negadas as suas exigências de <em>primadonna, </em>para que lhe fosse sempre garantido, a ele e só a ele, o estatuto de grande estrela das produções em que entrava<em>.</em></p>
<p style="text-align: justify;">A excepção foi, sempre, Herzog, que cedo percebeu que pouco ganhava em domesticar o incorrigível feitio de Kinski e que, como nenhum outro, conseguiu capitalizar para o grande écran a sua raiva e agressividade. Por alturas da estreia de <em>Aguirre</em>, tinha onze anos de idade a sua filha Nastassja, que, para os seus detractores, foi aquilo que de mais relevante produziu em toda a sua existência. Embora tenha, em certo período da minha juventude, feito parte do grupo alargado dos que reconheceram estatuto de divindade a Nastassja, permitam-me discordar de tamanha injustiça. Um só nome, de filme e de personagem, bastariam para guindar Klaus Kinski à galeria da imortalidade: <em>Fitzcarraldo</em>, nome que lhe deram os indígenas de Iquitos que não sabiam pronunciar o nome do sonhador e idealista (Brian Sweeney) Fitzgerald.</p>
<p style="text-align: justify;">Com <em>Fitzcarraldo</em>, Herzog conseguiu aproveitar a loucura de Kinski para os mais altos desígnios a que o ser humano pode aspirar. Numa época — a dos dias que correm – em que a cultura deixou de ser prioridade e é considerada pelos economistas que dominam o mundo como um gasto supérfluo e dispensável, a quixotesca empreitada de Fitzcarraldo – trata-se, literalmente, de mover uma montanha para levar uma ópera à selva amazónica – permanece como o último reduto de sonho que a cada um de nós pode e deve ser permitido. Numa era em que a cultura nem do seu factor simbólico se pode valer (até o Ministério da Cultura, ingloriamente, se foi), a simples ideia da música de Verdi ou Bellini, ou a voz de Caruso, terem o condão de apaziguar os espíritos malignos da natureza, ou de demover os temíveis jívaros – afinal, tão inocentes como Fitzcarraldo – do seu hábito de cortar e reduzir cabeças humanas é, no mínimo, reconfortante. Que me perdoem o cliché, mas haja uma ínfima partícula de Brian Sweeney Fitzgerald em cada um de nós, e teríamos certamente um mundo melhor. Para ficarmos ainda mais falidos, dirão os (sempre eles) detractores de Kinski? Talvez falidos, sim. Mas muito mais felizes. Que me perdoem, uma vez mais, as mentes lúcidas que fazem avançar o mundo, mas, se há imagem que me ocorre sempre que alguém se insurge contra um orçamento digno para a cultura, é a de uma cidade inteira em êxtase absoluto, em plena Amazónia peruana, com uma companhia de ópera a actuar no convés de um barco a vapor. E essa é, também, a imagem que guardo de Klaus Kinski: não o do insuportável cabotino que mais não fazia do que representar-se a ele próprio, mas a do idealista inocente, que move montanhas para levar a sua paixão até aos confins do mundo.</p>
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		<title>O que é National é bom</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Jun 2011 00:05:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[É uma velha reminiscência da minha adolescência a de insistir em discutir quem é, em cada momento, em cada ano, em cada década ou geração, a melhor banda do mundo. Essa é uma referência sem a qual não passo desde então, uma espécie de força gravitacional de onde irradia tudo o que o meu ouvido [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">É uma velha reminiscência da minha adolescência a de insistir em discutir quem é, em cada momento, em cada ano, em cada década ou geração, a melhor banda do mundo. Essa é uma referência sem a qual não passo desde então, uma espécie de força gravitacional de onde irradia tudo o que o meu ouvido musical vai retendo. O reinado pode ser curto, de alguns meses apenas, uma paixão fulminante que se apaga à mesma velocidade com que me invade a alma. Ou pode prolongar-se por toda uma década, por vezes instituindo-se a banda como fundadora de dinastia com herdeiros que vão prolongando o estado de graça. Verdade se diga que sempre tive certezas inabaláveis na matéria. Certezas que começaram com os Pink Floyd, em finais de 70 e por causa do maravilhamento provocado por <em>Dark Side of the Moon</em> e <em>The Wall</em>. Que continuaram na década de 80 com os Joy Division e os seus legítimos descendentes Cure, Echo &amp; The Bunnymen e Smiths. E nos 90´s prosseguiram com os Massive Attack e, já para finais da década, com os Radiohead. Estes últimos com o mérito de terem sido os únicos a guardar o ceptro de uma década para outra (neste caso, até mesmo de um século para outro).</p>
<p style="text-align: justify;">Confesso-vos, no entanto, que me vinha sentindo órfão desde meados dos anos 2000, momento em que se esgotou a minha tolerância na espera de dignos sucessores de <em>Kid A</em> e <em>Amnesiac</em>. Até que resolvi olhar para uns senhores nascidos no Ohio e convertidos a NY, que estavam mesmo ao meu lado já há uns bons anos sem eu lhes dar grande crédito. Pois é, bem me avisavam alguns entendidos que teria de os ver ao vivo. E assim foi. Fui vê-los ao Campo Pequeno em Maio e ainda bem. Ainda bem porque deixei de ser órfão. Voltei a ter a minha “melhor banda do mundo”. E desconfio que não fui o único a ser privilegiado com tal revelação. Desconfio que todos os que, no <em>encore</em> final, cantaram com eles o <em>Vanderlyle Crybaby Geeks</em> com o microfone desligado, partilharam comigo a descoberta. Se quiserem ter uma pálida ideia do que estou a falar, só têm de assistir a um concerto dos National. Ou então, à falta de melhor, cantar o <em>Vanderlyle</em> aí mesmo, em frente ao écran, com o microfone desligado. Como se estivessem no Campo Pequeno, como eu estive, e o video vos mostra, a cantar com o Matt Berninger.</p>
<p style="text-align: justify;"> <em>Leave your home</em><br />
<em>Change your name</em><br />
<em>Live alone</em><br />
<em>Eat your cake</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Vanderlyle crybaby cry</em><br />
<em>Though the water’s a-rising</em><br />
<em>Still no surprising you</em><br />
<em>Vanderlyle crybaby cry</em><br />
<em>Man, it’s all been forgiven</em><br />
<em>Swans are a-swimmin’</em><br />
<em>I’ll explain everything to the geeks</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>All the very best of us string ourselves up for love</em><br />
<em>All the very best of us string ourselves up for love</em><br />
<em>All the very best of us string ourselves up for love</em><br />
<em>All the very best of us string ourselves up for love</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Vanderlyle crybaby cry</em><br />
<em>Though the water’s a-rising</em><br />
<em>Still no surprising you</em><br />
<em>Vanderlyle crybaby cry</em><br />
<em>Man, it’s all been forgiven</em><br />
<em>Swans are a-swimmin’</em><br />
<em>I’ll explain everything to the geeks</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Hanging from</em><br />
<em>Chandeliers</em><br />
<em>Same small world</em><br />
<em>At your heels</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>All the very best of us string ourselves up for love</em><br />
<em>All the very best of us string ourselves up for love</em><br />
<em>All the very best of us string ourselves up for love</em><br />
<em>All the very best of us string ourselves up for love</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Vanderlyle crybaby cry</em><br />
<em>Though the water’s a-rising</em><br />
<em>There’s still no surprising you</em><br />
<em>Vanderlyle crybaby cry</em><br />
<em>Man, it’s all been forgiven</em><br />
<em>The swans are a-swimmin’</em><br />
<em>I’ll explain everything to the geeks</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>I’ll explain everything to the geeks</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>I’ll explain everything to the geeks</em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/VD9Wz5HrMs4?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/VD9Wz5HrMs4?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>As três grandes mentiras</title>
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		<pubDate>Sun, 22 May 2011 18:59:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Era só uma brincadeira inocente. E era o palco ideal para fazer o teste das três grandes mentiras. Mas não podia limitar o jogo às mulheres, como Jay fizera no livro. Jay, que nome mais traiçoeiro. Nem por um minuto da leitura de “Story of My Life”/“História da Minha Vida” – livro que, de tão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img id="rg_hi" class="aligncenter" src="http://t1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRvHxRboKZWZoE2Wbh92aJ-NOop21CzW1ON2fc-IRdZKyRUiTXK" alt="" width="160" height="240" /></p>
<p style="text-align: justify;">Era só uma brincadeira inocente. E era o palco ideal para fazer o teste das três grandes mentiras. Mas não podia limitar o jogo às mulheres, como Jay fizera no livro. Jay, que nome mais traiçoeiro. Nem por um minuto da leitura de “Story of My Life”/“História da Minha Vida” – livro que, de tão marcante na minha pós-puberdade, já <a href="http://http://www.etudogentemorta.com/2010/05/lista-de-coisas-que-como-a-maca-de-newton-me-cairam-com-estrondo-na-cabeca-6/" target="_blank">aqui </a>trouxe  — duvidara que Jay fosse nome de mulher. E que as peripécias dos 21 anos da protagonista Alison Poole só podiam ser contadas por uma mulher. Que homem se lembraria de, em pouco mais de cem páginas, arrasar o seu próprio género, o masculino, tornar ridículas todas as estratégias de sedução dos profissionais do engate ou mostrar ao mundo como a busca do prazer feminino era uma proeza só ao alcance de raríssimos membros do sexo oposto? Seguramente nenhum, pensava eu aos vinte anos, antes de saber que Jay Mc Inerney, afinal de contas, era um comparsa do <em>wonder boy</em> Brett Easton Ellis e um dos mais destacados membros da geração “less than zero” que despontara anos antes no meio literário americano. Muito fair-play tinha o homem, isso sim. Tinha tanto fair-play que passei, desde então, ainda mal acabado de sair da adolescência, a pensar duas vezes antes de pedir lume a uma senhora (eu que nunca fumei). Bom, deixemo-nos de verdades e passemos às mentiras. Às mentiras que, nós, homens, lhes dizemos a elas, mulheres. Talvez coincidissem com as três grandes mentiras que Alison revelou no livro, pensei eu. Era noite de verão, o calor asfixiava lá fora e o grilo cantava ao luar. E, ali dentro, no espaço fechado de um restaurante só para nós, mais de cinquenta homens e mulheres da idade de Alison, seria um desperdício não pôr a limpo essa história das mentiras. Muito bem, para não dar muito nas vistas, os homens também prestariam provas. Elas e eles só teriam de escrever num papel as três maiores mentiras que já tinham ouvido do outro lado. Tanto faz que a mentira fosse toda delicodoce ou escandalosamente óbvia. Que fosse soprada ao ouvido ou gritada a plenos pulmões. Os papéis, depois de bem dobrados, iam parar a uma urna para se proceder à respectiva leitura. E, claro, ninguém precisava assinar. Ou melhor, ninguém devia assinar, para não se correr o risco de acabar, logo ali, com uma dúzia de namoricos de verão e outra que caminhava a passos largos para um contrato que era suposto ser para a vida inteira (pelo menos elas e eles assim o julgavam, na altura).</p>
<p style="text-align: justify;">Quanto às mentiras que o escrutínio ali revelou, já os caros leitores imaginam quais sejam. Mais de vinte anos passaram, mas a coisa pouco mudou nessa matéria. Mudou apenas – e não me parece que com isto esteja a quebrar qualquer princípio básico de solidariedade masculina e a reverência devida ao sexo oposto – a facilidade com que eles e elas são apanhados, agora que os telemóveis e os <em>facebooks</em> da vida ditam regras em matéria de comunicação. A começar pela mentira mais universal de sempre, transversal a qualquer época, religião, língua, raça, tribo ou género, que é, obviamente, o “I love you”, “je t´aime”, “te amo” — e que, em bom e rico português, assume múltiplas formas, do simples “gosto de ti”, ao místico “adoro-te” e ao épico “amo-te”. Se quiserem trazer para aqui as grandes mentiras que já viveram com o sexo oposto, estejam à vontade. Mas cuidado, na última vez em que aliciei alguém a fazê-lo foi naquela noite de verão, em que o calor asfixiava lá fora e o grilo cantava ao luar, e deu mau resultado: acabou tudo a discutir as verdades de cada mentira e as mentiras de cada verdade e as promessas – fossem elas para toda a vida ou com prazo de validade limitado ao verão em curso – foram todas desmascaradas. </p>
]]></content:encoded>
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		<title>A primeira vez (oh girl)</title>
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		<pubDate>Mon, 16 May 2011 00:00:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ele: “Gostas de Suicide”. Ela: “Pois gosto”. Ele: “Alan Vega é um deus”. Ela confirmou com a cabeça. Foram as primeiras palavras que trocaram. Ele, dela só sabia que ouvia Suicide a toda a hora. Pelo menos, sempre que passava pelo carro dela estacionado à entrada do prédio onde ele vivia, lá estava ela, de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ele: “Gostas de Suicide”. Ela: “Pois gosto”. Ele: “Alan Vega é um deus”. Ela confirmou com a cabeça. Foram as primeiras palavras que trocaram. Ele, dela só sabia que ouvia Suicide a toda a hora. Pelo menos, sempre que passava pelo carro dela estacionado à entrada do prédio onde ele vivia, lá estava ela, de olhos fechados, a deixar-se levar pela voz fantasmagórica de Alan Vega e pelo sintetizador hipnotizante de Martin Rev. Ele foi o primeiro. Apesar dos seus 23 anos e de ela ser uma bela mulher, ainda não tinha tido nenhum homem. Nem beijar sabia. Fê-lo por Alan Vega. Tinha sido ele, Alan Vega, através das convulsões da sua voz em<em> Girl </em>(nesses minutos muito mais lasciva do que fantasmagórica), a ensinar-lhe os prazeres do prazer solitário que um corpo feminino pode ter. Passou a ser um ritual, ela, pouco depois da meia-noite, despida em cima da cama, a sós com o crescendo dela numa sintonia cada vez mais perfeita com o crescendo da voz de Alan Vega, a gemer-lhe (<em>Oh) Girl</em> só para ela. Mas chegara a altura de perceber cada uma das inflexões daquele gemido na voz de outro homem. E fê-lo. Foi bom. Ele também ouvia Suicide a toda a hora. Ele preferia <em>Surrender</em>. Ela <em>Be Bop Kid</em>. Mas fizeram-no ao som de <em>Girl</em>, pois claro. Foi bom. Alan Vega era um deus.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/av7mhWYtAoY?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/av7mhWYtAoY?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A letter to Elia</title>
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		<pubDate>Sat, 07 May 2011 02:37:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Há uma coisa de que gosto quase tanto como ver cinema. É de ver e ouvir alguém falar apaixonadamente de cinema. O que, na ausência de João Bénard da Costa, é o mesmo do dizer: ouvir Scorsese falar de cinema. É estranho dizê-lo mas, nos dias que correm, prefiro Scorsese a falar de cinema do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há uma coisa de que gosto quase tanto como ver cinema. É de ver e ouvir alguém falar apaixonadamente de cinema. O que, na ausência de João Bénard da Costa, é o mesmo do dizer: ouvir Scorsese falar de cinema. É estranho dizê-lo mas, nos dias que correm, prefiro Scorsese a falar de cinema do que Scorsese a fazer cinema. Houve tempos em que assim não foi, quer porque Scorsese não nos falava ao ouvido de cinema, quer porque Scorsese fazia melhor cinema (quase cortei relações com ele por causa do Aviador Howard Hughes). Hoje, mais do que nunca, sei que isso é verdade depois de mais uma amena cavaqueira sobre cinema com Marty – ele deixa-nos tão à vontade com estas conversas que não conseguimos deixar de tratá-lo pelo seu <em>nickname</em>. Desta como das outras vezes, o cinema foi só um pretexto para nos falar do poder das emoções que as imagens nos trazem. Para nos falar da sua vida e das nossas vidas através da vida de um homem, o seu mestre Elia Kazan. Desta como das outras vezes com Scorsese, e tal como acontecia também com Bénard, acabei a gostar de filmes que nunca vi (ou vira até então) e a gostar ainda mais de filmes de que já gostava. Mais uma vez, depois de ouvir Scorsese, tive vontade de celebrar com ele um pacto irrevogável: ver todos os filmes do mundo e gostar de todos eles. Marty, por sua vez, só teria de se comprometer com o necessário para que esse milagre se cumprisse: falar-me deles antes de eu os ver.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/Qk7Svr7U_Zw?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/Qk7Svr7U_Zw?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Benfica by Panda Bear</title>
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		<pubDate>Mon, 02 May 2011 23:21:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aqui fica a revelação, para quem tem passado ao lado das últimas tendências na cena musical: alguns dos sons mais inovadores, para não dizer revolucionários, que no planeta têm sido produzidos nos últimos anos têm a sua origem, acreditem que é verdade, no nosso país. Sim, em Portugal mesmo. Para sermos mais precisos, em Lisboa, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Aqui fica a revelação, para quem tem passado ao lado das últimas tendências na cena musical: alguns dos sons mais inovadores, para não dizer revolucionários, que no planeta têm sido produzidos nos últimos anos têm a sua origem, acreditem que é verdade, no nosso país. Sim, em Portugal mesmo. Para sermos mais precisos, em Lisboa, em pleno Bairro Alto, onde mora o Sr. Noah Lennox, mais conhecido por Panda Bear. Como até os menos informados já perceberam, este Panda Bear não é português. É um rapazinho a caminho da idade de Cristo, nascido em Baltimore, que em 2004 teve a feliz ideia de trocar NY por Lisboa (“since I got off the airplane here [for the first time] I had a good feeling about this place”, disse Mr. Lennox quando aqui desembarcou). Pois é, tomou-se de amores pela nossa capital, o que é o mesmo do que dizer por uma jovem, essa sim bem portuguesa, residente em Lisboa. E foi ficando. E ainda bem, dizemos nós, porque não fosse isso sabemos lá se lhe tinha vindo a inspiração suficiente para criar o aclamadíssimo <em>Person Pitch</em>, de 2007. E, sobretudo, não sabemos se as revistas da especialidade poderiam dizer, como o dizem sem sequer admitir margem para discussão, que os Animal Collective – de que o próprio é co-fundador e um dos mais eminentes membros — formam, só, a banda mais influente da actualidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O som não foi feito para gente conservadora, ou não fossem eles tidos (com algum exagero, é certo) como autores de uma quase revolução musical. Mas é daqueles que se estranha ao princípio para depois se entranhar. Goste-se ou não, é de louvar a capacidade que a cidade de Lisboa, o Bairro Alto e a digníssima cônjuge portuguesa (pois, entretanto casou e até já tem prole portuguesa) têm para levar Panda Bear à transcendência. Mas será que a inspiração do rapaz repousará só na luz e nas vistas de Lisboa, no ambiente boémio do Bairro e no aconchego de um amor e de uma família portuguesa? Não. Ficámos agora a saber que os momentos de genialidade de Panda Bear têm uma explicação suplementar. E é tal a dívida de gratidão de Panda com o seu catalisador-mor que resolveu prestar-lhe uma sentida homenagem musical. Mas deixemo-nos de palavras para dar lugar à música, até porque neste caso esta vale mesmo mais do que mil palavras. Para quem tem dúvidas de que a cultura de massas pode conviver pacificamente com as vanguardas, deixo-vos com <em>Benfica</em> (batam palmas), um dos temas-forte do recentíssimo álbum de Panda Bear, <em>Tomboy</em>.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/OTIrnfYijVQ?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/OTIrnfYijVQ?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>LCD I love you, but you´re bringing me down</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Apr 2011 12:38:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Como é a que a morte daquela que, com a devida licença dos Radiohead, foi a grande banda da primeira década do século XXI, pode passar sem uma nota de rodapé sequer, num cemitério que foi feito, justamente, para receber os mais ilustres dos ilustres? No way. Ainda pensei que o Vasco, que deles é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Como é a que a morte daquela que, com a devida licença dos Radiohead, foi a grande banda da primeira década do século XXI, pode passar sem uma nota de rodapé sequer, num cemitério que foi feito, justamente, para receber os mais ilustres dos ilustres? <em>No way</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda pensei que o Vasco, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/01/sem-lista-que-lhes-valha/">que deles é um confessadíssimo adepto</a>, se antecipasse na celebração das exéquias que tiveram lugar nos primeiros dias de Abril no Madison Square Garden, em NY, terra que viu nascer a banda de quem estamos a falar, os LCD Soundsystem, claro, e a quem eu, também, tal como o Vasco, já <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/05/this-is-happening/">aqui</a> prestei, em tempos, a devida homenagem de quem se sente devedor de tantos grandes momentos musicais.</p>
<p style="text-align: justify;">Fica aqui a nossa dança de despedida, com <em>Someone Great</em>, com o consolo de que Mr. James Murphy, <em>someone great indeed</em>, não se vai atrever a deixar-nos órfãos e vai continuar, ai vai vai, a aparecer por aí.</p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/qwoLACv_srQ?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/qwoLACv_srQ?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Para quem (ainda) tem pânico homossexual</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Apr 2011 19:57:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pânico homossexual. Continuo sem perceber bem o que isto quer dizer. Mas suspeito que deve ser qualquer coisa que afecta aqueles senhores bem-postos que recusam qualquer manifestação de afecto mais efusiva entre homens. Daqueles que falam a uma distância de dois metros mesmo quando o assunto a tratar é segredo de Estado. Ou que são [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Pânico homossexual. Continuo sem perceber bem o que isto quer dizer. Mas suspeito que deve ser qualquer coisa que afecta aqueles senhores bem-postos que recusam qualquer manifestação de afecto mais efusiva entre homens. Daqueles que falam a uma distância de dois metros mesmo quando o assunto a tratar é segredo de Estado. Ou que são absolutamente incapazes de admitir o que é uma evidência para o resto da humanidade, que Clooney e Pitt também são belos exemplares da raça humana.  </p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, para esses senhores, quase sempre muito ciosos da sua virilidadezinha, nada como um filme-ratoeira para fazer abalar as frágeis fundações em que assentam os atributos de grandes machões que fazem gala em apregoar. Filme-ratoeira? Sim, vão lá espreitar <em>The Crying Game</em> (<em>Jogo de Lágrimas</em>, no título português), filme de 1992 do irlandês Neil Jordan – o mesmo de <em>Mona Lisa</em>, <em>Breakfast on Pluto</em>, <em>Entrevista com o Vampiro</em> e <em>Michael Collins</em>, e que, nos últimos tempos, tem dado nas vistas também pelas suas artes de romancista – e digam lá se Fergus/Jimmy (Stephen Rea), membro demissionário do IRA, não é a vossa cara. Digam lá se não se sentem identificados com o valentão do Fergus/Jimmy. E digam lá se não sentiram uma leve atracção por Dil (Jaye Davidson) quando esta (esta ou este, <em>that is the question</em>) vos apareceu a cantar o tema-título do filme num bar. E digam lá ainda – e esse será o teste definitivo à vossa jurada masculinidade – se essa atracção – ou quanto muito, a identificação com a atracção manifestada por Fergus/Jimmy — não perdurou para além da revelação do segredo do filme.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois é, foram todos apanhados em flagrante delito. E não adiante dizerem que foram vilmente enganados porque o filme é do mais sério que há, como se prova pela evidente carga política que carrega e pelas seis nomeações ao Oscar — nas categorias de melhor filme, melhor montagem, melhor actor (o insuspeito Stephen Rea), melhor actor secundário (o <em>transgender</em> Jaye Davidson, de quem nunca mais ninguém ouviu falar), melhor realizador e melhor argumento original (estas duas categorias da responsabilidade de Neil Jordan, que venceu mesmo o Oscar de melhor argumento).</p>
<p style="text-align: justify;">Pois é, meus caros machões desmascarados, confessem lá o óbvio: que, depois do logro em que <em>The Crying Game</em> vos fez cair, tiveram mesmo de engolir esse pânico que tanto vos atormentava.</p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/xF59nPVCUsw?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/xF59nPVCUsw?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
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		<title>Uma certeza com trinta anos</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Mar 2011 10:55:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tenho consciência de que, para os padrões actuais, sou um perfeito inculto musical. Mesmo à distância de um simples clique no Youtube ou no Itunes, nunca ouvi cantar o Justin Bieber e não distingo a Lady Gaga de qualquer outra artista de variedades. Mas ninguém me poderá acusar de ter estagnado no tempo quanto a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Tenho consciência de que, para os padrões actuais, sou um perfeito inculto musical. Mesmo à distância de um simples clique no <em>Youtube</em> ou no <em>Itunes</em>, nunca ouvi cantar o Justin Bieber e não distingo a Lady Gaga de qualquer outra artista de variedades. Mas ninguém me poderá acusar de ter estagnado no tempo quanto a tendências e preferências musicais. Quem daqui me conhece saberá que nem de perto nem de longe fiquei nos Pink Floyd ou nos Genesis.</p>
<p style="text-align: justify;">Dito isto, não resisto a confessar que, decorridos mais de trinta anos desde a primeira vez que o ouvi, continuo a não encontrar, na história da música popular, álbum mais completo e perfeito do que <em>The Wall</em>, dos Pink Floyd – ou melhor, de Roger Waters, porque não há dúvidas quanto à verdadeira autoria e natureza autobiográfica da obra (e digo-o sem qualquer desprimor para o genial compositor e guitarrista que era David Gilmour). Lembro-me bem de, no dia em que o meu pai me apresentou ao álbum, ia eu pelos treze anos, ter pensado que, se o rock era aquilo, então estava definitivamente conquistado para o género. De ter logo antecipado, do alto da ingénua arrogância da idade, que, um século depois, o álbum seria venerado como o eram na altura, por senhores da idade do meu pai, os grandes compositores clássicos desse e doutros séculos.</p>
<p style="text-align: justify;">É certo que ainda não passaram os cem anos do teste definitivo, mas os trinta que já lá vão levam-me a concluir que há certezas que se adquirem em tenra idade e não nos largam uma vida toda. A única dúvida que ainda tinha era a de saber se ainda manteria essa certeza depois de assistir à sua execução ao vivo pelo próprio Waters, um velho sonho que alimentava desde aquela época.</p>
<p style="text-align: justify;">Concretizei, finalmente, o sonho de uma vida na terça-feira passada, no Pavilhão Atlântico. E, digo-vos, para além da confirmação da certeza que buscava, adquiri uma outra, tão marcada como a anterior: a de que, até à data, não vi uma tão perfeita encenação de uma obra musical. E de que, muito provavelmente, venham os Bieber e as Gagas todas do mundo demonstrar-me o contrário, não verei nenhuma outra comparável nos próximos trinta anos.</p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="295"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/kk99Av58fQI?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/kk99Av58fQI?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="295" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object></p>
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		<title>Blue Valentine</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Mar 2011 23:11:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ainda hoje não consigo situar o momento em que passei a embirrar com comédias românticas. Sei, sim, que, a páginas tantas (não consigo, como Woody Allen, definir com que psicanalista isso aconteceu, pela simples razão de que, bem ou mal, nunca frequentei um divã), passou a ser-me insuportável a simples ideia de um happy end [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ainda hoje não consigo situar o momento em que passei a embirrar com comédias românticas. Sei, sim, que, a páginas tantas (não consigo, como Woody Allen, definir com que psicanalista isso aconteceu, pela simples razão de que, bem ou mal, nunca frequentei um divã), passou a ser-me insuportável a simples ideia de um <em>happy end</em> a soar a falso. Ou melhor, passou a ser-me insuportável a história toda, do encontro aos desencontros até ao reencontro final, a história toda a lembrar-me, cena a cena, de cliché em cliché, que nada daquilo era assim na vida real, nas relações amorosas que todos nós, do galante sedutor ao tímido desajeitado, da <em>femme fatale </em>à casta donzela, estamos condenados a viver. E a verdade é que, através dessa atitude de repulsa por todos os Hugh Grant e Julia Roberts que me mentiam sem pudor algum, não conseguia evitar o desconforto de quem estava a negar a própria essência do cinema, feita muito mais de ilusão do que de verdade. E que revelação aterradora é essa, a de ser obrigado a engolir esse amor que eu, noutros tempos, fazia gala em apregoar, o amor do Cinema. Não, já não podia amar o Cinema, se deixara de acreditar naquilo que ele tinha para me dizer. E a mera suspeita de já não amar o Cinema era, acreditem, razão suficiente para me transformar num ser infeliz, eu que tinha essa ilusão de que, se a Arte não imitava a vida, pelo menos o contrário podia, aqui e ali, ser verdadeiro.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a reconciliação chegou finalmente. A reconciliação chegou, por ironia do destino, com uma comédia romântica. Enfim, com uma comédia romântica em <em>part-time</em>. Ou com uma comédia romântica que, de comédia, tem muito pouco, e de romântica, ainda menos. Estão lá os ingredientes todos, é certo, mas é o próprio filme que se encarrega de nos dizer que tudo isso é mentira, que é mentira porque é passado. O amor está lá mas já foi. E como é cruel a forma como o filme nos confronta com aquilo que já foi. Apresenta-nos uma relação em decadência para depois nos mostrar como já foi maravilhosa. Começa pelo fim – e fim, aqui, é isso mesmo, e nada tem a ver com o paradoxo da expressão <em>happy end</em> – para que nunca nos iludamos sobre a irreversibilidade da destruição do amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, perguntar-me-ão: onde está, nesta reconciliação, a doce ilusão de felicidade que o Cinema nos transmite? Não está. O que está, sim, é, a par da certeza da finitude do amor, uma outra: a de que, apesar de tudo, ele merece – ó se merece – a pena ser vivido. Duvidam? Espreitem lá esta cena de <em>Blue Valentine</em> – é este o filme que me trouxe a reconciliação, que devo agradecer, acima de tudo, à fabulosa dupla Ryan Gosling/Michelle Williams – e atrevam-se a dizer que não acreditam que, uma noite destas, quando menos o esperarem, vão acabar (porque insisto eu em dizer “acabar”?) a viver uma da mesma estirpe. Ou não fosse a Vida capaz de imitar a Arte.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/sbk1l5_gp-I?version=3"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/sbk1l5_gp-I?version=3" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true"></embed></object> </p>
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		<title>Estado de graça</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Feb 2011 19:34:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Confesso: a paixão bateu-me forte. Bateu-me forte como só antes, e já lá vão largos anos, me tinha acontecido com Sweet Revenge de Ryuichi Sakamoto (o PN, outra vítima deste inebriante álbum de Ryuichi, sabe bem do que estou a falar) e com California de Perry Blake. A verdade é que, enquanto me mantiver em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Confesso: a paixão bateu-me forte. Bateu-me forte como só antes, e já lá vão largos anos, me tinha acontecido com <em>Sweet Revenge</em> de Ryuichi Sakamoto (o PN, outra vítima deste inebriante álbum de Ryuichi, sabe bem do que estou a falar) e com <em>California</em> de Perry Blake. A verdade é que, enquanto me mantiver em estado de graça pelo maravilhoso <em>Kaputt</em>, o último álbum do senhor Destroyer, pseudónimo artístico do canadiano Dan Bejar, não tenho ouvidos para mais nada. Ou melhor, talvez os tenha, sim, mas apenas para esses outros belíssimos exemplares de pop romântica que acabei de referir, e outros para cujas sonoridades <em>Kaputt</em> remete, como o <em>Young Americans</em> de David Bowie, o <em>Steve McQueen</em> dos Prefab Sprout, e o melhor que saiu da lavra dos New Order e dos Pet Shop Boys. E digo pop romântica mas não piegas. Esta é uma pop que nos faz sonhar, sim, mas feita para gente adulta, para gente que, depois de ouvir <em>Kaputt</em>, saberá que encontrou a expressão musical perfeita que, de <em>flirt</em> em <em>flirt</em>, há muito procurava. Para vossa tranquilidade de espírito, se querem assentar de uma vez por todas, aceitem o meu conselho: vão a correr apaixonar-se por <em>Kaputt</em>. E não se atrevam a agradecer-me a mim. Agradeçam, sim, ao maior casamenteiro que a crítica e jornalismo musical português produziu vai para uma dezena de anos: o Vítor Belanciano, do Público/Ípsilon, que, tal como muita da melhor música que tenho ouvido desde então, me apresentou a Dan Bejar, a.k.a. Destroyer.</p>
<p style="text-align: justify;">
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="640" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/Pf-ONpLXzGs?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="640" height="385" src="http://www.youtube.com/v/Pf-ONpLXzGs?fs=1&amp;hl=pt_BR" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
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		<title>One minute friends, one life lovers</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Feb 2011 22:33:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Começou com um minuto. Um minuto em que apenas ouviram o tempo a passar. E a respiração do outro a suspirar, mesmo sem o saberem ou sem o quererem (quem quer o futuro quando se tem tanto presente para viver?), pelo futuro que aí viria. Um minuto em que, nalgum daqueles sessenta intermináveis segundos, sentiram, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/KcNtW-enyjo?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/KcNtW-enyjo?fs=1&amp;hl=pt_BR" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: justify;">Começou com um minuto. Um minuto em que apenas ouviram o tempo a passar. E a respiração do outro a suspirar, mesmo sem o saberem ou sem o quererem (quem quer o futuro quando se tem tanto presente para viver?), pelo futuro que aí viria. Um minuto em que, nalgum daqueles sessenta intermináveis segundos, sentiram, mesmo sem o perceberem logo, naquele ligeiro e quase imperceptível toque, o primeiro assomo da pele que, algures por esse futuro, seria a “minha/tua/nossa pele”. Um minuto tão decisivo que transformou em eternidade todos os minutos que, a partir daí, passaram juntos. Para uns, o minuto de uma vida que não tiveram. De uma vida que ficou suspensa à espera que a contagem recomeçasse. Para outros, os que sempre souberam que o tempo não lhes voltaria as costas, um minuto que durou muitos anos. Um minuto de muitos anos, décadas mesmo, que, numa certa noite – porque é de noite, sempre de noite, que o tempo faz justiça -, encontrou, finalmente, o minuto que lhe deu a sequência perfeita, o tal segundo minuto que acabou com a dúvida. A dúvida essencial, a primeira e última, que os fez, e nos faz, andar atrás do tempo. A tal dúvida que, elegante e diplomaticamente, se retira sempre nesses casos, com ares de triunfante derrota. No lugar que deixa, dizem que ficam quatro misteriosas letras. Que todos querem mas que ninguém sabe bem o que significam.</p>
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		<title>18 por unanimidade</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Jan 2011 10:42:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A “candidata” no momento em que brotavam do seu privilegiado cérebro os brilhantes argumentos da sua tese de doutoramento   O Júri impressionava: João Leal Amado, Júlio Gomes, Jorge Miranda, Pedro Romano Martinez, Manuel Braga da Cruz, Bernardo Lobo Xavier, Luís Carvalho Fernandes, Rita Lobo Xavier e Graça Trigo. Como não podia deixar de ser [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/themes/tudogentemorta/layout/jvasconcelos.jpg" alt="Joana Vasconcelos" width="232" height="144" /></p>
<p style="text-align: center;"><em>A “candidata” no momento em que brotavam do seu privilegiado cérebro </em></p>
<p style="text-align: center;"><em>os brilhantes argumentos da sua tese de doutoramento</em></p>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p style="text-align: justify;">O Júri impressionava: João Leal Amado, Júlio Gomes, Jorge Miranda, Pedro Romano Martinez, Manuel Braga da Cruz, Bernardo Lobo Xavier, Luís Carvalho Fernandes, Rita Lobo Xavier e Graça Trigo. Como não podia deixar de ser numa prova pública de doutoramento, todos nomes de peso do mundo do Direito. A dois deles, os implacáveis Pedro Romano Martinez e Bernardo Lobo Xavier, foi confiada a missão de massacrarem a “candidata” (que despautério, era assim que eles a tratavam, antes de ela ser um deles), a própria, já, uma autoridade de créditos firmadíssimos junto da comunidade jurídica. Na plateia, familiares, amigos, advogados e professores da casa. E alunos claro. Muitas alunas e alunos, porque a reputação da “candidata” como docente gerou uma onda de fiéis seguidores que, segundo se conta, atinge momentos de puro extâse místico perante as suas manifestações de sabedoria nas salas de aulas.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao massacre respondeu a “candidata” com – o que é que havia de ser? – o seu brilho, argúcia e sabedoria. E sempre com um sorriso a acompanhar o argumento certo, pronto a desarmar uma ou outra cara de mau encenada, da mesa do Júri, para a “candidata” brilhar ainda mais – e o que ela brilhou, senhores!</p>
<p style="text-align: justify;">A plateia confirmava a merecida consagração, tão manifesto era o esforço que todos os presentes faziam para não explodirem logo ali, a meio da prova, numa estrondosa ovação capaz de levar a “candidata” em ombros. E, coisa rara, raríssima, numa prova de doutoramento, os advogados (eu que o diga) aproveitavam, de bloco em punho, para recolherem das palavras da “candidata” algumas soluções que pareciam feitas à medida dos intrincados problemas que têm pendentes nos tribunais – pena é que não estivessem Senhores Juízes na plateia para conhecerem em primeira mão aquilo que, tarde ou cedo, vão tomar como cartilha, ó se vão.</p>
<p style="text-align: justify;">18 por unanimidade, pois claro. E ai de quem se atreva a tratá-la como “candidata”. Professora Doutora é o que ela é agora. E por extenso, não esqueçam. Professora Doutora Joana Vasconcelos. A “nossa” Joana Vasconcelos Professora Doutora. Batam lá palmas. Levem-na lá em ombros. Eu vou só ali fazer justiça e já volto. Todo artilhado. É o que dá terem-me dado a benesse de escolher as armas quando já me viam condenado. Agora levam com a tese da Joana para aprender.  </p>
]]></content:encoded>
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		<title>O meu Cyrano, David Mourão-Ferreira</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Jan 2011 16:26:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[Queridos Mortos]]></category>

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		<description><![CDATA[  À sedução e às sedutoras que se ignoram, quase sempre as mais temíveis Sublime e gloriosa é a sedução quando alcança todo o seu esplendor num céu carregado de nuvens. Os anos 90 corriam céleres e, lá fora, o tempo sombrio facilitava o crime. Por uma boa causa, pensava eu, sentado à mesa do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"> <img class="size-full wp-image-23494  aligncenter" title="DAVID_~1" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2011/01/DAVID_13.jpg" alt="" width="400" height="293" /></p>
<p style="text-align: center;">À sedução<em> e às sedutoras que se ignoram, quase sempre as mais temíveis</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Sublime e gloriosa é a sedução quando alcança todo o seu esplendor num céu carregado de nuvens.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Os anos 90 corriam céleres e, lá fora, o tempo sombrio facilitava o crime. Por uma boa causa, pensava eu, sentado à mesa do restaurante, enquanto iniciava uma longa série de <em>sms</em> dirigidos a uma misteriosa destinatária. Misteriosa para os meus convivas, que não pararam desde então de se queixar do meu desavergonhado alheamento da conversa à mesa. E misteriosa para mim também, que ignorava quase tudo sobre ela, a começar pelo amor que aí vinha. Sabia, sim, que eram muitas e escuras as nuvens que pairavam sobre a sua cabeça. A avaliar pelas reacções de adesão dela, tinha acabado de descobrir um filão. O meu Cyrano de Bergerac, David Mourão-Ferreira (DMF), à minha inteira disposição para um expediente tão divertido quanto mentiroso. Afinal de contas, o próprio DMF não podia ignorar as utilizações a que se prestavam as suas frases sobre sedução. N<em>ão olha a meios a sedução: mesmo para alcançar nenhuns fins</em>. Era ele que o dizia. Eu, que pouco ou nada julgava saber sobre sedução, de um momento para o outro investido num poder quase sobrenatural de testar a capacidade encantatória das palavras. Era impressionante a ilusão que as palavras podiam criar – as palavras dele, e não minhas, mas a verdade é que eu próprio me convenci que a simples ideia de as ter surripiado para um fim tão nobre as fazia automaticamente minhas. Não eram quaisquer palavras, é certo, eram palavras escritas para seduzir quem estivesse disposto a lê-las à cadência de um <em>sms</em> por minuto, para seduzir quem quisesse ouvi-las, a ouvi-las sussurradas ao ouvido como se fossem música, como se fossem aquele raro género musical, feito apenas para os amantes, que está a uma distância de um milésimo de decibel do mais absoluto silêncio. <em>A sedução é um dom: como o da poesia. Também tem muito ver com a música. A pintura e a escultura vêm depois</em>. E logo eu, que não tinha nenhum dos dons, nem sequer o da sedução, pelo menos em dose suficiente para seduzir uma sedutora, recebia de mão beijada, sem pedir autorização ao autor, a arma mais eficiente, quase infalível, para vencer a timidez e insegurança que as grandes sedutoras – e ela era uma delas – inspiram a todos os que não ousam seduzi-las. Eu sabia que <em>A sedutora mantém um despeitado respeito por quem não a quis seduzir; e um desmedido desprezo por quem não ousou seduzi-la</em>. Mas também já suspeitava que <em>Nem sempre a sedutora perdoa a quem por ela foi seduzido</em>. E mais: que <em>A sedutora pode tornar-se perigosa quando se deixa seduzir</em>.<br />
Enquanto a discussão dos meus convivas se acalorava à mesa – nada que tivesse a ver com sedução, apenas política, pois claro — os criminosos <em>sms</em> iam subindo de intensidade. Parece que a sedutora se ia deixando seduzir, à força dos argumentos de DMF. De facto, <em>São insondáveis os desígnios da sedução. Outrora passeava-se com galgos brancos pela tela. Hoje basta-lhe sentir-se guiada por um tigre invisível</em>. Tigre? Mas qual tigre? Um tigre invisível, sim, mas de papel, que ela, a grande sedutora, desmontaria em dois tempos assim que percebesse que aquele palavreado todo delicodoce era obra de um Cyrano, do DMF, o sedutor dos sedutores. Ainda o jantar não tinha chegado ao fim, ainda estava longe de se instalar o consenso sobre o fim das ideologias que os meus amigos estridentemente debatiam, e eis que surge, pela primeira vez, ainda que de forma muito velada, a palavra proibida. <em>A palavra “sexo”</em>, a tal que <em>raramente se regista no dicionário da sedutora</em> <em>mas</em> que <em>atravessa, em diagonal, cada uma das suas páginas</em>. Pronto, agora é que está tudo perdido, pensei eu. <em>Nada mais fatal à sedução que o exagero da sedução</em>.<br />
Mas não. A sedução, com os seus insondáveis desígnios, vingou mesmo. E trouxe com ela um grande amor. Graças a David Mourão-Ferreira e ao seu “Da sedução e das Sedutoras”, de 1993, a quem eu presto aqui, com a devida vénia e agradecimentos pelas frases escandalosamente usurpadas (entre outras, as acima assinaladas em itálico), uma sentida homenagem.</p>
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		<title>Os meus dez magníficos de 2010</title>
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		<pubDate>Sat, 08 Jan 2011 18:32:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[A luta por um lugar no pódio foi dramática até ao fim. Confesso que hesitei, e muito, no lugar a dar a cada um dos meus quatro eleitos entre dez para disputar a vitória final. Sufjan Stevens, Arcade Fire, Janelle Monáe e Kanye West andaram a trocar de posição uns com os outros nas últimas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A luta por um lugar no pódio foi dramática até ao fim. Confesso que hesitei, e muito, no lugar a dar a cada um dos meus quatro eleitos entre dez para disputar a vitória final. Sufjan Stevens, Arcade Fire, Janelle Monáe e Kanye West andaram a trocar de posição uns com os outros nas últimas duas semanas até que eu me decidisse pela classificação oficial. O atraso de uns dias na divulgação dos meus dez magníficos de 2010 está, assim, mais do que justificado. Tudo teria sido mais fácil se Hospice, dos The Antlers, que conheci e <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/02/banda-sonora-do-gente-morta-edicao-de-luxe/">aqui dei a conhecer </a>já em 2010, tivesse sido editado nesse mesmo ano. Mas não, é um disco de 2009, única razão pela qual não o pude considerar o melhor álbum do ano que passou (e sê-lo-ia de caras, destacado de todos os outros).</p>
<p style="text-align: justify;">Acabei por me decidir pelo álbum de estreia de Janelle Monáe, “The ArchAndroid”. Porque faz esquecer de vez Amy Winehouse e promete ser a diva da soul/funky/hip-hop da próxima década. A minha segunda escolha foi “The Age of Adz”, de Sufjan Stevens. Podem chamar-lhe excessivo, pomposo, pretensioso ou cabotino. Que me desculpem os seus detractores mas, na minha modesta opinião, Sufjan é simplesmente um génio. “The Age of Adz” é, só, o único álbum de pop-sinfónico-com-arranjos-à-Broadway que merece ser levado a sério até à data. Eu sei que soa muito mal, e quase provoca náusea, apresentar um disco com estes qualificativos, mas a verdade é que Sufjan desfaz com brilhantismo quaisquer preconceitos que se tenha sobre a fusão de géneros tão díspares. E, porque continuo contra-corrente, o criticado “Suburbs”, dos Arcade Fire, é a minha terceira escolha. E é-o, provavelmente, pela mesma razão porque é criticado pelos fans mais arreigados e puristas dos Arcade: porque se afastou daquele som grandiloquente e cheio de ademanes barrocos dos anteriores álbuns para se limitar a ser, só, um grande álbum de pop/rock. Quanto a Kanye, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/12/o-teaser-pop-do-ano/">já aqui apresentado</a>, é a prova viva, nestes tempos de ladygagazice, de que se pode ser, ao mesmo tempo, uma estrela à escala planetária e – pasme-se – o autor de brilhantes composições.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas chega de palavreado e passemos à lista completa. E, caros leitores, se quiserem partilhar as vossas escolhas, façam favor.</p>
<p style="text-align: justify;">1. Janelle Monáe – The ArchAndroid</p>
<p>2. Sufjan Stevens – The Age of Adz</p>
<p>3. Arcade Fire — Suburbs</p>
<p>4. Kanye West – My Beautiful Dark Twisted Fantasy</p>
<p>5. Massive Attack – Heligoland</p>
<p>6. Beach House – Teen Dream</p>
<p>7. LCD Soundsystem – This is Happening</p>
<p>8. Vampire Weekend – Contra</p>
<p>9. The Walkmen – Lisbon</p>
<p>10. Deerhunter – Halcyon Digest</p>
<p>
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		<title>O teaser pop do ano</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Dec 2010 00:33:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Está claro que não vou resistir à tentação de vir para aqui com uma lista dos meus álbuns do ano. Mas, por agora, quero apenas deixar-vos um aperitivo. Um teaser para preparar a festa. Uma espécie de pátio de entrada onde os dez magníficos de 2010 serão recebidos com foguetes e serpentinas. E com bailarinas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Está claro que não vou resistir à tentação de vir para aqui com uma lista dos meus álbuns do ano. Mas, por agora, quero apenas deixar-vos um aperitivo. Um <em>teaser </em>para preparar a festa. Uma espécie de pátio de entrada onde os dez magníficos de 2010 serão recebidos com foguetes e serpentinas. E com bailarinas em pontas a abrirem alas para a <em>red carpet</em> que os levará ao pódio. Uma canção para por uma multidão de curiosos em passo de dança acelerado até à apoteose final. Com estes requisitos todos, tem mesmo de ser a grande canção pop do ano. No melhor que a pop tem, que é de dar a entender aquilo que não é. Que é deliciosamente descartável quando, afinal, tem muito mais para oferecer do que uns breves minutos de puro gozo. Quem tem dúvidas que uma canção destas não acontece por acaso, basta que ouça o álbum todo para deixar de as ter. Que, depois de vibrar despreocupadamente com este “Runaway”, ouça bem todas as restantes canções de “My beautiful dark twisted fantasy” antes de concluir que Kanye West se está a transformar num caso sério. E que limitarmo-nos a tratá-lo, simplesmente, como estrela do hip-hop é pouco, muito pouco, para quem parece estar incuravelmente possuído pelos melhores genes de Jackson e Prince.</p>
<p style="text-align: justify;">
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="640" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/Bm5iA4Zupek?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="640" height="385" src="http://www.youtube.com/v/Bm5iA4Zupek?fs=1&amp;hl=pt_BR" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
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		<title>Agora serei eterno</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Dec 2010 20:48:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[  Drummond eternizado em Copacapana   E como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno.   Ainda em resposta ao desafio do Manuel: se existem primeiros versos que me interpelam são estes, que abrem e dão o mote para “Eterno”, poema que Carlos Drummond de Andrade incluiu no seu livro Fazendeiro do Ar, publicado em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em> </em></p>
<p style="text-align: center;"><em><img id="il_fi" src="http://www.csvp.g12.br/RioSV-8EF/historiarte8a/803/imagens/Leticia%20Iglesias%20e%20Luiza%20Morgado/letici.jpg" alt="" width="460" height="344" /></em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Drummond eternizado em Copacapana</em></p>
<p style="text-align: center;"><em> </em></p>
<p><em>E como ficou chato ser moderno.</em></p>
<p><em>Agora serei eterno.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/12/lista-de-primeiros-versos/">Ainda em resposta ao desafio do Manuel</a>: se existem primeiros versos que me interpelam são estes, que abrem e dão o mote para “Eterno”, poema que Carlos Drummond de Andrade incluiu no seu livro <em>Fazendeiro do Ar</em>, publicado em 1954.</p>
<p style="text-align: justify;">Ou melhor: mais do que me interpelarem, dividem-me, racham-me ao meio. Porque não é justo obrigar ninguém a optar entre o moderno e o eterno, como se fossem duas noções que se excluíssem mutuamente, que fossem o oposto uma da outra. E não são? Não, segundo Baudelaire, o moderno e o eterno são as duas metades do belo. Ou as duas metades da arte, que, na altura em que Baudelaire escreveu sobre o assunto (<em>O pintor da vida moderna</em>, em 1863), era o outro nome que se podia dar ao belo, muito antes de Malevitch e Duchamp terem vindo baralhar o que todos davam por adquirido. Dizia Baudelaire, <em>à propos</em>, que “o belo é feito de um elemento eterno, invariável, cuja quantidade é demasiadamente difícil de determinar, e de um elemento relativo, circunstancial, que será, se quisermos, de cada vez e em conjunto, a época, a moda, a moral, a paixão”, e que “a modernidade é o transitório, o fugitivo, o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e o imutável”.</p>
<p style="text-align: justify;">Há quem diga que o objectivo de Drummond era mesmo o de se livrar da dualidade <em>baudelairiana</em>, ou seja, o de se demarcar do transitório e do fugitivo para se fixar no imutável e no permanente. Mas outros dizem que talvez não seja nada disso, que talvez a chave esteja no qualificativo “chato” aplicado a “moderno”. Se o moderno ficou “chato”, então é porque passou de moda e já não é moderno. E o eterno, por sua vez, teria passado a estar na moda. O que é o mesmo do que dizer que ser eterno é tão moderno como ser moderno. Isto porque, segundo Baudelaire, ser moderno é o que está na moda ou, quanto muito, o que nunca passa de moda. E o eterno acabaria, assim, não como o oposto do moderno, não a moda a passar de moda, mas simplesmente uma nova categoria da moda.</p>
<p style="text-align: justify;">Nessa leitura que uns quantos fizeram do “Eterno” de Drummond, ficaria resolvido o dilema entre moderno e eterno. O que poema faz é, simplesmente, dissolver o eterno no moderno. Ou, por outras palavras, modernizar o eterno. Mas nada como cada um ler os outros versos do “Eterno” para julgar por si próprio.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p><em>E como ficou chato ser moderno.<br />
Agora serei eterno.<br />
……………………………….</em></p>
<p><em>Eterna é a flor que se fana<br />
se soube florir<br />
é o menino recém-nascido<br />
antes que lhe dêem nome e lhe comuniquem o sentimento do efémero<br />
é o gesto de enlaçar e beijar<br />
na visita do amor às almas<br />
eterno é tudo aquilo que vive uma fracção de segundo<br />
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma <br />
[força o resgata<br />
é minha mãe em mim que a estou pensando<br />
de tanto que a perdi de não pensá-la<br />
é o que se pensa em nós se estamos loucos<br />
é tudo que passou, porque passou<br />
é tudo que não passa, pois não houve<br />
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e <br />
[passageiras as obras.<br />
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um <br />
[mar profundo.<br />
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos <br />
[afundamos.<br />
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.<br />
Eternos! Eternos, miseravelmente.<br />
O relógio no pulso é nosso confidente.</em></p>
<p><em>Mas eu não quero ser senão eterno.<br />
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma <br />
[essência ou nem isso.<br />
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde <br />
[pousou uma sombra<br />
e que não fique o chão nem fique a sombra<br />
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma <br />
[esponja no caos<br />
e entre oceanos de nada<br />
gere um ritmo.</em></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Antes galdéria do que normal e remediada</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Dec 2010 01:09:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[“Nunca Palha tinha comido uma gaja daquelas e nunca uma gaja o tinha devorado assim. Mizé era a volta mais inesperada que a vida de Palha alguma vez podia dar. Era a oportunidade num milhão. Era a subida para o patamar social onde muitos poucos sonhavam viver. Nenhum dos amigos de Palha vivia ou estava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img id="il_fi" src="http://www.bertrand.pt/fotos/produtos/9789896720278_1271350116.jpg" alt="" width="255" height="400" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>“Nunca Palha tinha comido uma gaja daquelas e nunca uma gaja o tinha devorado assim. Mizé era a volta mais inesperada que a vida de Palha alguma vez podia dar. Era a oportunidade num milhão. Era a subida para o patamar social onde muitos poucos sonhavam viver. Nenhum dos amigos de Palha vivia ou estava casado com uma gaja boa. Alguns tinham gajas mais ou menos boas. Mas boa, boa como Mizé, não.”</em></p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto por aqui se discutiam — pelos teclados sumamente inspirados do <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/12/o-sagrado-e-a-pornografia-reclamam-cor/">MSF</a>,do <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/12/o-sagrado-e-cor-o-erotismo-tambem-a-preto-e-branco-a-pornografia-ganha-o-poder-da-estetica-e-aspira-a-etica/">PMS</a>, do <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/12/x-x-x/">JNA</a> e da <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/12/cor-cordas-ou-te-amo-mas-que-a-mi-misma-muerta/">Marta</a>, e com uma elevação e originalidade dignas de tese de doutoramento — as relações da pornografia com o sagrado, a arte, a cor e a corda, eu corava de vergonha. Não porque o assunto me intimidasse — quem já aqui me leu sabe que não viro costas a uma boa provocação que, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/12/comecar-pela-etimologia/">parafraseando o MSF ou o Aurélio (como queiram), <em>“motive o lado sexual do indivíduo que eu sou”</em></a>. Corava de vergonha porque me senti apanhado em flagrante delito. Em pleno acto pornográfico, como salta à vista lá em cima – e essa é só uma ligeiríssima amostra – pelas leituras que me ocupavam quando as revelações dos meus iluminados companheiros de blogue entraram pelo écran dentro. É verdade: bem pornográfico me senti eu por, nessa altura, ter acabado de saber o que Palha, vendedor de batata frita nos arrabaldes de Lisboa, desejaria nunca ter visto. Certamente concordarão comigo que nada haverá de mais pornográfico do que, numa noite de copos com os amigos (daquelas noites só para homens, se é que me faço entender), dar com a própria mulher, em pleno bacanal num “filme de putas” (é assim que lhe chamam Palha e os amigos), numa cassete Betamax (ou seria VHS?) alugada no clube de vídeo do bairro. Pois bem: foi mesmo esse o azar de Palha, o castigo que ele teve de pagar por ter casado com a “gaja mais boa da vizinhança”, oficialmente atracção do salão unissexo (vulgo cabeleireiro misto) lá da zona, e para quem, pelos vistos, não existiam limites para ser “famosa” (mas onde é que nós já ouvimos isto?) e mais valia ser “galdéria do que normal e remediada”.</p>
<p style="text-align: justify;">Feitas as apresentações de “Mizé – Antes galdéria do que normal e remediada”, resta-me dizer que ficou reduzida a cinzas a parca legitimidade que ainda pudesse sobrar-me para contribuir com um mínimo de dignidade para o debate. Sobretudo se vos confessar que o meu <em>facies</em> foi acompanhando a leitura com esgares que oscilavam entre o sorriso malandro e cúmplice de “macho” e a gargalhada alarve sem perdão.</p>
<p style="text-align: justify;">De pouco me serve a consolação de haver quem diga que o escrevedor desta historieta, Ricardo Adolfo de seu nome, português nascido em Luanda, escreve livros como Almodóvar faz filmes. Ou que eu próprio, para expiação do pecado do deleite que a leitura me provocou, tenha procurado converter a pura e simples brejeirice em delirante (e brilhante) exercício de humor <em>non sense</em>. Ao ponto de, vejam lá, ter acabado a comparar o dito Adolfo e a sua “Mizé” com esse extraordinário escritor que é Mário Zambujal e a sua inesquecível “Crónica dos Bons Malandros”.</p>
<p style="text-align: justify;">Não me poupem, caros companheiros de blogue, ponham-me de castigo caros leitores, que isto é tudo muito “chunga”. “Chunga”, literatura “chunga”. E da mais fina cepa.</p>
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		<title>Márcia</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Dec 2010 04:48:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[É um ponto fraco meu, confesso. Vozes femininas a sussurrarem-me melodias ao ouvido. Daquelas em que o silêncio também tem espaço para se fazer ouvir. O encantamento começou com Suzanne Vega nos anos 80, amainou durante boa parte da década seguinte, e voltou quase na viragem do século com Lisa Germano e Stina Nordenstam. Mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">É um ponto fraco meu, confesso. Vozes femininas a sussurrarem-me melodias ao ouvido. Daquelas em que o silêncio também tem espaço para se fazer ouvir. O encantamento começou com Suzanne Vega nos anos 80, amainou durante boa parte da década seguinte, e voltou quase na viragem do século com Lisa Germano e Stina Nordenstam. Mas a verdade é que nunca me deixei apanhar completamente nas malhas que esses frágeis fios de voz me lançavam. Embora me seduzissem, acabei sempre a resistir-lhes, sem saber bem porquê. Talvez porque sentisse que não eram, ainda, as vozes definitivas. E não eram. Outras vieram. Até que chegou, e já não era sem tempo, uma voz portuguesa com a mesma capacidade encantatória. Fixem o nome: Márcia. Fixem-no porque vão ouvi-la, a ela, por muitos e bons anos, estou certo. Para já, tem um álbum para ouvir, de nome <em>Dá</em>, que não é coisa pouca. Isto para não dizer, sem nenhum exagero, que não deve haver melhor na produção nacional deste ano. É que dá mesmo vontade de não resistir.</p>
<p style="text-align: justify;"> <br />
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="640" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/tliyGpuzWo8?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="640" height="385" src="http://www.youtube.com/v/tliyGpuzWo8?fs=1&amp;hl=pt_BR" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
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		<title>A minha primeira condenação por romantismo pueril</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Nov 2010 23:56:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Confessei-vos, assim que vim para aqui morar, que pendia sobre mim um terrível cadastro. Várias condenações. Todas “por romantismo pueril por me emocionar com histórias de amor belas e simples”. Era assim que rezavam as sentenças. E este que se segue foi o primeiro dos crimes que cometi:   “Saíra de casa com a cabeça [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Confessei-vos, assim que vim para aqui morar, que pendia sobre mim um terrível cadastro. Várias condenações. Todas “por romantismo pueril por me emocionar com histórias de amor belas e simples”. Era assim que rezavam as sentenças. E este que se segue foi o primeiro dos crimes que cometi:</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em>“Saíra de casa com a cabeça nas memórias que o filme evocava, o que era o mesmo do que dizer com a recordação das suas mãos entrelaçadas nas minhas, do sorriso dela a invadir-me a alma de todas as vezes – já não sabia quantas – em que, juntos, tínhamos ido de Viagem a Itália, guiados por Rossellini. Sempre que o filme passava na Cinemateca, eu cumpria o ritual: dois bilhetes, na mesma fila, nos mesmos lugares, e um lugar vazio do meu lado esquerdo, o mesmo, também, que ela ocupara na noite em que, lavada em lágrimas, e tomada pela inquietação de Ingrid, me dissera, depois da sessão, que tinha de partir. Não sabia por quanto tempo, nem se para sempre, mas tinha de partir. </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Durante muito tempo alimentara a esperança do seu regresso. Se era Ingrid a sua inspiração, a Ingrid que simplesmente se afastara por momentos sem chegar a partir, ela teria de voltar. Mas os anos foram passando e o lugar vazio ao meu lado continuou sem ser ocupado. Até ao dia em que me fiquei por um único bilhete. Pouco me importava já que alguém se sentasse no lugar que, em espírito, a ela era destinado. Bastava-me a recordação da minha mão na dela, dos diálogos ditos em uníssono pelos dois enquanto viajávamos por terras italianas. </em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Só que, nesse dia, de tão diferente, tudo foi igual ao que sempre tinha sido. Uma mão procurou a minha e numa fracção de segundo percebi que era a dela, a mão dela. E quando, duas horas depois, pronunciámos, naquela sintonia tão perfeita que o lugar vazio do lado prometera durante anos, o I Love You do “recomeço” de Ingrid e George, eu soube finalmente. Soube que, tal como Ingrid, ela nunca chegara a partir. Que ela se afastara apenas por momentos a uma distância de algumas filas atrás de mim. Foi a distância que ela se impôs para ver melhor o que estava bem perto dela. A distância que, sessão após sessão, ela ia encurtando. Desde a última fila até encontrar a minha mão de novo. ”</em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Nada disto seria muito grave se tivesse parado por aqui. Mas não. Continuei a prevaricar. E sem sinais de arrependimento.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Música para dor de corno</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Nov 2010 17:04:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Que se esclareça, em primeiro lugar, de quem é o corno a que a música faz juz, presta homenagem ou serve de consolo. Na verdade, a dor de corno pode ser de quem faz a música ou de quem a ouve. Se tomarmos o termo no seu sentido mais amplo, que não envolve necessariamente a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Que se esclareça, em primeiro lugar, de quem é o corno a que a música faz juz, presta homenagem ou serve de consolo. Na verdade, a dor de corno pode ser de quem faz a música ou de quem a ouve. Se tomarmos o termo no seu sentido mais amplo, que não envolve necessariamente a troca e o engano que a protuberância supõe, mas se estende a todas as situações que habitualmente designamos como de “desgosto amoroso”, o tema parece ter pouco interesse do ponto de vista do criador ou autor (da música e/ou da letra). Isto porque a larga maioria da música – boa ou má, para o caso não interessa – que tem sido produzida desde que a criação artística se libertou do vínculo religioso, foi buscar a sua inspiração, justamente, às atribulações das relações amorosas, e em especial à sub-categoria das ressacas.</p>
<p style="text-align: justify;">Por isso, o que nos importa aqui é a perspectiva de quem ouve. De quem procura a música feita por outros para exorcizar a mágoa da separação ou rejeição, para se consolar no alívio da dor que as lágrimas alheias provocam quando se juntam às próprias. Julgo não estar sozinho nesta particular opção de terapia para o desgosto de amor que consiste em mergulhar na escuridão de uma sala, com uma banda sonora em que se cantam desgraças que parecem ser as nossas, ou que nós gostamos de imaginar que são as nossas.</p>
<p style="text-align: justify;">Isto tudo para vos dizer que tempos houve em que dois extraordinários álbuns cumpriram em pleno essa função. Tão bem a cumpriram que fiquei, para sempre, com uma dívida de gratidão que me leva a prestar-lhes tributo regularmente, ainda que fora do contexto em que os procurei. É essa a marca da intemporalidade da grande música, a de resistir às particulares circunstâncias com que nos foi introduzida, a de ir muito para além das especiais propriedades com que a investimos. Apenas uma condição imponho sempre que ouço os intemporais <em>Come From Heaven</em> (1997) dos Alpha<em> e Dead Bees on a Cake</em> (1999) de David Sylvian: que se faça silêncio. Faça-se então silêncio para deixar respirar dois excertos desses álbuns, os magistrais <em>Sometime Later</em> e <em>Darkest Dreaming.<br />
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<br />
</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em><em> </em></p>
<p>
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		<title>Post para cantar a crise</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Nov 2010 20:57:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O JNA já nos deixou aqui algumas sugestões práticas para enfrentar a crise. E a pergunta é: terá o país a capacidade de fazer o que o exercício sugere, a de se rir dos males que o aflige, a de esquecer por uma vez um outro terrível mal que também o persegue, que é o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="640" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/iR6oYX1D-0w?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="640" height="385" src="http://www.youtube.com/v/iR6oYX1D-0w?fs=1&amp;hl=pt_BR" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object>
</p>
<p style="text-align: justify;">O JNA já nos deixou <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/11/algumas-sugestoes-praticas-para-enfrentar-a-crise/">aqui</a> algumas sugestões práticas para enfrentar a crise. E a pergunta é: terá o país a capacidade de fazer o que o exercício sugere, a de se rir dos males que o aflige, a de esquecer por uma vez um outro terrível mal que também o persegue, que é o de insistir em viver das (falsas) aparências e acima das suas possibilidades, mal este que estará, provavelmente, na origem, se não do eclodir, pelo menos do agravamento da crise económica que ameaça levar (ou levou já) à falência o Estado português?</p>
<p style="text-align: justify;">Tenho dúvidas. Tenho dúvidas de que o país prescinda, de um dia para o outro, da maior <em>ratio</em> mundial por habitantes de telemóveis, de Mercedes e BMW, e de “empresários” e “RP” (leia-se desempregados envergonhados). Mas, para que isso aconteça, talvez não seja má ideia o país começar a interiorizar que está mesmo de bolsos vazios. E, antes que <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/02/o-regresso-das-tres-letras-malditas/">o famoso grito de José Mário Branco</a> volte a ecoar em todas as casas portuguesas, talvez seja recomendável convocar a classe artística para fazer, à escala portuguesa, o que Aloe Blacc conseguiu nos Estados Unidos: pôr um país inteiro a cantar a crise. E, sobretudo, a cantá-la sem vergonha nenhuma de o fazer.</p>
<p style="text-align: justify;">Resta, agora, encontrar alguém que se ofereça para adaptar o <em>I Need a Dollar </em>à boa maneira portuguesa.  </p>
]]></content:encoded>
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		<title>Uma boa moldura</title>
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		<pubDate>Sun, 31 Oct 2010 19:24:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Fora a última fotografia que Eva lhes tirara. Junto ao lago, os quatro em traje de banho com o olhar imerso na revista que a fizera saltar, de vez, para a ribalta dos holofotes e passerelles do mundo da moda e, daí, para o estrelato de Hollywood. Mal sabiam eles, naquele momento, o triste destino [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a rel="attachment wp-att-20900" href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/a-confissao/imagem-short-de-outubro-2/"><img title="Imagem-Short-de-Outubro" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/Imagem-Short-de-Outubro1.jpg" alt="" width="458" height="400" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Fora a última fotografia que Eva lhes tirara. Junto ao lago, os quatro em traje de banho com o olhar imerso na revista que a fizera saltar, de vez, para a ribalta dos holofotes e <em>passerelles </em>do mundo da moda e, daí, para o estrelato de Hollywood. Mal sabiam eles, naquele momento, o triste destino que iria ter aquele orgulho que cada um deles sentia em ver a sua querida Eva assim exposta aos olhos do mundo. Triste destino para eles, porque para o dela, Eva, eles não passaram de uma nota de rodapé na vertiginosa escalada para a fama que se iniciou com a reportagem da revista. Pobres coitados, estavam longe de imaginar que ela apenas se serviu deles, que se limitou a retirar de cada um o necessário para nunca mais ter de por os pés no <em>Midwest</em>. Um pelo dinheiro, outro porque era filho do <em>Principal</em>, outro ainda porque tinha primos influentes nas <em>majors</em>, e o último porque – tinha de admiti-lo – lhe dava um prazer sexual nunca antes experimentado. Cada um se julgava único no amor que lhe merecia, e cada um guardava para si, a pedido dela, o segredo da exclusividade das brincadeiras lascivas a que ela se entregava. Nenhum deles suspeitava não ser o único da vida dela. Cada um acreditara sem pestanejar naquela história mal amanhada do hímen que se rompera acidentalmente durante um exercício na aula de educação física.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois daquela tarde da fotografia, não só nunca mais os vira como nunca mais quisera saber deles. Afinal de contas, já tinha o que queria deles. A conta bancária que um deles lhe abrira para tratar a doença do irmão imaginário, a <em>High School</em> concluída sem nenhum esforço, as portas abertas em Hollywood. E quanto ao prazer sexual, estava certa que, dali em diante, não lhe iriam faltar amantes de qualidade em NY e em LA. Embora fosse grande o desprezo pelos seus provincianos amigos de ocasião da vilória onde cresceu, chegara-lhe vagamente aos ouvidos, anos mais tarde, que nenhum deles se recompusera da sua súbita partida. Claro que, como ela previa, nenhum deles saíra do <em>Midwest</em>. Parece que um se suicidara, outro, pobre infeliz, mergulhara na voragem das drogas, e os outros dois acabaram funcionários de uma daquelas insuportáveis seitas evangélicas a vender bíblias de porta em porta.</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de já não se lembrar sequer do nome deles, a fotografia lá estava, ainda, na estante da sala em LA. Na verdade, dava-lhe muito jeito naquele mundinho de ficção onde ela agora vivia. Os rapazes davam uma boa moldura. Ficava sempre bem dizer que eram os seus muito <em>cool </em>amigos <em>gays</em>. Se a Naomi Campbell e a Kate Moss os tinham, ela não lhes podia ficar atrás. E, nas festas lá de casa, era difícil não reparar neles, desde que ela se lembrou de os transformar em tabuleiro de linhas de coca.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Yo, El Sicario</title>
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		<pubDate>Sat, 30 Oct 2010 17:29:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Chegou a hora de vos fazer uma confissão. Ando a enganar-vos há mais de um ano, desde que por aqui apareci com um nome, um perfil e uma fotografia falsos. Pois é, não sou quem pensam que sou. Infelizmente, não vos posso, por enquanto, revelar a minha verdadeira identidade. Se o fizesse, teria rapidamente à [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-large wp-image-20915" title="G_EL-SICARIO-3[1]" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/G_EL-SICARIO-311-500x333.jpg" alt="" width="500" height="333" /><br class="spacer_" /></p>
<p style="text-align: justify;">Chegou a hora de vos fazer uma confissão. Ando a enganar-vos há mais de um ano, desde que por aqui apareci com um nome, um perfil e uma fotografia falsos. Pois é, não sou quem pensam que sou. Infelizmente, não vos posso, por enquanto, revelar a minha verdadeira identidade. Se o fizesse, teria rapidamente à perna aqueles que me perseguem pelo mundo inteiro e que oferecem pela minha cabeça uma considerável recompensa. Posso dizer-vos, sim, que estou profundamente arrependido pelas malfeitorias que cometi no passado na minha anterior pele de sicário. Se não sabem o que é um sicário, vão ao dicionário, que eu não me atrevo a explicar-vos, assim à frente de tanta gente. É verdade, um sicário a soldo de uma organização que actua lá para os lados de Ciudad Juarez, no México. Julgo que, mesmo sem a ajuda do dicionário, já estarão a imaginar o que fazia eu para essa gente abominável. Um dia, com calma, conto-vos com os detalhes todos. Mas o que interessa é que já não o faço agora. Vim para aqui, para este cemitério à beira-mar plantado, que me acolheu sem me fazer muitas perguntas sobre de onde vinha. Através do conhecimento que o mesmo me proporciona, tenho procurado expiar os meus pecados passados e atingir a via da redenção que espero, um dia, poder levar-me à absolvição. Espero que não levem a mal que passe a apresentar-me, assim encapuzado, como na fotografia lá de cima. Enquanto não puder andar de cabeça destapada, prometo, no entanto, não vos faltar com nada que seja compatível com o meu estatuto de anonimato.</p>
<p style="text-align: justify;">Perante esta confissão que acabo de vos fazer, compreendo que só tenham uma de duas alternativas. Ou vão a correr participar o facto às autoridades competentes, para que elas apurem rapidamente quem é este impostor que andou a enganar-vos e o façam pagar pelas atrocidades que cometeu até ser iluminado pela graça deste cemitério. Ou – segunda alternativa – procuram uma sala de cinema onde passe o filme que, mais coisa menos coisa, corresponde à história que vos contei lá em cima. Dá pelo título de <em>El Sicario, Room 164</em> e foi realizado por Gianfranco Rosi. Só têm de substituir a parte da iluminação através do conhecimento pela revelação (e redenção) através da religião. E, quanto aos detalhes do que faz um sicário em Ciudad Juarez, está lá tudo, com a grande vantagem de me pouparem ao embaraço de ser eu a fazer-vos o relato em primeira mão.</p>
<p style="text-align: justify;">É certo que, caso optem pela segunda alternativa, terão de ter alguma paciência, a equivalente ao tempo de espera até que alguém se decida a exibir o filme no circuito comercial, sabendo nós que, tratando-se de um documentário, isso talvez nunca venha a acontecer em Portugal. Mas, caso tenham o privilégio de assistirem a <em>El Sicario, Room 164</em>, estou certo que irei merecer o vosso perdão. É que o filme – Prémio da Crítica Internacional do Festival de Veneza 2010 e Melhor Longa-Metragem do <em>DocLisboa</em> deste mesmo ano — é mesmo um extraordinário momento de cinema.<br class="spacer_" /></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Erotismo — Parte 2</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Oct 2010 01:26:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pouco me importa se existe ou não a tal essência do erotismo que o Sr. Leth persegue ou diz perseguir. Mas, se existe, desconfio que sei onde pode ser encontrada. Um simples clique e já lá está, quem havia de ser, a própria Anais Nin a dar-nos as boas vindas, sussurrando-nos ao ouvido um misterioso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Pouco me importa se existe ou não a tal essência do erotismo que <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/erotismo-parte-1/">o Sr. Leth persegue ou diz perseguir</a>. Mas, se existe, desconfio que sei onde pode ser encontrada. Um simples clique e já lá está, quem havia de ser, a própria Anais Nin a dar-nos as boas vindas, sussurrando-nos ao ouvido um misterioso <em>“I take pleasure in my transformations. </em><em>I look quiet and consistent, but few know how many women there are in me”</em> a anunciar a multiplicidade de formas que a essência pode revestir. Formas feitas de imagens, deslumbrantes imagens de um bom gosto raramente fotografado em corpos femininos. Formas feitas, também, de palavras e sons que estão lá, pois é, para nos confirmar que a temperatura é muito, mas muito elevada. Uma espécie de banho turco onde a Monica Bellucci desfila a toda a hora. Eu disse Monica Bellucci? Se disse, queria dizer Patrícia Manhão. É ela, a intrigante Patrícia que nos atrai para o seu universo de <a href="http://acessorestrito-pm.blogspot.com/">Acesso Restrito</a>, o tal que, pelos vistos, Leth fez mal em não ter visitado. Vão lá espreitar, vão, mas não se admirem se ficarem presos na armadilha. Entretanto, para quem não se quer aventurar a tanto, e com a devida cortesia da Patrícia, aqui ficam algumas amostras da essência. Parece que afinal existe mesmo.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-large wp-image-20787  aligncenter" title="sante-dorazio[1]" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/sante-dorazio12-500x383.jpg" alt="" width="500" height="383" /></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-large wp-image-20786  aligncenter" title="tumblr_l3p2rsiqRD1qzr53co1_500[1]" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/tumblr_l3p2rsiqRD1qzr53co1_5001-500x489.jpg" alt="" width="500" height="489" /></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-medium wp-image-20791" title="adriana-lima-11[1]" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/adriana-lima-1111-300x486.jpg" alt="" width="300" height="486" /></p>
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		<title>Erotismo — Parte 1</title>
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		<pubDate>Sun, 24 Oct 2010 20:48:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma das meninas que se prestou a ajudar Jorgen Leth na sua busca da essência do erotismo   Fui atraído pela proposta, a de um ensaio cinematográfico sobre o erotismo. Em forma de documentário, em que um homem – o próprio realizador – dá a volta ao planeta à procura da verdadeira natureza do erótico. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-medium wp-image-20747  aligncenter" title="erotic_man2[1]" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/10/erotic_man21-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" /></p>
<p style="text-align: center;"><em>Uma das meninas que se prestou a ajudar Jorgen Leth </em></p>
<p style="text-align: center;"><em>na sua busca da essência do erotismo</em></p>
<p style="text-align: center;"><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;">Fui atraído pela proposta, a de um ensaio cinematográfico sobre o erotismo. Em forma de documentário, em que um homem – o próprio realizador – dá a volta ao planeta à procura da verdadeira natureza do erótico. O facto de o realizador — Jorgen Leth, apresentado como grande mestre do cinema documental dinamarquês dos últimos quarenta anos, e a quem o <em>doclisboa</em> dedicou uma retrospectiva na edição deste ano – ser também poeta com obra publicada mais estimulou a minha curiosidade. Convém dar um passo atrás para explicar que vai para vinte anos que embirro com teorizações e ensaios sobre erotismos e afins. Mais precisamente, desde que tomei consciência de que o Sr. Francesco Alberoni se transformara num mercenário quase da laia de um Paulo Coelho (<em>vade retro</em>), insistindo em escrever o mesmo livro vezes sem conta com embrulhos ligeiramente diferentes, de títulos tão sugestivos como <em>Erotismo</em>, <em>Enamoramento e Amor</em>, <em>Amizade</em>, etc. (eu disse quase, porque, justiça lhe seja feita, o Sr. Alberoni escreve muito melhor do que o impostor Coelho, o que nem é especialmente difícil). Mas enfim, culpa minha, quem me mandou ler o <em>Erotismo</em> do Alberoni em vez do outro do Bataille, que <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/o-erotismo-e-um-livro/">marcou tanto o nosso MSF </a>mais ou menos pela mesma idade? Quanto muito, isso era coisa que, a assumir forma de palavra, devia ser deixada só aos poetas. Ou então a prosadores, como Vargas Llosa ou Philip Roth, capazes de por os seus personagens a pensar sobre os mecanismos do desejo.</p>
<p style="text-align: justify;">Estava eu neste estado de repulsa por tudo o que fosse ensaio sobre o erótico, quando me apareceu o tal Sr. Jorgen Leth e o seu <em>Erotic Man</em>. É certo que a ideia do filme, a de captar a essência do erotismo do corpo feminino, me parecia dificilmente realizável – e podia, até, ser confundida com pura manobra de marketing. Mas, sendo Leth poeta para além de realizador/documentarista, e remetendo-nos a proposta para o território das imagens, lá lhe concedi o benefício da dúvida, esperando ultrapassar de vez a minha difícil relação com a racionalização de um fenómeno que pertence ao mundo das sensações, da pele, dos cheiros, dos desejos, e me continuava a parecer pouco compatível com cogitações do cérebro.</p>
<p style="text-align: justify;">Cedo percebi, no entanto, que o método usado por Leth não podia conduzir senão a mais um logro. Ao longo de uma boa hora e meia, não faltaram corpos femininos, bem nuzinhos como se impunha. Mas deu logo para perceber que, salvo algumas honrosas excepções, as meninas não estavam à altura dos altos desígnios do mestre. Recrutadas através de um pouco exigente processo de casting (que no filme nos era dado a conhecer), ficou evidente que não havia nelas a mais leve sombra de preocupações artísticas, e que aquilo de ficaram prostradas, deitadas nuas numa cama, à frente do mestre, a “pensar” (como este lhes pedia) numa maravilhosa noite de sexo que tinham vivido ou iriam viver, não podia levar à descoberta de essência nenhuma a não ser a do dinheiro que as movia. E, não fosse a provecta idade do mestre – que deveria ter uns cinquenta anos de idade a mais do que qualquer uma delas –, ficaria mesmo a dúvida se ele próprio não estaria à procura, antes da essência de coisa alguma, das sensações fortes que os corpinhos das meninas lhe inspirassem, ou pelo menos da recordação das que experimentara no passado com corpos tão frescos e jovens como aqueles.</p>
<p style="text-align: justify;">Moral da história: de uma vez por todas, não quero que me expliquem onde está a essência do erotismo. E se quiserem fazer de mim um <em>voyeur</em>, deixem-me escolher o alvo do meu olhar à vontade. Sem palavras a acompanhar. A não ser, claro, se vierem da contemplada. E, quanto a tentar saber o que pensa uma mulher antes, durante ou depois do tempo que passa com o seu amante, digam lá os cavalheiros se não preferem que esse mistério se mantenha insondável. Aliás, sem querer dar o dito por não dito, não estará aí mesmo, nesse mistério, a própria essência do erotismo feminino?</p>
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		<title>Procura-se musa</title>
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		<pubDate>Mon, 18 Oct 2010 23:06:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Gala nua vista por trás (1960) Salvador Dali Ou a musa (ainda) de costas voltadas para nós   Procura-se musa. Não estou a brincar. Faz-nos mesmo falta uma musa, aqui no cemitério. Viva, bem entendido, porque mortas temo-las em grande abundância e qualidade. Uma musa colectiva, que traga inspiração quando ela nos falta, a quem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5261860546517448194" src="http://1.bp.blogspot.com/_duDJ1LNCnfQ/SQXiSdzQtgI/AAAAAAAACt4/X5hQ0rSJ2JA/s400/Salvador+Dali+-+Gala+Nua+Vista+por+Tr%C3%A1s+(1960).+-+Gala-Salvador+Dali+Foundation,+Figueras,+Spain..jpg" border="0" alt="" /></p>
<p style="text-align: center;"><em>Gala nua vista por trás (1960)</em></p>
<p style="text-align: center;"><em>Salvador Dali</em></p>
<p style="text-align: center;">Ou a musa (ainda) de costas voltadas para nós</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">Procura-se musa. Não estou a brincar. Faz-nos mesmo falta uma musa, aqui no cemitério. Viva, bem entendido, porque mortas temo-las em grande abundância e qualidade. Uma musa colectiva, que traga inspiração quando ela nos falta, a quem possamos recorrer nos momentos de bloqueio criativo, que nos resolva as angústias da página em branco. Sim, porque só se conhecem duas formas de ultrapassar crises de escrita. Ou se transforma o bloqueio, ele próprio, em tema de post, como eu agora estou a fazer, caso não tenham ainda reparado. Ou simplesmente se chama a musa para que ela se quede, bem à nossa frente, em todo o seu esplendor, e os resultados surgirão inevitavelmente, sob a forma de prosas desenvoltas e escorreitas.</p>
<p style="text-align: justify;">A primeira alternativa está, como sabem, caucionada por figuras da importância de Federico Fellini – que transformou a mais absoluta falta de ideias em matéria de argumento na sua obra-prima <em>Oito e Meio</em> – e de Paul Auster – que, recorrentemente, usa como catalisador das suas narrativas um escritor (ele próprio, está visto) confrontado com a dita angústia da página em branco. Mas, convenhamos, é uma solução limitada que deixa poucos caminhos ao criador. E que pode mesmo ter um efeito perverso, que é o de conduzi-lo a passo acelerado para um beco sem saída. Para além de que parece estar esgotada de tão usada. Ao ponto de Charlie Kaufman, o mais aclamado argumentista americano dos últimos dez anos, e o último a quem imaginaríamos que pudessem vir a faltar ideias para um filme, ter recorrido a tal expediente na sua estreia na realização – mais ou menos falhada, talvez por isso mesmo – com <em>Synecdoche, New York</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Resta-nos pois eleger uma musa. Apenas dois requisitos no caderno de encargos: que tenha a capacidade de nos inspirar e que não nos leve à desgraça. Assim, para evitar que acabemos pendurados numa corda pelo pescoço ou a passear bonecas insufláveis pela rua, serão liminarmente excluídas as candidatas com pretensões a Annick Honoré ou a Alma Mahler, para só referir dois exemplos que já <a href="http://www.etudogentemorta.com/2009/11/ian-curtis/">aqui</a> e <a href="http://www.etudogentemorta.com/2009/12/a-noiva-do-vento/">aqui</a> foram citados. Os bons costumes também desaconselham as candidaturas das Marianne Faithfull da vida, por mais talentos que tenham. Já os estilos Emilie Floge e Serena Lederer que o PN <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/postais-de-viena-i/">aqui</a> e <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/postais-de-viena-ii/">aqui</a> nos trouxe serão muito bem vindos.</p>
<p style="text-align: justify;">As inscrições estão abertas.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em>P.S. Eugénia, Joana e Teresa: escusam de vir aqui reclamar de qualquer pretensa derivação machista que o género feminino “musa” vos sugira. Como sabem, “musa” não tem masculino e o seu mais próximo equivalente do sexo oposto, o fauno, tem poucas ou nenhumas capacidades inspiradoras.</em></p>
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		<title>O meu amigo Varguitas</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Oct 2010 23:57:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[  Varguitas e a minha tia Júlia Conheci o Varguitas ainda adolescente. E rapidamente deixei de o ser com aquelas fantasias com que ele me encheu a cabeça. Primeiro, a obsessão pela tia bem mais velha do que eu. É certo que só era tia por afinidade mas, em todo o caso, aquilo foi suficiente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: center;"><img id="il_fi" class="aligncenter" src="http://annaroxelanaward.files.wordpress.com/2010/01/vargas-llosa-and-julia-2.jpg" alt="" width="240" height="246" /></p>
<p style="text-align: center;"><em>Varguitas e a minha tia Júlia</em></p>
<p style="text-align: justify;">Conheci o Varguitas ainda adolescente. E rapidamente deixei de o ser com aquelas fantasias com que ele me encheu a cabeça. Primeiro, a obsessão pela tia bem mais velha do que eu. É certo que só era tia por afinidade mas, em todo o caso, aquilo foi suficiente para me deixar mal aos olhos da família e da sociedade. Depois, quando fui cumprir o serviço militar, o escândalo das visitas das meninas ao regimento, que me tornou indigno de continuar a usar a farda. E, a partir daí, foi sempre a subir na escala da dissolução de costumes e a descer na da consideração social. De aprendiz de mulheres experimentadas passei a predador de ingénuas mas surpreendentemente fogosas donzelas. Conheci mundo. Graças ao Varguitas, conheci personagens fascinantes. Algumas infames sim, mas sempre fascinantes ao ponto de me inspirarem a simpatia que só se reconhece aos sedutores. Ao mesmo tempo, crescia em mim uma vontade de conspirar. De conspirar contra o poder, de fazer revoluções, de espalhar a anarquia. Perseguido e incapaz de o derrubar, decidi então fugir do mundo, refugiando-me numa ilha perdida no Pacífico para pintar jovens, muito jovens libidos femininas. Voltei um dia sob identidade falsa para não me deixar apanhar nas malhas das sempre tão vigilantes convenções sociais, eu que, desde que conhecera o Varguitas, me tornara um espírito liberto de quaisquer constrangimentos. Mas acabei mesmo preso sim, mas nas garras de – quem havia de ser — uma mulher. Uma menina má. Uma mulher que me consumiu quase até à morte, deixando-me sem fôlego para manter a minha dignidade de pé. Provavelmente, pensava eu, era esse o castigo por ter seguido Varguitas tantos anos. Acabava vítima dos jogos perversos que cultivara no passado. Os tais que Varguitas me ensinara a jogar, ao mesmo tempo que me transmitira – julgava eu – o dom da invencibilidade. Mas fora derrotado. E já não tinha forças para me reerguer.</p>
<p style="text-align: justify;">Até que soube da notícia. Já ouvira uns rumores lá fora a que não dei credibilidade. Só <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/mario-vargas-llosa/">aqui</a> tive a certeza. E, num ápice, tudo mudou. Primeiro a explosão da alegria pelo meu amigo Varguitas. E depois, ah depois, a vontade de fazer regressar o velho mundo que julgava perdido. Que venham de novo as tias encher-me de fantasias. Que o Pantaleão – ah Pantaleão! — mande vir as meninas. Meninas boas, más, virgens ou matronas. Que me ponham nas mãos aqueles cadernos que fazem subir a temperatura. E que me tragam uma horda de combatentes dispostos a fazer uma boa revolução para tirar os infames do poder. E que venha o Varguitas pôr ordem nisto tudo. Ordem? Qual ordem, o que se quer é desordem. O que se quer é a desordem dos corpos, das emoções, das rupturas que só o meu amigo Varguitas é capaz. Que o mundo inteiro abra alas para o Varguitas passar. Que o mundo inteiro aplauda o Varguitas.</p>
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		<title>Fully Connected</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Oct 2010 17:47:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Fully Connected, dos Micro Audio Waves. Esta é uma das melhores canções pop da (escassa) colheita musical portuguesa dos últimos anos. Só isso seria razão suficiente para a trazer para aqui. Mas o meu interesse vai mais longe. Reparem bem no clip. Não por capricho meu mas porque julgo que não haverá outro de origem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Fully Connected</em>, dos Micro Audio Waves. Esta é uma das melhores canções pop da (escassa) colheita musical portuguesa dos últimos anos. Só isso seria razão suficiente para a trazer para aqui. Mas o meu interesse vai mais longe. Reparem bem no clip. Não por capricho meu mas porque julgo que não haverá outro de origem portuguesa que tenha recebido tão elevada distinção. É verdade: em 2006, os Micro Audio Waves foram honrados com dois prémios nos “Qwartz Electronic Music Awards”, com sede em Paris e, talvez, o mais importante conjunto de distinções a nível mundial na área da música electrónica. Um, relativo ao melhor álbum – <em>No Waves</em>, onde se insere este <em>Fully Connected</em>. Outro, justamente o tal de melhor clip, da autoria de Marco Madruga (realização) e de Daniela Krtsch (<em>artwork</em> e fotografia). <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/toda-a-verdade/">A nossa amiga Daniela Krtsch</a>, nem mais, que transformou os membros da banda (Claudia Efe, Flak e Carlos Morgado) em bonecos de plasticina, numa indiscutível prova, se dúvidas houvesse, do seu talento e versatilidade.</p>
<p style="text-align: justify;"> <br />
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/LjUpH1IC4Z0?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/LjUpH1IC4Z0?fs=1&amp;hl=pt_BR" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
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		<title>Toda a verdade</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Oct 2010 19:51:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não tenho alternativa. E a culpa é minha. Fui eu que lancei o desafio à Joana. E agora que a coisa atingiu proporções que nunca imaginei, não tenho como fugir. O melhor mesmo é acabar já com a chinfrineira de portas a bater com estrondo na manif que se organizou espontaneamente nas traseiras deste cemitério, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img title="krtsch2" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/krtsch21.jpg" alt="" width="588" height="203" /></p>
<p style="text-align: justify;">Não tenho alternativa. E a culpa é minha. Fui eu que lancei o desafio à Joana. E agora que a coisa atingiu proporções que nunca imaginei, não tenho como fugir. O melhor mesmo é acabar já com a <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/mesmo-tendo-setembro-acabado/">chinfrineira de portas a bater com estrondo na <em>manif</em> que se organizou espontaneamente nas traseiras deste cemitério, às ordens do potente megafone da (quem havia de ser) justiceira Joana</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Aqui fica então toda a verdade sobre a “Daniela”:</p>
<p style="text-align: justify;">- A tela apresentada é um auto-retrato (um díptico a óleo) da própria artista, Daniela Krtsch, de nacionalidade alemã e radicada em Portugal desde 2001;</p>
<p style="text-align: justify;">- A Daniela Krtsch, embora não seja ainda uma estrela de primeira grandeza no circuito da arte contemporânea portuguesa, é uma talentosíssima artista (em múltiplos suportes, embora com predominância da pintura) que para lá caminha a passos largos;</p>
<p style="text-align: justify;">- Tenho o privilégio de ter a referida tela no meu quarto, bem à frente dos meus olhos quando me deito e quando acordo;</p>
<p style="text-align: justify;">- Embora tenha, também, o privilégio de conhecer pessoalmente a Daniela (uma belíssima mulher, por sinal), a dita tela não me foi oferecida pela própria; foi, sim, por mim adquirida, e por uma razão muito simples: um irresistível “love at first sight” – pela tela, e não pela Daniela, para que não haja dúvidas;</p>
<p style="text-align: justify;">- Não vou jurar – como muitos de nós, provavelmente – nunca ter pronunciado o nome errado num momento menos conveniente, mas posso jurar, sim, que o nome, certo ou errado, nunca foi “Daniela” e que, se o fiz, não terá sido certamente – para bem do meu pescoço — num momento de tanta intimidade;</p>
<p style="text-align: justify;">- A Daniela Krtsch serviu de inspiração para a <em>short</em> pelo mérito exclusivo da obra em causa, e não por qualquer atracção de outro tipo que a autora me tenha provocado – e, nada de confusões com a matéria ficcional, pois que os meus laços com a Daniela nunca foram além da admiração pela artista e da cordialidade e simpatia no trato;</p>
<p style="text-align: justify;">- Tudo o mais não especificamente ressalvado é do domínio da mais pura fantasia; mas já que alguém se atreveu a lançar para o ar a ideia, estou certo que a Daniela (que compreende e se expressa bem em língua portuguesa) não desdenharia as <em>shorts </em>aqui postadas, ou pelo menos algumas delas, como possíveis ilustrações da sua obra, e que, se algum dia chegar à Tate ou algo de vagamente aproximado (estou a fantasiar, atenção), quem sabe não se esquecerá de as reunir numa publicação única, com o apoio e produção de uma editora que eu cá conheço.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;">E, agora que foi divulgada toda a verdade, o que me dizem de eu mostrar o produto do nosso labor ilustrativo à própria Daniela?  </p>
]]></content:encoded>
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		<title>The last of the famous international playboys</title>
		<link>http://www.etudogentemorta.com/2010/10/the-last-of-the-famous-international-playboys/</link>
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		<pubDate>Tue, 05 Oct 2010 04:16:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Morrissey não estava a pensar em Porfirio Rubirosa quando escreveu a canção, disso não parece haver dúvidas. Basta espreitar o vídeo e atentar na letra para reforçar essa certeza. Mas, depois de ler o exemplar retrato que o António Eça de Queiroz dele fez, apetece dizer o contrário, que sim, que este The Last of [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Morrissey não estava a pensar em Porfirio Rubirosa quando escreveu a canção, disso não parece haver dúvidas. Basta espreitar o vídeo e atentar na letra para reforçar essa certeza. Mas, depois de ler o <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/10/rubi-o-gigolo/">exemplar retrato que o António Eça de Queiroz dele fez</a>, apetece dizer o contrário, que sim, que este <em>The Last of The Famous International Playboys</em> foi uma justa homenagem ao homem que nenhuma mulher – com a ainda hoje incompreensível excepção de Zsa Zsa Gabor – recusou.</p>
<p style="text-align: justify;"> <br />
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="480" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/zsoaFFFHQ74?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385" src="http://www.youtube.com/v/zsoaFFFHQ74?fs=1&amp;hl=pt_BR" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
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		<title>A lágrima de Georgia</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Oct 2010 14:23:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Esta semana, morreu Arthur Penn. E, esta semana também, como foi já anunciado com toda a pompa e circunstância, nós, Gente Morta, fizemos um ano de vida. Mas, perguntarão os meus co-bloggers e os leitores, o que há de comum entre uma coisa e outra? Pois, para mim, há. Há a ligação entre a primeira [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a onclick="return amz_js_PopWin(this.href,'AmazonHelp','width=700,height=600,resizable=1,scrollbars=1,toolbar=0,status=1');" href="http://www.amazon.com/gp/product/images/B0009X7BG4/ref=dp_image_0?ie=UTF8&amp;n=130&amp;s=dvd" target="AmazonHelp"><img id="prodImage" class="aligncenter" src="http://ecx.images-amazon.com/images/I/51VPJKASETL._SL500_AA300_.jpg" border="0" alt="Four Friends" width="300" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Esta semana, morreu Arthur Penn.</p>
<p style="text-align: justify;">E, esta semana também, como foi já anunciado com toda a pompa e circunstância, nós, Gente Morta, fizemos um ano de vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas, perguntarão os meus co-bloggers e os leitores, o que há de comum entre uma coisa e outra?</p>
<p style="text-align: justify;">Pois, para mim, há. Há a ligação entre a primeira e a última lágrima que, orgulhosamente e sem pudor algum, partilhei com outros. É verdade: Arthur Penn foi o responsável pela primeira lágrima que me lembro de ter soltado à procura de outra, de outras, com quem partilhar a comoção que a gerou. Pela primeira lágrima não furtiva, a primeira a sair de peito feito cá para fora sem vergonha da sua condição de lágrima. Não, caros coleccionadores de marcos da História do Cinema, não aconteceu com <em>Bonnie and Clyde</em>. Nem com <em>Duelo no Missouri</em>. O culpado foi um filme de Penn, sim, mas um daqueles que não deu origem a tratados académicos ou a ciclos temáticos em cinematecas. Um filme que, de tão despretensioso e simples, não passou de uma nota de rodapé na filmografia de Penn. Mas que, apesar disso, ou talvez por causa disso mesmo, tocou bem fundo num coração que, até então, desconhecia o seu lado sentimentalão. Eu deveria ter pouco mais de quinze anos e o filme apresentou-se nas salas de cinema, lá para 1982, como <em>Quatro Amigos</em>, tradução literalíssima do original <em>Four Friends</em>. A história conta-se em duas penadas: quatro amigos como o nome indica — uma mulher, Georgia, e três homens — e as suas vidas desde os tempos idealistas da adolescência até às amarguras da quase meia-idade, tendo como pano de fundo a luta pelos direitos civis, a guerra do Vietname e a libertação sexual. Como fio condutor da trama, a paixão – quase sempre platónica, se bem me lembro — que cada um dos três rapazinhos depois feitos homens alimentou por Georgia ao longo de mais de vinte anos. A banda sonora para as fantasias dos três apaixonados amigos não poderia ser mais apropriada: o magnífico <em>Georgia on My Mind</em>, original de Carmichael/Gorrell, na versão interpretada por Ray Charles que vos deixo em baixo. Tudo isto enquanto Georgia se julgava a reencarnação de Isadora Duncan e se convencia sobre o destino grandioso de bailarina que a esperava.</p>
<p style="text-align: justify;">Do filme, entre muitas cenas que me comoveram até ao tutano, uma houve que retive em especial: um poema/declaração de amor dito a Georgia por um dos amigos, iam eles a caminho da vida universitária, em que ele lhe confessava amá-la “como o cego ama a recordação dos dias em que via”, repetido, depois de um longo interregno em que ambos seguiram rumos separados, durante um concurso televisivo de grande audiência que ele suspeitava estar a ser visto por Georgia. Escusado será dizer que, enquanto Georgia reconhecia, vinte anos depois, a voz e o poema do “amigo” no seu écran de televisão, e se ia às lágrimas com a declaração que percebeu, uma vez mais, ser-lhe dirigida, eu e todos os outros, que comigo soltaram a lágrima de Georgia, lhe jurámos amor eterno.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto Jodi Thelen, a actriz de 19 anos que incarnava Georgia, desaparecia para não mais voltar (PMS, sabes dela?), a lágrima de Georgia, a primeira lágrima, essa cristalizou para se juntar a todas as outras que tiveram a sua marca. A marca daquele filme (e foram muito poucas as que encontrei com essa origem) e a de outros filmes, músicas e livros que, ao longo dos anos – mais ou menos, os mesmos anos que mediaram entre as duas declarações de amor, a privada e a pública, do “amigo” de Georgia – tiveram a sua força contagiante. Até à última. A lágrima interior que, timidamente, se começou a formar a 1 de Outubro de 2009 e não mais parou de se expandir desde então.</p>
<p style="text-align: justify;"> <br />
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		<title>Daniela</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Sep 2010 21:35:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Daniela. Mais uma vez saíra-lhe. Mais uma vez sussurrara o nome maldito na altura mais inconveniente. Porque é que era sempre ali, no pico do prazer da intimidade de dois corpos feitos um só, que o nome lhe saía? A papel químico das outras vezes. Quantas foram antes? Três, quatro, cinco, já não se lembrava, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><br class="spacer_" /></p>
<p style="text-align: center;"><img title="krtsch2" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/krtsch21.jpg" alt="" width="588" height="203" /></p>
<p style="text-align: justify;">Daniela. Mais uma vez saíra-lhe. Mais uma vez sussurrara o nome maldito na altura mais inconveniente. Porque é que era sempre ali, no pico do prazer da intimidade de dois corpos feitos um só, que o nome lhe saía? A papel químico das outras vezes. Quantas foram antes? Três, quatro, cinco, já não se lembrava, porque a verdade é que só dela se lembrava, sempre ela em todos os corpos que o enganavam. Sempre a mesma cena, a porta a bater com estrondo a anunciar o fim daquilo que nunca começara. E, a seguir, o mais absoluto vazio no quarto cheio dela. Cada vez mais cheio dela. Sim, ela estava lá sempre, omnipresente mesmo nas breves ilusões que se intrometeram quando conheceu as outras. Estava presente, sabia ele, só para ter o prazer cínico de o fazer soltar aquele maldito Daniela que fazia cair por terra todas as ilusões com que procurava enterrar a Daniela que via em todas as outras.</p>
<p style="text-align: justify;">Maldito nome. E maldita noite em que insistira – por amor louco, já o sabia então e agora sabia-o mais do que nunca – em ficar com o quadro no quarto, bem à frente dos seus olhos quando se deitava, quando acordava. Fora um presente dela, sim, de um tempo em que aquele auto-retrato dela, na brancura imaculada do roupão e na serenidade do pensativo cigarro, anunciava uma promessa de amor eterno. Culpa sua, o ter decidido, no momento em que ela saíra para não mais voltar, ficar com ela, a encher o seu quarto em cada uma das noites, das muitas noites, das centenas, milhares de noites que se seguiram depois de ela o ter deixado à sua sorte. Entregue à imagem dela, no seu roupão branco que ele já não vestia, no seu cigarro que ele já não fumava, mas que continuavam ali, a atormentá-lo em cada corpo sem outra vida que não fosse a dela que por ali passava, e ficava, até à noite em que lhe saía o maldito Daniela.</p>
<p style="text-align: justify;">Maldito sorriso. Maldito sorriso cada vez mais rasgado. Não, não era impressão dele, ele tinha a certeza que aquele sorriso não era o que lá estava quando ela se foi. A cada porta que batia com estrondo, o sorriso crescia. De centímetro em centímetro o sorriso passou a riso. Riso descarado. Gargalhada. Ensurdecedora. E ele, no mais absoluto vazio de um quarto cheio dela, mergulhado no silêncio ensurdecedor da sua gargalhada.</p>
<p style="text-align: center;">…………….</p>
<p style="text-align: justify;">Acabou, pensou ele. Finalmente iria refazer a sua vida. Ainda hoje viriam buscar o quadro ao quarto. Hoje já não adormeceria com ela. Amanhã já não acordaria com ela. E – tinha a certeza – nunca mais a porta de casa se fecharia com estrondo. Afinal de contas, o amor tinha mesmo um preço. O dela, Daniela, se ter transformado numa estrela de primeira grandeza do meio artístico. O dele se ter lembrado de a tornar pública numa <em>short story</em> lá do blogue. Tornara-a pública para acabar com o segredo que o destruía por dentro. Tão pública que agora até ela, Daniela, estrela de primeira grandeza do meio artístico, iria expor o agora famoso auto-retrato na Tate, imagine-se. E, com o auto-retrato, lá iam também as <em>short stories</em>, a dele e a de todos os companheiros lá do blogue, transformadas em livro catálogo da exposição. E até já se imaginava lá com ela. A sorrirem um para o outro com o sorriso de uma tranquilidade que nunca tiveram. Ela com um pensativo cigarro. E ele sem portas a bater com estrondo. E um nome, Daniela, que nunca mais por ele será sussurrado. A ouvido nenhum. Nem da própria.</p>
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		<title>Para variar das reprimendas europeias</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Sep 2010 22:32:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Já tínhamos a Cidade Branca do Tanner e a Lisbon Story do Wenders. E, embora desconfiemos que pouco devem à nossa Lisbon mas a uma sua homónima americana, as irmãs Lisbon virgens suicidas da mui em voga Sofia Coppola e, mais recentemente, a agente Teresa Lisbon da série de culto The Mentalist. Agora, temos também [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img id="il_fi" class="aligncenter" src="http://4.bp.blogspot.com/_S2NUgdzzAT0/TFcTouy83XI/AAAAAAAAC18/40orMy74lXU/s320/the+walkmen+-+lisbon.jpg" alt="" width="320" height="284" /></p>
<p style="text-align: justify;">Já tínhamos a <em>Cidade Branca</em> do Tanner e a <em>Lisbon Story</em> do Wenders. E, embora desconfiemos que pouco devem à nossa Lisbon mas a uma sua homónima americana, as irmãs Lisbon virgens suicidas da mui em voga Sofia Coppola e, mais recentemente, a agente Teresa Lisbon da série de culto <em>The Mentalist</em>. Agora, temos também o recentemente premiado <em>Mistérios de Lisboa</em>, realizado pelo chileno Raul Ruiz (embora com produção nacional de Paulo Branco, tal como os filmes de Tanner e de Wenders).</p>
<p style="text-align: justify;">Mas ou muito me engano ou nunca um álbum vindo de fora tinha sido inteiramente dedicado à cidade de Lisboa. Os Durutti Column não foram tão lisboetas com o seu <em>Amigos em Portugal</em>. E Devendra Banhart limitou a sua homenagem portuguesa a uma canção, e bem nortenha, o delicioso<em> Santa Maria da Feira</em> que já <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/02/santa-maria-da-feira/">aqui</a> ouvimos.</p>
<p style="text-align: justify;">Façam então favor de receber bem estes americanos de gema, The Walkmen, que nos visitarão muito em breve (14 de Novembro, no Coliseu dos Recreios), para promover o seu último álbum. Nem mais nem menos do que <em>Lisbon</em> de seu nome. A avaliar pelo que já ouvi, e que vos deixo em baixo, é uma bela vénia a Lisboa. Só para variar, durante uns minutos, das reprimendas europeias.</p>
<p style="text-align: justify;"> <br />
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		<title>Viaje a la Habana</title>
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		<pubDate>Sat, 25 Sep 2010 16:55:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Isso de um charuto ter adquirido forma humana já não é coisa que me espante por aí além. Nem sequer por artes mágicas da Eugénia (ó, e se a Eugénia as tem, desde que a vimos transformada em Natalie Portman!). Quando vi o Partagas Série D n.º 4 (e saberão os conhecedores que mete o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://quebichomemordeu.files.wordpress.com/2008/05/moo_habana.jpg?w=450&amp;h=301" alt="" width="450" height="301" /></p>
<p style="text-align: justify;">Isso de <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/blog-the-luxo/">um charuto ter adquirido forma humana </a>já não é coisa que me espante por aí além. Nem sequer por artes mágicas da Eugénia (ó, e se a Eugénia as tem, <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/o-eterno-segundo-do-principio-ao-fim/">desde que a vimos transformada em Natalie Portman</a>!). Quando vi o <em>Partagas Série D n.º 4</em> (e saberão os conhecedores que mete o <em>Fonseca </em>a um canto) convertido em sobremesa, passei a acreditar em milagres. Pelo menos em milagres gastronómicos.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu explico. Tempos houve da minha vida em que, por circunstâncias que não vêm ao caso, me deslocava com frequência a Barcelona. E, se na altura já conhecia Barcelona como Cidade dos Prodígios (foi assim que Eduardo Mendoza lhe chamou no seu épico e inesquecível romance sobre a cidade), estava longe de imaginar o prodígio que me esperava durante as minhas estadias no <em>Hotel Omm</em> (numa das esquinas do Paseo de Gracia, por trás da gaudiana Pedrera). Pois bem, o <em>Hotel Omm</em>, entre outras de relevo, tinha e tem como preciosidade máxima o seu restaurante, de nome <em>Moo</em>. Se todos nós temos direito a ter o nosso “melhor restaurante do mundo”, esse é o meu. Digo-o, obviamente, sem a selectividade e o rigor do <em>gourmet</em> que não sou (faltam-me uns bons quilos para ser levado a sério como tal), e muito menos sem o enciclopedismo do viajante que gostava de ser mas não sou o suficiente (não, nunca escolhi uma viagem de lazer pelo circuito gastronómico). E porquê o “melhor restaurante do mundo” logo numa categoria – a de restaurante de hotel – que nenhum crédito tem para os tais <em>gourmets</em> e a que normalmente só recorrem os que lá estão instalados? Bom, a verdade é que, sendo um restaurante de hotel, o é de um hotel com um <em>hype</em> muito especial. Poderia falar-vos do espaço <em>trendy</em>, da <em>beautiful people</em> e da música de fundo que segue as últimas tendências, tudo muito <em>fashionable</em> sim (para usar termos, tantas vezes enganadores, que abundam nas revistas de viagens), mas que estará longe de explicar o fenómeno. Poderia dizer-vos ainda que a cozinha – de autor, pois é — está nas mãos de uns afamados irmãos Roca, três estrelas Michelin pelo seu trabalho à frente de um outro restaurante, o <em>Celler de Can Roca</em>, na também catalã Girona. Três irmãos três que se ocupam um dos fornos, outro das sobremesas e outro ainda dos vinhos. E poderia enumerar-vos as virtudes de uma ementa de degustação, servida em pequenas mas variadas doses, e sempre acompanhadas de um vinho diferente (ao copo claro), aquele que o chefe Roca do sector considera adequado para cada prato. Fico-me, no entanto, por uma dessas virtudes, o tal prodígio entre os prodígios, que justifica o meu título lá em cima. O <em>Viaje a la Habana</em>, nome que é dado a uma das sobremesas da carta.</p>
<p style="text-align: justify;">E o que tem de especial essa viagem a Havana? Bem, voltamos às capacidades transformatórias do charuto, que já fizeram um <em>Fonseca</em> virar Manuel e que, aqui, nos fazem aparecer um <em>Partagas Série D n.º 4</em> – para alguns, o melhor charuto do mundo – em forma de gelado, acompanhado de um falso copo de <em>mojito</em>, também ele sorvete para justificar a classificação como sobremesa. Tudo se assemelha a um charuto tombado num cinzeiro, com um anel de cinza em estado avançado (não sou especialista, nem perto disso, mas parece que os que o são dizem que a cinza no charuto deve sempre cair naturalmente, nunca ser forçada a cair). Com a particularidade que este vai sendo ingerido – como gelado que é — e não fumado. E o incrível é que, a cada ingestão, as narinas se abrem para deixar passar o aroma do fumo do dito <em>Partagas</em>. Como se, de facto, fosse um verdadeiro <em>Partagas série D n.º 4</em> que estivesse para ali a ser fumado. Quem vos fala é um não fumador que julga ter aprendido, numa viagem à genuína Havana há largos anos, a disfrutar, muito episodicamente embora, os prazeres de um bom charuto (e, como deve ser, sem nunca inalar o fumo). É tal a ilusão que toma conta de nós que não temos outra alternativa senão pedir, logo a seguir, o tal <em>Partagas </em>a sério, para o compararmos com o aroma libertado pelo gelado – e olhamos à nossa volta e temos o restaurante inteiro a fazer o mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Resta dizer que é tal a unanimidade que o <em>Viaje a la Habana</em> gera que os prémios e distinções se têm sucedido um pouco por todo o mundo. E, quanto ao <em>Moo</em>, o maior elogio que se pode fazer é o do que, aí, não há qualquer veleidade de conversa fluente, pois qualquer tentativa de diálogo é sistematicamente – ao ritmo de cada garfada — interrompida por onomatopeias de puro prazer gastronómico. Huuummm…</p>
<p style="text-align: justify;"><img id="il_fi" src="http://www.spain1004.com/board_data/food_inf/moo-1-2.jpg" alt="" width="590" height="295" /></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
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		<title>Phoenix Renascidos</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Sep 2010 23:27:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
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		<description><![CDATA[River, Rain, Leaf, Liberty and Summer. Não sei bem se a ordem é esta. Se não é — e julgo que é – é assim, com este encandeamento entre o musical e o poético, que a sequência me soa bem. Só por isto, os pais, que só podiam mesmo ser hippies nómadas dedicados a uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">River, Rain, Leaf, Liberty and Summer. Não sei bem se a ordem é esta. Se não é — e julgo que é – é assim, com este encandeamento entre o musical e o poético, que a sequência me soa bem. Só por isto, os pais, que só podiam mesmo ser hippies nómadas dedicados a uma vida em comunhão com a natureza, mereciam ficar para a posteridade. A verdade é que serão sempre lembrados muito para além dos bucólicos nomes de seus filhos (e, <em>by the way</em>, o de River foi, também, uma homenagem ao rio do <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/09/pyramid-song/">Siddharta de Hermann Hesse</a>).  Serão lembrados, pelo menos, por aquilo que na vida e na morte fizeram, e fazem, pelo menos dois dos seus filhos. Pelas melhores razões, as de um talento extraordinário que fez de um deles, River o mais velho, imortal depois da morte trágica que o levou em 1993, e de outro, Leaf, mais conhecido por Joaquin, um dos maiores actores de uma geração há muito órfã de De Niro, Hoffman e Pacino.</p>
<p style="text-align: justify;">De River, uma espécie de James Dean dos anos 90 (pelo talento e juventude, pela aura de sex-symbol e ambiguidade sexual e, até, por alguma rebeldia, embora camuflada sob a veste do activismo social), o mínimo que se poderá dizer é que nenhuma outra figura foi mais celebrada na música (e ele, para além de actor, também era músico) depois da morte nos últimos vinte anos. Milton Nascimento (ainda em vida), REM, Red Hot Chilli Peppers, Natalie Merchant, Rufus Wainwright, foram alguns dos que lhe dedicaram canções, mais ou menos melodramáticas.</p>
<p style="text-align: justify;">De Joaquin, acabou de vir a confirmação do seu génio de actor. É verdade que poucos acreditaram quando anunciou ao mundo, por alturas do <em>Late Show</em> de David Letterman que aqui se exibe, que abandonava a representação para se dedicar a uma nova carreira de músico de hip-hop (tanto mais que acabara de nos presentear com mais uma assombrosa interpretação no magnífico “Two Lovers”). Mas a consistência e constância que o seu personagem decadente revelou durante mais de um ano – com espectáculos que acabaram em cenas pouco edificantes com o público – acabaram por convencer os mais cépticos. O homem tinha, simplesmente, enlouquecido. Nada que não tivesse já acontecido aos melhores.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas eis que, quando o assunto parecia arrumado, veio a revelação. Afinal, ele andou mesmo a enganar-nos durante este tempo todo, com a cumplicidade do seu cunhado Casey Affleck (casado com a irmã Rain), que filmou a trapaça toda para a exibir num documentário (melhor dizendo, um “mockumentary”), “I´m Still Here”, exibido recentemente no Festival de Veneza. Qual a ideia? Bom, de Joaquin Phoenix espera-se o melhor, e não um exercício meramente humorístico. Sem ter visto o documentário, acredito que tenha querido questionar – como outros já o tinham feito, embora nunca talvez de forma tão radical — os limites entre ficção e realidade com que a Arte se debate, ou a ténue distância que separa o sucesso da decadência na indústria de entretenimento. Aguardemos que as salas de cinema portuguesas se dignem a satisfazer-nos a curiosidade.</p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>Pyramid Song</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Sep 2010 14:17:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[I jumped in the river and what did I see? Black-eyed angels swam with me A moon full of stars and astral cards And all the figures I used to see All my lovers were there with me All my past and futures And we all went to heaven in a little row boat There [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>I jumped in the river and what did I see?<br />
Black-eyed angels swam with me<br />
A moon full of stars and astral cards<br />
And all the figures I used to see<br />
All my lovers were there with me<br />
All my past and futures<br />
And we all went to heaven in a little row boat<br />
There was nothing to fear and nothing to doubt</em></p>
<p><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;">Conta-se que, para compor e escrever esta fabulosa canção, Thom Yorke se inspirou em Hermann Hesse e no seu Siddharta, onde um rio (ou todos os rios do mundo em sentido metafórico) desempenhava(m), com o próprio Siddharta (ou o Gautama Buda, se preferirem), papel central na narrativa, e que se transformou, em certos tempos da adolescência e pós-adolescência, uma espécie de guia iniciático filosófico/místico/religioso de muitos de nós (embora, no meu caso e de quase todos com quem partilhei a descoberta do livro, com poucas ou nenhumas consequências nos tempos que se seguiram). </p>
<p style="text-align: justify;">Tenha ou não fundamento essa inspiração, não se pode negar que, para além do rio em que Thom mergulha, há qualquer coisa no som envolvente e misterioso de “Pyramid Song” que nos leva a uma dimensão transcendental. Como se, de cada vez que se ouve a canção, todo o universo nela estivesse contido e nada mais contasse para além do que ela tem para nos dizer. Como se, mesmo quem não acredita em qualquer forma de comunicação com o Além, fosse forçado, nos cinco minutos da canção, a vergar-se à evidência da espiritualidade para que ela nos remete. Como se, de súbito, uma iluminação caísse sobre nós, sem que outra alternativa nos restasse senão rendermo-nos à sua força conversora. </p>
<p style="text-align: justify;">Será esse um dom exclusivo de “Pyramid Song” e dos profetas <a href="http://www.etudogentemorta.com/2010/01/o-meu-best-of-da-decada/">Radiohead</a>? Talvez não. Há quem diga que é esse o traço distintivo de toda a Grande Arte. Que seja. </p>
<p style="text-align: justify;"> <br />
<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="640" height="385" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/ES2cjsjQCTM?fs=1&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="640" height="385" src="http://www.youtube.com/v/ES2cjsjQCTM?fs=1&amp;hl=pt_BR" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
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		<title>Dino Buzzati</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Sep 2010 19:37:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[Queridos Mortos]]></category>

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		<description><![CDATA[“Se não fosse mais do que um homem comum a quem, por direito, cabe apenas um destino medíocre?” in “O Deserto dos Tártaros” “Soube assim da estranha particularidade daquele hospital. Os doentes eram distribuídos pelos andares de acordo com a sua gravidade. No sétimo, ou seja, no último, eram alojados os doentes muito ligeiros. O [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><em><img class="aligncenter" src="http://3.bp.blogspot.com/_s-MOV7uUC7Y/S-UueB63b0I/AAAAAAAAL14/lIyxGf_tgos/s1600/dino+b.jpg" alt="" /></em></p>
<p><em>“Se não fosse mais do que um homem comum a quem, por direito, cabe apenas um destino medíocre?”</em></p>
<p>in “O Deserto dos Tártaros”</p>
<p><br class="spacer_" /></p>
<p style="text-align: justify;"><em>“Soube assim da estranha particularidade daquele hospital. Os doentes eram distribuídos pelos andares de acordo com a sua gravidade. No sétimo, ou seja, no último, eram alojados os doentes muito ligeiros. O sexto destinava-se aos doentes não graves mas também não negligenciáveis. No quinto já se tratavam afecções sérias, e assim sucessivamente de piso para piso. No segundo estavam os doentes muito graves. No primeiro, aqueles de quem já não havia nada a esperar.”</em></p>
<p style="text-align: justify;">Assim começa uma das mais belas – e também mais aterradoras – caminhadas para a morte que a literatura alguma vez produziu. Quando, há uns bons anos, por recomendação do Pedro Norton, me dispus a iniciar a leitura da colecção de contos “Os Sete Mensageiros”, de Dino Buzzati, estava longe de imaginar que, duzentas páginas à frente, teria ganho uma familiaridade com a morte próxima do encantamento. Pela amostra citada, a do hospital do conto “Sete Andares”, os que ainda não se aventuraram pelos caminhos labirínticos de Buzzati não conseguirão certamente antecipar o exacto impacto que eles podem provocar. Até porque esse impacto se vai manifestando subrepticiamente, sem que o leitor se aperceba para onde está a ser levado, mas sempre na certeza de que quer continuar em frente. É essa a armadilha de Buzzati: sem nos pedir licença ou sequer nos dar a mais leve pista para onde vamos, começa por nos seduzir recorrendo aos truques que só a grande literatura é capaz. E, só quando já estamos bem enredados na teia em que a sua poética nos envolveu, se começam a manifestar os primeiros sintomas do chamamento que Buzzati nos dirige. Primeiro, achamos que não é nada connosco, que tudo não passa de um universo fantástico que nenhuma conexão tem com a nossa percepção do Bem e do Mal, com a nossa vidinha de todos os dias. Mas, à medida que as histórias e as “não histórias” se vão sucedendo – sim, porque as ficções de Buzzati muitas vezes não passam do grau zero da lógica narrativa convencional -, vamos sendo tomados pela inquietude de quem sabe estar a ser interpelado. Sabemos então que já não controlamos a nossa vontade, que já estamos num território onde Buzzati nos tem cativo. E chegamos, finalmente, à última etapa do percurso de descoberta a que a escrita encantatória de Buzzati nos conduz. Momentaneamente, saímos de nós próprios para observamos as nossas acções ao longe. Como aquele contabilista do conto “Quando Se Faz Sombra” que, no dia em que foi promovido a director financeiro, encontra uma criança no seu sótão, que vem a descobrir ser ele próprio com menos trinta e cinco anos de idade. Tal como o contabilista é interpelado, também nós o somos pela criança que fomos, e que continua a habitar o sótão das nossas expectativas frustradas. Com Buzzati, damos por nós a vestir a pele da morte para assistirmos à inexorável passagem do tempo e ao efeito que esta produz sobre a vida. E é a morte em toda a sua glória e esplendor que Buzzati nos traz. A morte como contraponto da mesquinhez e insignificância da vida. A morte como libertação e redenção de uma vida onde há muito se morreu sem se saber.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes de “Os Sete Mensageiros”, publicado originalmente em 1942, já Buzzati escrevera aquela que muitos consideram a sua obra-prima, “O Deserto dos Tártaros”. Dizer que “O Deserto dos Tártaros” é uma obra-prima é, convenhamos, muitíssimo redutor. É mais ou menos o mesmo do que dizer que a mulher da nossa vida é linda e nada mais. Mais justo seria assumir que “O Deserto dos Tártaros” é o livro de uma ruptura, mesmo de uma revolução. Depois de o lermos, corremos o risco – e é um risco que vale a pena correr, isso garanto-vos eu – de nunca mais olharmos para nós, para a nossa vida, da mesma maneira. Corremos o risco de mudar de vida, e até de mudar radicalmente de vida. Mais uma vez, Buzzati lança-nos um isco que se vem a revelar uma armadilha. Mas, se em “Os Sete Mensageiros” o processo de sedução é estilisticamente rebuscado e conduz ao enfeitiçamento através de um sofisticado jogo de espelhos, em “O Desertos dos Tártaros” o estratagema é outro. A narrativa (que só o é falsamente) aparece-nos nua e crua, aparentemente sem artifícios, num despojamento e simplicidade que desarmam. Deixamo-nos levar, despreocupadamente, ao ritmo de uma vida que até nos é levemente familiar à espera do que aí vem. E esperamos. Esperamos. Esperamos como o tenente Giovanni Drogo espera pelo inimigo na fortaleza Bastiani onde vai permanecendo. À espera que se passe qualquer coisa. Que venha o inimigo ou o que quer que justifique a continuação da leitura. Mas as páginas vão ficando para trás e nada acontece. Só o deserto bem à frente dos olhos do tenente Drogo. E acabamos a culpar Buzzati por mais um dos seus logros. Como se não bastasse pôr-nos à frente dos olhos a criança que fomos com perguntas incómodas, Buzzati tem o descaramento de nos confrontar com o deserto da existência das nossas vidas.</p>
<p style="text-align: justify;">Pela parte que me toca, desde que o li, Buzzati não mais deixou de me interpelar. Aparece-me, ciclicamente, quase sempre quando está prestes a entrar no esquecimento. E que irritantes são esses momentos. Já perdi a conta aos dias que as suas aparições estragaram. E ele sabe muito. Aparece sempre quando estou mais tranquilo. Quando estou perto de me sentir em paz.</p>
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		<title>Crónicas da Ilha de São Tomé (2)</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Sep 2010 09:58:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diogo Leote</dc:creator>
				<category><![CDATA[Regulares]]></category>

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		<description><![CDATA[Como um filho rebelde que renega o seu pai para lhe provar que é capaz de tomar conta de si sozinho, S. Tomé anda a inventar-se a si própria para fugir à herança que recebeu de Portugal. Desse processo faz parte a rejeição do património – não só arquitectónico, mas também histórico, social, cultural, afectivo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><img class="aligncenter size-large wp-image-18717" title="IMG_1143" src="http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/09/IMG_1143-500x280.jpg" alt="" width="500" height="280" /></p>
<p style="text-align: justify;">Como um filho rebelde que renega o seu pai para lhe provar que é capaz de tomar conta de si sozinho, S. Tomé anda a inventar-se a si própria para fugir à herança que recebeu de Portugal. Desse processo faz parte a rejeição do património – não só arquitectónico, mas também histórico, social, cultural, afectivo e simbólico — das roças. Tudo porque o santomense nunca foi dono da roça nem trabalhou nela. Tudo porque, se de uma alguma particularidade santomense podemos falar, ela se construiu, justamente, pela recusa ao trabalho na roça, um apanágio dos serviçais angolanos, cabo-verdianos e moçambicanos que ainda hoje habitam o que resta delas.</p>
<p style="text-align: justify;">Isto para vos dizer que andei por S. Tomé mas não a encontrei. Não encontrei aquilo que faz duma comunidade uma nação, e duma nação um Estado (e digo “faz” mas devia dizer “fazia”, porque os nacionalismos fáceis ou fabricados entraram na rotina nos dias que correm): uma identidade só sua, ancorada numa história e numa cultura que lhe dão carácter distintivo na comunidade internacional. Poderão dizer-me que uma semana de estadia e umas horas de leitura são pouco, muito pouco para descobrir a essência de um país. Verdade. Mas serão porventura suficientes para que se entranhe uma bizarra sensação em qualquer português que não lá vá – só e sobretudo — pelos banhos de mar (para os banhistas de <em>resort</em>, fica já o aviso que haverá certamente outras paragens mais recomendáveis). Uma sensação que se estranha por não obedecer propriamente aos cânones do politicamente correcto. Que tentamos reprimir para não ficarmos mal aos olhos de quem nos recebe tão amavelmente. Mas a que se nos vai colando à pele à medida que vamos desbravando os caminhos da ilha. E, passada uma fase inicial em que inevitavelmente vêm à superfície os complexos de culpa do domínio ou opressão colonial, acabamos a dar uma espécie de grito de Ipiranga ao contrário. E a questionarmo-nos porque deixou S. Tomé e Príncipe de ser portuguesa. Porque deixou tão radicalmente de ser portuguesa. Ao ponto de transformar um auto-denominado Museu Nacional (que, na verdade, nem dignidade tem para justificar uma exposição na associação recreativa do meu bairro) num manifesto de incitamento ao ódio pelo passado português, polvilhado de expressões provenientes da mais pura ortodoxia marxista que nem os irmãos Castro se atrevem já a usar em Havana. Ao ponto de deixar delapidar um riquíssimo património arquitectónico, hoje transformado em mera curiosidade arqueológica. E de nem sequer procurar aproveitar alguns dos méritos (sim, porque o poder colonial português também os teve) de uma organização social centrada na roça que, com mais ou menos traços feudais, com mais ou menos dúvidas sobre a liberdade de recrutamento e de desvinculação, facultava cuidados de saúde gratuitos à porta de casa e impunha uma disciplina, um sentido do dever e da responsabilidade e uma cultura de trabalho de que hoje não há sinal. E, acrescente-se, que criava riqueza. E, se noutros tempos ela era muita e distribuída por muito poucos, não parece que a revolução social tenha feito juz às preocupações igualitárias que a justificaram. Com a diferença, agora, que o pouco dinheiro que ainda existe, e que vem todo da ajuda internacional (por enquanto, o petróleo não passa de uma miragem), não é nem do capital nem do trabalho e acaba, sim, invariavelmente, nos bolsos corruptos dos que estão no poder. Pelo menos é o que diz um país inteiro, que não tem água nem luz eléctrica em casa, e que só não passa fome porque a terra e o mar são generosos.</p>
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