Coisas do Diabo

Ao princípio estranhara. Ao tempo, achava que já tinha provado de tudo o que lhe podia dar o prazer da sua carne na carne de uma mulher. Fantasias tivera-as aos rodos, daquelas que faziam o Oshima parecer um menino de coro e que há muito tinham deixado de o ser porque vividas até ao tutano. Dos relatos dos seus amigos das pândegas das sextas-feiras, também não vinha nada de novo. Apenas mais do mesmo. A verdade é que nenhuma das mulheres que tivera – e já não se lembrava se desistira de as contar depois da quinquagésima ou se daquela vez em que lhe apareceram quatro à porta de sua casa — lhe tinha feito uma exigência daquelas. Estranhara mas aceitara as regras do jogo. E acabou mesmo por se excitar com a ideia. Afinal de contas, pensou ele, sabia que tinha um talento especial para satisfazer todos os caprichos sexuais delas. E este, ao contrário de outros, nem era de todo irracional. Ela explicara-lhe que, por ser uma mulher casada, só podia ser assim. Uma vez por mês, sempre à quarta-feira à tarde que era quando o marido estava fora e ela tinha a sua folga semanal. Sempre na banheira, onde ela o esperava de corpo imerso. Para que não se sentisse suja e as impurezas daquele prazer proibido fossem todas pelo ralo abaixo logo que ela saísse do transe. Só podiam ser obra do diabo, dizia-lhe ela, aqueles estremeções que lhe percorriam o corpo todo. E ele acreditava nela, quando ela lhe jurava que com o marido, homem temente a Deus, não havia nada daquilo. E ele tinha de se depilar todinho, com o cabo e as lâminas que ela lá tinha guardado só para ele. Ou melhor, ele depilava-se até onde o seu braço alcançava e deixava-lhe a ela – e que prazer tinha ela nisso antes do outro prazer que aí vinha! – a minuciosa tarefa de remover as pilosidades traseiras. E ele já se habituara ao riso que tomava conta dela no momento da extracção daqueles tufos redondos que enfeitavam as suas nádegas (que eram enfeites, isso era coisa dela, porque ele nunca lhes conseguira por a vista em cima, nem através do espelho que havia lá em casa). Um riso que vinha assim em convulsões e que só podia ser uma espécie de preparação mental para as convulsões subsequentes. Tinha de ser assim porque com ela, mulher casada e também temente a Deus, nada a podia fazer sentir como uma cadela com cio. E, enquanto não desaparecessem aqueles pelos todos que eram o orgulho da virilidade dele, era assim que ela se sentia.

Ele estranhara ao princípio. Mas agora não se queixava. Sentia-se bem naquele papel de diabo. Só tinha pena de a coisa só acontecer uma vez por mês. Tinha de ser assim, dizia-lhe ela. O pelo tinha de voltar a crescer para ser arrancado como uma erva daninha.

The Miseducation of Lauryn Hill

Se alguém se atrever a dizer que não gosta de hip-hop é porque nunca ouviu The Miseducation of Lauryn Hill. Se alguém se atrever a dizer que a senhora passou à história porque há mais de dez anos que não entra num estúdio, basta responder que sim, senhora, passou à História porque, nem antes nem depois, a história do hip-hop produziu um disco como esse e a senhora já fez a História que tinha que fazer, por sinal logo à primeira tentativa a solo. E não venham cá com histórias dos Fugees, a quem a senhora deu a voz ainda menina, ou do Ziggy Marley filho do deus do reggae a quem a senhora deu um filho Zion que celebrizou numa canção. Muito bem, dirão os puristas, que há melodia, elegância e limpidez a mais para ser hip-hop. Que há virtuosismo vocal que vai muito para além da dureza das palavras ditas de outros, os que ganham grammies atrás de grammies e abrem bem a camisa para mostrar todo o ouro e diamantes que o hip-hop já lhes deu. Mas ela está-se nas tintas. E nós com ela. Já fez o que tinha a fazer e faz questão em quase não aparecer nem dar entrevistas. E em quase não cantar em público. Quase. O Terreiro do Paço foi uma rara e honrosa excepção há umas semanas atrás. Para os que não a conhecem, bem aventurados sejam, que terão ainda o prazer de se maravilharem com a primeira vez da Miseducation da senhora Lauryn Hill, de que este Ex-Factor é apenas uma das pérolas.

Peço desculpa pela interrupção

 

Peço desculpa pela interrupção mas a silly season segue dentro de momentos. Não custa nada. São só umas horas o tempo que dura a leitura. Que podem ser intercaladas por mergulhos e jantares à beira mar plantados. Que não nos perturbam por aí além o dolce far niente próprio das férias. São só umas horas para tomar consciência – muito, muito levemente — do que se tem passado lá fora. No mundo, longe, muito longe do nosso cantinho de brandos costumes.

Só para ficarmos a saber, se ainda não o sabíamos, e entre muitas outras interessantes revelações, que tempos houve não muito distantes, pouco menos de três décadas antes da constituição do Estado de Israel, em que altos representantes do movimento sionista e das (futuras) nações árabes se sentaram à mesa para louvar os laços de sangue entre os dois povos. E que escrito ficou que, caso o desejado grande reino independente árabe fosse criado em terras que iam da Península Arábica à Síria e ao Líbano, o estabelecimento dos judeus na Palestina seria muito bem vindo.

Mas, para que não nos deixemos levar pelas aparências, convém que se fique a saber, também, que nem sempre a vontade dos governados corresponde aos interesses estratégicos invocados pelos governantes. Como em 1949, já depois da criação de Israel e da monumental derrota infligida aos quatro países fronteiriços Egipto, Jordânia, Síria e Líbano. Num curto espaço de meses depois da assinatura dos armistícios reconhecendo os domínios de Israel, todos – todos mesmo — os que, em representação das nações árabes, tinham empunhado a caneta com que o acordo fora lavrado deixaram de pertencer ao mundo dos vivos, cravados por balas disparadas por compatriotas. E, desde então, de Sadat a Rabin, o mundo não deixou de nos lembrar, aí no Médio Oriente ou noutras zonas do planeta, como é difícil – e dizemos difícil, porque nenhum de nós se atreve a pronunciar a palavra “impossível” — que a paz se imponha à guerra, aos olhos de muitos governados (governados fundamentalistas ou radicais, é certo, mas é essa uma das contradições da democracia que esta nunca conseguirá resolver).

A partir de factos históricos como os acima referidos, o libanês Amin Maalouf faz-nos reflectir, no seu “Um Mundo sem Regras”, sobre as razões daquilo de que já todos desconfiamos há muito: que o mundo se tornou dificilmente governável e que ameaça mesmo tornar-se ingovernável de todo. Sobretudo, se uns continuarem a assobiar para o lado e outros, a pretexto da (louvável, em si mesmo, nada de confusões) defesa das especificidades étnicas, linguísticas, religiosas, sociais, culturais e outras, insistirem em cavar ainda mais o fosso entre “civilizações” que, depois da guerra fria e do desmoronamento do comunismo, nos rodeia (ou cerca?) por todos os lados.

Mas, enfim, estamos na silly season e o post, dizem-me os caros leitores e quem sou eu para vos desmentir, está totalmente fora de contexto. Isto não é para nós, para o nosso cantinho de brandos costumes. Só para os outros, para os que decidem o mundo. Em quem nós (lá está, outra das contradições sem solução da democracia) nem sequer votamos.

Para nós, são estas ondas lá fora. Vamos voltar a elas.   

Inception



0.30. Sonho. É a primeira que vez que tenho a percepção de que sonho enquanto escrevo no cemitério. Como se pudesse pertencer ao mundo real isso de escrever num cemitério. Agora que sei que sonho enquanto escrevo no cemitério, quero sonhar um outro sonho dentro do sonho. Quero sonhar dentro do sonho que acredito que não estou num sonho. Um outro sonho dentro do sonho que me dê de novo a ilusão de que estou no mundo real quando escrevo no cemitério.

0.35. Sonho um sonho dentro do sonho. Adormeci enquanto me sonhava a escrever no cemitério. E agora sonho que estou de volta ao mundo real. E que em cinco minutos sonhei um filme inteiro de quase duas horas e meia. Um filme sobre sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos.

0.40. Depois de ter sonhado um filme inteiro sobre sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos, sonhei que o Francis Fukuyama estava ao meu lado no cinema. E que soprou ao ouvido do meu eu sonhado, envergonhadamente, que se tinha enganado quanto ao Fim da História e do Último Homem. Mas que agora estava certo de que não se iria enganar de novo. Que o filme que ambos sonháramos, o tal sobre os sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos, era o Último Filme. O do Fim do Cinema. O do Fim da Cultura. Depois dele, a guerra entre a cultura de massas ou entretenimento e a cultura inteligente, sofisticada ou cultivada, entre o blockbuster e o Filme de Autor, entre Cameron e Lynch, tinha finalmente – depois de uma eternidade do mais absoluto divórcio — chegado ao fim. Que os dois corpos em que o mundo cultural desde sempre se dividiu se tinham fundido num só. Numa única sala, num único espaço fechado, o tal onde sonháramos o filme sobre sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos, estavam lá os dois corpos no início da projecção. E acabaram um só no final da projecção.

0.45. Voltei a sonhar que sabia que estava a sonhar. O culpado foi Fukuyama e o seu empurrão que me despertou do sonho dentro do sonho. E que me fez entrar num outro sonho, em que sonhava que o mesmo me estava a implantar uma ideia dentro do sonho que me levava a acreditar na sua profecia.

0.50. Sonho agora que consulto o Grande Arquitecto PMS sobre o mundo em que o meu eu vive, o real ou o sonhado. A esta hora, aguardo ainda, ansiosamente, o seu diagnóstico sobre o meu eu e o seu delírio, sonhado ou real, sobre o Último Filme.

Um final feliz


Foi a sua primeira aparição pública depois do recolhimento a que a última morte a obrigou. Sabia que o luto tinha de ser ainda mais carregado do que das outras vezes. A sua condição de cortesã de luxo, só por si, já era motivo suficiente para que todos os olhos se concentrassem nela. Mais do que nunca, tinha de se resguardar do falatório. Esconder bem as suas formas, que elas, as mulheres deles, diziam ser obra do demónio, e eles, os anciãos endinheirados da cidade, viam como a mais perfeita manifestação da existência de Deus na Terra. Ou, no mínimo atribuíam à intervenção, divina também, daquele santo patrono da virilidade masculina que ninguém alguma vez ouvira falar antes daquelas suas formas irromperam com toda a sensualidade no S. Carlos. Segundo lhe constou, era isso que os defuntos diziam à boca cheia — antes de se finarem na cama dela em manobras inverosímeis — a todos os que, como eles, já não tinham idade para aquilo. Num espaço de três anos, sete respeitáveis frequentadores do Teatro foram-se, uns a seguir aos outros, a poucos anos de completarem oito décadas de uma vida de fortuna abundante. Para calar as más línguas, bastar-lhe-ia dizer que tinha uma missão divina: a de fazer morrer os homens da forma que qualquer um gostaria de morrer se pudesse escolher como morrer. A prova disso era o indisfarçável esgar de felicidade estampado na cara, com que os cadáveres foram encontrados na cama dela. Já para não falar na protuberância que as respectivas partes baixas exibiam ainda garbosamente, e para as quais a ciência médica não encontrara explicação que não fosse atribuível a Deus. E nada de mais injusto do que lhe atirarem à cara que tinha ficado com tudo o que aos defuntos pertencia. Bem sabe ela que não há herança que pague o que não tem preço suficientemente elevado, isso de fazer coincidir a morte com a suprema explosão de felicidade que não se alcançou em toda uma vida.

Apesar dos protestos das mulheres e familiares dos defuntos, estava ciente que a sua reputação  crescia a cada morte feliz. E que prazer tinha em escolher, de entre as dezenas de olhares masculinos enrugados que sobre ela recaíam no Teatro, o próximo a ser tocado pelo seu dom.

In Every Dream Home a Heartache

O Vasco já aqui e aqui lhes fez o elogio devido. Mas eu trago-os de volta para ilustrar, uma vez mais, uma grande verdade. Só a ignorância e o preconceito podem levar a acreditar que o antigo e o moderno são antagónicos por natureza. Os Roxy Music que ontem recordei em Oeiras são mais modernos do que aqueles que vira com 15 anos de idade num concerto memorável que os juntou aos (também) históricos King Crimson de Robert Fripp. E isto porque, em Oeiras, se atreveram a recuar, durante grande parte da actuação, aos seus tempos idos de 1973, à época do (também) intemporal For Your Pleasure, álbum que, paradoxalmente, faz figura de peça de vanguarda (talvez por influência de Brian Eno, diria o Vasco e eu não desminto) ao lado do, também elegante é certo, mas muito mais convencional Avalon, que acabara de ser lançado, e ao qual dedicaram por isso uma especial atenção, quando nos visitaram, pela primeira vez, em Agosto de 1982. Basta ouvir In Every Dream Home a Heartache, uma das enormidades de For Your Pleasure que ontem voltou a ser tocada como se fosse a primeira vez, para perceber o alcance das minhas palavras lá de cima. Pela minha parte, depois de a ouvir pela enésima vez, pergunto-me mesmo qual a banda – dessas com pretensões à modernidade — que não quereria, em pleno 2010, ter a capacidade de surpreender o mais exigente melómano com uma canção destas.

We are in love with you, Ana

Foi um momento histórico. Daqueles em que a tradição deixou de ser o que era. Como se não bastasse a peregrina guitarra eléctrica entrar assim, sem mais nem menos, numa casa bem portuguesa. Como se não bastasse ela, a guitarra, ser tocada pelo maior mago que a música negra (passe o pleonasmo) deu ao mundo nos últimos trinta anos. Como se não bastasse isso, que já é quase tudo para quase todos, ainda veio Ela, não a guitarra mas a nossa Ana, de muito negro vestido como a tradição impõe, fazer o que a tradição nunca vira em mais de 150 anos na História do Fado. Subir a saia negra acima do joelho. E cantar o Fado como ninguém até então cantara. Fazendo do joelho feminino, tantas vezes injustiçado pelos estetas sem alma, uma obra de arte.

Desculpem a imagem, surripiada como é próprio de todas as raridades, não estar à altura do momento, da guitarra, do mago, da voz, do joelho e das pernas, da História. E, sobretudo, não estar à altura do nosso Amor. Yes, we are in love with you, Ana. Nunca um plural majestático veio tanto a calhar. Aproveitem bem o momento antes de o mago vir cá buscar as poucas imagens que escaparam à sua censura. E ele não vai deixar de o fazer. Vai querer a Ana só para ele. Ai vai vai.

 

Crise de meia-idade

Só pode ser da crise. Não a que está lá fora e que é de todos. Mas a que é só minha e de mais uns quantos (ainda assim, uns milhões, julgo eu) que evidenciam semelhantes sintomas. Chamam-lhe crise de meia-idade.

Tudo começou, parece, com a colecção de cromos do Mundial. A do Mundial de 2010 na África do Sul, bem entendido. Há precisamente 32 anos, tinha acabado de colar o último cromo (já não me lembro se foi o Bettega, o Lato, o Cubillas ou o Rensenbrink) da última colecção (de cromos) a que dediquei tempo e dinheiro: a do Mundial… da Argentina, em 1978! Já tinha idade para ter juízo, dizem-me agora insistentemente, enquanto me vêm – no escritório, na rua, em casa de amigos e por aí fora – a disputar os cromos mais raros com outros coleccionadores bem mais jovens (a propósito: ainda me faltam perto de 40, alguém tem para a troca?).

Mas o problema não seria grave se tudo ficasse por aí. Mas não ficou. Numa destas últimas noites decidi ir ver e ouvir ao vivo, no Optimus Alive, a grande revelação musical de 2009: os (The) XX, que para além de outros méritos têm a vantagem de me trazer à memória aquele que, na minha pessoalíssima opinião, foi o mais envolvente som de guitarra dos anos 80, o de Robert Smith dos (The) Cure. Como alguns saberão, os XX têm ainda uma outra particularidade, a de nenhum dos seus elementos ter mais de 20 anos de idade, o que torna verdadeiramente surpreendente, para além da excelência das suas canções, a maturidade que apresentam em disco e em palco. Mas o que me chocou não foi o facto de me ter visto rodeado, durante o concerto, de milhares de borbulhas juvenis que ameaçavam rebentar a cada acorde da guitarra ou do baixo. O que me fez espécie, sim, foi o de, pela primeira e única vez na minha já considerável existência de melómano modesto, o meu cérebro ter formulado a mais abominável das expressões, aquela da qual fujo como diabo na cruz: sim, o terrível “no meu tempo”, que pode ainda assumir uma variante ainda mais grave, a do “nosso tempo”. Há anos que receava este momento e a verdade é que ele, mais tarde ou mais cedo, teria de me dar as suas boas vindas. Dizer “no meu tempo” ou “no nosso tempo” era, para mim, a pior das pragas que me podiam rogar, pois representava a entrada irremediável no cárcere do passado, o prenúncio sério de uma nova fase da minha vida em que já nada teria a esperar do presente ou do futuro e tudo da recordação daquilo que já ouvira (e quanto mais remotas fossem essas recordações, mais vibrantes seriam aos meus ouvidos). Que o meu cérebro se tenha lembrado de cogitar “no meu tempo” a propósito das recordações dos eighties dos Cure para que me remetem os XX em nada diminui a gravidade do episódio. Já me imaginava igual àquelas velhas carcaças que encontrara 25 anos depois, encostados no mesmíssimo balcão do mesmíssimo bar, com as mesmíssimas camisas aos quadrados e os mesmíssimos sapatos de vela, a quem o tempo mumificara mas não se esquecera de tirar cabelo e acrescentar uma barriga proeminente. Os tais tipos que eu sempre desdenhara por terem “ficado nos Genesis e nos Pink Floyd” (com todo o respeito que me merecem os Genesis com Peter Gabriel e os Pink Floyd com Roger Waters). Igual a eles, gozado, agora e daqui a 10 anos, por todos aqueles com quem troco cromos como “o tipo que ficou nos Cure”.

Felizmente, um exame mais atento do “tempo” a que eu me referira fez-me perceber que tudo não passou de falso alarme: depois de ouvir os antigos Cure e os modernos XX, chego à inevitável conclusão que os primeiros existiram antes do seu tempo, ou se preferirem que o seu “tempo” não tem tempo. São ouvidos agora como o foram há mais de 20 anos e o serão daqui a 20. São simplesmente intemporais. Ouçam o intemporal Pictures of You do igualmente intemporal álbum Disintegration de 1989 e concluam os caros leitores/ouvintes por si próprios. Já quanto aos XX não estou assim tão seguro que resistam ao teste do segundo álbum.

  

Wanted

Fui ao Optimus Alive. Mas, antes de vos dizer aquilo o que lá vi e ouvi, deixem-me maçar-vos com um pedido a que a solidariedade masculina me obriga (nós, homens, temos destas coisas). Enquanto eu me concentrava na música noutro palco, um amigo, atraído pela batida dos Buraka Som Sistema, deu com ele nas primeiras filas da plateia sem tirar os olhos dela. Diz-me ele que toda a sua vida se iluminou naqueles minutos em que ficou a observá-la. Que finalmente percebeu o que faz no mundo, que era este o momento pelo qual esperava desde que nasceu. Acontece que, numa fracção de segundo de distracção dele, ela se escapuliu sem deixar rasto. Ou melhor, sem deixar rasto para onde foi, porque o que deixou no meu pobre amigo é tão profundo que ele não consegue pregar olho desde então. Vai daí e o homem não desiste de procurá-la em todo o lado. E de se servir de todos os meios para conseguir localizá-la. Incluindo este que vos deixo. Estou certo que não levarão a mal que eu próprio me sirva, para o efeito, do manancial de informação que representam os nossos cerca de 400 visitantes diários (que provavelmente passarão para o dobro depois deste anúncio). Qualquer dado sobre o paradeiro dela será devidamente recompensado. E nada de julgarem que isto é obra da silly season. O amor é uma coisa muito séria. Vejam lá se o ajudam.

O que eu não ando a escrever

Não era este o post que tinha em mente. Queria escrever sobre uma certa Senhora Ministra. Em relação à qual sentia que devia uma justificação a alguns leitores e co-bloggers. Mas veio a minha consciência soprar-me ao ouvido que não era próprio. Que a sucessão de ditos infelizes é certamente imputável à falta de uma assessoria de imprensa capaz de filtrar o que passa cá para fora. Enfim, que tudo não passa de uma má fase e que a Senhora Ministra acabará levada em ombros (talvez numa produção fotográfica da Vogue francesa) por aqueles que ainda não reconhecem a sua irresistível beleza e capacidade de sedução. Que, num futuro não muito distante, será elogiada pela sua coragem em pôr em prática um processo de tomada de decisões que combina os critérios economicistas tão em voga com a mais perfeita forma de democracia que se conhece. Para quê governar como os seus colegas de governo, que perdem tempo e dinheiro em encomendar estudos de mercado, sondagens e inquéritos aos governados para saber como decidir? É ou não muito mais barato, fiável e eficiente iniciar o processo que leva à decisão pela decisão soi-même? Como é que ninguém percebeu que, se a decisão for manifestamente absurda, logo virá o meio em peso manifestar-se com estardalhaço para dizer como os senhores e as senhoras ministras devem decidir afinal? Nada mais simples do que revogar uma má decisão lançada como o barro à parede e substitui-la por outra que resulte da indignação das massas. E que genial é a ideia de perpetuar o exercício do poder pela eliminação, pura e simples, desse disparate a que alguns politólogos se lembraram um dia de chamar “responsabilidade política”. Se um treinador de futebol se pode escusar de responsabilidade pelos golos de baliza aberta que os seus jogadores falham, porque não os senhores ministros e ministras transferirem sempre a responsabilidade pelas tais más decisões para os seus directores-gerais? Sempre sem perder de vista, claro, a vox populi, porque manda o bom senso que, se o jogador — ainda que incompetente — é popular aos olhos das massas, deve o treinador evitar despedi-lo e esperar que ele, jogador, o faça, para depois fazer dele um vilão e festejar o acto com pompa e circunstância.

Mas, como dizia, bem ou mal veio a minha consciência alegar impedimento bastante para escolher o assunto como tema de post. Não estou sequer autorizado a postar uma imagem alusiva ao tema. E assim fiquei sem post. E a verdade é que não me ocorre mais nada para escrever.

Afinal, há censura a Ocidente para lá de Braga

 

Acabo de saber pelo Actual do Expresso de hoje que esta capa, que faço questão de vos mostrar, do novo álbum dos Scissors Sisters, “Night Work”, foi censurada no Facebook, porque os respectivos gestores consideraram que era “inapropriada e excessivamente explícita” (sic).

Julgava, sincera mas porventura ingenuamente, que, no mundo ocidental, assomos de moralidade deste tipo eram exclusivos de forças policiais de Braga que confundem a “Origem do Mundo” de Courbet com pornografia. E que seriam impensáveis numa rede social à escala mundial onde, todos os dias, se publicam milhares ou milhões de conteúdos – usurpados, emprestados, livremente utilizáveis ou originais, não interessa – que, pelo menos de um ponto de vista legal, encaixam na noção de obra de arte (ou simplesmente “obra”, se não lhe quiserem chamar “arte”).

Ora, independentemente do grau de pânico homossexual que os atormente, deveriam os senhores gestores do Facebook saber que, por definição, a capa de um disco é, em si mesma, uma “obra”. E deveriam ter ainda a noção, ainda que vaga, de que Robert Mapplethorpe, o autor da fotografia em causa (a quem o JNA já dispensou aqui uma bela prosa), foi um dos grandes fotógrafos da segunda metade do século passado. E, mais ainda, deveriam os senhores gestores do Facebook saber que essa polémica foi chão que já deu uvas, sim, mas há 39 anos, quando os Rolling Stones editaram “Sticky Fingers”. Não tanto pela capa traseira, que exibia também umas nádegas masculinas em versão “jeans”, e de que esta capa dos Scissors Sisters é uma evidente actualização. Mas pela capa da frente, que mostrava o outro lado das “jeans” com uma protuberância nada inocente.

Fica a dúvida, apenas, se se trata de pura ignorância, de uma manifestação de moralismo atávico ou de uma manobra publicitária para os Scissor Sisters potenciarem vendas. Ou, hipótese mais provável, que haja um pouco de tudo isto.

Em todo o caso, convém prepararmo-nos para eventuais censuras aos nossos “portentosos rabos”. E não sei se o facto de os nossos serem “portentosos” (ao contrário dos outros, dos Stones e dos Scissor Sisters) nos ajudará muito.  

 

“O décimo primeiro melhor jogador do mundo”


Outros tempos

Antes do Mundial começar, parecia uma batalha perdida, isso de combater a provinciana (e exclusivamente portuguesa, claro) obsessão pelo epíteto de “melhor do mundo” que se insistia em colar a Cristiano Ronaldo até ao fim dos seus dias de jogador de futebol. Pouco interessava que existisse Messi desde que a expressão continuasse na boca de todos. Bastava que lhe acrescentassem “depois de Messi” ou a fizessem anteceder de “segundo”.

Por incrível que pareça, poucos portugueses se atrevem a deixar de lado a adjectivação mesmo depois da paupérrima prestação de CR9 no Mundial. Se fazem tanta questão em insistir no superlativo, quem sou eu para dizer o contrário. Mas impõe a decência, então, que se reveja o número dos que o antecedem no posto de “melhor do mundo”. A avaliar pela FIFA, são pelo menos 10, a saber: Sneijder e Robben (Holanda), Villa, Iñiesta e Xavi (Espanha), Ozil e Schweinsteiger (Alemanha), Messi (Argentina), Forlán (Uruguai) e Asamoah Gyan (Gana). Um deles, amanhã, será o melhor jogador do Mundial. Da minha parte, acrescentaria ainda o melhor jogador alemão do Mundial, Thomas Muller, mas esse foi desviado, juntamente com Giovanni dos Santos (México) e Andre Ayew (Gana), para o prémio de melhor jogador jovem do torneio (Coentrão, por ter nascido antes de 1 de Janeiro de 1989, falhou por pouco a candidatura). Do ponto de vista estritamente artístico, o meu voto vai direitinho para Robben, que deu cabo de todos os laterais que lhe apareceram pela frente e que é, sempre, garantia de espectáculo se estiver em condições para jogar. Que se cuidem os espanhóis porque ele, sozinho, é bem capaz de dar o título à Holanda numa jogada de contra-ataque. Mas, se juntarmos à nota artística os mais elevados índices de eficiência da prova, o vencedor já está mais do que encontrado: Wesley Sneijder, pois claro. E, se a final ainda servir para alguma coisa no prémio (a avaliar pela cabeçada do Zidane ao Materazzi há quatro anos, parece que não), Xavi, Villa e mesmo Iñiesta ainda têm uma palavra a dizer.

E que a FIFA nos faça o favor, já agora, de obrigar o “décimo primeiro melhor jogador do mundo” a receber lições de liderança e humildade de um grande senhor chamado Diego Forlán que, com uma equipa em nada superior à portuguesa (em valores individuais, claro), arrancou exibições perfeitas, jogando e fazendo jogar sem querer ter a bola só para si. E com a vantagem de saber o que está a fazer quando arrisca um remate a 40 metros da baliza. 

Sintonia de amor




É o meu último olhar. O último que lhe dirijo antes de acabar com isto de uma vez por todas. A resposta é a mesma de sempre: ele, imperturbável, agarrado aos seus papéis, fingindo que não estou aqui. Sem fazer ideia de que só existo para ele. Já chega. Cinco anos desde o primeiro dia em que aqui cheguei para que nada lhe faltasse. E pelo menos quatro desde o dia em que comecei a vestir-me para ele, a pentear-me para ele, a perfumar-me para ele. Até o corpo mudei para que, quando finalmente ele me tivesse nos braços, nunca mais de mim se quisesse separar. Um ano de salários custaram os implantes. Para nada. Nem um sorriso quando me vê aqui, quase de madrugada, servil, à espera das ordens dele. E eu, na ausência dele, com este irreprimível desejo de tocar em todos os objectos por onde passaram as mãos dele que eu nunca apertei, de sentir o seu aroma na gravata preta que ele aqui deixa para as ocasiões fúnebres. E quando ele me chama ao gabinete como agora, só eu e ele no gabinete, como me apetece apontar-lhe o fecho do meu vestido para que ele o abra e o deixe a meus pés, e eu pronta para lhe entregar o meu corpo que, se não for dele, de nenhum outro homem será. Se não for dele, de nenhum outro homem será. Se não for dele, nem eu própria serei mais. Chega. Já que não sou dele, não quero ser mais. É o meu último olhar. O meu olhar de despedida. Amanhã já não serei mais. Amanhã, quando ele me encontrar esvaída em sangue na casa de banho dos fundos, com a fotografia dele numa mão e a pistola na outra, já não serei mais. 

………………………. 

É a última vez que resisto. É hora de acabar com este sofrimento de uma vez por todas. Eu, para aqui imperturbável aos olhos dela quando Deus sabe quanto perturbado ela me faz ficar, agarrado aos meus papéis, a fingir que não dou por ela. Como seria maravilhoso que ela só existisse para mim. Desde o primeiro dia que ela aqui chegou como desejei eu um dia ser tudo para ela. Desde aí como gosto eu de imaginar que ela se veste para mim, que se penteia para mim, que se perfuma para mim. E como sonho, em todos os minutos em que estou acordado ou a dormir, com as formas perfeitas que o vestido dela esconde. Ah, como invejo o homem que a tem nos braços todas as noites. Como invejo o homem que faz arfar de desejo aquele peito magnífico. Sim, ela não consegue esconder que é uma mulher que vive em estado de graça por um homem. Daria tudo para não ser quem sou só para poder ser ele. E por ser quem sou nem me atrevo a olhar para ela. Não me atrevo sequer a sorrir-lhe quando ela me cumprimenta de manhã. Trair-me-ia. Expor-me-ia ao ridículo deste amor que não mereço. E como sofro por não a merecer. Como sofro por ser eu e não quem a merece. Mas é a última vez. Amanhã já não sofrerei mais. Amanhã já não serei mais eu. Amanhã, quando ela me encontrar esvaído em sangue na casa de banho do meu gabinete, com a fotografia dela na mão e a pistola na outra, já não serei mais eu.

Queiroz ao telefone com Mourinho

 

Reacção de Mourinho para todos os que queiram futebol de ataque contra a Espanha

Um mito começa a ganhar forma na África do Sul. O de que José Mourinho — ele mesmo, o special one – está em comunicação permanente com Carlos Queiroz. Segundo consta, é ele que, entre dois banhos nos seus areais de Ferragudo, dá a táctica, decide quem joga a defesa-direito, trinco ou ponta de lança, manda a equipa abrir ou fechar, jogar em 4×3×3 ou em losango. E, claro, não se coíbe de gritar ao ouvido do Professor o timing certo para pôr em prática a revolucionária estratégia do Inter em Nou Camp, ou seja, qual o momento certo, durante um jogo de grande assédio, para Ronaldo, Tiago, Meireles e Simão devolverem a bola ao adversário, para não correr o risco de “desposicionar” a equipa (parece que só o melhor lateral-esquerdo do Mundial, Fábio Coentrão de seu nome, tem ordens para desobedecer à ordem). Claro que, para não deixar à vista o estatuto de fantoche de Queiroz, Mou tem de lhe conceder alguma liberdade. Pelo menos permitir-lhe a marca de autor de qualquer treinador que se preze, a chamada “invenção”, ou que traduzido para português é capaz de dar qualquer coisa como Ricardo Costa. Nada de grave desde que a aventura tenha lugar em jogo de diminuto risco. E desde que, quando é a sério, Mourinho reassuma as rédeas.

Hoje, às 19.30 portuguesas, estou certo que Queiroz saberá interpretar convenientemente todas as mensagens que Mourinho lhe fará chegar nos 90 minutos que se seguirem. E que não se deixará levar pelas exigências de futebol artístico que lhe fará uma boa parte dos treinadores de bancada da nação. Que venha o futebol feio e duro, que, quer se queira quer não, é comum a todas as equipas que, depois do fabuloso Mundial de 82 e com a honrosa excepção da elegante França de 98, levantaram a Taça. Que venham onze jogadores atrás da linha da bola que se limitem a não deixar jogar os espanhóis e a não desperdiçar a única oportunidade de que disponham para bater Casillas. E que não me venham, por favor, com histórias de que não estamos a jogar nada porque não chegamos a 40% de posse de bola.

Ao fim de quase 20 anos de futebol sénior, e com ou sem Mourinho a soprar-lhe ao ouvido, parece que o impossível aconteceu: que Queiroz sabe o que quer e como lá chegar. O problema é que bastará uma pequena distracção na disciplina tão pouca lusa para tudo se desmoronar. Esperemos que não se distraiam e que alguém faça de Nuno Gomes. Eu, que pouco acreditava antes do Mundial, agora até acredito.

Crónicas do Reino da Dinamarca (4)


A entrada no paraíso falhado de Christiania

É apresentada como uma comunidade com um estilo de vida alternativo. E ostenta mesmo a ambiciosa denominação de “Freetown” ou de “Estado Livre de Christiania”. À entrada, uma placa diz-nos que já não estamos em território da União Europeia. E presumimos que nos querem fazer crer também que, apesar de estarmos perto de centro de Copenhaga, o Reino da Dinamarca ali não manda nada. Na verdade, desde 13 de Novembro de 1971, data em que um grupo de hippies ocupou um conjunto de armazéns militares abandonados e fundou uma comuna num perímetro por eles delimitado, que Christiania tem resistido a cíclicas tentativas de desalojamento dos seus habitantes (agora, cerca de um milhar) – e o ciclo é o mesmo das flutuações políticas, que oscilam entre governos sociais-democratas que lhe dão o benefício da dúvida como “experiência social” e governos conservadores-liberais que a vêm como um antro de delinquência e marginalidade. A seu favor, alegam os habitantes de Christiania um sistema de valores assente na vida comunitária e na comunhão com a natureza, assegurado por infraestruturas próprias e financiado pelas receitas que o comércio de artesanato e a exploração de cafés e restaurantes lhes assegura, em grande parte provenientes daqueles que a visitam. Bem como invocam o acolhimento que prestam a todos os deserdados da sociedade, para os quais o Estado (o oficial) já não tem lugar. Paz e amor para todos, em que a única propriedade que existe é colectiva. Em teoria, o paraíso na terra, do tipo de socialismo associacionista (ou de cooperativa) que Fourier e Owen já anunciavam no século XIX e que o segundo chegou mesmo a tentar pôr em prática sem sucesso algum.

A verdade é que, mesmo para um visitante curioso sem preconceitos sobre projectos do género, basta uma volta de cinco minutos para o cepticismo se instalar. Cedo se desconfia que a principal fonte de receitas da comunidade é o cannabis, que é promovido e vendido, à vista de todos e sem prurido algum, na praça central de Christiania. Isto, esclareça-se, num país em que a simples posse da substância é punível criminalmente. Os armazéns que servem de habitação e de oficina lá estão, mas num estado de degradação e insalubridade que não se recomendam a vagabundo nenhum. E os deserdados – que, segundo nos contam, não são nem os fundadores da comunidade nem os seus descendentes, que, desencantados, optaram por se mudar para outras paragens – também marcam presença, embora muitos deles não pareçam sequer saber onde estão.

É difícil evitar que nos venha à memória a ambiguidade da palavra “beat” com que Jack Kerouac baptizou a sua geração de alienados. “Beat” aproxima-se, aqui, do seu significado literal, do loser desiludido sem esperança alguma, parecendo longe, muito longe, do sentido de beatitude que, levado pela batida (“beat”) desenfreada do bop dos anos 50, Kerouac e seus parceiros de viagem procuravam, e que os hippies, nos anos 60/70, com diferentes fundamentos embora (musicais e não só), recuperaram.

Crónicas do Reino da Dinamarca (3)

Andava eu em deambulações culturais pela liberal Copenhaga quando deparei com isto em exposição na galeria de um dos mais importantes monumentos da cidade:  

Confesso que fiquei baralhado. Seriam as expressões captadas pela mão do artista (dinamarquês) uma reprise ou reinterpretação do misto de sofrimento e fervor místico que deixa transparecer o facies desta magnífica Joana D´Arc de Rodin, que vira na véspera no já referido Ny Carlsberg Glyptotek?

 Ou dar-se-á o caso de ter já chegado a terras escandinavas o lastro da “nossa” Clara Pinto Correia, iniciado na cama da própria, exposto ao público na bem menos liberal Cascais e aqui questionado pelo Gonçalo?  

Crónicas do Reino da Dinamarca (2)

Carl Jacobsen não foi só filho do fundador, e ele próprio administrador, da fábrica de cerveja Carlsberg. Com os rendimentos que a cerveja lhe trouxe, construiu, a partir do embrião deixado por seu pai, uma das mais belas e valiosas colecções de esculturas que o mundo conhece e que hoje pode ser vista no Ny Carlsberg Glyptotek de Copenhaga. Predominam obras das culturas antigas do Mediterrâneo – egípcia, romana e grega — mas não só. Porque foi um dos principais patronos ou mecenas de Auguste Rodin, Carl Jacobsen dotou o museu de obras que para ele foram criadas expressamente pelo escultor e ainda de cópias (uma prática frequente em Rodin) ou variações de outras das mais famosas como os Burgueses de Calais ou o Beijo. Quem não consiga dar um salto a Paris, ao Museu Rodin, não disporá certamente de melhor local para admirar a obra do escultor. E, acrescento, em nenhum outro lugar do mundo, se poderá, pelo menos por enquanto, ver a fabulosa Nature Study da recentemente desaparecida Louise Bourgeois. E que bem fica ela na companhia das estátuas de Rodin.

 

A Nature Study de Louise Bourgeois na companhia de Rodin

Crónicas do Reino da Dinamarca (1)


H.C. Andersen olhando com orgulho para o Tivoli

Já imaginaram um parque de diversões como espaço cultural de referência de uma capital europeia? Só a ideia é suficiente para provocar náuseas à nossa esquerda caviar. E de provocar gargalhadas na direita conservadora cá do burgo, para a qual cultura só rima com património. Admitir que o chamado entretenimento fácil, ou a cultura de massas, pode conviver e mesmo potenciar o acesso à pomposamente denominada alta cultura ou cultura cultivada, só pode ser brincadeira. Mas a verdade é que pode não o ser. Se os milhares de crianças que visitam diariamente o parque de diversões, num momento de pausa entre uma montanha russa e um comboio fantasma, se deixarem hipnotizar por um concerto promenade, um espectáculo de pantomima ou de bailado, ou pela representação teatral de um conto do Hans Christian Andersen, a questão pode ser mesmo muita séria. Sobretudo se for transportada para um país – adivinhem qual — em que teima em não existir, no ensino primário e secundário, um programa de educação artística das crianças que a não conseguem ter em casa, só porque, como qualquer reforma profunda, o mesmo custa dinheiro e não dá votos a curto prazo. E se a “feira popular” que é, ao mesmo tempo, país das maravilhas e centro cultural, albergar, ainda, um jardim botânico e alguns dos melhores restaurantes da cidade, o milagre está cumprido. E se vos disser ainda que o talhão de terreno onde tudo isto acontece se situa bem no coração da cidade, e ai de qualquer especulador imobiliário que se atreva a disputá-lo, logo verão que não é do Parque Mayer que vos estou a falar. Podia ser mas não é. É ao Tivoli que me refiro. Não o nosso – hélas uma vez mais – mas o (jardim do) Tivoli de Copenhaga, um dos ex-libris da cidade sem vergonha nenhuma.

No Reino da Dinamarca

Fui de visita ao Reino da Dinamarca. À revelia e sem o aval da Eugénia, como a própria tornou aqui público. Por boas causas, porém. Para lhe fazer a vontade de trasladar o corpo da Karen Blixen para junto de nós. Mas para muito mais também. Para inspirar a Teresa com histórias de exploração do Rasmussen e do Bering. Para acrescentar à lista de santos da Joana algumas fadas do Hans Christian Andersen. Para apresentar ao Gonçalo provas da existência de Odin. Para dar a ouvir ao Vasco sons do underground de Copenhaga. Para aprender o mínimo do Niels Bohr e não fazer má figura com o Francisco. Para tranquilizar o PMS quanto à possibilidade de recuperação da sanidade mental do Von Trier. Para tentar o regresso do Peter Schmeichel ao outro lado da Segunda Circular e devolver à baliza do Sporting a dignidade que o JNA merece. Para arriscar a improvável conjugação de uma cadeira do Arne Jacobsen com os areais de Fortaleza do Ruy. Para contar ao António que vestígios do Bardo se escondem nas paredes do castelo de Elsinore. Para trazer um raio x da Helena Christensen para o PN. E para recolher para o Manuel uma cópia do testamento do Kierkegaard.

Escusado será dizer que não cumpri os objectivos mínimos da viagem. Pois é, distraí-me com outras preocupações, bem menos nobres e dramáticas. Quem sabe, se a Eugénia me perdoar a traição ao Santo António, talvez até as traga aqui nos próximos dias.

O regresso do lenço da Joana

Os Altered Images, banda escocesa nada e desaparecida na década de 80 em plena euforia new wave, ressuscitou mesmo. Apenas para vir ao nosso cemitério, por um único dia e para homenagear a aniversariante de hoje. Se alguém tem dúvidas quanto a isso, digam lá se o lenço que a Clare Grogan* traz na cabeça (ou será o da cintura?) não é o mesmo que a Joana usou na atrevida prova que nos descreveu aqui. E para que fique claro: foram eles que insistiram em vir, que nós não somos gente de implorar encontros com artistas.

* Agradeço à wikipédia ter-me salvo de grande figura de malcriado perante a simpática e generosa artista, pois nem nos baús mais poeirentos da minha memória encontrei o nome dela.