
Klaus Kinski um querido morto? Convenhamos que, de querido, o homem pouco teve ao longo da sua vida. Não me terei enganado na coluna? Pensarão alguns, enquanto juram a pés juntos que o actor fetiche de Werner Herzog assentaria que nem uma luva numa história de infâmia, muito mais do que numa homenagem como esta. E quem sou eu para os desmentir. Se o próprio Herzog sofreu na pele os excessos do seu best friend Kinski, ao ponto de, segundo reza a lenda, o ter ameaçado de morte na rodagem de Fitzcarraldo, nada mais me resta senão juntar-me ao coro de todos (e são todos mesmo) os que dele guardam a imagem de um demente violento, narcísico e obsessivo, capaz de explosões coléricas em pleno plateau pelo motivo mais insignificante, de deixar pendurada uma equipa inteira de filmagem enquanto não lhe satisfizessem o capricho mais extravagante e outros devaneios do género.
Bastam umas breves pinceladas biográficas para nos rendermos ao lado atormentado da personagem. Uma infância e adolescência atribuladas em Berlim, que o levaram inclusive a ter de roubar para comer, o recrutamento forçado na Wehrmacht na Segunda Guerra Mundial, a deserção e a rendição às tropas britânicas e o aprisionamento num campo inglês ajudam a explicar o seu comportamento pouco convencional. Foi na prisão, aliás, que começaram a despontar dois traços marcantes do seu percurso: o seu talento nas artes da representação, que deixou à prova nos espectáculos organizados para manter o moral dos seus colegas de campo; e o seu temperamento obsessivo, perto da loucura, bem evidenciado nos estratagemas que usou para merecer o privilégio da deportação reservado aos doentes: permanecer nu na zona exterior da prisão pela noite fora; beber urina, comer cigarros, e outros que tais. De regresso à Alemanha, decidiu apostar numa carreira de actor autodidacta mas só mais de dez anos depois – após alguns despedimentos, um diagnóstico de esquizofrenia e duas tentativas de suicídio falhadas – começou a adquirir uma certa reputação na Alemanha, Áustria e Suíça como spoken word artist e declamador de François Villon, Shakespeare e Oscar Wilde. No cinema, ao longo dos anos 50 e 60, vieram os filmes de guerra, uma especialização em personagens de Edgar Wallace, os western spaghetti, os série b e os exploitation movies, antes do reconhecimento internacional à larga escala com Herzog e o seu Aguirre, The Wrath of God, em 1972. A partir daí, muitos grandes mestres, de Fellini a Visconti, de Pasolini a Spielberg, quiseram tê-lo nos seus elencos, mas a todos deu negas, preferindo continuar a trabalhar com realizadores de menor notoriedade para nunca correr o risco de ver negadas as suas exigências de primadonna, para que lhe fosse sempre garantido, a ele e só a ele, o estatuto de grande estrela das produções em que entrava.
A excepção foi, sempre, Herzog, que cedo percebeu que pouco ganhava em domesticar o incorrigível feitio de Kinski e que, como nenhum outro, conseguiu capitalizar para o grande écran a sua raiva e agressividade. Por alturas da estreia de Aguirre, tinha onze anos de idade a sua filha Nastassja, que, para os seus detractores, foi aquilo que de mais relevante produziu em toda a sua existência. Embora tenha, em certo período da minha juventude, feito parte do grupo alargado dos que reconheceram estatuto de divindade a Nastassja, permitam-me discordar de tamanha injustiça. Um só nome, de filme e de personagem, bastariam para guindar Klaus Kinski à galeria da imortalidade: Fitzcarraldo, nome que lhe deram os indígenas de Iquitos que não sabiam pronunciar o nome do sonhador e idealista (Brian Sweeney) Fitzgerald.
Com Fitzcarraldo, Herzog conseguiu aproveitar a loucura de Kinski para os mais altos desígnios a que o ser humano pode aspirar. Numa época — a dos dias que correm – em que a cultura deixou de ser prioridade e é considerada pelos economistas que dominam o mundo como um gasto supérfluo e dispensável, a quixotesca empreitada de Fitzcarraldo – trata-se, literalmente, de mover uma montanha para levar uma ópera à selva amazónica – permanece como o último reduto de sonho que a cada um de nós pode e deve ser permitido. Numa era em que a cultura nem do seu factor simbólico se pode valer (até o Ministério da Cultura, ingloriamente, se foi), a simples ideia da música de Verdi ou Bellini, ou a voz de Caruso, terem o condão de apaziguar os espíritos malignos da natureza, ou de demover os temíveis jívaros – afinal, tão inocentes como Fitzcarraldo – do seu hábito de cortar e reduzir cabeças humanas é, no mínimo, reconfortante. Que me perdoem o cliché, mas haja uma ínfima partícula de Brian Sweeney Fitzgerald em cada um de nós, e teríamos certamente um mundo melhor. Para ficarmos ainda mais falidos, dirão os (sempre eles) detractores de Kinski? Talvez falidos, sim. Mas muito mais felizes. Que me perdoem, uma vez mais, as mentes lúcidas que fazem avançar o mundo, mas, se há imagem que me ocorre sempre que alguém se insurge contra um orçamento digno para a cultura, é a de uma cidade inteira em êxtase absoluto, em plena Amazónia peruana, com uma companhia de ópera a actuar no convés de um barco a vapor. E essa é, também, a imagem que guardo de Klaus Kinski: não o do insuportável cabotino que mais não fazia do que representar-se a ele próprio, mas a do idealista inocente, que move montanhas para levar a sua paixão até aos confins do mundo.