Quem me ensina a gostar de musicais? Provavelmente, só mesmo o nosso Manuel S. Fonseca. Depois do seu Busby Berkeley e, agora, do Guys and Dolls em que até o improvável Brando adere ao género, o meu complexo começa a ser insustentável.
Tudo começou com o Jacques Demy, o grande culpado deste meu trauma de adolescência, numa tarde de tédio outonal em que a televisão era a única alternativa ao ócio, e o “segundo canal” me presenteou com o Les Parapluies de Cherbourg quando no “primeiro” ainda passava a tele-escola. Eu sei, eu sei, que o defeito é meu em não saber reconhecer os louvores que toda a comunidade cinematográfica bem-pensante dispensa ao filme. Mas para mim foi penoso ver a bela Deneuve naquelas figuras a cantarolar. Desde então, só obrigado ou por extrema devoção aos mestres “que viviam angustiados porque faltava um musical na sua versátil e genial carreira” me desloco a uma sala em missão de sacrifício contra-natura, que é a de ver e ouvir as personagens cantarem em vez de falarem. Não se trata de não apreciar Gene Kelly a dançar à chuva, Fred e Ginger a sapatearem, Cyd Charisse a exibir as pernas, Garland over the rainbow, e até Bjork a esvair-se em sofrimento, não, de tudo isso retiro tanto prazer como os mais indefectíveis do género. É só uma questão de não conseguir aderir à obra, ao projecto como um todo, e não como mero somatório de bons momentos, soltos e desgarrados, de cinema, música e dança. Simplesmente, não acredito no que vejo e, por isso mesmo, a magia do cinema, sem a qual ele não vive, não está lá para mim.
Mas, enquanto a minha reconversão não toma forma, sinto o inescapável dever de deixar de fora da minha “malaise” os “falsos musicais”, ou “quase musicais”, que alguns, à falta de catalogação melhor, enfiam no mesmo saco das obras dos mestres Busby Berkeley e Vincent Minnelli. Filmes como Cabaret de Bob Fosse, Romeu and Juliet de Baz Luhrmann e One From the Heart de Coppola, entre outros, pertencem a essa categoria em que, em momento algum, existe a tal cisão a partir da qual o cinema deixa de ser crível aos meus olhos. Os personagens, aí, ou não cantam ou só o fazem quando o guião lhes pede que façam de cantores num espectáculo dentro do espectáculo/filme (caso de Liza Minnelli/Sally Bowles em Cabaret). Ou, no limite, como em Romeu and Juliet, surgem algumas personagens secundárias num registo de “musical” mas sem nunca contaminarem o filme. Estes fimes, embora impropriamente qualificados como “musicais”, só o são na medida em que é a banda sonora que vai desfiando a narrativa, que se assume como monólogo interior das personagens, que marca o ritmo e a sequência de cada uma das cenas.
De entre estes “falsos musicais”, destaco One From the Heart, o filme que, de tão excessivo — no perfeccionismo dos cenários oníricos e na desproporção com que a bilheteira não correspondeu ao orçamento — levou Francis Ford Coppola e o seu American Zoetrope Studios à falência. Nele, o registo de (quase) “musical” da maravilhosa banda sonora de Tom Waits e Crystal Gayle faz parte do encantamento e é pressuposto necessário para aquela Las Vegas de conto de fadas que a imaginação de Coppola construiu. Nele, tal registo é reclamado pela própria intensidade do amor — ou da falta dele — de Hank (Frederic Forrest) e de Frannie (Teri Garr), porque é essa a linguagem dos sonhos a que ambos se agarram.
Chegado a este ponto, só vos peço, Manuel e outros amantes incondicionais dos true musicals de Berkeley e Minnelli, que me façam gostar tanto deles como gosto de One From the Heart.