In Memoriam — Mark Linkous


Mais um grande talento da música que nos deixa prematuramente. Partiu porque quis e, provavelmente, porque percebeu de vez que o “It´s a Wonderful Life” que (en)cantava só existia no mundo de perfeitas harmonias que a sua voz e guitarra criaram para os Sparklehorse. Deixa-nos com esse legado, um dos mais brilhantes álbuns da década agora finda, tantas vezes ouvido no silêncio da noite profunda e dos poucos que, sempre que nele pegava, acabava invariavelmente por ouvir não uma, mas duas e três vezes seguidas, e sempre como se fosse a primeira.

 

Para ficar na sala mesmo até ao fim

Mesmo que não pertença ao restrito círculo de cinéfilos snobs que não arredam pé de uma sala de cinema antes de passar no écran a última linha de créditos do genérico final, há uma razão muito forte para que fique mesmo até ao fim da projecção em Shutter Island, o novo filme de Martin Scorsese. Lamento informar que não será ainda a tão aguardada explicação de Marty sobre as misteriosas razões que o levam a insistir em Leonardo Di Caprio para todo o tipo de papéis. It´s all about a song. Sim, uma canção que o fará dar por muito bem empregue esses seis minutos suplementares que permanecerá na sala. Uma canção que, só por si, justificaria um Oscar para o filme, não fosse este não ter estreado a tempo de concorrer aos prémios deste ano, e não lhe faltasse a ela, à canção, o requisito da originalidade necessário para receber a estatueta. Na verdade, é apenas um velho clássico de Dinah Washington (“This Bitter Earth”) adaptado a uma composição de Max Richter (“On The Nature of Daylight”). Se não quiserem levar com o Di Caprio durante duas horas e meia (duas horas e meia, apesar de tudo, muito bem passadas, como quase sempre acontece com Scorsese) só para terem o prazer de a ouvir, façam favor de a ouvir já aqui.

 

Von Trier antes de dogmas e depressões

Eu sei que pode ser difícil para alguns de vós. Mas tentem voltar a um tempo em que, para Lars von Trier, ainda não havia dogmas nem o cinema era (só) uma terapia para curar depressões. Recuem a 1991 e atrevam-se a mergulhar fundo no sombrio mundo de Europa. Nada de transcendente, basta deixarem-se levar pela voz hipnotizante de Max von Sydow enquanto contam até 10. Quando a contagem acabar, garanto-vos que já não se lembrarão do Antichrist. Depois, à medida que o filme avança, não se espantem se tiverem vontade de engolir os impropérios que, ainda recentemente, dirigiam ao pobre Lars. No final, ficará uma esperança: a de que Lars von Trier, um destes dias, voltará a ser genial. Como o foi em Europa.

 



A propósito de um cartaz

Ponto prévio: independentemente da opinião que tenha sobre o assunto (que não é para aqui chamada), nada me move contra quem procure sensibilizar a opinião pública para a abertura legal da adopção a casais homossexuais. Ainda que para tal recorra a campanhas publicitárias.

Mas, ou eu percebi mal, ou este cartaz da responsabilidade da ILGA (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero) que vos deixo acima — com a imagem de uma criança nos braços da mãe acompanhada pela pergunta “Se a tua mãe fosse lésbica, mudava alguma coisa?” – está a interpelar directamente a criança, ou melhor todas as crianças do país que saibam ler, mesmo que nenhuma noção tenham sobre o significado da palavra “lésbica” ou sobre o objectivo que a pergunta esconde? Ou eu percebi mal ou o que o cartaz pretende é levar crianças que mal saibam articular duas palavras a questionarem as suas mães sobre a resposta a dar à pergunta? E levar as mães atarantadas a inventarem o que lhes vier à cabeça só para não terem de explicar, logo ali, a uma criança de 6, 8 ou 10 anos, o que é ser lésbica, gay ou transgender, e o que é ter duas mães ou dois pais em vez de um pai e uma mãe? Acabando, porventura, a desvalorizar a questão perante o filho e por lhe criar a convicção — ainda naquele estado muito embrionário de convicção que ele terá mas nem por isso com menor capacidade de subliminar e imperceptivelmente lhe determinar as opções do futuro — que aquele “se” e aquele “mudava alguma coisa” pouco importância têm e que é absolutamente indiferente que a mãe seja lésbica, o pai gay, que tenha duas mães e nenhum pai ou dois pais e nenhuma mãe, como a mesma leveza com que pode ser indiferente que o pai ou a mãe prefiram batatas fritas a arroz como acompanhamento do bife?

Ou eu percebi mesmo mal ou o que esta campanha faz é recorrer a um truque grosseiro de manipulação emocional para conseguir os seus intentos. Trata as crianças como adultos quando sabe que elas não o são, dá-lhes a capacidade de entendimento que sabe que elas não têm. Finge ignorar a situação de inferioridade em que as crianças se encontram — e que a lei e a Constituição tutelam em sua protecção — para a explorar e dela tirar partido sob a mentirosa veste do “politicamente correcto”.

Se o empenho da ILGA  na mudança de mentalidades é louvável, não será certamente com manhas destas que lá chegará. Muito pelo contrário, se continuar a entender – como aqui o entendeu – que os fins, por mais meritórios que sejam, justificam todos os meios, corre o risco de se descredibilizar e de contribuir para um passo atrás numa discussão que se quer leal, saudável e plural. 

F#%-se A Mota É Linda!

Ainda não se veste de angorá nem tem o Tim Burton e o Johnny Depp à perna. Mas é um sério candidato ao título de Ed Wood português. O seu nome é Jorge Montereal e escreveu e realizou A Última Famel, uma sentida homenagem à extinta Famel Zundapp (para os íntimos F#%-se A Mota É Linda!) de saudosa memória. Embora o tenha feito a custo zero, conseguiu juntar esta noite na sala grande do S. Jorge mais pessoas do que muitos filmes portugueses de orçamento elevado conseguem em dezenas de sessões (pouco importa se a entrada foi também a custo zero e se eram todos seus amigos ou conhecidos). Como bom exemplar de série Z (não me atrevo a enfurecer Roger Corman lá no seu túmulo de letra B), nunca verá a luz do dia da distribuição mas arrisca-se a ser um fenómeno de culto entre coleccionadores de bizarrias cinematográficas.

Diligência


O diligente Gennaro Gattuso

Tarefa ingrata esta a de escrever sobre a mais enganosa e menos desejada de todas as virtudes. Quem a tem verdadeiramente não a quer para nada e quase toma como ofensa que qualifiquem como simples produto do esforço e do trabalho aquilo que gosta de ver como resultado do talento. E como eu os percebo. Nada haverá de mais frustrante do que o uso do termo “certinho” ou “diligente” para definir as qualidades profissionais de alguém que aspira a ser reconhecido pelos seus rasgos. Num mundo em que ninguém quer ser Gattuso e todos querem parecer o Pirlo, ser relegado para a prateleira de segunda da diligência soa a rejeição. A mesma que afecta todos aqueles que recebem como recompensa dos seus diligentes (lá está a palavra) esforços de conquista amorosa o terrível veredicto do “és um bom amigo” ou “és muito querido”. Tal como aí, a seguir a um “diligente” vem sempre um “mas”. Um “mas” que condena os simplesmente diligentes à condição de cinzentões para toda a vida.

Mas há uma outra razão, e esta bem mais preocupante, para que os verdadeiramente diligentes não queiram receber esse rótulo. Está visto que a palavra se transformou num eufemismo que hipocritamente esconde pecados como a preguiça (embora esteja certo que o nosso Manuel se encarregará de demonstrar que existe preguiça, e da boa, sem ponta de hipocrisia) ou a mais pura incapacidade e incompetência. Ou uma mistura bem portuguesa de tudo isso, a “chico-espertice”. Quando vos aparecer alguém a querer ser o Gattuso da equipa, é caso para desconfiar. É melhor mesmo estarem de pé atrás não vá o Gattuso, diligentemente, tentar comprar a TVI para o Pirlo (acabando, como falso diligente que é, a assistir ao fracasso das suas diligências).

Se me perguntarem de quem é a culpa dos maus tratos que têm sido infligidos àquilo que, na pureza da virtude cristã e na etimologia latina do verbo diligere, começou por designar um nobilíssimo traço de carácter (nada mais nada menos do que amar), parece não haver dúvidas que os exemplos que vêm de cima (do poder secular) não são dignificantes. A começar pela mais solene de todas as diligências, a judicial, que, aqui por estas bandas, constitui o mais gritante exemplo de falta de diligência…

Banda Sonora do Gente Morta — Edição De Luxe


“When I was checking vitals I suggested a smile. You didn´t talk for awhile, you were freezing. You said you hated my tone, it made you feel so alone, and so you told me I ought to be leaving. But something  kept me standing by that hospital bed, I should have quit, but instead I took care of you. You made me sleep and uneven, and I didn´t believe them when they told me that there was no saving you”.

Está dado o mote para a descida aos infernos que é Hospice, dos The Antlers. Um concept-album como já não se usa, todo ele dedicado aos últimos momentos no hospital de uma doente em estado terminal e aos cuidados que lhe dispensa alguém que aí trabalha (presumivelmente um enfermeiro) até à sua morte. Enquanto ela o vai odiando, porque é nele que deposita todo o ódio que o mundo lhe merece, os sentimentos que vão crescendo nele estão no extremo oposto, os de um amor que suporta o peso da culpa daquela morte anunciada tão injusta. E é um amor diferente dos outros, onde a carga sexual está ausente, ou não fosse ela, aparentemente, uma rapariga de treze anos de idade apenas, ou não estivessem — ela e ele — à espera que a morte chegasse para a levar a ela — e a ele também que, num certo sentido, também morre com a morte dela. Por isso mesmo, um amor tão puro que servirá de metáfora – pelo menos os sub-plots do álbum assim o indicam – ao nascimento, vida e morte das todas as relações amorosas, e à libertação e redenção que a morte traz.

Mas Hospice não é só, nas palavras que Peter Silberman nos canta (definitivamente um nome a fixar, ele que, ao longo de dois anos de isolamento na sua casa em Brooklin, concebeu esta obra maior, que imaginamos tenha o seu quê de autobiográfico), um álbum violento, intenso e perturbador. É tudo isso e é, sobretudo, um álbum imensamente belo e envolvente. A imagem que me ocorre é mesmo a de um álbum que nos castiga e tortura como poucos para depois nos envolver num longo abraço pleno de melancolia, como se nos pedisse desculpa por aquilo que nos deu a ouvir. Pela parte que me toca, aceito e continuarei a aceitar esse pedido de desculpas, tantas são as vezes que já o ouvi desde que ontem me chegou às mãos (via importação porque, apesar de lançado em Agosto de 2009, não foi ainda distribuído em Portugal). Com um som que balança entre momentos de recolhimento (que, nas pausas quase silenciosas, fazem lembrar os Sigur Rós, e se diriam próprios de alguém que procura recuperar do desgaste do embate da doença) e de libertação (qual grito de raiva contra o mundo, e aí, a evocar uns Arcade Fire depurados de ornamentos barrocos), Hospice é, seguramente, um dos álbuns mais fascinantes que ouvi nos últimos anos. E, provavelmente, não haverá outro que mais mereça integrar a Banda Sonora do Gente Morta.

Uma última nota deixo para os espíritos mais sensíveis: não é seguro que, depois de ouvirem Hospice, não passem a ser por ele visitados recorrentemente durante a noite, como nos alertam as palavras do seu estertor final: “But you return to me at night, just when I think I may have fallen asleep. Your face is against mine, and I´m terrified to speak”.

 



folhetim 5 — Pela mão de Catarina

E assim foi: no dia seguinte ele e Catarina já percorriam os escombros de Atenas à procura de um sinal que os levasse ao segredo do seu nome. Durante largos minutos, a caminhada prosseguiu ao ritmo do silêncio das suas vozes, a sua mão na mão de Catarina, nenhum dos dois se atrevendo a verbalizar as recordações que a cidade lhes trazia. Fora ali, uns anos antes, que tudo começara. Primeiro, a crise financeira mundial e as consequências devastadoras sobre a economia grega. Depois vieram os tumultos na rua, a repressão policial e dali até à violência generalizada e ao golpe de estado foi um pequeno passo. A partir daí, preferia evitar a memória da sucessão vertiginosa dos acontecimentos que levaram à debandada geral do país. Tinha consciência do privilégio de que beneficiara, o de ter para onde ir, ao contrário de tantos milhões a quem fora negada essa oportunidade. Só por isso regressara ao país que o vira nascer num momento em que ninguém se aventuraria a recomeçar a vida aí.

 Mas rapidamente a esperança dera lugar ao desânimo. Não só a morte dos pais que não o eram e a descoberta de não saber quem era. Mas, também e sobretudo, a perseguição sem tréguas que lhe fora movida ao investigar as suspeitas que se avolumavam sobre as tenebrosas manobras do governo para controlar a comunicação social. E depois o internamento forçado. Se a sua identidade já sofrera um rude golpe antes do hospital, quando de lá saiu não se reconhecia em nenhum dos seus gestos. Pura e simplesmente, o corpo deixara de lhe obedecer. E a mais ténue lembrança daquilo que deixara por fazer quando o foram buscar à redacção do jornal num colete de forças provocava-lhe, sempre, aquelas insuportáveis dores de cabeça, sempre aquelas pontadas que o demoviam de qualquer resistência ao sentimento de indiferença geral que, já antes de ele ter ousado lutar pela verdade, se tinha apoderado de todos os outros.

E lá estavam elas, as dores de cabeça, outra vez. Como uma vergastada que lhe tolhia o raciocínio sempre que lhe vinha à cabeça aquilo que o mantinha vivo. E sempre aquela sensação desagradável de não saber se podia confiar em alguém. Nem mesmo em Catarina. A verdade é que não conseguia preencher os vazios de memória que reduziam o seu passado a uma manta de retalhos sem ordem aparente. E, no caos mental em que mergulhara desde que entrara no hospital, Catarina era uma das pontas soltas por explicar. Não sabia como ela entrara na sua vida, como assumira junto dos seus filhos o papel da mãe desaparecida, como se instalara nele aquele sentimento de absoluta dependência em relação a ela. Sabia, isso sim, que não podia passar sem ela, como sabia que, mesmo antes de encontrar as palavras certas para verbalizar o que sentia, ela já as tinha na ponta da língua. E vivia angustiado por não conseguir impedir que todas as suas emoções fossem filtradas até à manipulação por Catarina. Qualquer que ele fosse, todo o seu ser estava nas mãos dela. Pensava – e aí sem o mais leve sinal de dor na cabeça, o que mais reforçava a sua irritação — que o desejo intenso que nele provocavam o corpo quente e as formas perfeitas de Catarina, e aquela pele dela que era a sua também, não podia ser explicação para tudo. Nunca sentira tanto ardor, tanta febre, tanta sofreguidão como aqueles que vinham à tona quando os seus corpos se fundiam e a sua mente se distraía da obsessão que tomara conta dele e o trouxera de volta a Atenas.

Havia algo que lhe dizia que Catarina só estava ali para o controlar, para o manter no colete de forças a que há muito estava sujeito. Mas bastava um sorriso dela para o desarmar, para o dissuadir de qualquer pergunta inconveniente ou embaraçosa. E, nesse momento, convencia-se do absurdo da desconfiança que Catarina lhe inspirava.

Kate Moss for Alexander McQueen

Morreu Alexander McQueen. Dizem os entendidos que era o mais genial e inovador criador de moda do seu tempo. E os pouco ou nada entendidos no assunto como eu admiravam-lhe, pelo menos, o rasgo das imagens que criou para Bjork, Lady Gaga e Dita von Teese, entre outras.

Quem despreza o estatuto de obra de arte que a moda também reclama, é porque não viu o que McQueen fez para a musa das musas, a intemporal Kate Moss.

Mr. Allen afinal não morreu


Gostar ou não de Woody Allen foi, durante mais de duas décadas da minha vida, a fronteira decisiva, a linha que dividia a humanidade em duas partes. Essa era a pergunta cuja resposta fazia toda a diferença entre a empatia ou falta dela. Um “não” acabava inevitável e rapidamente por me levar a virar costas educadamente, com um qualquer pretexto inventado na hora. E um “sim” poderia até marcar o princípio de uma bela amizade. E ninguém escapava a este crivo. Nem sequer uma dama com (outros) atributos que entrassem pelos olhos dentro me fazia demover deste meu princípio inabalável. Muito pelo contrário, se estava no ar algum clima de sedução, os avanços acabavam logo ali caso se instalasse a mais leve ponta de desconfiança de que a rapariga não compreendia o humor inteligente de Mr. Allen. É claro que, para qualquer convicto admirador ou detractor seu, a qualquer resposta com pretensões a ser levada a sério caberia ser extremada quanto baste, nunca limitar-se um simples “gosto” ou “não gosto”. O meio termo nunca foi credível em Woody Allen. Nele, ou se amava ou se odiava. Para merecer o meu respeito, ou se conheciam todos os seus filmes da primeira à última cena, sem excluir os bergmanianos, ou se debitava logo uma mão cheia de citações, ou, no mínimo, se apresentavam sinais exteriores de algumas das suas neuroses. Pouco interessava que os filmes se sucedessem, a uma cadência de um ou dois por ano, uns iguais aos outros. E que obras-primas como Annie Hall, The Purple Rose of Cairo, Hannah and Her Sisters e Deconstructing Harry já fossem rareando. Assistir regularmente a um novo filme de Mr. Allen era um hábito de que a minha higiene mental, constantemente bombardeada por humor de baixa categoria que parecia vir de todo o lado, já não prescindia.

Quem me lê perguntará certamente porque escrevo eu no passado. Pois bem, porque esse meu apego a Woody se desvaneceu em certo momento bem localizado no tempo. O da noite, há pouco mais de um ano, em que vi Vicki Cristina Barcelona. O filme que consumou a maior traição que alguma vez um artista fez a admiradores seus. Neste mundo em que tudo parece estar à venda, se havia alguém que eu julgava incorruptível na sua arte, era Mr. Allen. E mais me convenci disso quando proclamou aos sete ventos que, em prol da sua independência como autor e para o preservar da pressão cada vez mais intensa dos estúdios americanos, abandonava a sua NY de sempre, cidade que tanto lhe deve a ele, para rumar à Europa, onde reencontraria a paz de espírito que lhe permitiria manter a sua liberdade artística em risco. Ao longo de três anos e três filmes (Match Point, Scoop e Cassandra Dream´s), Mr. Allen não comprometeu (embora o primeiro fosse pouco alleniano e o segundo e terceiro estivessem muito longe do seu melhor). Mas, ao quarto ano e quarto filme na Europa, acabou mesmo por fazer aquilo que nunca se suspeitaria que alguma vez pudesse fazer na Big Apple, se tivesse permanecido junto daqueles que, segundo ele, o queriam corromper. Vendeu a alma ao diabo da forma mais infame. Movido pelos muitos milhões oferecidos pela Generalitat da Catalunha, vendeu a alma e todos os seus princípios a Barcelona, prestando-se a realizar um guião turístico travestido de cinema. Negou a sua arte para se rebaixar ao estatuto de um qualquer publicitário a quem encomendaram a venda de um produto da forma mais fácil e eficiente. E, se a bela Barcelona agradeceu, e a igualmente bela Penélope Cruz também (com o seu Óscar que deverá certamente mais à máquina de marketing da Generalitat do que a Allen), o Cinema, esse, foi relegado para papel secundário, com o argumento (eufemismo de folheto turístico) mais desenxabido, forçado e previsível que Allen alguma vez escreveu (e a dúvida permanece se terá sido mesmo ele ou um criativo publicitário). Ao sair da sala de cinema, percebi que acabara de assistir a muito mais do que um mau filme, que testemunhara o próprio Allen a assinar a sua certidão de óbito como Autor.

Estava então Mr. Allen no estado de Gente Morta em que eu o tinha deixado desde essa noite quando estreia o Whatever Works (Tudo Pode Dar Certo). Hesitei antes me decidir a dar-lhe o benefício da dúvida. Mas a minha vontade de o ressuscitar no meu imaginário falou mais forte. E lá acabei por fazer as pazes com Mr. Allen. Ele voltou a ser igual a si próprio. Não lhe pedia que deslumbrasse, bastava que voltasse a ser ele próprio. E a verdade é que o alter ego Larry David (a personagem Boris Yellnikov) conseguiu ser mais igual a Woody Allen do que o próprio seria capaz. Talvez por ter consciência de que soaria a falso fazer dele próprio um ano depois de ter deixado de ser ele próprio. Embora tenhas perdido a capacidade de dividir o meu mundo em dois, estás perdoado, Woody. 

O regresso das três letras malditas

Longe vão os tempos universitários em que alimentava os meus complexos de esquerda a decorar cada uma das palavras do FMI do José Mário Branco.

Mas as três letras malditas, que já se julgavam definitivamente proscritas por estas bandas, voltaram a ser pronunciadas esta semana em círculos bem oficiais do nosso burgo.

O discurso de José Mário Branco, embora se reconheça datado nos detalhes, não ilude uma verdade cada vez mais indisfarçável: que, no essencial, o país, que já foi o bom aluno da Europa, parece ter rodado sobre si próprio no esforço de recuperação económica, exagerando na pirueta e reaproximando-se perigosamente do grau zero em que estava quando a canção foi escrita. 


Santa Maria da Feira

Dou por mim à procura de sons “lá fora” que cantem Portugal, Lisboa, Porto, Coimbra, o Algarve e por aí fora. “Lá fora” ou, melhor dizendo, fora do mundo lusófono, e aí é que está a dificuldade do exercício. É que não me ocorre quase nada. Para além do histórico álbum Amigos em Portugal dos Durutti Column em 1983 (ainda assim, editado “cá dentro” pela Fundação Atlântica de Pedro Ayres de Magalhães e Miguel Esteves Cardoso), e de algumas referências à “Saudade” – entre as quais o fabuloso tema instrumental com esse título dos Love & Rockets gravado em 1985 -, parece mesmo que os compositores e letristas não lusófonos pouco ou nada se interessam pelo que se passa por cá.

Mas, para além dos parcos exemplos apontados, há ainda uma honrosa excepção. Honrosa por vir de um destacadíssimo representante da cena indie/folk/psicadélica americana, Devendra Banhart, song-writer com aparência de Cristo, parceiro musical de Antony em I Am a Bird Now e autor ele próprio dos aclamados Rejoicing in The Hands e Cripple Crow. Honrosa ainda pela localidade que mereceu a atenção de Devendra: não os luminosos palcos de Lisboa ou Porto mas, imagine-se, Santa Maria da Feira. E não se pense que é uma qualquer Santa Maria da Feira fundada por emigrantes portugueses na Venezuela (onde ele, nado em Houston Texas, foi criado). É mesmo a nossa, o homem explicou bem que foi uma homenagem a um concerto inesquecível que lá deu na Exponor. E desenganem-se ainda aqueles que julgam que só pode ser uma peça menor no seu reportório: longe disso, é mesmo uma das pérolas de Cripple Crow e da sua já considerável discografia (embora não cantada na sua língua habitual, o inglês, mas em espanhol). Ora ouçam lá para tirar as dúvidas.

Travelling with travellings

Todos os cineastas que não foram formados na escola do “plano fixo” de Ozu, Dreyer, Bresson, Oliveira e outros (como Haneke e Shyamalan, fiquei a saber pelo mestre PMS), perseguem o travelling perfeito. Num passado ainda não muito distante, em que a película ditava leis, a perfeição era, para muitos, sinónimo de minutos, de tantos minutos quantos a bobine permitisse sem um único corte na imagem. E, de preferência sem os truques que Hichcock, em resultado das limitações técnicas impostas pela duração de cada take, foi obrigado a usar em 1948 em The Rope nos mais longos (ainda que dissimulados) planos-sequência até então vistos no cinema. Para outros, o travelling de sonho significava simplesmente ultrapassar obstáculos aparentemente intransponíveis pela câmara. Como em dois dos mais prodigiosos momentos da História do Cinema: os três minutos iniciais de Orson Welles em Touch Of Evil (1958) e os sete minutos finais de Michelangelo Antonioni em Profissão: Repórter (1974). Ora vejam como, no caso de Welles, a câmara percorre um quarteirão inteiro sem trabalho de montagem, subindo e descendo edifícios até, e, em Antonioni (numa cena que demorou onze dias a concluir), sai pela grade de uma janela sem que se perceba bem como (eu sei mas não digo), vagueia por uma praça para depois voltar à janela. Claro que, numa e noutra cena, só podia mesmo acabar tudo em gente morta.

.

 

Precisamos de dizê-lo

Há momentos assim, em que precisamos de dizê-lo. Mesmo que não tenhamos a quem dizê-lo. Ou que não saibamos dizê-lo ou como dizê-lo. E mesmo que aquela ou aquele a quem queremos dizê-lo não mereça ouvi-lo. Como Lisa (Joan Fontaine) o disse ao ingrato Stefan (Louis Jourdan) na mais bela carta de amor que o cinema alguma vez escreveu, pela mão daquela “desconhecida” de Max Ophuls. E precisamos de dizê-lo ainda que tenham já tenham passado cinquenta e três anos, sete meses e onze dias desde o primeiro momento em que precisámos de dizê-lo sem o conseguir, como o fiel Florentino Ariza o disse à eterna Fermina Daza naquele amor em tempos de cólera que Garcia Marquez fez resistir a toda uma vida feita, também, de desamores, de muitos desamores. E ainda que não saibamos se é amor aquilo que queremos que o seja, aquilo de nos deixarmos enamorar, quando já ninguém usa a palavra enamorar, por uma simples imagem reflectida numa janela. Numa janela de um comboio, naquele amor “sem apelidos e com nomes falsos” inventado por Jacinto Lucas Pires em Sombra e Luz. Ou numa janela de um computador, por uma imagem com aura de obra de arte, uma imagem tão bela que a nossa imaginação transforma na promessa de eternidade que o amor mais perfeito e indestrutível, o amor pela ideia de amor, comporta. Precisamos de o dizer sem saber porquê, apenas porque sim, e ainda que nos sintamos mais desconhecidos do que Lisa o era para Stefan.

E precisamos de o dizer com as palavras com que Cazuza e Bebel o disseram. Não necessariamente com a música com que as tornaram ainda mais encantadas. Mas sem rodeios, de uma forma tão infantil e lamechas que sintamos todo o peso do ridículo de que falava Pessoa a abater-se sobre as nossas palavras. Só assim saberemos que dissemos exactamente aquilo que precisávamos de dizer.

 

Quem me ensina a gostar de musicais?

Quem me ensina a gostar de musicais? Provavelmente, só mesmo o nosso Manuel S. Fonseca. Depois do seu Busby Berkeley e, agora, do Guys and Dolls em que até o improvável Brando adere ao género, o meu complexo começa a ser insustentável.

Tudo começou com o Jacques Demy, o grande culpado deste meu trauma de adolescência, numa tarde de tédio outonal em que a televisão era a única alternativa ao ócio, e o “segundo canal” me presenteou com o Les Parapluies de Cherbourg quando no “primeiro” ainda passava a tele-escola. Eu sei, eu sei, que o defeito é meu em não saber reconhecer os louvores que toda a comunidade cinematográfica bem-pensante dispensa ao filme. Mas para mim foi penoso ver a bela Deneuve naquelas figuras a cantarolar. Desde então, só obrigado ou por extrema devoção aos mestres “que viviam angustiados porque faltava um musical na sua versátil e genial carreira” me desloco a uma sala em missão de sacrifício contra-natura, que é a de ver e ouvir as personagens cantarem em vez de falarem. Não se trata de não apreciar Gene Kelly a dançar à chuva, Fred e Ginger a sapatearem, Cyd Charisse a exibir as pernas, Garland over the rainbow, e até Bjork a esvair-se em sofrimento, não, de tudo isso retiro tanto prazer como os mais indefectíveis do género. É só uma questão de não conseguir aderir à obra, ao projecto como um todo, e não como mero somatório de bons momentos, soltos e desgarrados, de cinema, música e dança. Simplesmente, não acredito no que vejo e, por isso mesmo, a magia do cinema, sem a qual ele não vive, não está lá para mim.

Mas, enquanto a minha reconversão não toma forma, sinto o inescapável dever de deixar de fora da minha “malaise” os “falsos musicais”, ou “quase musicais”, que alguns, à falta de catalogação melhor, enfiam no mesmo saco das obras dos mestres Busby Berkeley e Vincent Minnelli. Filmes como Cabaret de Bob Fosse, Romeu and Juliet de Baz Luhrmann e One From the Heart de Coppola, entre outros, pertencem a essa categoria em que, em momento algum, existe a tal cisão a partir da qual o cinema deixa de ser crível aos meus olhos. Os personagens, aí, ou não cantam ou só o fazem quando o guião lhes pede que façam de cantores num espectáculo dentro do espectáculo/filme (caso de Liza Minnelli/Sally Bowles em Cabaret). Ou, no limite, como em Romeu and Juliet, surgem algumas personagens secundárias num registo de “musical” mas sem nunca contaminarem o filme. Estes fimes, embora impropriamente qualificados como “musicais”, só o são na medida em que é a banda sonora que vai desfiando a narrativa, que se assume como monólogo interior das personagens, que marca o ritmo e a sequência de cada uma das cenas.

De entre estes “falsos musicais”, destaco One From the Heart, o filme que, de tão excessivo — no perfeccionismo dos cenários oníricos e na desproporção com que a bilheteira não correspondeu ao orçamento — levou Francis Ford Coppola e o seu American Zoetrope Studios à falência. Nele, o registo de (quase) “musical” da maravilhosa banda sonora de Tom Waits e Crystal  Gayle faz parte do encantamento e é pressuposto necessário para aquela Las Vegas de conto de fadas que a imaginação de Coppola construiu. Nele, tal registo é reclamado pela própria intensidade do amor — ou da falta dele — de Hank (Frederic Forrest) e de Frannie (Teri Garr), porque é essa a linguagem dos sonhos a que ambos se agarram.

Chegado a este ponto, só vos peço, Manuel e outros amantes incondicionais dos true musicals  de Berkeley e Minnelli, que me façam gostar tanto deles como gosto de One From the Heart

Wicked Game

Passados 20 anos, continuo sem conhecer som que melhor traduza o desejo a explodir. Ao primeiro acorde da guitarra de Chris Isaak, os dados estão lançados: o ar fica contaminado, a sensualidade entranha-se pele adentro e caem por terra todas as resistências à tentação.

As imagens, de tão explícitas, são redundantes, ou não morassem já elas em cada uma notas de Wicked Game. E seriam mesmo dispensáveis, não fosse a revelação ao mundo da lindíssima Helena Christensen, a tal que, sem nunca a termos visto, já conhecíamos de tanto a imaginarmos como a expressão perfeita da beleza feminina.

Strange what desire will make foolish people do.

Música celestial já aqui ao lado


Ganhou a eternidade dos céus – pelo menos os crentes o dizem — há nove séculos e, desde então, não parou de nos dar a música que a inspiração divina lhe trouxe. Agora, tem morada permanente já aqui ao lado a nossa Querida Morta da semana. Vá, vá lá espreitar que a Joana tem muito para lhe contar, e para lhe dar a ouvir, desta mulher de vida tão extraordinária, que alguns consideram a primeira de todas as feministas.

Ódios de estimação à portuguesa

São marcas da portugalidade de que não me orgulho. Umas, próprias de um Portugal que teima em ficar no passado. Outras, talvez não intrinsecamente portuguesas e, antes, inerentes a qualquer país com tamanho de aldeia. Outras ainda são puras embirrações minhas, para as quais não consigo sequer encontrar argumentos racionais que as expliquem.

São os meus ódios de estimação à portuguesa. É que gosto mesmo de não gostar:

De teatro de revista;

De ranchos folclóricos;

De festas dos anos 80, invariavelmente com o pior dos anos 80;

Do provinciano uso e abuso da expressão “melhor do mundo”;

Da obsessão com a “marca Portugal”;

Da RTP Internacional;

Da triste ausência de uma direita que não seja caceteira e marialvista;

Da triste ausência de uma esquerda que não seja arrogante e paternalista;

Das visões puramente economicistas que restringem a cultura a La Féria e pouco mais;

Da falta que faz a educação artística nas escolas;

Das vitórias morais; de jogar para o empate; dos “outros que fizeram pior que nós”; da culpa é do árbitro, do estado do campo, da iluminação, da fruta e por aí fora;

De todos os comentadores desportivos “não profissionais” menos o Pôncio Monteiro (e sou ferozmente benfiquista);

De quotas, na música ou no Parlamento;

Da promiscuidade de certos agentes culturais, que acumulam conflitos de interesses com total à-vontade nas suas múltiplas qualidades de directores de museu, curadores, programadores, júris, críticos, artistas e até assessores políticos;

De um peso e de uma medida diferente (mais favorável, claro está) na avaliação dos filmes portugueses e a sua insuportável tradução na expressão “para português não é mau”;

Das frases que começam por “é assim”;

De “piqueno” em vez de “pequeno”;

Do endeusamento de Mariza e do esquecimento de tantos(as) outros(as);

Dos “famosos”, “empresários” e “RP” de certo tipo de imprensa;

Do “toda a gente sabe” que os tribunais nunca esclarecem em tempo útil.

A mais gata de todas

Agora que os gatos tomaram conta do nosso cemitério, seria um crime não ter aqui a mais gata de todas.


Old Boy

Coreia do Sul. Um homem sequestrado num quarto durante 15 anos. Nem ele nem nós sabemos porquê. O seu único contacto com o mundo exterior é uma pequena televisão. Percebemos que nunca vê os seus sequestradores, que, antes de o alimentarem diariamente, e de lhe tratarem as feridas provocadas pelas mutilações que inflige a si próprio, o adormecem com um gás suporífero ventilado para o quarto. Também por motivo não esclarecido, é libertado. Tem mulher e filha cá fora mas a única razão para se manter vivo é descobrir a razão do seu encarceramento. E, claro, encontrar os responsáveis e executar a vingança. Pela forma mais cruel e violenta e com música clássica a acompanhar, ao melhor estilo da Laranja Mecânica de Kubrick.

Segunda parte da Trilogia da Vingança (depois de Sympathy for Mr. Vengeance e antes de Sympathy for Lady Vengeance), o filme, Old Boy, Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes de 2004, lançou definitivamente o seu realizador Park Chan-Wook para a galeria dos notáveis do cinema asiático. Tem das imagens mais violentas que alguma fez se produziram mas nelas, tal como na Laranja de Kubrick, a encenação da violência aproxima-se perigosamente da beleza. Há momentos assim em que sentimos que o Cinema está acima de qualquer preconceito moral. Se fechamos um olho para evitar ver o sangue a jorrar ou um polvo a ser ingerido vivo pelo protagonista, deixamos o outro bem aberto para não desperdiçarmos a mais ínfima parte de um todo que é extraordinário.