Para além da milionésima parte de diferente

 

Fora uma fotografia feliz. Era um ritual seu, o de as fotografar depois do duche que lhes apetecia, sempre, a seguir ao prazer. Mais do que nos momentos de intimidade partilhados momentos antes, era nesses instantâneos que nelas captava aquilo que Kundera chamara a “milionésima parte de diferente” que distinguia cada uma de todas as outras. Mas desta vez a diferença ia muito para além de milionésimos. E, por isso, ao contrário de todas as outras que saíam, ainda a pingar a água do duche, para não mais voltarem, desta vez quis o que nunca quisera. Que ela ficasse. Que ela voltasse. Que voltasse, uma, duas, três vezes, até ficar para sempre. Ela era, não tinha dúvidas, aquilo que Teresa fora para o Tomaz de Kundera. Ela era a síntese dos milhares de milionésimas partes de diferente (uma por noite nos últimos vinte anos, assim o provavam as fotografias) que somara ao longo da sua vida de predador. A essência viera, finalmente. Se era isto a que chamavam amor, ele aí estava em todo o seu esplendor.

Nunca percebera por que se fora ela, de forma tão repentina. Aquela sua cara, que ele captara a seguir ao duche retemperador do prazer, parecia ser a imagem da felicidade pura. Parecia. Mas ele sabia que ela não era uma mulher como as outras. Para o bem e para o mal, a sua diferença ia para além de milionésimos. Aparecera-lhe, assim, sem mais nem menos, para lhe mudar a vida. E mudara. Depois dela, nunca mais tivera uma mulher. Se não a tinha, pensava ele, não podia ter mais nenhuma. Porque a tinha para sempre. E tudo, por causa de uma fotografia que nunca mais o largou.

Klaus Kinski

Klaus Kinski um querido morto? Convenhamos que, de querido, o homem pouco teve ao longo da sua vida. Não me terei enganado na coluna? Pensarão alguns, enquanto juram a pés juntos que o actor fetiche de Werner Herzog assentaria que nem uma luva numa história de infâmia, muito mais do que numa homenagem como esta. E quem sou eu para os desmentir. Se o próprio Herzog sofreu na pele os excessos do seu best friend Kinski, ao ponto de, segundo reza a lenda, o ter ameaçado de morte na rodagem de Fitzcarraldo, nada mais me resta senão juntar-me ao coro de todos (e são todos mesmo) os que dele guardam a imagem de um demente violento, narcísico e obsessivo, capaz de explosões coléricas em pleno plateau pelo motivo mais insignificante, de deixar pendurada uma equipa inteira de filmagem enquanto não lhe satisfizessem o capricho mais extravagante e outros devaneios do género.

Bastam umas breves pinceladas biográficas para nos rendermos ao lado atormentado da personagem. Uma infância e adolescência atribuladas em Berlim, que o levaram inclusive a ter de roubar para comer, o recrutamento forçado na Wehrmacht na Segunda Guerra Mundial, a deserção e a rendição às tropas britânicas e o aprisionamento num campo inglês ajudam a explicar o seu comportamento pouco convencional. Foi na prisão, aliás, que começaram a despontar dois traços marcantes do seu percurso: o seu talento nas artes da representação, que deixou à prova nos espectáculos organizados para manter o moral dos seus colegas de campo; e o seu temperamento obsessivo, perto da loucura, bem evidenciado nos estratagemas que usou para merecer o privilégio da deportação reservado aos doentes: permanecer nu na zona exterior da prisão pela noite fora; beber urina, comer cigarros, e outros que tais. De regresso à Alemanha, decidiu apostar numa carreira de actor autodidacta mas só mais de dez anos depois – após alguns despedimentos, um diagnóstico de esquizofrenia e duas tentativas de suicídio falhadas – começou a adquirir uma certa reputação na Alemanha, Áustria e Suíça como spoken word artist e declamador de François Villon, Shakespeare e Oscar Wilde. No cinema, ao longo dos anos 50 e 60, vieram os filmes de guerra, uma especialização em personagens de Edgar Wallace, os western spaghetti, os série b e os exploitation movies, antes do reconhecimento internacional à larga escala com Herzog e o seu Aguirre, The Wrath of God, em 1972. A partir daí, muitos grandes mestres, de Fellini a Visconti, de Pasolini a Spielberg, quiseram tê-lo nos seus elencos, mas a todos deu negas, preferindo continuar a trabalhar com realizadores de menor notoriedade para nunca correr o risco de ver negadas as suas exigências de primadonna, para que lhe fosse sempre garantido, a ele e só a ele, o estatuto de grande estrela das produções em que entrava.

A excepção foi, sempre, Herzog, que cedo percebeu que pouco ganhava em domesticar o incorrigível feitio de Kinski e que, como nenhum outro, conseguiu capitalizar para o grande écran a sua raiva e agressividade. Por alturas da estreia de Aguirre, tinha onze anos de idade a sua filha Nastassja, que, para os seus detractores, foi aquilo que de mais relevante produziu em toda a sua existência. Embora tenha, em certo período da minha juventude, feito parte do grupo alargado dos que reconheceram estatuto de divindade a Nastassja, permitam-me discordar de tamanha injustiça. Um só nome, de filme e de personagem, bastariam para guindar Klaus Kinski à galeria da imortalidade: Fitzcarraldo, nome que lhe deram os indígenas de Iquitos que não sabiam pronunciar o nome do sonhador e idealista (Brian Sweeney) Fitzgerald.

Com Fitzcarraldo, Herzog conseguiu aproveitar a loucura de Kinski para os mais altos desígnios a que o ser humano pode aspirar. Numa época — a dos dias que correm – em que a cultura deixou de ser prioridade e é considerada pelos economistas que dominam o mundo como um gasto supérfluo e dispensável, a quixotesca empreitada de Fitzcarraldo – trata-se, literalmente, de mover uma montanha para levar uma ópera à selva amazónica – permanece como o último reduto de sonho que a cada um de nós pode e deve ser permitido. Numa era em que a cultura nem do seu factor simbólico se pode valer (até o Ministério da Cultura, ingloriamente, se foi), a simples ideia da música de Verdi ou Bellini, ou a voz de Caruso, terem o condão de apaziguar os espíritos malignos da natureza, ou de demover os temíveis jívaros – afinal, tão inocentes como Fitzcarraldo – do seu hábito de cortar e reduzir cabeças humanas é, no mínimo, reconfortante. Que me perdoem o cliché, mas haja uma ínfima partícula de Brian Sweeney Fitzgerald em cada um de nós, e teríamos certamente um mundo melhor. Para ficarmos ainda mais falidos, dirão os (sempre eles) detractores de Kinski? Talvez falidos, sim. Mas muito mais felizes. Que me perdoem, uma vez mais, as mentes lúcidas que fazem avançar o mundo, mas, se há imagem que me ocorre sempre que alguém se insurge contra um orçamento digno para a cultura, é a de uma cidade inteira em êxtase absoluto, em plena Amazónia peruana, com uma companhia de ópera a actuar no convés de um barco a vapor. E essa é, também, a imagem que guardo de Klaus Kinski: não o do insuportável cabotino que mais não fazia do que representar-se a ele próprio, mas a do idealista inocente, que move montanhas para levar a sua paixão até aos confins do mundo.

O que é National é bom

É uma velha reminiscência da minha adolescência a de insistir em discutir quem é, em cada momento, em cada ano, em cada década ou geração, a melhor banda do mundo. Essa é uma referência sem a qual não passo desde então, uma espécie de força gravitacional de onde irradia tudo o que o meu ouvido musical vai retendo. O reinado pode ser curto, de alguns meses apenas, uma paixão fulminante que se apaga à mesma velocidade com que me invade a alma. Ou pode prolongar-se por toda uma década, por vezes instituindo-se a banda como fundadora de dinastia com herdeiros que vão prolongando o estado de graça. Verdade se diga que sempre tive certezas inabaláveis na matéria. Certezas que começaram com os Pink Floyd, em finais de 70 e por causa do maravilhamento provocado por Dark Side of the Moon e The Wall. Que continuaram na década de 80 com os Joy Division e os seus legítimos descendentes Cure, Echo & The Bunnymen e Smiths. E nos 90´s prosseguiram com os Massive Attack e, já para finais da década, com os Radiohead. Estes últimos com o mérito de terem sido os únicos a guardar o ceptro de uma década para outra (neste caso, até mesmo de um século para outro).

Confesso-vos, no entanto, que me vinha sentindo órfão desde meados dos anos 2000, momento em que se esgotou a minha tolerância na espera de dignos sucessores de Kid A e Amnesiac. Até que resolvi olhar para uns senhores nascidos no Ohio e convertidos a NY, que estavam mesmo ao meu lado já há uns bons anos sem eu lhes dar grande crédito. Pois é, bem me avisavam alguns entendidos que teria de os ver ao vivo. E assim foi. Fui vê-los ao Campo Pequeno em Maio e ainda bem. Ainda bem porque deixei de ser órfão. Voltei a ter a minha “melhor banda do mundo”. E desconfio que não fui o único a ser privilegiado com tal revelação. Desconfio que todos os que, no encore final, cantaram com eles o Vanderlyle Crybaby Geeks com o microfone desligado, partilharam comigo a descoberta. Se quiserem ter uma pálida ideia do que estou a falar, só têm de assistir a um concerto dos National. Ou então, à falta de melhor, cantar o Vanderlyle aí mesmo, em frente ao écran, com o microfone desligado. Como se estivessem no Campo Pequeno, como eu estive, e o video vos mostra, a cantar com o Matt Berninger.

 Leave your home
Change your name
Live alone
Eat your cake

Vanderlyle crybaby cry
Though the water’s a-rising
Still no surprising you
Vanderlyle crybaby cry
Man, it’s all been forgiven
Swans are a-swimmin’
I’ll explain everything to the geeks

All the very best of us string ourselves up for love
All the very best of us string ourselves up for love
All the very best of us string ourselves up for love
All the very best of us string ourselves up for love

Vanderlyle crybaby cry
Though the water’s a-rising
Still no surprising you
Vanderlyle crybaby cry
Man, it’s all been forgiven
Swans are a-swimmin’
I’ll explain everything to the geeks

Hanging from
Chandeliers
Same small world
At your heels

All the very best of us string ourselves up for love
All the very best of us string ourselves up for love
All the very best of us string ourselves up for love
All the very best of us string ourselves up for love

Vanderlyle crybaby cry
Though the water’s a-rising
There’s still no surprising you
Vanderlyle crybaby cry
Man, it’s all been forgiven
The swans are a-swimmin’
I’ll explain everything to the geeks

I’ll explain everything to the geeks

I’ll explain everything to the geeks

 

 

As três grandes mentiras

Era só uma brincadeira inocente. E era o palco ideal para fazer o teste das três grandes mentiras. Mas não podia limitar o jogo às mulheres, como Jay fizera no livro. Jay, que nome mais traiçoeiro. Nem por um minuto da leitura de “Story of My Life”/“História da Minha Vida” – livro que, de tão marcante na minha pós-puberdade, já aqui trouxe  — duvidara que Jay fosse nome de mulher. E que as peripécias dos 21 anos da protagonista Alison Poole só podiam ser contadas por uma mulher. Que homem se lembraria de, em pouco mais de cem páginas, arrasar o seu próprio género, o masculino, tornar ridículas todas as estratégias de sedução dos profissionais do engate ou mostrar ao mundo como a busca do prazer feminino era uma proeza só ao alcance de raríssimos membros do sexo oposto? Seguramente nenhum, pensava eu aos vinte anos, antes de saber que Jay Mc Inerney, afinal de contas, era um comparsa do wonder boy Brett Easton Ellis e um dos mais destacados membros da geração “less than zero” que despontara anos antes no meio literário americano. Muito fair-play tinha o homem, isso sim. Tinha tanto fair-play que passei, desde então, ainda mal acabado de sair da adolescência, a pensar duas vezes antes de pedir lume a uma senhora (eu que nunca fumei). Bom, deixemo-nos de verdades e passemos às mentiras. Às mentiras que, nós, homens, lhes dizemos a elas, mulheres. Talvez coincidissem com as três grandes mentiras que Alison revelou no livro, pensei eu. Era noite de verão, o calor asfixiava lá fora e o grilo cantava ao luar. E, ali dentro, no espaço fechado de um restaurante só para nós, mais de cinquenta homens e mulheres da idade de Alison, seria um desperdício não pôr a limpo essa história das mentiras. Muito bem, para não dar muito nas vistas, os homens também prestariam provas. Elas e eles só teriam de escrever num papel as três maiores mentiras que já tinham ouvido do outro lado. Tanto faz que a mentira fosse toda delicodoce ou escandalosamente óbvia. Que fosse soprada ao ouvido ou gritada a plenos pulmões. Os papéis, depois de bem dobrados, iam parar a uma urna para se proceder à respectiva leitura. E, claro, ninguém precisava assinar. Ou melhor, ninguém devia assinar, para não se correr o risco de acabar, logo ali, com uma dúzia de namoricos de verão e outra que caminhava a passos largos para um contrato que era suposto ser para a vida inteira (pelo menos elas e eles assim o julgavam, na altura).

Quanto às mentiras que o escrutínio ali revelou, já os caros leitores imaginam quais sejam. Mais de vinte anos passaram, mas a coisa pouco mudou nessa matéria. Mudou apenas – e não me parece que com isto esteja a quebrar qualquer princípio básico de solidariedade masculina e a reverência devida ao sexo oposto – a facilidade com que eles e elas são apanhados, agora que os telemóveis e os facebooks da vida ditam regras em matéria de comunicação. A começar pela mentira mais universal de sempre, transversal a qualquer época, religião, língua, raça, tribo ou género, que é, obviamente, o “I love you”, “je t´aime”, “te amo” — e que, em bom e rico português, assume múltiplas formas, do simples “gosto de ti”, ao místico “adoro-te” e ao épico “amo-te”. Se quiserem trazer para aqui as grandes mentiras que já viveram com o sexo oposto, estejam à vontade. Mas cuidado, na última vez em que aliciei alguém a fazê-lo foi naquela noite de verão, em que o calor asfixiava lá fora e o grilo cantava ao luar, e deu mau resultado: acabou tudo a discutir as verdades de cada mentira e as mentiras de cada verdade e as promessas – fossem elas para toda a vida ou com prazo de validade limitado ao verão em curso – foram todas desmascaradas. 

A primeira vez (oh girl)

Ele: “Gostas de Suicide”. Ela: “Pois gosto”. Ele: “Alan Vega é um deus”. Ela confirmou com a cabeça. Foram as primeiras palavras que trocaram. Ele, dela só sabia que ouvia Suicide a toda a hora. Pelo menos, sempre que passava pelo carro dela estacionado à entrada do prédio onde ele vivia, lá estava ela, de olhos fechados, a deixar-se levar pela voz fantasmagórica de Alan Vega e pelo sintetizador hipnotizante de Martin Rev. Ele foi o primeiro. Apesar dos seus 23 anos e de ela ser uma bela mulher, ainda não tinha tido nenhum homem. Nem beijar sabia. Fê-lo por Alan Vega. Tinha sido ele, Alan Vega, através das convulsões da sua voz em Girl (nesses minutos muito mais lasciva do que fantasmagórica), a ensinar-lhe os prazeres do prazer solitário que um corpo feminino pode ter. Passou a ser um ritual, ela, pouco depois da meia-noite, despida em cima da cama, a sós com o crescendo dela numa sintonia cada vez mais perfeita com o crescendo da voz de Alan Vega, a gemer-lhe (Oh) Girl só para ela. Mas chegara a altura de perceber cada uma das inflexões daquele gemido na voz de outro homem. E fê-lo. Foi bom. Ele também ouvia Suicide a toda a hora. Ele preferia Surrender. Ela Be Bop Kid. Mas fizeram-no ao som de Girl, pois claro. Foi bom. Alan Vega era um deus.

 

A letter to Elia

Há uma coisa de que gosto quase tanto como ver cinema. É de ver e ouvir alguém falar apaixonadamente de cinema. O que, na ausência de João Bénard da Costa, é o mesmo do dizer: ouvir Scorsese falar de cinema. É estranho dizê-lo mas, nos dias que correm, prefiro Scorsese a falar de cinema do que Scorsese a fazer cinema. Houve tempos em que assim não foi, quer porque Scorsese não nos falava ao ouvido de cinema, quer porque Scorsese fazia melhor cinema (quase cortei relações com ele por causa do Aviador Howard Hughes). Hoje, mais do que nunca, sei que isso é verdade depois de mais uma amena cavaqueira sobre cinema com Marty – ele deixa-nos tão à vontade com estas conversas que não conseguimos deixar de tratá-lo pelo seu nickname. Desta como das outras vezes, o cinema foi só um pretexto para nos falar do poder das emoções que as imagens nos trazem. Para nos falar da sua vida e das nossas vidas através da vida de um homem, o seu mestre Elia Kazan. Desta como das outras vezes com Scorsese, e tal como acontecia também com Bénard, acabei a gostar de filmes que nunca vi (ou vira até então) e a gostar ainda mais de filmes de que já gostava. Mais uma vez, depois de ouvir Scorsese, tive vontade de celebrar com ele um pacto irrevogável: ver todos os filmes do mundo e gostar de todos eles. Marty, por sua vez, só teria de se comprometer com o necessário para que esse milagre se cumprisse: falar-me deles antes de eu os ver.

 

Benfica by Panda Bear

Aqui fica a revelação, para quem tem passado ao lado das últimas tendências na cena musical: alguns dos sons mais inovadores, para não dizer revolucionários, que no planeta têm sido produzidos nos últimos anos têm a sua origem, acreditem que é verdade, no nosso país. Sim, em Portugal mesmo. Para sermos mais precisos, em Lisboa, em pleno Bairro Alto, onde mora o Sr. Noah Lennox, mais conhecido por Panda Bear. Como até os menos informados já perceberam, este Panda Bear não é português. É um rapazinho a caminho da idade de Cristo, nascido em Baltimore, que em 2004 teve a feliz ideia de trocar NY por Lisboa (“since I got off the airplane here [for the first time] I had a good feeling about this place”, disse Mr. Lennox quando aqui desembarcou). Pois é, tomou-se de amores pela nossa capital, o que é o mesmo do que dizer por uma jovem, essa sim bem portuguesa, residente em Lisboa. E foi ficando. E ainda bem, dizemos nós, porque não fosse isso sabemos lá se lhe tinha vindo a inspiração suficiente para criar o aclamadíssimo Person Pitch, de 2007. E, sobretudo, não sabemos se as revistas da especialidade poderiam dizer, como o dizem sem sequer admitir margem para discussão, que os Animal Collective – de que o próprio é co-fundador e um dos mais eminentes membros — formam, só, a banda mais influente da actualidade.

O som não foi feito para gente conservadora, ou não fossem eles tidos (com algum exagero, é certo) como autores de uma quase revolução musical. Mas é daqueles que se estranha ao princípio para depois se entranhar. Goste-se ou não, é de louvar a capacidade que a cidade de Lisboa, o Bairro Alto e a digníssima cônjuge portuguesa (pois, entretanto casou e até já tem prole portuguesa) têm para levar Panda Bear à transcendência. Mas será que a inspiração do rapaz repousará só na luz e nas vistas de Lisboa, no ambiente boémio do Bairro e no aconchego de um amor e de uma família portuguesa? Não. Ficámos agora a saber que os momentos de genialidade de Panda Bear têm uma explicação suplementar. E é tal a dívida de gratidão de Panda com o seu catalisador-mor que resolveu prestar-lhe uma sentida homenagem musical. Mas deixemo-nos de palavras para dar lugar à música, até porque neste caso esta vale mesmo mais do que mil palavras. Para quem tem dúvidas de que a cultura de massas pode conviver pacificamente com as vanguardas, deixo-vos com Benfica (batam palmas), um dos temas-forte do recentíssimo álbum de Panda Bear, Tomboy.

 

LCD I love you, but you´re bringing me down

Como é a que a morte daquela que, com a devida licença dos Radiohead, foi a grande banda da primeira década do século XXI, pode passar sem uma nota de rodapé sequer, num cemitério que foi feito, justamente, para receber os mais ilustres dos ilustres? No way.

Ainda pensei que o Vasco, que deles é um confessadíssimo adepto, se antecipasse na celebração das exéquias que tiveram lugar nos primeiros dias de Abril no Madison Square Garden, em NY, terra que viu nascer a banda de quem estamos a falar, os LCD Soundsystem, claro, e a quem eu, também, tal como o Vasco, já aqui prestei, em tempos, a devida homenagem de quem se sente devedor de tantos grandes momentos musicais.

Fica aqui a nossa dança de despedida, com Someone Great, com o consolo de que Mr. James Murphy, someone great indeed, não se vai atrever a deixar-nos órfãos e vai continuar, ai vai vai, a aparecer por aí.

Para quem (ainda) tem pânico homossexual

Pânico homossexual. Continuo sem perceber bem o que isto quer dizer. Mas suspeito que deve ser qualquer coisa que afecta aqueles senhores bem-postos que recusam qualquer manifestação de afecto mais efusiva entre homens. Daqueles que falam a uma distância de dois metros mesmo quando o assunto a tratar é segredo de Estado. Ou que são absolutamente incapazes de admitir o que é uma evidência para o resto da humanidade, que Clooney e Pitt também são belos exemplares da raça humana.  

Pois bem, para esses senhores, quase sempre muito ciosos da sua virilidadezinha, nada como um filme-ratoeira para fazer abalar as frágeis fundações em que assentam os atributos de grandes machões que fazem gala em apregoar. Filme-ratoeira? Sim, vão lá espreitar The Crying Game (Jogo de Lágrimas, no título português), filme de 1992 do irlandês Neil Jordan – o mesmo de Mona Lisa, Breakfast on Pluto, Entrevista com o Vampiro e Michael Collins, e que, nos últimos tempos, tem dado nas vistas também pelas suas artes de romancista – e digam lá se Fergus/Jimmy (Stephen Rea), membro demissionário do IRA, não é a vossa cara. Digam lá se não se sentem identificados com o valentão do Fergus/Jimmy. E digam lá se não sentiram uma leve atracção por Dil (Jaye Davidson) quando esta (esta ou este, that is the question) vos apareceu a cantar o tema-título do filme num bar. E digam lá ainda – e esse será o teste definitivo à vossa jurada masculinidade – se essa atracção – ou quanto muito, a identificação com a atracção manifestada por Fergus/Jimmy — não perdurou para além da revelação do segredo do filme.

Pois é, foram todos apanhados em flagrante delito. E não adiante dizerem que foram vilmente enganados porque o filme é do mais sério que há, como se prova pela evidente carga política que carrega e pelas seis nomeações ao Oscar — nas categorias de melhor filme, melhor montagem, melhor actor (o insuspeito Stephen Rea), melhor actor secundário (o transgender Jaye Davidson, de quem nunca mais ninguém ouviu falar), melhor realizador e melhor argumento original (estas duas categorias da responsabilidade de Neil Jordan, que venceu mesmo o Oscar de melhor argumento).

Pois é, meus caros machões desmascarados, confessem lá o óbvio: que, depois do logro em que The Crying Game vos fez cair, tiveram mesmo de engolir esse pânico que tanto vos atormentava.

http://www.youtube.com/watch?v=xF59nPVCUsw

 

Uma certeza com trinta anos

Tenho consciência de que, para os padrões actuais, sou um perfeito inculto musical. Mesmo à distância de um simples clique no Youtube ou no Itunes, nunca ouvi cantar o Justin Bieber e não distingo a Lady Gaga de qualquer outra artista de variedades. Mas ninguém me poderá acusar de ter estagnado no tempo quanto a tendências e preferências musicais. Quem daqui me conhece saberá que nem de perto nem de longe fiquei nos Pink Floyd ou nos Genesis.

Dito isto, não resisto a confessar que, decorridos mais de trinta anos desde a primeira vez que o ouvi, continuo a não encontrar, na história da música popular, álbum mais completo e perfeito do que The Wall, dos Pink Floyd – ou melhor, de Roger Waters, porque não há dúvidas quanto à verdadeira autoria e natureza autobiográfica da obra (e digo-o sem qualquer desprimor para o genial compositor e guitarrista que era David Gilmour). Lembro-me bem de, no dia em que o meu pai me apresentou ao álbum, ia eu pelos treze anos, ter pensado que, se o rock era aquilo, então estava definitivamente conquistado para o género. De ter logo antecipado, do alto da ingénua arrogância da idade, que, um século depois, o álbum seria venerado como o eram na altura, por senhores da idade do meu pai, os grandes compositores clássicos desse e doutros séculos.

É certo que ainda não passaram os cem anos do teste definitivo, mas os trinta que já lá vão levam-me a concluir que há certezas que se adquirem em tenra idade e não nos largam uma vida toda. A única dúvida que ainda tinha era a de saber se ainda manteria essa certeza depois de assistir à sua execução ao vivo pelo próprio Waters, um velho sonho que alimentava desde aquela época.

Concretizei, finalmente, o sonho de uma vida na terça-feira passada, no Pavilhão Atlântico. E, digo-vos, para além da confirmação da certeza que buscava, adquiri uma outra, tão marcada como a anterior: a de que, até à data, não vi uma tão perfeita encenação de uma obra musical. E de que, muito provavelmente, venham os Bieber e as Gagas todas do mundo demonstrar-me o contrário, não verei nenhuma outra comparável nos próximos trinta anos.

http://www.youtube.com/watch?v=kk99Av58fQI&feature=related

Blue Valentine

Ainda hoje não consigo situar o momento em que passei a embirrar com comédias românticas. Sei, sim, que, a páginas tantas (não consigo, como Woody Allen, definir com que psicanalista isso aconteceu, pela simples razão de que, bem ou mal, nunca frequentei um divã), passou a ser-me insuportável a simples ideia de um happy end a soar a falso. Ou melhor, passou a ser-me insuportável a história toda, do encontro aos desencontros até ao reencontro final, a história toda a lembrar-me, cena a cena, de cliché em cliché, que nada daquilo era assim na vida real, nas relações amorosas que todos nós, do galante sedutor ao tímido desajeitado, da femme fatale à casta donzela, estamos condenados a viver. E a verdade é que, através dessa atitude de repulsa por todos os Hugh Grant e Julia Roberts que me mentiam sem pudor algum, não conseguia evitar o desconforto de quem estava a negar a própria essência do cinema, feita muito mais de ilusão do que de verdade. E que revelação aterradora é essa, a de ser obrigado a engolir esse amor que eu, noutros tempos, fazia gala em apregoar, o amor do Cinema. Não, já não podia amar o Cinema, se deixara de acreditar naquilo que ele tinha para me dizer. E a mera suspeita de já não amar o Cinema era, acreditem, razão suficiente para me transformar num ser infeliz, eu que tinha essa ilusão de que, se a Arte não imitava a vida, pelo menos o contrário podia, aqui e ali, ser verdadeiro.

Mas a reconciliação chegou finalmente. A reconciliação chegou, por ironia do destino, com uma comédia romântica. Enfim, com uma comédia romântica em part-time. Ou com uma comédia romântica que, de comédia, tem muito pouco, e de romântica, ainda menos. Estão lá os ingredientes todos, é certo, mas é o próprio filme que se encarrega de nos dizer que tudo isso é mentira, que é mentira porque é passado. O amor está lá mas já foi. E como é cruel a forma como o filme nos confronta com aquilo que já foi. Apresenta-nos uma relação em decadência para depois nos mostrar como já foi maravilhosa. Começa pelo fim – e fim, aqui, é isso mesmo, e nada tem a ver com o paradoxo da expressão happy end – para que nunca nos iludamos sobre a irreversibilidade da destruição do amor.

Mas, perguntar-me-ão: onde está, nesta reconciliação, a doce ilusão de felicidade que o Cinema nos transmite? Não está. O que está, sim, é, a par da certeza da finitude do amor, uma outra: a de que, apesar de tudo, ele merece – ó se merece – a pena ser vivido. Duvidam? Espreitem lá esta cena de Blue Valentine – é este o filme que me trouxe a reconciliação, que devo agradecer, acima de tudo, à fabulosa dupla Ryan Gosling/Michelle Williams – e atrevam-se a dizer que não acreditam que, uma noite destas, quando menos o esperarem, vão acabar (porque insisto eu em dizer “acabar”?) a viver uma da mesma estirpe. Ou não fosse a Vida capaz de imitar a Arte.

 

http://www.youtube.com/watch?v=sbk1l5_gp-I&feature=related 

Estado de graça

Confesso: a paixão bateu-me forte. Bateu-me forte como só antes, e já lá vão largos anos, me tinha acontecido com Sweet Revenge de Ryuichi Sakamoto (o PN, outra vítima deste inebriante álbum de Ryuichi, sabe bem do que estou a falar) e com California de Perry Blake. A verdade é que, enquanto me mantiver em estado de graça pelo maravilhoso Kaputt, o último álbum do senhor Destroyer, pseudónimo artístico do canadiano Dan Bejar, não tenho ouvidos para mais nada. Ou melhor, talvez os tenha, sim, mas apenas para esses outros belíssimos exemplares de pop romântica que acabei de referir, e outros para cujas sonoridades Kaputt remete, como o Young Americans de David Bowie, o Steve McQueen dos Prefab Sprout, e o melhor que saiu da lavra dos New Order e dos Pet Shop Boys. E digo pop romântica mas não piegas. Esta é uma pop que nos faz sonhar, sim, mas feita para gente adulta, para gente que, depois de ouvir Kaputt, saberá que encontrou a expressão musical perfeita que, de flirt em flirt, há muito procurava. Para vossa tranquilidade de espírito, se querem assentar de uma vez por todas, aceitem o meu conselho: vão a correr apaixonar-se por Kaputt. E não se atrevam a agradecer-me a mim. Agradeçam, sim, ao maior casamenteiro que a crítica e jornalismo musical português produziu vai para uma dezena de anos: o Vítor Belanciano, do Público/Ípsilon, que, tal como muita da melhor música que tenho ouvido desde então, me apresentou a Dan Bejar, a.k.a. Destroyer.

One minute friends, one life lovers

Começou com um minuto. Um minuto em que apenas ouviram o tempo a passar. E a respiração do outro a suspirar, mesmo sem o saberem ou sem o quererem (quem quer o futuro quando se tem tanto presente para viver?), pelo futuro que aí viria. Um minuto em que, nalgum daqueles sessenta intermináveis segundos, sentiram, mesmo sem o perceberem logo, naquele ligeiro e quase imperceptível toque, o primeiro assomo da pele que, algures por esse futuro, seria a “minha/tua/nossa pele”. Um minuto tão decisivo que transformou em eternidade todos os minutos que, a partir daí, passaram juntos. Para uns, o minuto de uma vida que não tiveram. De uma vida que ficou suspensa à espera que a contagem recomeçasse. Para outros, os que sempre souberam que o tempo não lhes voltaria as costas, um minuto que durou muitos anos. Um minuto de muitos anos, décadas mesmo, que, numa certa noite – porque é de noite, sempre de noite, que o tempo faz justiça -, encontrou, finalmente, o minuto que lhe deu a sequência perfeita, o tal segundo minuto que acabou com a dúvida. A dúvida essencial, a primeira e última, que os fez, e nos faz, andar atrás do tempo. A tal dúvida que, elegante e diplomaticamente, se retira sempre nesses casos, com ares de triunfante derrota. No lugar que deixa, dizem que ficam quatro misteriosas letras. Que todos querem mas que ninguém sabe bem o que significam.

18 por unanimidade

Joana Vasconcelos

A “candidata” no momento em que brotavam do seu privilegiado cérebro

os brilhantes argumentos da sua tese de doutoramento

 

O Júri impressionava: João Leal Amado, Júlio Gomes, Jorge Miranda, Pedro Romano Martinez, Manuel Braga da Cruz, Bernardo Lobo Xavier, Luís Carvalho Fernandes, Rita Lobo Xavier e Graça Trigo. Como não podia deixar de ser numa prova pública de doutoramento, todos nomes de peso do mundo do Direito. A dois deles, os implacáveis Pedro Romano Martinez e Bernardo Lobo Xavier, foi confiada a missão de massacrarem a “candidata” (que despautério, era assim que eles a tratavam, antes de ela ser um deles), a própria, já, uma autoridade de créditos firmadíssimos junto da comunidade jurídica. Na plateia, familiares, amigos, advogados e professores da casa. E alunos claro. Muitas alunas e alunos, porque a reputação da “candidata” como docente gerou uma onda de fiéis seguidores que, segundo se conta, atinge momentos de puro extâse místico perante as suas manifestações de sabedoria nas salas de aulas.

Ao massacre respondeu a “candidata” com – o que é que havia de ser? – o seu brilho, argúcia e sabedoria. E sempre com um sorriso a acompanhar o argumento certo, pronto a desarmar uma ou outra cara de mau encenada, da mesa do Júri, para a “candidata” brilhar ainda mais – e o que ela brilhou, senhores!

A plateia confirmava a merecida consagração, tão manifesto era o esforço que todos os presentes faziam para não explodirem logo ali, a meio da prova, numa estrondosa ovação capaz de levar a “candidata” em ombros. E, coisa rara, raríssima, numa prova de doutoramento, os advogados (eu que o diga) aproveitavam, de bloco em punho, para recolherem das palavras da “candidata” algumas soluções que pareciam feitas à medida dos intrincados problemas que têm pendentes nos tribunais – pena é que não estivessem Senhores Juízes na plateia para conhecerem em primeira mão aquilo que, tarde ou cedo, vão tomar como cartilha, ó se vão.

18 por unanimidade, pois claro. E ai de quem se atreva a tratá-la como “candidata”. Professora Doutora é o que ela é agora. E por extenso, não esqueçam. Professora Doutora Joana Vasconcelos. A “nossa” Joana Vasconcelos Professora Doutora. Batam lá palmas. Levem-na lá em ombros. Eu vou só ali fazer justiça e já volto. Todo artilhado. É o que dá terem-me dado a benesse de escolher as armas quando já me viam condenado. Agora levam com a tese da Joana para aprender.  

O meu Cyrano, David Mourão-Ferreira

 

À sedução e às sedutoras que se ignoram, quase sempre as mais temíveis

Sublime e gloriosa é a sedução quando alcança todo o seu esplendor num céu carregado de nuvens.

Os anos 90 corriam céleres e, lá fora, o tempo sombrio facilitava o crime. Por uma boa causa, pensava eu, sentado à mesa do restaurante, enquanto iniciava uma longa série de sms dirigidos a uma misteriosa destinatária. Misteriosa para os meus convivas, que não pararam desde então de se queixar do meu desavergonhado alheamento da conversa à mesa. E misteriosa para mim também, que ignorava quase tudo sobre ela, a começar pelo amor que aí vinha. Sabia, sim, que eram muitas e escuras as nuvens que pairavam sobre a sua cabeça. A avaliar pelas reacções de adesão dela, tinha acabado de descobrir um filão. O meu Cyrano de Bergerac, David Mourão-Ferreira (DMF), à minha inteira disposição para um expediente tão divertido quanto mentiroso. Afinal de contas, o próprio DMF não podia ignorar as utilizações a que se prestavam as suas frases sobre sedução. Não olha a meios a sedução: mesmo para alcançar nenhuns fins. Era ele que o dizia. Eu, que pouco ou nada julgava saber sobre sedução, de um momento para o outro investido num poder quase sobrenatural de testar a capacidade encantatória das palavras. Era impressionante a ilusão que as palavras podiam criar – as palavras dele, e não minhas, mas a verdade é que eu próprio me convenci que a simples ideia de as ter surripiado para um fim tão nobre as fazia automaticamente minhas. Não eram quaisquer palavras, é certo, eram palavras escritas para seduzir quem estivesse disposto a lê-las à cadência de um sms por minuto, para seduzir quem quisesse ouvi-las, a ouvi-las sussurradas ao ouvido como se fossem música, como se fossem aquele raro género musical, feito apenas para os amantes, que está a uma distância de um milésimo de decibel do mais absoluto silêncio. A sedução é um dom: como o da poesia. Também tem muito ver com a música. A pintura e a escultura vêm depois. E logo eu, que não tinha nenhum dos dons, nem sequer o da sedução, pelo menos em dose suficiente para seduzir uma sedutora, recebia de mão beijada, sem pedir autorização ao autor, a arma mais eficiente, quase infalível, para vencer a timidez e insegurança que as grandes sedutoras – e ela era uma delas – inspiram a todos os que não ousam seduzi-las. Eu sabia que A sedutora mantém um despeitado respeito por quem não a quis seduzir; e um desmedido desprezo por quem não ousou seduzi-la. Mas também já suspeitava que Nem sempre a sedutora perdoa a quem por ela foi seduzido. E mais: que A sedutora pode tornar-se perigosa quando se deixa seduzir.
Enquanto a discussão dos meus convivas se acalorava à mesa – nada que tivesse a ver com sedução, apenas política, pois claro — os criminosos sms iam subindo de intensidade. Parece que a sedutora se ia deixando seduzir, à força dos argumentos de DMF. De facto, São insondáveis os desígnios da sedução. Outrora passeava-se com galgos brancos pela tela. Hoje basta-lhe sentir-se guiada por um tigre invisível. Tigre? Mas qual tigre? Um tigre invisível, sim, mas de papel, que ela, a grande sedutora, desmontaria em dois tempos assim que percebesse que aquele palavreado todo delicodoce era obra de um Cyrano, do DMF, o sedutor dos sedutores. Ainda o jantar não tinha chegado ao fim, ainda estava longe de se instalar o consenso sobre o fim das ideologias que os meus amigos estridentemente debatiam, e eis que surge, pela primeira vez, ainda que de forma muito velada, a palavra proibida. A palavra “sexo”, a tal que raramente se regista no dicionário da sedutora mas que atravessa, em diagonal, cada uma das suas páginas. Pronto, agora é que está tudo perdido, pensei eu. Nada mais fatal à sedução que o exagero da sedução.
Mas não. A sedução, com os seus insondáveis desígnios, vingou mesmo. E trouxe com ela um grande amor. Graças a David Mourão-Ferreira e ao seu “Da sedução e das Sedutoras”, de 1993, a quem eu presto aqui, com a devida vénia e agradecimentos pelas frases escandalosamente usurpadas (entre outras, as acima assinaladas em itálico), uma sentida homenagem.

Os meus dez magníficos de 2010

A luta por um lugar no pódio foi dramática até ao fim. Confesso que hesitei, e muito, no lugar a dar a cada um dos meus quatro eleitos entre dez para disputar a vitória final. Sufjan Stevens, Arcade Fire, Janelle Monáe e Kanye West andaram a trocar de posição uns com os outros nas últimas duas semanas até que eu me decidisse pela classificação oficial. O atraso de uns dias na divulgação dos meus dez magníficos de 2010 está, assim, mais do que justificado. Tudo teria sido mais fácil se Hospice, dos The Antlers, que conheci e aqui dei a conhecer já em 2010, tivesse sido editado nesse mesmo ano. Mas não, é um disco de 2009, única razão pela qual não o pude considerar o melhor álbum do ano que passou (e sê-lo-ia de caras, destacado de todos os outros).

Acabei por me decidir pelo álbum de estreia de Janelle Monáe, “The ArchAndroid”. Porque faz esquecer de vez Amy Winehouse e promete ser a diva da soul/funky/hip-hop da próxima década. A minha segunda escolha foi “The Age of Adz”, de Sufjan Stevens. Podem chamar-lhe excessivo, pomposo, pretensioso ou cabotino. Que me desculpem os seus detractores mas, na minha modesta opinião, Sufjan é simplesmente um génio. “The Age of Adz” é, só, o único álbum de pop-sinfónico-com-arranjos-à-Broadway que merece ser levado a sério até à data. Eu sei que soa muito mal, e quase provoca náusea, apresentar um disco com estes qualificativos, mas a verdade é que Sufjan desfaz com brilhantismo quaisquer preconceitos que se tenha sobre a fusão de géneros tão díspares. E, porque continuo contra-corrente, o criticado “Suburbs”, dos Arcade Fire, é a minha terceira escolha. E é-o, provavelmente, pela mesma razão porque é criticado pelos fans mais arreigados e puristas dos Arcade: porque se afastou daquele som grandiloquente e cheio de ademanes barrocos dos anteriores álbuns para se limitar a ser, só, um grande álbum de pop/rock. Quanto a Kanye, já aqui apresentado, é a prova viva, nestes tempos de ladygagazice, de que se pode ser, ao mesmo tempo, uma estrela à escala planetária e – pasme-se – o autor de brilhantes composições.

Mas chega de palavreado e passemos à lista completa. E, caros leitores, se quiserem partilhar as vossas escolhas, façam favor.

1. Janelle Monáe – The ArchAndroid

2. Sufjan Stevens – The Age of Adz

3. Arcade Fire — Suburbs

4. Kanye West – My Beautiful Dark Twisted Fantasy

5. Massive Attack – Heligoland

6. Beach House – Teen Dream

7. LCD Soundsystem – This is Happening

8. Vampire Weekend – Contra

9. The Walkmen – Lisbon

10. Deerhunter – Halcyon Digest

O teaser pop do ano

Está claro que não vou resistir à tentação de vir para aqui com uma lista dos meus álbuns do ano. Mas, por agora, quero apenas deixar-vos um aperitivo. Um teaser para preparar a festa. Uma espécie de pátio de entrada onde os dez magníficos de 2010 serão recebidos com foguetes e serpentinas. E com bailarinas em pontas a abrirem alas para a red carpet que os levará ao pódio. Uma canção para por uma multidão de curiosos em passo de dança acelerado até à apoteose final. Com estes requisitos todos, tem mesmo de ser a grande canção pop do ano. No melhor que a pop tem, que é de dar a entender aquilo que não é. Que é deliciosamente descartável quando, afinal, tem muito mais para oferecer do que uns breves minutos de puro gozo. Quem tem dúvidas que uma canção destas não acontece por acaso, basta que ouça o álbum todo para deixar de as ter. Que, depois de vibrar despreocupadamente com este “Runaway”, ouça bem todas as restantes canções de “My beautiful dark twisted fantasy” antes de concluir que Kanye West se está a transformar num caso sério. E que limitarmo-nos a tratá-lo, simplesmente, como estrela do hip-hop é pouco, muito pouco, para quem parece estar incuravelmente possuído pelos melhores genes de Jackson e Prince.

Agora serei eterno

 

Drummond eternizado em Copacapana

 

E como ficou chato ser moderno.

Agora serei eterno.

 

Ainda em resposta ao desafio do Manuel: se existem primeiros versos que me interpelam são estes, que abrem e dão o mote para “Eterno”, poema que Carlos Drummond de Andrade incluiu no seu livro Fazendeiro do Ar, publicado em 1954.

Ou melhor: mais do que me interpelarem, dividem-me, racham-me ao meio. Porque não é justo obrigar ninguém a optar entre o moderno e o eterno, como se fossem duas noções que se excluíssem mutuamente, que fossem o oposto uma da outra. E não são? Não, segundo Baudelaire, o moderno e o eterno são as duas metades do belo. Ou as duas metades da arte, que, na altura em que Baudelaire escreveu sobre o assunto (O pintor da vida moderna, em 1863), era o outro nome que se podia dar ao belo, muito antes de Malevitch e Duchamp terem vindo baralhar o que todos davam por adquirido. Dizia Baudelaire, à propos, que “o belo é feito de um elemento eterno, invariável, cuja quantidade é demasiadamente difícil de determinar, e de um elemento relativo, circunstancial, que será, se quisermos, de cada vez e em conjunto, a época, a moda, a moral, a paixão”, e que “a modernidade é o transitório, o fugitivo, o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e o imutável”.

Há quem diga que o objectivo de Drummond era mesmo o de se livrar da dualidade baudelairiana, ou seja, o de se demarcar do transitório e do fugitivo para se fixar no imutável e no permanente. Mas outros dizem que talvez não seja nada disso, que talvez a chave esteja no qualificativo “chato” aplicado a “moderno”. Se o moderno ficou “chato”, então é porque passou de moda e já não é moderno. E o eterno, por sua vez, teria passado a estar na moda. O que é o mesmo do que dizer que ser eterno é tão moderno como ser moderno. Isto porque, segundo Baudelaire, ser moderno é o que está na moda ou, quanto muito, o que nunca passa de moda. E o eterno acabaria, assim, não como o oposto do moderno, não a moda a passar de moda, mas simplesmente uma nova categoria da moda.

Nessa leitura que uns quantos fizeram do “Eterno” de Drummond, ficaria resolvido o dilema entre moderno e eterno. O que poema faz é, simplesmente, dissolver o eterno no moderno. Ou, por outras palavras, modernizar o eterno. Mas nada como cada um ler os outros versos do “Eterno” para julgar por si próprio.

 

E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.
……………………………….

Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem nome e lhe comuniquem o sentimento do efémero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fracção de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma
[força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
[passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
[mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
[afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
[essência ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
[pousou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma
[esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.

Antes galdéria do que normal e remediada

“Nunca Palha tinha comido uma gaja daquelas e nunca uma gaja o tinha devorado assim. Mizé era a volta mais inesperada que a vida de Palha alguma vez podia dar. Era a oportunidade num milhão. Era a subida para o patamar social onde muitos poucos sonhavam viver. Nenhum dos amigos de Palha vivia ou estava casado com uma gaja boa. Alguns tinham gajas mais ou menos boas. Mas boa, boa como Mizé, não.”

Enquanto por aqui se discutiam — pelos teclados sumamente inspirados do MSF,do PMS, do JNA e da Marta, e com uma elevação e originalidade dignas de tese de doutoramento — as relações da pornografia com o sagrado, a arte, a cor e a corda, eu corava de vergonha. Não porque o assunto me intimidasse — quem já aqui me leu sabe que não viro costas a uma boa provocação que, parafraseando o MSF ou o Aurélio (como queiram), “motive o lado sexual do indivíduo que eu sou”. Corava de vergonha porque me senti apanhado em flagrante delito. Em pleno acto pornográfico, como salta à vista lá em cima – e essa é só uma ligeiríssima amostra – pelas leituras que me ocupavam quando as revelações dos meus iluminados companheiros de blogue entraram pelo écran dentro. É verdade: bem pornográfico me senti eu por, nessa altura, ter acabado de saber o que Palha, vendedor de batata frita nos arrabaldes de Lisboa, desejaria nunca ter visto. Certamente concordarão comigo que nada haverá de mais pornográfico do que, numa noite de copos com os amigos (daquelas noites só para homens, se é que me faço entender), dar com a própria mulher, em pleno bacanal num “filme de putas” (é assim que lhe chamam Palha e os amigos), numa cassete Betamax (ou seria VHS?) alugada no clube de vídeo do bairro. Pois bem: foi mesmo esse o azar de Palha, o castigo que ele teve de pagar por ter casado com a “gaja mais boa da vizinhança”, oficialmente atracção do salão unissexo (vulgo cabeleireiro misto) lá da zona, e para quem, pelos vistos, não existiam limites para ser “famosa” (mas onde é que nós já ouvimos isto?) e mais valia ser “galdéria do que normal e remediada”.

Feitas as apresentações de “Mizé – Antes galdéria do que normal e remediada”, resta-me dizer que ficou reduzida a cinzas a parca legitimidade que ainda pudesse sobrar-me para contribuir com um mínimo de dignidade para o debate. Sobretudo se vos confessar que o meu facies foi acompanhando a leitura com esgares que oscilavam entre o sorriso malandro e cúmplice de “macho” e a gargalhada alarve sem perdão.

De pouco me serve a consolação de haver quem diga que o escrevedor desta historieta, Ricardo Adolfo de seu nome, português nascido em Luanda, escreve livros como Almodóvar faz filmes. Ou que eu próprio, para expiação do pecado do deleite que a leitura me provocou, tenha procurado converter a pura e simples brejeirice em delirante (e brilhante) exercício de humor non sense. Ao ponto de, vejam lá, ter acabado a comparar o dito Adolfo e a sua “Mizé” com esse extraordinário escritor que é Mário Zambujal e a sua inesquecível “Crónica dos Bons Malandros”.

Não me poupem, caros companheiros de blogue, ponham-me de castigo caros leitores, que isto é tudo muito “chunga”. “Chunga”, literatura “chunga”. E da mais fina cepa.

Márcia

É um ponto fraco meu, confesso. Vozes femininas a sussurrarem-me melodias ao ouvido. Daquelas em que o silêncio também tem espaço para se fazer ouvir. O encantamento começou com Suzanne Vega nos anos 80, amainou durante boa parte da década seguinte, e voltou quase na viragem do século com Lisa Germano e Stina Nordenstam. Mas a verdade é que nunca me deixei apanhar completamente nas malhas que esses frágeis fios de voz me lançavam. Embora me seduzissem, acabei sempre a resistir-lhes, sem saber bem porquê. Talvez porque sentisse que não eram, ainda, as vozes definitivas. E não eram. Outras vieram. Até que chegou, e já não era sem tempo, uma voz portuguesa com a mesma capacidade encantatória. Fixem o nome: Márcia. Fixem-no porque vão ouvi-la, a ela, por muitos e bons anos, estou certo. Para já, tem um álbum para ouvir, de nome , que não é coisa pouca. Isto para não dizer, sem nenhum exagero, que não deve haver melhor na produção nacional deste ano. É que dá mesmo vontade de não resistir.