Física transcendente

Como não haveria de acontecer? Impossível é o contrário — ou seja, não acontecer um dia.
Nós, seres humanos, vamos descodificando os segredos da vida e parece que com isso apenas nos aproximamos mais da nossa própria destruição. Aceitamos as trancas à porta depois de sabermos, muito para lá da intuição, que inevitavelmente a casa um dia iria ser roubada.
Continuamos a construir em leitos de rios secos apesar de sabermos que um dia o fortuito poderá causar um desastre inqualificável. Por cá os casos apenas são de menor dimensão ou mais grosseiros — como foi aquele absurdo em Entre-os-Rios, de onde todos saíram ilesos menos os mortos e as suas famílias (parece que houve um funcionário da ex-JAE que foi considerado culpado…)..
No Japão, e provavelmente em muitos outros sítios de estabilidade crítica, construíram-se montes de centrais nucleares porque os custos energéticos assim o exigiram. Custos estes que hoje, numa ironia hórrida, foram de tal forma ultrapassados que há já mesmo quem pense que o fantástico país do Sol Nascente tem os dias contados (pelo menos como até agora o conhecemos).
E não, não é culpa dos japoneses. A ser atribuída a alguém a culpa só pode recair no binómio ciência/indústria. É por aqui que se geram os maiores desequilíbrios, já que o tal binómio existe e cresce em função e em paralelo com as mecânicas económicas: a natureza é parcialmente descartável e os riscos que se apontam uma mera suposição de mentes retrógradas e assustadiças, verdes demais quando comparadas com o incomparável brilho do metal polido.
Os 50 que vão morrer saúdam-nos a todos com um gesto que será para sempre transcendente, porque o amor pelo bem será sempre algo de transcendente.
Sinto-me mal por saber o que sei, e no entanto sei bem que só há frente neste caminho — nenhum apeadeiro real.
Dedico este Transcendental Express, dos alemães Can,  àquela meia centenas de bravos que aceitaram o sacrifício de morrer no altar… no tal altar de merda em metal polido!

 

A Rainha da Matamba

Há cerca de duas semanas tive uma sorte incrível.
Numa vaga vistoria ao catálogo de novos títulos da Loja do Cão Preto dei de caras com este livro que, para mim, tem um significado especial: trata-se da história aceitavelmente verídica de Ginga N’Gola M’Bandi, a célebre Rainha de Matamba de quem há tempos aqui falei a partir do livro Seara dos Tempos, escrito e editado em 1967 pelo meu Pai e de onde provêm estes desenhos a tinta-da-China de Neves e Sousa.
Este Jinga, rainha de Matamba, da autoria de João Maria Cerqueira d’Azevedo, foi publicado em 1949 sob a forma de comemoração do tricentenário da restauração de Angola como possessão da coroa portuguesa — já que a sua acção cobre quase por inteiro os reinados Filipinos. O autor socorre-se das memórias do missionário italiano Cavazzi, um capuchinho que conheceu e até assistiu a alguns dos factos aqui relatados, de entre outras publicações de carácter mais oficial — como é o caso da História Geral das Guerras Angolanas, de António de Oliveira Cardonega, e dos Apontamentos sobre a ocupação e início do estabelecimento dos portugueses no Congo, Angola e Benguela, de Alfredo Albuquerque Felner.
Independentemente dos créditos, este é um bom livro — podendo ser considerado livremente como uma monografia com uma data de gente a mexer lá dentro, pois inclui no seu tecido alguma dramatização romanceada pelo autor.
E que gente há lá dentro! Gente que se mata e se canibaliza em rituais tremendos adoptados da cultura jaga (ou imbangala?) que impregnava (os missionários diriam que infectava) o grosso das aguerridas hostes gentias e seus régulos, séculos e macotas.
(Os jaga são normalmente conotados com tribos de guerreiros nómadas de possível origem na Somália, que começaram a assolar a África sub-sahariana a partir dos finais do século XV; são os seus incríveis rituais de carnagem e canibalismo que Joseph Conrad parece reflectir no seu Heart of Darkness — o que faz todo o sentido pois os jaga vieram do centro-leste para a costa da África Ocidental, Congo incluído).
Mas de quem este livro fala particularmente, e bem, é de Ginga N’Gola M’Bandi e da sua incrível história de mulher poderosa e sabedora: filha de N’Gola M’Bandi, rei do Dongo, Ginga (ou Jinga, no grafismo de Cerqueira d’Azevedo) podia ser uma Borgia — não fosse a falha de com ela não ter existido incesto (pelo menos tanto quanto se sabe).
O que mais se sabe é que ninguém brincava com ela, portugueses incluídos: fez-se baptizar com o nome da sua madrinha, D. Ana de Sousa, mulher do capitão-general D. João de Sousa, apenas para atrair para a sua esfera de influência o irmão usurpador e assassino do seu filho (herdeiro natural do reino do Dongo, pois em África quem sucede ao rei é o filho da sua filha porque essa é a única garantia perfeita de que o jovem príncipe tem de facto sangue real…), enganou os portugueses e tudo fez por juntar ao seu auto-proclamado reino de Matamba o do Dongo (e tudo o que viesse de arrasto).
Na verdade, Ginga queria ser rainha de Angola — e de certa forma foi-o.
Mas eu ainda só vou a meio, e é por isso que meto aqui esta matrioska que contém um naco razoável da sua admirável pose.


A embaixada de Jinga M’Bandi a Luanda (1622)

Uma rajada de ar salino entrou pela janela aberta do lado do sul e refrescou-lhe as faces, incutindo-lhe ânimo e coragem.
Tudo isto se passou mais de-pressa do que é possível descrever. Com passo seguro e de cabeça erguida, levando nos lábios o mais belo dos seus sorrisos, aquele que prodigalizava aos amantes para os dominar e fazê-los escravos da sua vontade, aproximou-se de D. João, refastelado em sumptuosa estadela, pronto a recebê-la com a gentileza dos cortezãos acostumados a lidarem com gente de algo, em sumptuosos paços de reis.
– Moiô! … – exclama a princesa batendo ao de leve as palmas das mãos.
– Cumprimenta-te e deseja-te bons dias – esclarece o língua negro encarregado de manter a conversa entre as altas partes contratantes, postas frente a frente e que não se compreenderiam sem ele.
Agradeceu, em seguida, o capitão-general e governador, o sacrifício da princesa em se deslocar, de tão longe, com o fim de unir as boas relações entre os europeus e seu irmão, o poderoso N’Gola M’Bandi.
Emquanto o intérprete se ocupava da tradução, Jinga reparou na falta de uma cadeira para se sentar e que, no chão, em frente ao capitão-general e sobre uma rica alcatifa, estavam duas almofadas que, sem dúvida, ali deveriam ter sido postas para si. Sorriu-se com uma intenção bastante discreta, e, agradecendo as palavras amigas com que acabava de ser recebida, relanceou, após isso, um olhar significativo para uma das suas camareiras. Esta, percebendo, acorreu pressurosa e, colocando-se por detrás dela, ajoelhou e pôs-se de bruços, oferecendo o dorso, como assento, à sua nobre senhora e ama.
Todos os presentes ficaram surpreendidos perante o acto de humilde submissão da negra, bem como do hábil e aprumado gesto de revolta de Jinga contra o que considerava um vexame se se sentasse nas almofadas que, bem perto de D. João, se encontravam.
O orgulhoso fidalgo sentiu-se ferido no seu amor próprio e muito grato lhe seria pôr fora dos seus aposentos, a insolente gentia, porém, os interesses da coroa e os dos portugueses, obrigam-no a aceitar, com dissimulada indiferença, o correctivo da irreverente embaixatriz que, entre os seus, usava o título pomposo de rainha de Matamba.

Quando acabar de ler e se gostar muito pode ser que volte ao tema.

Curvas de Gauss

Sim, gosto muito deste, apesar dos dois guaches do Corot serem bem mais valiosos. Mas gosto deste por boas razões: mais de metade dessa gente é da minha família. E sabe o mais curioso? Foi devido a uma dessas personagens, uma das mulheres naturalmente, que, apesar do desconhecimento quase geral desta actividade médica na Dinamarca, me tornei psiquiatra… Qual delas? A que está de costas, não se lhe vê a cara mas o semblante é perceptível, era muito atraente, sem dúvida. Possuía uma beleza afável simplesmente encantadora, onde entrava trazia com ela uma atmosfera sorridente. Era muito divertida…
Mas não foi por causa dela propriamente… Enfim, é uma história bastante confusa, como confusas costumam ser as relações que envolvem os complexos de rejeição e os conflitos mais surdos da personalidade de cada um de nós. Sabe que há pessoas que fazem mal a si próprias só para que as outras tenham pena?… Não?…, pois então fica a saber.
Aqui o caso pode-se dizer que parece em tudo uma cena de ciúmes, pura e simples, mas… Bem, vou-lhe contar isto porque você é aprendiz de feiticeiro – como tal, merece.
Tudo aconteceu uns anos depois deste quadro ter sido pintado. Sonja, a rapariga de costas, era preceptora da minha irmã mais nova, e por razões evidentes suscitava a atenção de muito boa gente – maioritariamente homens, mas não só. A minha mãe, por exemplo, não suportava pessoas feias ou velhas, e aos 80 anos ainda era assim… Eu?…, teria uns 19…, talvez já vinte anos, não me lembro bem. Mas deixe-me lá seguir a memória senão perco-me.
Acontece que um certo dia o meu primo Thomas, no meio de uma das suas cenas ridículas de bebedeira, irritou-me a pontos de me ter travado de razões com ele. Foi poucos anos depois, uns três, de ele ter chegado do Afeganistão. Com uma mão furada e os miolos fritos sem ovos. Insistiu perante uma plateia de supostos amigos que já se atravessara nos lençóis com Sonja. Eu, que detesto este tipo de gloriolas públicas, chamei-lhe mentiroso, ali, em frente de toda a gente. Ele era mais velho que eu uns cinco anos e tinha uma experiência de violência que eu desconhecia em absoluto. No entanto, fosse pelo excesso de álcool, fosse pela confiança inaudita que depositava no seu obscuro passado de mercenário ao serviço dos ingleses, o facto é que lhe dei curta tareia que só terminou quando caiu dumas escadas abaixo, acabando no fundo delas como um saco de batatas.
O quê?… Sim, foi um espanto total na assistência. Mas particularmente nele: fitava-me com uma cara que não era de ódio ou sequer medo, antes de respeito. É, foi um pouco inesperado até para mim, mas também só eu é que me apercebi do facto – porque eu olhava-lhe agora no fundo dos olhos e ele sabia disso.
Então fiz uma coisa simples: apanhei-o do chão e embebedámo-nos os dois com todos os matadores e muita conversa… É, foi isso mesmo… Mas espere lá, isto ainda não é nada, tenha calma.
Uma das coisas que eu conhecia em Thomas era a sua queda para a confidência sob os efeitos do álcool; ora nessa noite ele tinha as comportas escancaradas, o que acabou por proporcionar algumas confissões curiosas. Particularmente no que dizia respeito à sua curta estadia nos arredores de Kandahar e às razões para de lá ter sido evacuado com as pressa possíveis na época.
Convém explicar que este meu primo, por razões que julgo conhecer (mas que não vêm aqui ao caso), possuía um tipo particular de feitio conflituoso: ele achava que tinha de ser o chefe em tudo, o líder, embora não possuísse a maior parte das características dum homem sequer habituado a mandar. Havia um desejo especial de importância e respeito que roçava a mania… Sim, um pouco megalómano, e certamente o toque de esquizofrenia que por vezes o fazia agir como um verdadeiro doido. Talvez por isso ninguém o levasse muito a sério – apesar do certo receio que infundia por ser briguento – o seu grande argumento – e muito por via, também, das aventuras mais ou menos fantasiosas que dizia ter protagonizado na sua pouco sinalizada vida de soldado da fortuna.
Nessa noite ele contou-me algo que mostra como há certas pessoas que têm uma estranha necessidade de arriscar até a própria existência (que não simplesmente a vida) apenas para provar que são mais qualquer coisa do que aquilo que se vê. E nesses momentos, meu caro Hans, a Curva de Gauss do comportamento mostra o nosso bicho muito perto do tigre – ali já pouco há de gente… Sim, eu sei que não é uma constância, que são picos e tudo o resto… Mas!…, importa-se de me deixar continuar?…
Bom, depois de fumarmos um pouco de ópio (ele tinha sempre algum), já muito desprendidos, a guerra e o sofrimento vieram à baila. E à baila também vieram o Afeganistão e o ferimento que o deixou relativamente deficiente (porque apesar da bala lhe ter furado a mão esquerda ele conseguia fazer quase tudo…). Enfim, explicou-me que aquilo tinha sido apenas uma aposta, do tipo roleta russa, que fizera com um tolo igual a ele. Nem era a dinheiro, mas apenas para ver quem era o mais afiado…
Então cada um pegou na sua pistola, cada uma delas com três balas no tambor (três!, veja-me bem a imbecilidade…), e cada um escolheu o sítio do corpo em que daria o tiro da sorte. Já tinham feito com uma bala, com duas, agora tinha de ser com três – disse-me então o pobre Thomas. Mas era óbvio que não queriam morrer, porque o outro disse que dava um tiro no pé, enquanto o meu primo escolheu a mão esquerda…
Resultou disto que ambos se feriram com gravidade, esta bastante aumentada pelo facto de se encontrarem longe de tudo. Sei que Thomas demorou quase um ano a regressar à civilização… O outro?!… Sei lá do outro! O que me interessa aqui é a necessidade destas duas almas gémeas se tentarem vencer uma à outra num concurso tão pateta…, para ver quem era mais macho!… Um primarismo total.
No fundo Thomas nunca chegou a ser um adulto completo; tinha birras de autêntica criança… E aquela necessidade de se afirmar!, pobre Thomas…
Por fim pediu-me que nunca falasse disto, claro. E atirou-me à cara que eu só me enchera de brios com ele por causa de Sonja, que havia ali ciumeira minha. Eu ri-me bastante da suposição, mas claro que lhe jurei que não dizia nada. Como também lhe jurei que a entreposta relação com Sonja pura e simplesmente não existia.
Até ele morrer, há mais de vinte anos, fiquei sempre com a sensação de que nunca acreditara verdadeiramente na minha, chamemos-lhe, inocência…
Ai você também não acredita, é?…
E isso que interesse pode ter, rapazinho?!
Vá, vá lá estudar…

 

Uma longa noite de maniqueísmo

Este meu momento, que embora pouco ou nada pareça é de facto espiritual, tem a ver com a obra que o alegado filho de Deus feito homens tem vindo a fazer desde o alvor dos tempos. Chamo-lhe momento em tom de eufemismo, porque de facto trata-se antes dum vasto espaço de tempo, este território onde vi nascer todos os monstros que existem e para sempre existirão na minha mente.
Para estabelecer um paralelo qualquer digamos que se trata de algo semelhante à única verdade económico-financeira irrefutável, esta digna do próprio Jacques de la Palice: a massa monetária é progressivamente proporcional ao aumento da população.
Daqui ao dogma liberal (e não só) que considera a estagnação ou o decréscimo populacional como um dos maiores riscos que correm as nações, suas economias e sociedades é, obviamente, um saltinho.
Trago isto à baila porque sinto-me maniqueísta em relação ao desenvolvimento em termos globais. Porque mais gente significa mais cimento, mais especulação, mais prodígios e remédios, mais sujeira e desperdícios e, acima de tudo, mais sonhos mirabolantes cruzando os confins das vastas matas cerebrais de todo este amontoado mais ou menos caótico de gente e seus misteres.
Não é de agora que penso assim, como é óbvio – sempre achei que o absurdo um dia nos atingiria de forma material, qual valente bofetada bem puxada de trás.
Sou portanto um pouco avesso ao excesso de oferta (e ao disparate da procura, claro), regularmente espanejado nas nossas ventas pelos mais grosseiros espectáculos publicitários que o copywriting comercial é capaz de regurgitar.
Do outro lado, a tal outra face da mesma moeda esmaga-me com a sua natureza prática: o grosso da economia mundial vive disso, e se as coisas mudassem muito de paradigma (horreur!, disse a palavra proibida…) ia morrer uma farturinha de gente.
Por isso aceito a realidade, desconformado com a inevitabilidade do jogo que existe para disputar.
Neste morno preparo digestivo de modernista desiludido dei comigo a lembrar-me dum dos heróis da minha juventude adulta, o neo-renascentista Robert Buckminster Fuller (Bucky Fuller para os amigos).
Para quem não conhece o personagem aqui vai um retrato-robot: expulso de Harvard duas vezes por dissipação simples (copos e desleixo estudantil), suicida em potência depois da Grande Depressão e por morte da filha (com poliomielite), aceita renascer em 1932 em Greenwich Village ao lado de pessoas como o literário casal O’Neil e os escultores Constantin Brancusi e Isamu Nogushi – que era também designer e com quem Fuller desenvolveu vários projectos e a amizade duma vida.
A grande criação que o tornou famoso foi o desenvolvimento e vulgarização da cúpula geodésica (se já foram à Serra da Estrela, à Torre, e olharam para cima, viram uma – a enorme bola branca formada por centenas de triângulos). Além disso desenvolveu a casa e o carro Dymaxion, desenhou sem parar e escreveu poesia e prosa (Manual de Instruções para a Nave Espacial Terra), ao mesmo tempo que dava aulas de tudo e sobre tudo.
Andava eu a cuscar no Google à procura de algo que definisse um pouco este meu herói, e dei de caras com uma espécie de crítica a um documentário precisamente sobre ele: Buckminster Fuller’s World: Emancipation by Design. O crítico é Shaun Huston, um professor associado em Geografia e Cinema na Western Oregon University, e o artigo saiu no jornal electrónico PopMatters.
Do longo texto retirei apenas os primeiro e último parágrafos. Acho que chegam para dizer algo do personagem – que é realmente fascinante.

O primeiro:

There are two sets of shots in The World of Buckminster Fuller(1971) that I keep coming back to as I think about the film. One shows Fuller holding court in a small classroom, or maybe a student lounge, with a cluster of college-aged kids sitting around him in a semi-circle, some on tables, some on the floor, some in chairs, all looking rapt. Another is from a similar scene at the University of Detroit School of Architecture. Once again, an audience of young people is crowded around the older man, listening.

O ultimo:

One quality that makes Buckminster Fuller a complicated figure in the American history of ideas is that it is easy to consider his designs out of their social, environmental, and political contexts, a trick made all the more tempting for the retro-futuristic cool of his structures and forms. However, The World of Buckminster Fuller, by giving its subject free reign to articulate his worldview, makes clear that the man himself never saw his inventions outside of their substantive ends. No doubt this is why he attracted clutches of idealistic college kids seeking to change the world. Maybe he still can.

Para mim isto é boa publicidade – a boa. Porque depois…
Bom, para ilustrar o meu conflito encontrei dois filmes exemplares. O que segue já, mostra uma parte do que abomino na sociedade corrente, algo que para o meu carácter semi-silvestre (proto-neo-pastoril?) é como viver alegremente no cólon do Hall 9000:

Este outro aposta num verdismo adocicado que me encanita até ao urro. E nem é por causa da música (que é uma boa trampa), mas antes pelo carácter sueco-venezuelano de mensageiro-mirim desta porra toda.

Conclusão: afinal não há muita gente séria.

Deixem-se de partes gagas e riam!

Nota introdutória:

(Iniciei este post metendo a imagem em primeiro lugar, no exacto momento em que o meu filho passava por trás de mim; resultou disso que ele me dissesse: lá estás tu a meter-te com o MSF… À boa maneira sueva devia ter-me virado para trás e corrido o cusca com um pontapé na bunda, dizendo-lhe, por exemplo, que não me chamo Maria… Não, este post não é para me meter com o Manuel — nem que seja porque aguardo oportunidade óptima para fazer isso de forma eficaz e gratificante para ambas as partes. Porque, como dizia alguém que já não me lembro, se algo tem de ser feito então que seja bem feito)

A razão de ser deste post é apenas e só divertir e fazer rir, porque acho esta uma das grandes benesses com que se pode agraciar o próximo.
Tenho ideia que pelo menos uma vez, aqui, consegui alguns bons sorrisos (e, quem sabe, alguns points for score junto do sorridente Deus que a todos observa por de trás das nuvens).
Como a primeira fórmula funcionou razoavelmente bem, voltei ao grande Jiří Kylián, coreógrafo do Nederlands Dans Theater , desta vez no seu projecto CAR MEN.

Espero que gostem.

Syd Barrett (1946−2006) – By the way, which one is pink?…

É estranho como me sinto estranho a escrever algo sobre Syd Barrett. Porque estranha foi também a atracção que senti por este personagem quando o conheci formalmente, três ou quatro anos depois de pela primeira vez ter ouvido o som dos Pink Floyd.
Nos idos de Setenta pouco me interessavam os músicos da minha eleição, ou sequer o que lhes ia acontecendo. Lembro-me das mortes de Morrison, Hendrix e Joplin, por exemplo, mas entendia isso como natural casualties duma actividade que continha em si certos riscos: o rock e as drogas estavam associados num pacto cada vez menos secreto, que eu ia conhecendo melhor ou pior, mas o que gostava era de ouvi-lo – enquanto tentava atravessar mais ou menos ileso o fim da adolescência e me preparava (não preparava nada, bem entendido) para entrar na vida adulta pela estranhíssima e ogival porta d’ armas.
Porque foi realmente em Angola que tive um contacto mais permanente com aquela música enigmaticamente brilhante, executada, parecia, por músicos duma outra galáxia. E de certo modo os Pink Floyd eram músicos de outra galáxia.
No entanto os primeiros LP’s que ouvi deles foram alguns dos que já não contavam com a participação de Barrett – que em boa verdade só fora objectivamente activo no primeiro (The Piper at the Gates of Dawn) e em algumas peças avulsas integradas nas colectâneas Relics e Masters of Rock (como Apples and Oranges, Arnold Layne e See Emily Play). Para Angola levei no meu bornal Atom Hearth Mother e o à época absolutamente inquestionável The Dark Side of the Moon.
Realmente só em 1976 ouvi falar de forma objectiva deste mago que um dia desistiu de o ser, e das suas duas obras a solo – The Madcap Laughs e Barrett, álbuns baseados em alguns textos de 65/66 e gravados com a participação de alguns dos seus ex-companheiros de grupo (Roger Waters e David Gilmour, por exemplo). O que então ouvi foi o que já toda a gente ouvira: tinha flipado de vez por ter tomado ácido a mais. Coisa que eu achava perceber por duas razoáveis razões: já tinha tido umas trips bem esquisitas, e já tinha visto os estragos que o LSD podia fazer quando lidado como um mero garraio: desdobramentos de personalidade, ou antes a personalidade desmascarada por si própria?… Talvez.
Continuo a achar a segunda hipótese mais exacta, embora tenha a certeza que uma droga poderosa como esta tem efeitos mais devastadores numas pessoas do que noutras. Não se trata do azar casuístico duma bad trip, mas antes o desmoronar de referências tidas por boas até há pouco e o despontar de sincretismos cada vez mais nebulosos para quem não conhece semelhantes territórios (e até para quem conhece, pois nesta matéria cada pessoa é um caso aceitavelmente único).
Barrett criou duas obras-primas distintas: a primeira foi o grupo Pink Floyd – desde o nome (que resulta da fusão dos nomes de dois bluesman americanos, Pink Anderson e Floyd Council) até à fórmula especifica do seu som, de que o grupo irá ficar refém para todo o sempre; por fim, escreveu oito das 11 músicas que compõem esse hino psicadélico completo que é The Piper at the Gates of Dawn.
Quando pela primeira vez ouvi Astronomy Domine, algures em 1976, ouvi também pela primeira vez falar de algo que já me tinha acontecido:

Lime and limpid green, a second scene,
A fight between the blue you once knew.

«Uma luta no meio do azul que um dia conheceste»…

Como não me reconhecer por trás da lente olho-de-peixe, observando a tensão crescente na velha sala repleta de objectos mágicos, a guerra personalizada particularmente entre dois dos protagonistas que se conheciam de longa data, e a certeza absoluta do que significava cada gesto, cada palavra, cada mal-entendido! E, já na ressaca descendente, a minha surpresa total quando o terceiro (um amigo de sempre) me confrontou com o «facto» de não podermos continuar a sê-lo – nunca percebi o porquê disto e acho que ele próprio também não, já que mal secas ficaram as águas do rio que cruzáramos de novo voltámos à velha amizade de sempre…
Depois de muito disto e doutras coisas, já na versão Pink Floyd, Barrett torna-se errático, descrente acho eu, estraga concertos com a sua atitude inconsistente em palco. Por fim, em 1968, afastam-no do grupo. Ou terá sido ele quem se foi afastando, num propósito que ainda não se reconhecia como tal? E ele, Roger Keith de seu nome mas Syd desde os 14 anos, o Piper, o Crazy Diamond que meros três anos antes criara a gig mágica dos Floyd e os atirara para o estrelato, enceta a fase mais crítica da sua vida londrina antes de, em 1978, voltar à sua natal Cambridge. Para trás ficavam The Madcap Laughs (1969) e Barrett (1970), obras que a meu ver (e no de muita gente, imagino bem) retratam um pouco a sua posição de rejeitado do grupo e muito mais a sua relação, presume-se que tempestuosa, com as suas namoradas em geral e com Lindsey em particular.
Mas são músicas belas, duma beleza perigosa, sombria – como a mata profunda à hora em que o dia se compõe de penumbras. Em Octopus, por exemplo:

Isn’t it good to be lost in the wood
isn’t it bad so quiet there, in the wood
meant even less to me than I thought
with a honey plough of yellow prickly seeds
clover honey pots and mystic shining feed…
well, the madcap laughed at the man on the border (…).


Barrett nas tintas


Consta que fez as 60 milhas (quase cem quilómetros!) que separam Londres de Cambridge a pé. Estava gordo, de cabeça e sobrancelhas rapadas, quando entrou em casa.
Passou a pintar e a fazer jardinagem, de que era verdadeiro fanático.
Recusou ser star ou mesmo shooting star. O seu sucessor nos Pink Floyd, David Gilmour, disse dele que nunca conseguiria conviver com as imposições que o sucesso fatalmente acarreta. A mim parece-me uma óptima explicação para o sucedido.
Por vezes voltava a Londres, para ver exposições de arte e de plantas, e também ia frequentemente com a irmã à praia. Irritavam-no os paparazzi, mas a quem não?…
Tinha diabetes e morreu de cancro no pâncreas aos 60 anos.

Mas a sua vida continua a ser um filme.

Jamais par coeur

A homenagem que Manuel Salsero Fonseca aqui fez às fadas do blog produziu-me alguma inveja alfa.
Como não sei estar convenientemente quieto no meu canto por muito tempo, rapidamente impus-me gizar réplica.
Não para reduzir, nunca para denegrir ou sequer minar.
Apenas para, digamos, competir em galanterie.
Tenho muita pena de não saber traduzir poesia de forma minimamente conveniente — por isso remeto-me ao original de Pontsevrez e ao seu Les Coeurs, de onde roubei um Coeur de Musique (por sinal o que mais gosto dum total de 62 disponíveis).
A ilustração musical poderá não ser de esfuziante alegria, não é realmente. Mas são duas composições lindíssimas sendo que a primeira, Golden Hair, adopta um poema de Joyce.

Semos todos berdinhos inté segunda!

Há uma realidade insofismável: o dragão é verde.
De conluio, há também um sofisma razoavelmente realizável: S. Jorge nunca matou qualquer dragão, e assim, como arcanjo, deixa muito a desejar.
A prova disto mesmo é anualmente imortalizada em Monção, berço de grandes capitães de mar-e-terra das Índias e Brasis — e, incontestavelmente, de belas mulheres e do maravilhoso vinho Alvarinho. Porque todos os anos a velha Coca de Monção (afinal um dragão com um nome bem malander) vem à rua, sempre caridosa, ajudar o pobre do S. Jorge na encenação da sua velha rábula.
Ora se a Coca todos os anos sai da gruta seja para o que for (nem que seja a breve mijeca), isso só pode significar que continua viva, fresca, fértil e de excelente saúde. É por isso que o símbolo de Monção é a Coca e não S. Jorge (q.e.d.).
Depois, o dragão ama o azul. Como não, se é o elemento natural das suas passeatas, amores e caçadas?…
Só podia amar o azul.
Por isso é do FCP.

Fruta podre dá baile em Sevilha

Já no passo seguinte tenho de concordar que a campanha dos quatro clubes portugueses presentes na Liga Europa se salda globalmente positiva: duas vitórias, a do Benfica em casa (resultado ambíguo, sim, mas é uma vitória) e a do Porto em Sevilha (este sim, um resultado brilhante só ultrapassado pelo bailinho à moda de Braga que levou na Champions — de onde o SLB saiu aos tropeções e cheio de sorte, como é sabido…); um belo empate do Sporting (Spoooooooortiiing!…) que lhe dá boas expectativas para o jogo em Alvalade; finalmente, o Braga perdeu no rink polaco pela margem mínima, restando-lhe agora a oportunidade de sacudir o Lech Poznan no palco da Pedreira.

E isso será já para a semana — semana esta que se inicia com o crónico Campeonato da Segunda Circular, que ocorre em simultâneo com a Primeira Liga, a que o FCP vai assistir na amável e destressante posição de couch potato — esperando, obviamente, que os homens do SCP soltem o seu melhor rugido, que se deixem de lagartices patetas e que cumpram o seu dever com denodo e pundonor!
Por isso, até segunda-feira à noite, semos todos berdinhos!

Bibó Porto! (quer-se dizer, Sporting… Spoooooortiiiing!!!….)

 

A múmia

A eternidade está enamorada dos produtos do tempo
(William Blake, in A União do Céu e do Inferno)*

 

O jovem inspector da PJ não conseguiu esconder a absoluta incredulidade face ao estranho quadro montado como se de quadro real se tratasse, um modelo que se erguia na pequena sala numa sucessão de planos específicos, onde os vários objectos pareciam funcionar como marcos topográficos numa peça de teatro surrealista centrada na múmia cuidadosamente maquilhada do obscuro transformista Lily du Barry, que jazia reclinada sobre o lado direito. Uma mistura indistinta de formol e incensos vários, não excessiva, agregava ao ambiente um toque quase litúrgico.
Como é possível uma coisa destas?… Para receber uma pensãozita de merda o que um tipo pode fazer… A droga é fodida, do piorio – desabafou por fim Arsénio Cabrita, reclamando aprovação superior com um «não é, dr?…».
E você tem a certeza que todo este estendal é por causa da tal pensão?…, que o miúdo se deu ao trabalho de mumificar a mãe e manter tamanho cenário, tudo nos devidos lugares, limpinho, as flores frescas, a pintura da cara sempre renovada, as injecções para segurar a tralha toda – durante quatro anos seguidos –, apenas para ter umas massas para comprar a merda do pó?… Mas olhe que está muito enganado, Arsénio, isto é bem mais complexo do que parece à primeira vista.
O procurador do Ministério Público olhou ainda de relance para o feérico cenário fúnebre, concluindo:
Bem, vamos embora que isto já não interessa para nada.
A generalização do jurista deixou o homem da PJ ainda mais escandalizado:
Para nada, dr?… Mas e as provas?… É que há um relatório para fazer, e a mim parece-me que… Mas o senhor disse «mumificar a mãe», caneco! Mas se nem é mãe dele!… Ou melhor: se nem mulher é, afinal…
Já de gabardina vestida, o dr. Hermenegildo França olhou para o inspector por instantes, hesitou um pouco mais, para depois num movimento ligeiramente paternalista colocar o braço sobre os ombros do homem da PJ, convidando-o para um café no boteco da esquina.
Ao longo da sua carreira o procurador França sempre fizera os possíveis por ajudar quem estava na profissão. E isso incluía os homens da PJ – em total desacordo com a tradição formal, sempre adversa a este tipo de relacionamentos. Profissionalmente era um peculiar com quem se podia brincar, mas nunca em demasia. Sabia perder as estribeiras e arrasar qualquer um – juízes incluídos.
Na pastelaria Lunar, frente aos cafés e a duas torradas bijou com muita manteiga que o procurador encomendara, o inspector Cabrita abriu o dossier que França lhe passara entretanto: umas fotos de Lily du Barry, em palco e na vida privada – onde continuava a funcionar como mulher –, e uma outra do jovem de 23 anos entretanto detido, que desde há seis anos com ela vivia.
Veja isto, Arsénio: a tal Lily não foi morta, morreu com uma overdose de heroína numa altura em que a morte já a encomendara com leucemia. A acreditar no miúdo e na medicina legal, à época os relatórios médicos davam-lhe dias de vida, um mês no máximo… Isso está aí algures…, disse o procurador, apontando para o dossier.
Então foi eutanásia, carambas, e isso que eu saiba ainda é crime!…, atirou o inspector, sequioso de pontos.
Acalme-se aí um instantinho… Até pode ter havido eutanásia, mas o miúdo afirma que não, que foi a Lily que lhe pediu o chuto e ele deu-lho… Contra isso nada a fazer, eram ambos toxicodependentes, digamos que a coisa tem a sua ética própria. Ela estava muito fraca, deve ter pedido uma dose generosa… Porque pelo cenário não acredito que tenha sido realmente acidental. Mas depois temos o passado do puto, Arsénio!… E aí é que se encontra a chave duma parte da questão: sabemos que ele fugiu da Casa Pia, sabemos que entrou na prostituição apenas para pagar o vício que alguém lhe pegou… Basta olhar para a roupa e vê-se logo que não se preocupava muito com o aspecto… Um puto triste, mas vulgaríssimo de aspecto – portanto. Acontece que eu, depois da descrição do cenário e respectivos acessórios, tive a curiosidade, acho que intuitiva, de saber quem era a família biológica dele. E o que é que eu descobri?…
Não esperando qualquer resposta, o dr. França roeu mais uma torrada e prosseguiu calmamente com a sua teoria:
Mas primeiro convém lembrar que a Madame du Barry, que era o seu nome mais artístico, de cartaz, era digamos que muito religiosa!… Acreditava na reencarnação, tinha várias bíblias e tudo o que é livros do tipo «misterioso desconhecido», as pirâmides, Nostradamus, astrologia e essa treta toda… Por um vizinho fiquei também a saber que ia à missa pelo menos uma vez no ano, umas vezes no Natal mas sempre pela Páscoa… A festa da reencarnação, note bem Arsénio – única altura, tanto quanto se sabe, em que se apresentava como homem, sem pinturas nem arrebiques. E esta é a segunda chave da questão…
O dr. França escorropichou o fundo da chávena recolhendo com a colher um restinho de açúcar empapado de café, que sorveu com delícia, para logo continuar:
E o miúdo tratava-a por mãe, e acompanhava-a à missa vestida de homem… Isso não lhe diz nada? Não?… Então agora deixe-me contar-lhe uma coisa que me aconteceu quando nasceu o meu primeiro filho, em 1982. Como é óbvio, sempre que podia ia para a maternidade, até porque o bebé nasceu com uma pequena infecção respiratória e só saiu dali ao fim de dez dias. Ele e a mãe, claro. Como nunca tinha estado numa maternidade, ao princípio não estranhei a choradeira cíclica que vinha duma das enfermarias próximas, embora me sentisse incomodadíssimo. Um dia, já enervado com aquilo tudo, perguntei à minha mulher o porquê do berreiro, já que o nosso filho raramente chorava, e nunca na forma de absoluto sofrimento que aquele grupo de meia dúzia de bebés exprimia aos berros — uma coisa de partir a alma… Então ela explicou-me que aqueles eram todos filhos de mães toxicodependentes activas, e que a berraria começava mal eles entravam em carência… Ora acontece que o filho da Lily nasceu exactamente nessas condições, segundo li no processo da Segurança Social…, concluiu o procurador, recostando-se na cadeira ao mesmo tempo que, com um dedo no meio da armação dos óculos, enfocava bem a cara do inspector.
… Não estou a perceber a ligação…, quer dizer, não estou a ver bem-bem… Isso não.
Não se preocupe, Arsénio, um dia talvez venha a perceber. Uma coisa lhe posso garantir: a Madame du Barry, ou antes, o falecido Inácio Marques Viegas…
Veiga…
… Isso, Veiga, preparou-se para encontrar Deus e reencarnar como Lily. Quis enganar Deus, o que não deixa de ser divertido. Quer dizer, vendo bem talvez não seja assim tão divertido… Por falar nisso: e se fôssemos ver o puto?…
Ver o puto?… Para quê?
Talvez precise de alguma coisa, não acha?
É capaz…

*(obrigado mais uma vez, Eugénia)

Freejazz com petingas

Ainda hoje não sei se sei bem porque razão gosto tanto de freejazz, numa largueza de conceito que contempla no mesmo sentimento seres e estilos tão diversos como o são Mingus, Ornette Coleman, Piazolla ou Stockausen – por exemplo.
Vou tenra explicar o que quero realmente.
Hoje, por exemplo, convidei meia centena de petingas para jantar e nenhuma teceu o menor dos comentários.
Estamos entendidos?…
Bem, cheguei aqui através do sentimento racionalizado mais anárquico que pude encontrar: o paralelo divergente mas ainda assim semelhante entre a feitura dum quadro e os raros acontecimentos que nos fazem ter uma vaga noção do que é a Humanidade no seu todo.
É claro que uma coisa destas é tão sincrética que só pode ser exemplificada através de objectos igualmente sincréticos. Em relação ao quadro que se tentará pintar, visto a pele do pintor que não o é realmente – no sentido que não faz disso eixo principal da sua existência.
Por vezes olho para a borrada que tenho à frente durante meses, sem lhe dar destino. E um dia, sem um porquê versátil que me ampare em consciência, borro mais ali, espalho por acolá, despejo meio litro de terebintina e óleo de papoila, mais tinta, outra cor, e ali uma resina, mais risco, e mudo de plano escurecendo um fundo ou exactamente ao contrário. E um desenho que já lá havia por baixo, recuperado palimpsesto para uma vida que antes por lá não se passeava.
Olha-olha!…
Já me aconteceu isso uma meia dúzia de vezes, talvez bem pouco numa vida.
Mas o paralelo está mesmo aí. Diverge em tudo menos no seu tempo, essa arritmia crítica de long distance freejazz de luminosos instantes, de espanto e alegria. Enche-nos momentaneamente e por muito tempo. Por isso, talvez apenas por isso (que não tenho a certeza), nunca poderia viver da pintura – porque se o fizesse pintava sempre e apenas o mesmo quadro. Não teria o tempo da experiência do renascimento.
Hoje senti isso mais uma vez com o affaire egípcio.
Mas não foi por Mubarak ter mudado de casa, que isso não me impressiona nada – já vi coisas muito mais esquisitas e não fiquei gago.
Gago ia ficando ao ver esta senhora que aqui vos trago:
Wafa Sultan – em directo e muito vivo.

E agora mais um pouco de freejazz, para desenjoar.

O amanhã dos expertos

Pouco me interessa que acreditem ou não: em 1975 previ a queda da União Soviética. Estava em Angola, no fim do Império, e juro que vi o filme todo em antecipação.
Um dia, ao meter a chave na porta de casa, soube intuitivamente, naquele momento preciso, que tudo ia deixar de ser como era até aí – sem que nada de objectivo mo demonstrasse. E assim foi, abandonei aquela casa poucos meses depois.
Anos mais tarde, em 1987, creio, fiz uma espécie de curso sobre mercados de capitais e produtos financeiros – ia iniciar a minha fase de jornalista de economia (um eufemismo dos mais dúbios que conheço, diga-se de passagem) e precisava de algum know how. Entre os vários professores que tive contava-se um conhecido economista da praça (à época, que agora ninguém sabe quem é ou onde está) que até chegou a secretário de Estado de qualquer coisa.
No fim do curso exprimi uma dúvida que sempre me assaltara sobre o chamado mercado de capitais. Era uma dúvida mesquinha, nascida do pequeno contabilista (que sabia interpretar um balanço de empresa, vá lá!…) em que me tornara por via do curso profissional de contabilidade e administração que fiz quando trabalhava numa vulgaríssima empresa de comércio e serviços, anos antes do jornalismo.
A dúvida:
Como é que a simples rotação do dinheiro pode gerar mais dinheiro? Que produção acontece, e de quê, nesse movimento, que justifique tal ‘multiplicação dos pães’?… (lembro-me que usei esta mesma parábola)
Resposta do expert e futuro dirigente político de curta duração:
Isso na verdade não sei, nem sei se alguém realmente sabe. Sei é que funciona…
Inconscientemente, acho eu, foi esta certeza em concreto que fez abandonar o jornalismo económico anos mais tarde – trocando-o, e bem, pela muito mais sã actividade de descobrir para os guias do Expresso novos restaurantes e sítios bonitos e interessantes para visitar.
O filme aí em baixo expõe o que inconscientemente, repito, já sabia desde a minha última conversa com o tal professor experto em coisas destas.
Não se assustem, mas esta é uma das várias razões porque adorava ter uma quinta.

Flagrante delito

É, entrei na senda do crime. Enfim, do pequeno crime. Mais concretamente: do delito. E cheguei a uma conclusão esplêndida: a vida marginal torna-me mais afável.
Foi aqui e com todo o prazer

Eu, a tia Evita e os Trípticos de Nuno Gonçalves (em 1947!…)


O meu blogue em 1947

Presenteado logo pela manhã com um vídeo singular, enviado por mail pelo meu mais velho amigo (conhecemo-nos, se bem me lembro, desde os dois anos), sobreveio uma epifania regressiva que muito me perturbou.
Explico já de seguida: é que em 1947 eu, AEQ, ainda não era nascido; logo devia ser tecnicamente impossível lembrar-me dos acontecimentos (de todos, estava lá!) que este excelente filme denuncia com pormenor e eloquência.
Acontece que ao clicar no dito, que logo começou a correr como manda a pêga da lei, tive uma epifania regressiva: era, afinal, um jovem cantor da Jimmie Lunceford Orchestra, amante da querida tia Evita (sim, a Perón!, tratava-a assim porque ela era um pouco mais velha do que eu…), com quem me encontrava em Lisboa para despistar o palerma do marido — que a julgava em plena diplomacia paralela; e morri quando tentava provar que o meu querido amigo Jimmie tinha sido envenenado por um peixeiro racista de Seaside – afinal, o mesmo sacana que acabou em definitivo com a minha ainda bem jovem tosse cerca de ano e meio mais tarde (o que por um lado foi bom pois assim não assisti à dolorosa sublimação do Anjo dos Descamisados…).
E sim, sei que o Varguitas me plagiou uns anos depois.
Mas voltemos ao presente – porque foi no presente que encontrei o catalisador necessário a esta viagem a memórias desencarnadas (gostei imenso desta tirada, tipo David Luís!).
Como alguns de vós estarão lembrados, há cerca de uma semana coloquei aqui (aqui também) uma teoria sobre os Painéis de S. Vicente. Num ataquinho de simplicidade que não me é nada próprio julgava a teoria inédita. Mas a simplicidade em excesso pode pregar grandes partidas, como adiante se verá – naquele que foi certamente um dos primeiros filmes a cores feito em Portugal.
Vejam apenas até ao ponto em que aparecem os ditos Painéis de S. Vicente (são só dois minutos, vá, aproveitam e vêem a querida Eva, ao lado da D. Gertrudes!…). Aparecem destacados um do outro e são apresentados (em 1947!) como os dois Trípticos de Nuno Gonçalves.
Embora sejam cópias, uma delas particularmente má (o Painel do Arcebispo é uma simples prova de espelho), não deixam de testemunhar qual a sua disposição em pleno Estado Novo.
Logo entenderão a natureza do meu efipânico rewind transmigratório.

É ou não é a prova cabal de que já tinha visto aquilo em algum lado?!…
Mas assim levanta-se-me outra questão, que é esta: se os painéis já estiveram nesta organização (que não é exactamente a minha, como se percebe pela versão que acabei de montar ainda agora sob os auspícios dos rapazes do Património Nacional dos tempos de Salazar – que se fartaram de fazer asneiras, diga-se em abono da verdade) o que terá levado alguém a achar que o acavalamento das pranchas todas é que era bom?… E quando foi isso, no pós 25 de Abril?…
Adorava que alguém me soubesse explicar isso.
Como também gostava de saber se a obra alguma vez foi radiografada ou se alguma da sua tinta foi sujeita a testes de isótopos com Carbono 14.

Aposto que não.

Reflecti imenso!… (mentira, são só as minhas últimas lembrancinhas)

Esta era uma obrigação tão importante como reordenar os Painéis de S. Vicente: acabar de distribuir as prendinhas pós-natalícias.
Como terei de resolver o problema hoje — já que amanhã pode haver uma revolução (apesar da proliferação das maiorias coreanas, já trazidas à baila em post muitíssimo reflexivo) — optei pela versão económica que os tempos e os modos aconselham: um post station-wagon, onde cabem todos.
Assim, depois da oferta prevista aos nossos visitantes — uma gravura de parede de Sorte no comércio, da Oficina Shi Xing — salto de imediato, em random mode, para o José Navarro de Andrade. Para ele vai este magnífico Tigre selvagem da floresta e da montanha (Zé, não há leões na China a não ser em gativeiro, perdão, cativeiro — e eu nunca te faria uma afronta dessas!…  É para a parede da sala e, Zé, serve para caçar os espíritos e os fantasmas, o que me parece bastante oportuno.
Este Oficial do Céu que augura a Boa Sorte, sendo por isso uma gravura de porta, vai direitinho para o Gonçalo Pistacchini Moita por razões que me parecem suficientemente substantivas.
Segue-se o Pedro Marta Santos — de quem, diachos, só possuo uma imagem nimbada de mistérios prodigiosos. Face a situação tão delicada optei por este cinematográfico Qin Qiong - um deus de porta do reinado de Jiaqing com imensos dotes para desbaratar maus espíritos.
Para o Diogo Leote entendi por bem escolher um peixe de águas profundas em nada parecido com outros que antes assim foram denominados. Possas ter lucros e riquezas, ano após ano — é o que representa esta invulgar carpa, que se pendura na parede. 
Para o Vasco Grilo, esse grande viajante, optei pelo raro e enigmático Apanhar a cássia, obter o oficialato. Fica bem em qualquer parede de sala e assegura rios de dinheiro!
Por questões gráficas tive de dispor estas três já citadas prendas por ordem de saída — mas suponho que não há que confundir.

 

Para os transatlânticos mortos segue, directa para o Ruy Vasconcelos, esta imagem de prosperidade e fertilidade da Oficina Nguyen Huu Sam, com o apelativo título Colhendo cocos, enquanto para o Francisco Feijó Delgado optei por coisa eminentemente tecnológica e guerreira — uma imagem com origem em Macau que nos mostra a passagem de bombardeiros e flotilhas de couraçados — muito de acordo, suponho, com o dia-a-dia de quem habita nos EUA.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espero que gostem!

Controlo remoto

Estou ainda a tentar perceber a melhor razão para ter escolhido este título tão tecnológico para o meu postinho tão-tão cultural.
Acho que — porque sempre gostei de brinquedos tecnológicos, de máquinas complicadas, binóculos e telescópios; mas fundamentalmente porque fiz criação de pombos-correio em miúdo.
Tem tudo a ver, como logo se percebe.
O assunto, a conselho da Marta, era fazer um museu aqui no ETGM.
Ora como para fazer uma coisa é preciso começar pelo princípio achei por bem trazer para o ETGM Museum of Global Art a minha mais recente aquisição: os dois trípticos de Nuno Gonçalves que outrora se encontravam no Museu de Arte Antiga expostos como sendo um único conjunto — conhecido erradamente com o título de Painéis de S. Vicente (porque descobertos no Mosteiro de S. Vicente de Fora)
No entanto estou com dúvidas sobre a melhor forma de os apresentar — já que, apesar de não representarem realmente uma única narrativa, as duas obras (a que poderemos chamar o Retábulo do Infante e o Retábulo do Bispo)  são como estrelas binárias: orbitam uma à volta da outra.
Por requisição ditatorial instruí a minha especialista privada em assuntos de arte e ela produziu um primeiro grupo de hipóteses (ainda falta pelo menos uma, a de colunas mais largas a separar cada grupo de três pranchas).
A primeira parece-me a mais clássica — talvez por isso seja a que mais gosto.










A exposição em retábulos rasos parece-me igualmente bem sucedida, mas em mais sóbrio.









Por fim, numa apoteose arquitectónica…









Eu e a minha geniosa designer* aguardamos, com pressurosa expectativa e franco entusiasmo, mortinhos de curiosidade, o veridicto dos queridos mortos.

*(a geniosa é a minha filha Joana)

Dois em um?!…

As prendinhas do Manuel S. Fonseca revelaram-se material polémico — o que é uma consequência perfeitamente aceitável tendo em conta não só o calibre do ofertante mas também o dos por ele agraciados.
No entanto o que me buliu com as meninges não foram um ou os outros, mas sim os painéis de S. Vicente em si — que sempre achei uma peça majestosa mas bastante estranha. Não me refiro sequer à natureza específica dos símbolos — a relíquia, a caixa, os livros de dizeres incompreensíveis -, mas antes à disposição dos vários painéis que compõem o dito políptico da polémica. Porque esta existe, desde que em 1910 foi mostrado ao público o trabalho do seu restauro e uma tentativa de explicação minimamente eficaz para a disposição então adoptada para os painéis.
Tendo em conta que nenhum deles apresenta  uma inequívoca ligação de continuidade com o seguinte (em fundo nada há que não o escurinho do cinema, e as várias pranchas parecem recortadas dum todo necessariamente maior que idealmente conteria as necessárias soluções de continuidade que aqui não aparecem), é obrigatório aceitar que o correr do soalho foi uma razoável forma de encontrar uma qualquer lógica para dispor os seis painíes.
Ainda assim sempre achei estranho que esta composição se apresentasse simetricamente dividida (partida?), como se de duas imagens reflectidas se tratasse. Porque não faz muito sentido que duas figuras centrais se apresentem convergindo para um mesmo centro, mas que tal convergência obrigue a que parte do séquito e demais intervenientes estejam de costas viradas exactamente para esse mesmo centro — situação que resulta em algo que não pode existir mas que me dá imenso jeito no imediato: uma cacofonia visual.
E foi por isso que peguei na tesoura e na cola virtuais e desatei a fazer patifarias iconoclastas, trocando de posição os vários painéis até chegar a uma solução que me parecesse de alguma eficácia estética.
O melhor resultado, seguindo sempre a académica orientação do correr do soalho — porque essa faz sentido -, obtive-o dividindo o políptico em dois trípticos, fórmula de exposição muito vulgarizada na Renascença, época de execução da obra (1470−80).
Eis o resultado.
Pode-se continuar a argumentar que a descontinuidade prevalece e que os dois pares de painéis periféricos podiam ter posições mais capazes, particularmente dentro do espírito do enigma que a obra atribuída a Nuno Gonçalves sempre tem suscitado. Os símbolos e os acompanhantes podem ter outra disposição?
Claro que sim, esta que coloco abaixo segue a organização social que se supõe distinguida na obra: à esquerda o povo e a nobreza, à direita o clero e os militares.
Mas não é isso que realmente me interessa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que me interessa de facto é que esta divisão do todo em duas partes distintas (que se complementam) me parece muito mais equilibrada que a proposta assumida pela equipa de restauro nos alvores do século XX — a qual, que se saiba, nunca foi posta em causa.

Lembrancinhas de papel* (II)

Mantenho a teoria de que é de bom tom prosseguir a distribuição de prendinhas pós-natalícias dentro do registo com que iniciei a minha contribuição: a primeira delas será sempre para a clientela (perdão, para os leitores ETGM!…). Depois, continuará a ser seguida a hierarquiazinha inicial.
Para os leitores escolhi Ouro e jade [enchem toda a casa]. É uma imagem de bom augúrio, mas convém não esquecer o filósofo:
Uma sala cheia de ouro e jade não pode ser guardada por ninguém
Seguem-se pois as meninas que não integram o sinédrio, naturalmente por ordem alfabética — o que é sempre um clássico permissivo e dotado da elasticidade necessária.
Como temos entre nós uma Teresa, uma Marta e uma Joana, a coisa torna-se bem simples:

J — (de Joana)
Eu sei, é claro, que a nossa intrépida Doutora de Leis & Outras Trabalheiras talvez preferisse a imagem da direita, que representa Guanyin em pé sobre o dragão. Mas algum bom senso e o forte sentido de probidade que me animam levaram-me a escolher esta gravura de parede (ou de kang, que é uma cama de tijolo aquecida usada no norte da China).
Significa, e a meu ver com todo o propósito, A administração diligente obtém resultados - ou lian chi de yu. Trata-se duma xilogravura a negro e duas cores em papel xuan, onde depois são aplicadas as outras cores e os pormenores que a enriquecem e lhe dão a categoria superior de xhiuo.
Este(a) wawa (ou bebé rechunchudo) alude ao Ano Novo que agora começa, e lembra que o governo perseverante obtém excedentes - o que me parece um excelente e atempado princípio.

M — (de Marta)
Ora aqui está um caso que exigiu ponderação e que obedeceu a um critério que talvez não seja absolutamente linear para o comum dos mortos. Porque eu poderia dar-lhe uma Criança que atrai o dinheiro — excelente augúrio, portanto -, mas o raio da criancinha não tinha qualquer graça. Particularmente quando comparada com esta Menina com criação, produzida durante a Revolução Cultural (1966−1976).
É uma gravura de porta e simboliza a Boa Sorte.

T - (de Teresa)
Neste caso específico parece-me que tive imensa sorte: não é que os xilogravadores chineses, sempre atentos, descobriram a nossa Teresa Conceição a visitar um templo e a gravaram para todo o sempre em pleno acto?!…
Incrível!
É a menina de quimono branco (disseram-me) que se encontra à esquerda mesmo por baixo da árvore. Com alguma atenção e uma boa lupa consegue ver-se perfeitamente que esconde algo nas largas mangas da tradicional veste do Império do Meio. Nós, é claro, sabemos que é uma máquina fotográfica…
Como prova de que não estou a mentir segue texto alusivo aos factos:
Gravuras representando locais históricos e turísticos de Suzhou são um dos géneros em que Taohuawu se especializou, conseguindo alcançar o nível técnico mais elevado da gravura chinesa e criando um verdadeiro comércio de “recordações” para visitantes e peregrinos.
Se dúvidas houvessem, Suzhou é ainda hoje uma das grandes atracções turísticas da China.
Espero que gostem.

* (estas imagens pertencem à colecção de xilogravura popular chinesa de A. E. Maia do Amaral, publicadas no álbum Cavalos de papel e encantos de pessegueiro)

Lembrancinhas de papel (I)*

Como estamos na fervurinha das prendas e como o PEC não-sei-quantos está a dar cabo de mim, optei por umas lembrancinhas simbólicas.
O seu escalonamento obedece de alguma forma a gestão hierárquica. Em tal hierarquia, também com o seu quê de simbóilico, decidi-me por colocar os leitores do ETGM em primeiríssimo lugar dedicando-lhes esta Victória Final pintada em papel haiyue fino em meados do século passado. Trata-se dum slogan dedicado à batalha da produção — ou, segundo outros especialistas, ao fim dos conflitos civis na China de Mao (a estrela vermelha no canto superior esquerdo não engana ninguém).
Para mim não é nada disso: trata-se apenas duma alegoria alegre e auto-benevolente a respeito dos nossos leitores, que colhem os frutos do nosso trabalho (nada presunçoso, não acham?…) 
Seguindo a tal hierarquia simbólica surge-nos o Pedro Norton de Confúcio — a barba também não engana ninguém. É um ícone e como tal dispensa apresentações.
O Manuel S. Fonseca, bispo-auxiliar desta congregação de almas, aparece de forma consequente: a criança montada num grande galo — que, ao contrário do que o próprio MSF poderá pensar, nada tem a ver com futebol (embora seja verdade que esta época a águia esteja numa de cacarejar imenso…).
Nããããão!, minhas senhoras e meus senhores. Não é o Manuel a tripular o frango, mas antes — como revela o belo álbum Cavalos de Papel e Encantos de Pessegueiro, de onde provêm estas imagens — a «forma gráfica de dizer Grande fasto ou Muito boa sorte». Sorte esta que seria a ascensão ao funcionalismo imperial pois o catraio enverga um chapéu de Mandarim e um ramo florido de caneleira.
Em último lugar por hoje (não leve a mal, Eugénia, que os últimos são sempre os primeiros) temos a nossa Imperatriz da Sardenha e Duas Sicílias simbolizada pela Fada do Céu (eu não lhe dizia?…).
Trata-se duma imagem dos finais da Dinastia Qing proveniente duma oficina de Guandong, e a sua forma elegante e erudita pressupõe influências estéticas do período Ming.
É uma imagem de bom augúrio familiar que por razões políticas deixou de ser exibida a partir dos anos 20. Deve a sua sobrevivência ao facto de ter sido exportada para Macau, onde manteve a sua popularidade e reprodução continuada.
Quanto ao patusco aqui ao lado posso perfeitamente ser eu… Gosto bastante dele.
Por fim, a todos, ofereço esta pequena seguidilla na arte de Jessye Norman.
Espero que gostem.
* (as imagens aqui utilizadas fazem parte da colecção de xilogravura popular chinesa de A. E. Maia do Amaral)

Um cavalheiro deve saber servir um risotto (aos seus amores)

Hoje vou plagiar a nossa sarda imperatriz e desatar a falar de cozinha – embora ao retardador, não em simultâneo com o acto, que não sou um multitasker de raiz.

O santinho da arte

Quando não se trata de profissão de fé, ou mesmo de profissão sem outra fé que não a do ordenado, cozinhar é um dos actos mais empíricos que existe. Tratando-se este vosso soturno criado (porque defunto, e aos defuntos convém alguma soturnidade ambiental) de bizarro edifício empírico – menos Sagrada Família de Gaudí, mais casa do proprietário do Violino de Cremona, de Hoffman, que ergueu primeiro as paredes e só depois lhe abriu a primeira porta e depois as outras, mais as janelas evidentes –, é fácil imaginar que até atingir alguma sabedoria nesta área muitas vezes associada erradamente à puericultura (coisa de mulheres, logo pueril) passei, Deus sabe, por tremendas vergonhas e muita tristeza íntima.
Hoje sei fazer uma refeição completa e ninguém vai parar ao hospital no fim.
Tudo isto para dizer que num gesto destinado a espantar um certo torpor gastronómico ultimamente habitual nas paredes desta imaginação, decidi servir ao jantar um risotto dos meus – em si nada de extravagante (embora pudesse ser um pouco se houvesse com quê…, bolas! no fim explico).
A verdade é que me preparava para fazer um normalíssimo arroz branco quando optei pelo dito … otto.
Fritava já o arroz, depois dum brando estrugido com cebola, azeite e sal, quando a hipótese de não abortar o risotto me perpassou as meninges (é assim que faço arroz normal, seco e solto: aborto o que poderia vir a ser um futuro e risonho risotto…). Então botei-lhe meio copo de vinho branco por cima e fui mexendo devagar até começar a gomar e a embolar. Aí, em vez de lhe deitar água quente para acalmar a sensual união do grão, não!, deixei-o gomar-se mais e mais. Já dotado de ralador numa mão e queijo das Ilhas (S. Jorge, mais propriamente, que tem ligeiro pique) na outra, fui ralando um bocado – apenas interrompendo a manobra para, de colher de pau atenta (proibida pela União Europeia, graças a Deus, que assim lhe deu mais propriedade e razão de ser), ir homogeneizando a paparoca desejada.
Quando aquilo se começou a parecer com almôndegas pálidas e nada loiras atirei-lhe com água bem quente para cima – iniciando então a lenta desagregação das tais bolas de arroz até que cada um daqueles grãozinhos se parecesse com um ganapo livre e contente à solta na natureza.
Quando a coisa levantou fervura espalhei as folhas de dois raminhos de tomilho verde, vi de sal, tapei, e pus a chama no mínimo (só cozinho com gás ou fogo, a electricidade é luz mas cozinha mal, acho eu).
Fiz umas febrinhas pequenas bem tostadas em azeite e servi a abrir uma salada de alface, tomate, maçã, palmitos e alcaparras, com uma vinagrette espessa e balsâmica que inventei há uns anos.

Exigi comentários, como qualquer vaidoso. A generosidade da minha mulher não me convenceu totalmente, porque a sei assim. O jovem querubim também tinha de se pronunciar, rapidinho!…
Mbghlebfrung!, ouvi eu, quase ofendido, atacando com imediata inquirição:
Como?!…
O olhar espantado, o garfar interrompido a meio, o movimento suspenso, a deglutição apressada do pedaço, deram lugar à paz no lar:
Eu disse que estava excelente!…, troou o herdeiro, quase com maus modos, confirmando em actos concludentes e continuados o que poderia ser apenas um daqueles gestos diplomáticos tão habituais na família.

As túbaras, essas incompreendidas

Fiquei contente, achei genuíno, e acrescentei que ficaria de estalo com umas túbaras
Como? Mas túbaras são os ditos do boi, ou do touro, comida de espanhol desrespeitador, qual Alonso e tal!… Nunca!
Urgia pedagogia:
Túbaras são as trufas portuguesas e há bastantes no Alentejo e não é nada nos quartos traseiros do boi! Nem do touro! São uma espécie de fungos subterrâneos e podem-se cozinhar de imensas maneiras – entre elas fritas com ovos mexidos, coisa deliciosa…
Ou em risotto, que foi como as experimentei pela primeira vez no São Gião, em Moreira de Cónegos, a conselho do seu prodigioso druida, o Pedro Amaral Nunes.
Não é publicidade, é a verdade nua e crua: trata-se talvez do melhor restaurante a norte do Porto.
Não é coisa pouca.

Bolinha vermelha no Cosmos

A pequena célula cúbica devidamente envidraçada e insonorizada mostrava apenas o gesticular habitual de Genésio Barba frente ao seu produtor Idálio Marcello, o dono e senhor da bem-sucedida produtora de filmes porno-eróticos O Triângulo de Vénus, com sede e estúdios nos arredores de Linda-a-Velha.
O facto de nada se ouvir do que ali se ia passando não parecia incomodar ou interessar minimamente qualquer um dos grupos de trabalho espalhados pelos diferentes cenários, onde inserts específicos, pedaços mais civilizados de argumentos e bem documentados grandes planos iam sendo captados naquela mais uma vez bem suada tarde de trabalho.
Não me digas que não achas a ideia genial, pá!…, regougou o realizador e principal criativo da OTV Filmes na sua voz de pegador de touros. Genésio Barba media exactamente 138 centímetros e era aquilo que todos nos habituámos a classificar de anão grandinho. Tal facto não incomodava o realizador de forma alguma. A esfuziante energia que punha no seu trabalho e um sentimento muito peculiar a respeito do sexo tinham feito dele «o» guru da pornografia nacional – o que já garantira à OTV o título de único verdadeiro exportador português do género (facto que em 2012 lhe valera um importante prémio do IPE, o instituto governamental que premiava as melhores empresas exportadoras, com destaque para o segmento inovação).
Além disto, que não era pouco, contava com apreciável prestígio junto da componente laboral feminina dos já célebres estúdios. Havia mesmo quem lhe chamasse o Tinto Brass português!
Dentro da célula de vidro o empresário d’O Triângulo de Vénus espreguiçou-se como um imenso e gordo gato, pousando o comando com que andara a fazer zapping sobre os vários filmes que em simultâneo iam sendo feitos e montados no vasto armazém ecoante de música e gemidos.
Acho isso tudo muito esquisito, pá… Olha, do que eu gostei mesmo foi daquele com a Maga Patalógika e os Irmãos Metralhas, mais a Madame Min de travesti… Isso sim! Agora aliens, Genésio?… Não me quilhes!
Idálio: isto é uma jogada de antecipação! Mais tarde ou mais cedo vai acontecer, não duvides. E mete-se-lhe humor, pá!…
Humor?! Humor como? Estratosférico, com antenas, no imponderável? Tu és mas é doido…
Sim!, humor sim senhor, seu caralho! Não conheces aquela do casal de alentejanos que teve sexo com aliens?… O director de realização da OTV-Filmes aguardou pela ignorância confirmada do patrão e prosseguiu:
Um dia o Maneli mais a sua Maria iam de burro, pelo chaparral fora, e apareceu-lhes um OVNI a zumbir: BZZZUiiinnnn… E aquela porra lá poisou no meio do campo. Logo a seguir sai uma escadinha do OVNI com dois aliens na plataforma (macho e fêmea, pois claro), que traziam uma caixinha nas mãos. A caixinha era para traduzir, como é bom de ver… E os alentejanos aparvalhados com aquilo tudo, claro!… Então um dos aliens falou: “Nós vir de galáxia distante para trocar experiência sexual com terrenos”. E os alentejanos, ele para ela: “Nã sei nã, Maria…” E ela, mais atrevidolas: “Ò Maneli, nã sejas burro, home! Olha que vamos ser os primeiros da Terra a foder com galácticos!…”
Com aquela dos galácticos o Maneli lá se convenceu. Então a Maria subiu para o OVNI e a alien desceu para o prado, acompanhando o Maneli para trás dum chaparro.
No fim os aliens despediram-se com muitos adeuses, e num VRRRUUUiiimmmm… lá desapareceram cosmos fora.
E logo o Maneli pergunta à Maria como foi. E ela, toda entusiamada: Ai que tu nem imaginas, Maneli! Ele mexia numa orelha e aquilo crescia! Mas depois mexia na outra e aquilo…, olha, nem sei o que te diga. Ai home, acho que até vou ter saudades!…
E o Maneli: “Áh!… Mas atão foi por isso que aquela puta quase me ia arrancando as orelhas, carago!…”
Dentro do silencioso cubo de vidro o grande corpo de morsa de Idálio Marcello ondulou sincopadamente entre gargalhadas e um convulsivo ataque de tosse. Um zoom ideal mostraria ainda o sorriso confiante de Genésio Barba, que, sentado na mesa, de perna bem cruzada, roubara um charuto da caixa de mogno e o acendia no meio de basta fumarada.