
A eternidade está enamorada dos produtos do tempo
(William Blake, in A União do Céu e do Inferno)*
O jovem inspector da PJ não conseguiu esconder a absoluta incredulidade face ao estranho quadro montado como se de quadro real se tratasse, um modelo que se erguia na pequena sala numa sucessão de planos específicos, onde os vários objectos pareciam funcionar como marcos topográficos numa peça de teatro surrealista centrada na múmia cuidadosamente maquilhada do obscuro transformista Lily du Barry, que jazia reclinada sobre o lado direito. Uma mistura indistinta de formol e incensos vários, não excessiva, agregava ao ambiente um toque quase litúrgico.
– Como é possível uma coisa destas?… Para receber uma pensãozita de merda o que um tipo pode fazer… A droga é fodida, do piorio – desabafou por fim Arsénio Cabrita, reclamando aprovação superior com um «não é, dr?…».
– E você tem a certeza que todo este estendal é por causa da tal pensão?…, que o miúdo se deu ao trabalho de mumificar a mãe e manter tamanho cenário, tudo nos devidos lugares, limpinho, as flores frescas, a pintura da cara sempre renovada, as injecções para segurar a tralha toda – durante quatro anos seguidos –, apenas para ter umas massas para comprar a merda do pó?… Mas olhe que está muito enganado, Arsénio, isto é bem mais complexo do que parece à primeira vista.
O procurador do Ministério Público olhou ainda de relance para o feérico cenário fúnebre, concluindo:
– Bem, vamos embora que isto já não interessa para nada.
A generalização do jurista deixou o homem da PJ ainda mais escandalizado:
– Para nada, dr?… Mas e as provas?… É que há um relatório para fazer, e a mim parece-me que… Mas o senhor disse «mumificar a mãe», caneco! Mas se nem é mãe dele!… Ou melhor: se nem mulher é, afinal…
Já de gabardina vestida, o dr. Hermenegildo França olhou para o inspector por instantes, hesitou um pouco mais, para depois num movimento ligeiramente paternalista colocar o braço sobre os ombros do homem da PJ, convidando-o para um café no boteco da esquina.
Ao longo da sua carreira o procurador França sempre fizera os possíveis por ajudar quem estava na profissão. E isso incluía os homens da PJ – em total desacordo com a tradição formal, sempre adversa a este tipo de relacionamentos. Profissionalmente era um peculiar com quem se podia brincar, mas nunca em demasia. Sabia perder as estribeiras e arrasar qualquer um – juízes incluídos.
Na pastelaria Lunar, frente aos cafés e a duas torradas bijou com muita manteiga que o procurador encomendara, o inspector Cabrita abriu o dossier que França lhe passara entretanto: umas fotos de Lily du Barry, em palco e na vida privada – onde continuava a funcionar como mulher –, e uma outra do jovem de 23 anos entretanto detido, que desde há seis anos com ela vivia.
– Veja isto, Arsénio: a tal Lily não foi morta, morreu com uma overdose de heroína numa altura em que a morte já a encomendara com leucemia. A acreditar no miúdo e na medicina legal, à época os relatórios médicos davam-lhe dias de vida, um mês no máximo… Isso está aí algures…, disse o procurador, apontando para o dossier.
– Então foi eutanásia, carambas, e isso que eu saiba ainda é crime!…, atirou o inspector, sequioso de pontos.
– Acalme-se aí um instantinho… Até pode ter havido eutanásia, mas o miúdo afirma que não, que foi a Lily que lhe pediu o chuto e ele deu-lho… Contra isso nada a fazer, eram ambos toxicodependentes, digamos que a coisa tem a sua ética própria. Ela estava muito fraca, deve ter pedido uma dose generosa… Porque pelo cenário não acredito que tenha sido realmente acidental. Mas depois temos o passado do puto, Arsénio!… E aí é que se encontra a chave duma parte da questão: sabemos que ele fugiu da Casa Pia, sabemos que entrou na prostituição apenas para pagar o vício que alguém lhe pegou… Basta olhar para a roupa e vê-se logo que não se preocupava muito com o aspecto… Um puto triste, mas vulgaríssimo de aspecto – portanto. Acontece que eu, depois da descrição do cenário e respectivos acessórios, tive a curiosidade, acho que intuitiva, de saber quem era a família biológica dele. E o que é que eu descobri?…
Não esperando qualquer resposta, o dr. França roeu mais uma torrada e prosseguiu calmamente com a sua teoria:
– Mas primeiro convém lembrar que a Madame du Barry, que era o seu nome mais artístico, de cartaz, era digamos que muito religiosa!… Acreditava na reencarnação, tinha várias bíblias e tudo o que é livros do tipo «misterioso desconhecido», as pirâmides, Nostradamus, astrologia e essa treta toda… Por um vizinho fiquei também a saber que ia à missa pelo menos uma vez no ano, umas vezes no Natal mas sempre pela Páscoa… A festa da reencarnação, note bem Arsénio – única altura, tanto quanto se sabe, em que se apresentava como homem, sem pinturas nem arrebiques. E esta é a segunda chave da questão…
O dr. França escorropichou o fundo da chávena recolhendo com a colher um restinho de açúcar empapado de café, que sorveu com delícia, para logo continuar:
– E o miúdo tratava-a por mãe, e acompanhava-a à missa vestida de homem… Isso não lhe diz nada? Não?… Então agora deixe-me contar-lhe uma coisa que me aconteceu quando nasceu o meu primeiro filho, em 1982. Como é óbvio, sempre que podia ia para a maternidade, até porque o bebé nasceu com uma pequena infecção respiratória e só saiu dali ao fim de dez dias. Ele e a mãe, claro. Como nunca tinha estado numa maternidade, ao princípio não estranhei a choradeira cíclica que vinha duma das enfermarias próximas, embora me sentisse incomodadíssimo. Um dia, já enervado com aquilo tudo, perguntei à minha mulher o porquê do berreiro, já que o nosso filho raramente chorava, e nunca na forma de absoluto sofrimento que aquele grupo de meia dúzia de bebés exprimia aos berros — uma coisa de partir a alma… Então ela explicou-me que aqueles eram todos filhos de mães toxicodependentes activas, e que a berraria começava mal eles entravam em carência… Ora acontece que o filho da Lily nasceu exactamente nessas condições, segundo li no processo da Segurança Social…, concluiu o procurador, recostando-se na cadeira ao mesmo tempo que, com um dedo no meio da armação dos óculos, enfocava bem a cara do inspector.
– … Não estou a perceber a ligação…, quer dizer, não estou a ver bem-bem… Isso não.
– Não se preocupe, Arsénio, um dia talvez venha a perceber. Uma coisa lhe posso garantir: a Madame du Barry, ou antes, o falecido Inácio Marques Viegas…
– Veiga…
– … Isso, Veiga, preparou-se para encontrar Deus e reencarnar como Lily. Quis enganar Deus, o que não deixa de ser divertido. Quer dizer, vendo bem talvez não seja assim tão divertido… Por falar nisso: e se fôssemos ver o puto?…
– Ver o puto?… Para quê?
– Talvez precise de alguma coisa, não acha?
– É capaz…
*(obrigado mais uma vez, Eugénia)