De como Rikio Hossback me convenceu a falar de viagens

A partir de certa fase da vida encontrei a verdade essencial das mulheres nas palavras do velho pai de Dustin Hoffman (em Alfredo, Alfredo!…), que explica ao iniciado sem jeito e já quase encornado qual o segredo inefável do género feminino, essa espécie de lado oculto da Lua que o é no todo da vida no masculino. Diz o velho (e eu, que o repito muitas vezes): “As mulheres são seres misteriosos e imprevisíveis e, meu filho, é exactamente por isso que nós gostamos delas”.
A Rikio não fugiu à regra: foi imprevisível e de certo modo misteriosa.
Apareceu-me aqui no Porto. Levei-a a almoçar num sítio à beira-mar, que adorou, diga-se de passagem, em particular um robalo de mar com algas, acompanhado de um quilito de percebes e de gélido Alvarinho. Na conversa que fomos tendo surpreenderam-me duas coisas: uma foi a graça serena dos seus movimentos que, no entanto, não escondiam um vigor pulsante, como que pronto para no nico dum segundo mudar radicalmente de tensão; a outra foram os seus gostos musicais – que, misteriosamente, se misturaram com alguns dos os meus: Can, Faust, Mozart, Stockhausen… Conhecera mesmo Damo Susuki, o vocalista japonês dos primeiros (que por sinal foram alunos do último).
Logo ali, em plena esplanada, já amorenada dum sol a que a sua milimétrica vestimenta pouca ou nenhuma resistência oferecia usava uma fita como top e um cinto como saia , Rikio obrigou-me a ouvir uma das suas peças preferidas: em tempos assistira a uma das instalações sonoras do grão-mestre alemão da música elctro-acústica, e tinha no seu laptop um excerto gravado de Helikopter Streich Quartett.

Como seria óbvio a todos – menos a mim, que nunca me preocupei com o que o sol pode fazer à pele (sobretudo quando muito branca, dum tipo quase lácteo que o meu empirismo praticamente desconhece) – às quatro da tarde estávamos no hotel dela, ela estendida na cama que nem um escalope de salmão com listinhas, eu magnetizado pelo espectáculo poderoso das minhas mãos untadas de creme gordo, já bem esfregadas uma na outra, e completamente preparadas para aliviar algum sofrimento à pobre jornalista germano-nipónica.
Ao fim dum certo tempo, já de ardores aceitavelmente acalmados, a Rikio pediu-me para trabalharmos um pouco naquela coisa para o tal almanaque das viagens do Manuel.

Rikio – Qual é a tua mais antiga memória de viagem?
Eu – Para uma criança de quatro ou cinco anos ir do Porto a Baião num Volvo marreco já era coisa impressionante. Essa deverá ter sido a primeira coisa que se pode assemelhar a uma primeira viagem.
Rikio – Algo mais substancial… A tua primeira viagem de avião, por exemplo…
Eu – A primeira vez que voei? Bem…, isso aconteceu lá para os 14 anos, quando fugia às aulas em Espinho para ir até ao aero-clube de Paramos. Gostava imenso do local, das dunas, da Barrinha de Esmoriz, dos aviões. Foi assim que uma vez consegui boleia numa Tiger Moss e fiz o meu primeiro looping
Rikio – Viagem, António, é viagem que eu quero…
Eu – Áh bem, ok… Pode-te parecer um pouco estranho mas a minha primeira grande viagem de avião foi a caminho duma comissão de serviço, como militar, em Angola.
Rikio – Um impacto irrepetível, o da primeira viagem, claro!
Eu – Hmmm… Sssssim… Agora que penso nisso acho que sim. Adorei assistir lá de cima à aurora e ao ocaso, passei a viagem de nariz espetado no quadradinho transparente que me cabia no magnífico Boeing 707 da Força Aérea Portuguesa. Assisti pasmado a uma tempestade eléctrica à vertical de Dakar, pasmei mais ainda com o vermelho da costa angolana, em contraste absoluto com aquele azul do mar. Finalmente, levei um murro denso no corpo todo quando a porta do avião se abriu e eu mergulhei por inteiro na atmosfera dos trópicos. Por momentos pensei que me ia dar a sofeca…
Rikio – Sofeca?…
Eu – O badagaio…
Rikio – O badagaio?!…
Eu – Sim, a sofeca, o badagaio algo como morrer…
Rikio – E então?
Eu – À noite, de copo de whisky na mão, rodeado de mulatas (e não só), percebi que Angola já se apoderara por inteiro da  minha alma…
Rikio – Associas sempre as viagens a pessoas?
Eu – Aí só não posso dizer nunca.
Rikio – Tudo muda quando se passa a viajar profissional. Já nem se olha lá para fora!
Eu – Nada disso. Algumas das minhas melhores viagens foram exactamente profissionais. Olho sempre para fora, para os lados, para dentro, por dentro…
Rikio – Preferes os hotéis de luxo ou os familiares?
Eu – Há coisas excelentes ou tenebrosas em todas as categorias e lugares.
Rikio – O dinheiro é importante quando se viaja?
Eu – É.
Rikio – Num hotel, por ordem de importância, o que é que mais valorizas?
Eu – Conforto geral, vista, serviço, localização.
Rikio – Imagino que tenhas episódios pitorescos…
Eu – Devo ter vários, de certeza, mas há um de morrer. Passou-se num voo entre a Ilha do Sal e a Cidade da Praia, em Cabo Verde. O avião era um Casão – uma espécie de autocarro com asas onde se entra pelas traseiras por umas portas tipo saloon. Pelo menos estas eram do tipo saloon, porque mal a geringonça saiu do chão elas abanavam de mal presas que estavam por uma corrente de aspecto manhoso. O momento dramático aproximava-se, inexorável. De entre o gado variado que seguia no atafulhado Casão destacava-se um estupor duma cabra que não parara de espernear e guinchar desde que deixara terra. A dada altura, fosse por o dono ser pouco expedito, fosse porque o espernear atingira o seu pico de desespero libertário, solta-se a cabra no corredor – onde começa a evoluir em derrapagens descontroladas em direcção às portas do saloon!…
E nelas ficou presa até que o solo da Praia, já firme e quieto, permitiu complicada e sobretudo ruidosa operação de caprino resgate.
Rikio – Do passado, em viagens, de que é que tens mais saudades?
Eu – De conhecer.
Rikio – Já perdeste as malas?
Eu – Nunca. Mas fiz contrabando.
Rikio – Contrabando?!… Não acredito! De quê?…
Eu – Isso não posso dizer… Pelo menos aqui…
Rikio – Ameaças de acidente?
Eu – Tive uma fase da minha vida em que, estranhamente, ganhei medo de andar de avião. Nunca tivera, passei a ter. Depois de Angola. Depois de aterrar alegremente em 50 metros de pista de terra batida, nos aviões mais ronceiros (ou não) que já vi na vida. Nessa fase de medo qualquer voo era uma ameaça de acidente. Entretanto passou.
Rikio – Pior: já viajaste ao lado de pessoas famosas?
Eu – Elas sim!…
Rikio – E nos hotéis?
Eu – Que me lembre não, sou muito distraído.

No fim, perto da hora de jantar, saí para mudar de roupa e trocar o descapotável por uma berlina mais aconchegante.
A noite aconselhava, esfriara bastante.

 

Música, tempo

A propósito desta imensínima recolha de sons que hoje aqui trago no alforge, lembrei-me duma experiência muito divertida que tive há anos, em Braga. Trabalhava nos guias do Expresso e procurava coisas interessantes q.b., um pouco por todo o Norte (e Centro também). Dessa vez caíra-me no colo um atelier musical particularmente engraçado: o compositor-performer, de seu nome João Ricardo Oliveira, utilizava de tudo um pouco para produzir sons. Quando não, também um muito.

O magnífico coronel Selvagem (o nosso Vává)

Um banheira com amplificadores onde rolavam esferas de vários calibres e materiais, um aspirador com mais aplicações sonoras que os braços de Shiva, placas de metal penduradas em atitude percussionável, mas que na verdade só vibravam quando as tocava o sensível arco dum violino…
Tempos mais tarde saiu-me um outro, igualmente divertido: um nêgão curtido (infelizmente não consigo encontrar-lhe o nome nas memórias físicas) instalara-se momentaneamente no Velha-a-Branca – Estaleiro Cultural com o seu atelier sonoro centrado essencialmente na percussão. Entrevistei-o, fizemos uma autêntica jam-session os dois – e ainda bebemos uns valentes copos (porque eu, na altura, ainda bebia que nem uma almotolia…).
Lembrei-me de fazer uma listagem das músicas que mais alteraram o meu humor até ao fim da coisa adolescente, que depois a tal coisa tornou-se mutante e adquiriu ritmos (e ritos!) até então inimagináveis.
A primeira que lembro (e portanto foi mesmo a primeira) é O Voo do Moscardo, de Korsakov. Como foi a minha Mãe que mo apresentou e o meu avô Selvagem adorava Korsakov, é óbvio que a ele devo semelhante impressão – na verdade acho que a apanhei lá em casa dele, em Lisboa, na velhinha Travessa da Amoreira – à Lapa (á pois!…).

À direita, um percursor do rock’n roll em Portugal

Agora já estamos na Granja, talvez em 60, quase pela certa no início do Verão. À época o meu Pai era director da Assembleia da Granja e organizava umas festas magníficas, com boas orquestras (o Tillo’s Combo, e lembro-me muito bem dum grupo americano com um trompetista negro de primeira água) e vários grupos de rock local (Os Nómadas, Pop Five, and so on). Lembro-me dele, entusiasmadíssimo, a tentar explicar-nos com uma toalha como se dançava o twist. Atravessava a dita por trás das costas, em cima da cinta, mandava pôr a música no gira-discos, pegava nas pontas da toalha e desatava a contorcer-se como um saca-rolhas ao ritmo prescrito. Depois, como aquilo parecia funcionar com ele, obrigou-nos a todos a experimentar a técnica – Alice incluída, que não se fez rogada. Acho que já disse aqui que a Alice foi a minha segunda mãe – era nossa empregada, e foi a mais querida das queridas mulheres de sempre, ainda nos telefonamos muitas vezes.
Exmªs Senhoras e Senhores, Chubby Checker e… Let’s twist again!

E logo a seguir, mais ano mesmo ano, Speedy Gonzalez e o incontornável Pat Boone:

Um dia, bem mais tarde, já com acesso a tecnologias até aí confinadas a esse mundo presunçoso, desproporcionado e mandão que era o dos mais velhos em geral, sintonizei pela primeira vez o Em Órbita no magnífico Blaupunkt paterno, que permitia prodígios de sintonia setereo através do seu magnético e então misteriosos olho mágico.
Itchychoo Park, por The Small Faces:

http://www.youtube.com/watch?v=kDH0H-tos9A&feature=related

Depois disso o mundo mudou muito, cheio de pressa, e endoideceu.

Máximas, médias e outras vertigens

Se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável
(Séneca – o jovem)

Esta tirada abateu-se-me Público abaixo um dia destes, no café Velásquez, à hora do almoço, e logo ali a crismei como a mais parva e mais datada declaração de todos os tempos mais ou menos conhecidos.
Não teria o tutor de Nero ouvido falar de Ulisses, ou será que o mais político dos filósofos romanos, aquele que partilhou leito e delícias ao lado de Agripina (e que mais tarde abrilhantou com oratória de luxo a sua condenação à morte) e se reclamava dos Estóicos, entendia que o mito grego representava apenas a dramatização simbólica da excepção à regra – a sua regra?
Como todos sabemos Camões contradisse Séneca de forma limpa, comprovando em palavras únicas que foi exactamente a muitos portos desconhecidos que 1500 anos mais tarde demandaram os melhores ventos que qualquer marinheiro poderia desejar.
Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Zarco, Gama, Cabral, Colombo, Magalhães, Cook e tantos outros desejaram-nos e obtiveram-nos.
Séneca caracterizou o fracasso desaconselhando a aventura e riscos inerentes pois estes seriam o cadinho do falhanço.
E é certo que muita gente morreu na peripécia dos Descobrimentos – como aliás em toda a parte e a toda a hora.

Muito bem.

Isto foi num dia, porque no seguinte apareceu uma outra, filha dum outro Público, que é uma verdadeira (repito da TSF que oiço neste instante) mudança de paradigma! Mas, apesar do seu optimismo simplista, a frase do para mim desconhecido escritor espanhol Pio Baroja é bem melhor que a minha radiofónica classificação:

O contágio dos preconceitos faz crer muitas vezes na dificuldade de coisas que não têm nada de difícil

Será mais isto – mas também nada de exageros.
Porque isto em si também está datado – o senhor que o pensou e escreveu nasceu no século XIX e morreu em 1956.
Ou seja: tendo em conta a relação comunicacional do presente somos levados a conjecturar que será num qualquer meio-termo entre estes dois extremos que se encontra a mais aceitável aproximação a um movimento bem sucedido – ainda que sempre no sentido Baroja-Séneca, nunca no contrário.
Porque se há coisa certa que neste momento vivemos esta materializa-se no nosso inapelável e total desconhecimento sobre o próximo (presumível) porto a que nos dirigimos.
Porque é isso que duma forma ou doutra estamos todos a fazer.

 

Metas físicas dos céus e infernos

Não é grande novidade afirmar que qualquer texto tem uma segunda mensagem escondida no seu tecido. A teoria já deu direito a pelo menos um filme do Woody Woodpecker, perdão, Allen, a um livro tremendamente críptico de Stanislaw Lem e a montes de biografias que sobrevivem fundamentalmente do sustento que os escritos dos próprios biografados lhes emprestam sem disso saberem.
Não é pois, também, uma ciência exacta.
Mas ele há textos e textos! Existem nacos simples de coisa esplendorosas que escondem graça subtil às arrobas.
Este que me mandaram por mail é um deles. Gostei particularmente da diferença de preços entre “corrigir os 10 mandamentos, embelezar o Sumo Pontífice e mudar-lhe as fitas” (uns meros 170 reis!) e “Retocar o Purgatório e pôr-lhe almas novas” (quase o dobro…). Caríssimas, por outro lado, as “botas novas para S. Miguel” — umas simples botas que valem uma catrefada de almas de qualidade média (presumo eu) e reboco novo em todo esse mítico limbo. Nem Prada!
Já achei de grande economia os 243 reis pagos pelo arcebispado pelo “Avivar as chamas do Inferno, pôr um rabo no Diabo e” (esta é um must!) “fazer vários concertos nos condenados” — um orçamento premonitório bem digno dum país que ao tempo vivia uma crise não muito diferente da que hoje vivemos mas ainda não percebemos completamente.
Gente sensata, a da Igreja.
Menos naquele disparate das botas, claro!

Aguirre was here!

Esta imagem, que manipulei um nadinha para também a poder considerar um pouco minha, causou-me verdadeiro espanto, uma surpresa plástica da mais incrível realidade que se intrometeu por recordações de filmes e livros adentro, antes de me aquecer a consciência àquele ponto em que sentimos que algo naquilo ali à frente também está a falar de nós.
O primeiro impacto levou-me à América do Sul imediatamente colombiana, à devassa espanhola que Werner Herzog tão bem caracterizou com o seu louco Aguirre incarnado no não menos louco Klaus Kinski.
Depois de ler a explicação técnica da fotografia lembrei-me d’ O atalho para os ninhos de aranhas, talvez porque no seu primeiro e último romance neo-realista Ítalo Calvino não mostre ao leitor, de forma convincente, como são os ditos ninhos dos inteligentes bichos.
Seja como for guardei a foto, guardo sempre fotos que me impressionam de alguma forma.
Acho que agora sei porque vi que a imagem também tinha a ver comigo, com o meu eu instantâneo.
Chegado a este ponto logo saltei para Quixote e para a sua louca cruzada por Dulcineia – mas explicar esta última ligação seria em si uma cruzada demasiado fastidiosa quer para mim quer para quem se desse ao trabalho de a ler.
Por aqui me quedo de intimidades.
A explicação da imagem é natural e, provavelmente, muito mais vulgar do que nós, assépticos europeus que só nos envenenamos com pepinos espanhóis parecidos com soja alemã, conseguimos imaginar: depois de uma imensa cheia de monção, colónias de aranhas abrigaram-se nas árvores e aí construíram seus vastos impérios. Aconteceu ano passado, no Paquistão, e crê-se hoje que foi devido ao fenómeno que a malária não foi particularmente letal durante esse período de inundações – por norma um excelente alfobre para a proliferação do insidioso e sujo anopheles.
Onde é que tudo isto se liga?
Em mim, é claro.

 

O meu primeiro Baudelaire

Este herdei-o do meu avô Selvagem, que o datou de 1900.
Lembro-me dele ainda sem a encadernação bonita que a minha Mãe lhe mandou fazer para mo dar pelos meus 22 anos, perdido mas fácil de encontrar entre as centenas de exemplares que forravam a sala de trabalho dele, onde um magnífico Bocage da pintora Maria Adelaide parecia velar as ausências normais deste meu queridíssimo avô.
Aliás, esta casa da Travessa da Amoreira (à Lapa) fascinava-me pelo que continha de memórias africanas — algumas delas agora na posse temporária (sempre temporária) deste vosso confrade (digamos): duas compridas lanças com ponta tridente faziam armas à entrada, uma pele de leopardo cobria um cómodo fauteil que se postava na continuação da diagonal esquerda da sua enorme mesa de trabalho. Armas diversas, a imensa cápsula de cobre duma bala de canhão da I Grande Guerra, sempre muito bem polida, imagens de animais, velhas fotografias de caçadas e campanhas.
E os livros, claro.
Mal tive tino para saber que aquilo era de um poeta maldito, o mais celebrizado deles todos, logo fiquei com a tendência de o ler um dia — se um dia soubesse francês para tanto.
Incrivelmente isso acabou por acontecer — apesar de todos os prenúncios, que eram algo adversos.
Escolhi uma coisa um pouco atípica do Baudelaire, uma épave dedicada que parece mostrar um pouco duma relação entre irrelacionáveis.

Como estou de preguiça, sai plasmice.

 

Ich bin ein Papageno…

Revelar a vala abissal que nos separa hoje do sonho infantil ou adolescente, expor a nossa própria realidade até onde ela pode ser observável por nós próprios, sem persona que nos amacie os traços marcados do eu íntimo?…
Talvez começasse por lembrar, se me desse à tarefa, os sonhos que fui sendo sem porvir, que o tempo desses tempos chegava sempre sem se fazer anunciar (sim, como agora, mas agora agorinha já lhe vemos aqui e ali alguns anúncios que se dizem prenúncios).
Sempre gostei de pássaros e de mulheres – de todas as espécies sem excepção. Suponho-lhes uma identidade próxima em si, um ar sem dúvida alado mesmo quando não voam. Imagino-as sempre, às aves e às mulheres, de belcanto e amável índole – yin, madeira, suavidade, penetração (a terminologia delicada do I Ching permite, para o bem e para o mal, as interpretações mais díspares e imaginativas… A Eugénia não me deixa mentir, pois não, Eugénia?…).
E fui caçador, sim, não só de espingarda na mão mas também de armadilha já montada lá pelo fim da madrugada. E tive gaiolas com pássaros tão diversos que só forças alheias aos seus interesses juntariam num espaço tão confinado.
E sim, andei sempre apaixonado desde os seis anos – é verdade. Por tias distantes, por amigas dos meus pais e dos meus irmãos, por primas, amigas ou nem isso. Sei hoje que andava nesses tempos permanentemente apaixonado, a relativa diversidade dos objectos em adoração (em raríssimos casos obrigando-me à divisão do ser para adorar em paz e simultâneo mais do que um objecto) não me permitia à época uma boa auto-análise. O que é um belíssimo mecanismo de defesa da bela da juventude.
Hoje sei isso.
Mas antes disso haviam outras coisas. Como por exemplo uma família magnificamente turbulenta e diversa. Eu queria uma assim mas em mais calmo, talvez mais cool – no sentido de um pouco menos explosiva, se bem me faço entender. Mas só me apercebi de tal desejo mais densamente na ressaca de Angola: quando o avião abandonou Luanda, em 1975, nada mais queria da vida que não a dádiva última e primordial a que sabia ter direito.
Mesmo antes de tudo deram-me uma flauta.
Hoje sei isso muito bem.

ps (como é coisa de passar, perfile-se nova alma a esparramar: e para não ser mais um chato dum homem mais ses petits grandeurs, aponto à menina Joana um dedo nervoso e inquiridor…)

FCP esmaga berço na capital

Eu sei que parece um nadinha freudiano, quiçá edipiano.
Mas não é. E não é porque nem Lisboa é mãe do Porto nem este berço é realmente um berço tout court – mas antes uma equipa de valentes rapagões que mamou seis ameixas gordas num jogo de futebol que arruinou de vez qualquer espécie de dúvida sobre qual é a melhor equipa portuguesa de futebol da actualidade.
Mesmo na Europa dos milhões o FCP não deixa de fazer mossa: é a equipa que mais títulos ganhou em todo o século XXI e a única a ter dois tripletes* no seu palmarés (o primeiro, como todos se lembrarão, obtido sob o consulado de Mourinho – ou Pequeno Mouro, como por aqui ainda vai sendo conhecido em certas esquinas).
O jogo de hoje, além do festival de golos em si, nada mais representa que o corolário perfeito de uma época também ela perfeita.
A verdade, como já no Outono eu tinha previsto (para ver faxavor carrega AQUI!…), é que o miúdo Villas-Boas e a sua fantástica equipa global (no sentido da globalização) deu cartas o ano inteiro, ganhou o campeonato nacional sem derrotas e com uma diferença de pontos abissal em relação ao SLB, foi à Luz tirar o pão da boca aos benfas, e, no meio disto tudo, ainda teve bofes para esfarelar várias equipas europeias até derrotar na final da Liga Europa, com grande dificuldade, o sensacional Sporting Clube de Braga.

O pesadelo da infância benfiquista e de Rui Gomes da Silva…

O treinador do Real Madrid diz que o FCP é um clube da Champions. Também acho.
E por isso estou mortinho por saber quem nos vai sair na rifa para esse tira-teimas especial que é a Supertaça Europeia – por na sua disputa se irem confrontar exactamente os vencedores da Champions e da Liga Europa.
Será o nosso próximo jogo oficial, o primeiro da próxima época. Com o Manchester United ou com o Barcelona.
Desta vez vou apostar dinheiro, já que parece que tenho jeito para bruxo…
Deixo-vos um brevíssimo filme onde conhecidos benfiquistas fazem a sua contrição – dolorosa mas levada a sério e até ao fim.

* (triplete: conjunto de três resultados anuais que acumula as duas principais provas nacionais e uma da UEFA)

Ps (preocupou-me imenso uma mensagem que recebi hoje do MSF: diz que vai destruir o PC dele…, uma coisa estranhíssima!)

Un enfant de Septembre: Patrice de la Tour du Pin (1911−1975)

Tous les pays qui n’ont plus de légende
Seront condamnés à mourir de froid…

É curioso pensar agora no momento em que contactei pela primeira vez com ele, mas não foi propriamente por acaso.
O seu texto que primeiro li nem estava num livro, como é costume, mas sim numa fotocópia que não apresentava sequer título ou outra informação que não o suposto nome do autor: o para mim desconhecidíssimo Patrice de la Tour du Pin.
Lembro-me que o nome me pareceu um pouco rebuscado. Depois li o texto em francês e fiquei pasmado. Na altura, eu e um amigo pintor preparávamos uma exposição que íamos fazer (a única para ambos, diga-se de passagem) numa fundação aqui do Porto. O acontecimento incluiu um pequeno episódio que acirrou as minhas dúvidas, já então engrossadas por breve passagem nas universidades do PREC, sobre a real bondade dos títulos académicos em geral – pois o presidente da dita fundação, que se dizia um homem «mais das letras que das artes», colocou sérias reticências à inclusão do texto em causa no catálogo da nossa exibição porque simplesmente não o compreendia.
Na verdade o texto publicado resultara duma demorada e complexa tradução que ambos fizéramos do original francês fotocopiado. Não deixava então de ser curioso ver que várias pessoas nossas conhecidas e amigas gostavam imenso de o ler – mas que o senhor-doutor-presidente-de-fundação não o compreendia. Logo ele!, um homem que era mais letras que artes – e que até gostava dos nossos quadros!…
Por mais de uma década o meu conhecimento de Patrice limitou-se àquele texto, que realmente continuo a venerar.
Mas um dia, há quase vinte anos, deparei-me com a net na sua fase ainda neonatal. E apanhei um site onde aparecia um desenho do que teria sido o poeta em jovem (já o sabia francês, valha-me isso), bem como um poema lindíssimo chamado Les Enfants de Septembre.

Les bois étaient tout recouverts de brumes basses,
Déserts, gonflés de pluie et silencieux;
Longtemps avait soufflé ce vent du Nord où passent
Les Enfants Sauvages, fuyant vers d’autres cieux,
Par grands voiliers, le soir, et très haut dans l’espace

J’avais senti siffler leurs ailes dans la nuit,
Lorsqu’ils avaient baissé pour chercher les ravines
Où tout le jour, peut-être, ils resteront enfouis;
Et cet appel inconsolé de sauvagine
Triste, sur les marais que les oiseaux ont fuis.

Après avoir surpris le dégel de ma chambre,
A l’aube, je gagnai la lisière des bois;
Par une bonne lune de brouillard et d’ambre
Je relevai la trace, incertaine parfois,
Sur le bord du layon, d’un enfant de Septembre.

Les pas étaient légers et tendres, mais brouillés,
Ils se croisaient d’abord au milieu des ornières
Où dans l’ombre, tranquille, il avait essayé
De boire, pour reprendre ses jeux solitaires
Très tard, après le long crépuscule mouillé.

Et puis, ils se perdaient plus loin parmi les hêtres
Où son pied ne marquait qu’à peine sur le sol;
Je me suis dit : il va s’en retourner peut-être
A l’aube, pour chercher ses compagnons de vol,
En tremblant de la peur qu’ils aient pu disparaître.

Il va certainement venir dans ces parages
A la demi-clarté qui monte à l’orient,
Avec les grandes bandes d’oiseaux de passage,
Et les cerfs inquiets qui cherchent dans le vent
L’heure d’abandonner le calme des gagnages.

Le jour glacial s’était levé sur les marais;
Je restais accroupi dans l’attente illusoire,
Regardant défiler la faune qui rentrait
Dans l’ombre, les chevreuils peureux qui venaient boire
Et le corbeaux criards, aux cimes des forêts.

Et je me dis : je suis un enfant de Septembre,
Moi-même, par le coeur, la fièvre et l’esprit,
Et la brûlante volupté de tous mes membres,
Et le désir que j’ai de courir dans la nuit
Sauvage, ayant quitté l’étouffement des chambres.

Il va certainement me traiter comme un frère,
Peut-être me donner un nom parmi les siens;
Mes yeux le combleraient d’amicales lumières
S’il ne prenait pas peur, en me voyant soudain
Les bras ouverts, courir vers lui dans la clairière.

Farouche, il s’enfuira comme un oiseau blessé,
Je le suivrai jusqu’à ce qu’il demande grâce,
Jusqu’à ce qu’il s’arrête en plein ciel, épuisé,
Traqué jusqu’à la mort, vaincu, les ailes basses,
Et les yeux résignés à mourir, abaissés.

Alors, je le prendrai dans mes bras, endormi,
Je le caresserai sur la pente des ailes,
Et je ramènerai son petit corps, parmi
Les roseaux, rêvant à des choses irréelles,
Réchauffé tout le temps par mon sourire ami…

Mais les bois étaient recouverts de brumes basses
Et le vent commençait à remonter au Nord,
Abandonnant tous ceux dont les ailes sont lasses,
Tous ceux qui sont perdus et tous ceux qui sont morts,
Qui vont par d’autres voies en de mêmes espaces !

Et je me suis dit : Ce n’est pas dans ces pauvres landes
Que les enfants de Septembre vont s’arrêter;
Un seul qui se serait écarté de sa bande
Aurait-il, en un soir, compris l’atrocité
De ces marais déserts et privés de légende?

Depois disto cheguei à Gallimard e comprei uma data de livros dele – porventura, acho que foi isso mesmo, na tentativa de encontrar o original daquilo que eu e o meu amigo pintor chamávamos de O conhecimento dos outros através do canto. Ainda não o encontrei, mas suspeito agora (só agora) onde se encontra. Por isso mantenho a nossa tradução, já que mesmo o “original” fotocopiado desapareceu.
É comprido mas vale a pena.

Aquele que aborda o coração dos outros pelo canto cumpre a posse da carne para a criação; é um mistério de amor e como todos os mistérios do amor vai em direcção a um certo conhecimento dum pólo do Homem, mas dum pólo orientado para o canto. Se não entrais nas almas pelos caminhos que levam o canto, os que vivem de vós quando vos encontram e os que vos oferecem parte de si próprios para viver serão os únicos eleitos da consciência no canto? Sê-lo-ão primeiro porque estão mais próximos; seguem o Outono; são sensíveis às ressonâncias, atingem convosco os limites; estão lado a lado no leito do rio que abristes, partilham, comungam. Mas os outros, os que nunca estão no estado de poesia, será preciso pô-los à margem de qualquer conhecimento se o desejo de aventura vos leva a procurá-los, se a caridade vos pede para não os pôr à margem do amor? Estais limitados por isso?
Há seres que não têm o sentido do canto e outros que o perderam; há incompreensões naturais e defesas voluntárias escolhidas pela razão numa aparência de equilíbrio por desprezo pelo que chamam de imaginário; são terras difíceis onde os ventos não passam, que perderam o sentido dos jogos, da frescura da infância, dos prolongamentos que ultrapassam o quadro. Mas será conhecê-los defini-los por palavras? Podereis julgá-los de fora como eles vos julgaram?
A posse da carne é impossível, e não entreis neles se eles não entrarem em vós. Lembremo-nos dos tempos em que íamos à descoberta de nós próprios; lembro-me dos pólos que se orientavam diferentemente, dos caminhos que levavam a sentidos diferentes, das vozes que não se podiam conciliar; encontro-me hesitante entre dois prazeres, e um era a ausência do outro.
Nós dobrámo-los à poesia, os pólos que a desprezavam? Fizemos nós realmente cantar todo o Homem, esse pequeno filósofo absurdo que queria conhecer tudo do alto da montanha, e esse irónico passante que não sentia a sua esterilidade entre as coisas que nasciam?
Vivemos a experiência desses o bastante para sofrer com ela. De nada serve impor a poesia. É por admiração que vós os chamais? Por desejo de domínio que tentais conhecê-los?
Não sois levados por um amor de dilecção mas por comunhão do mistério; ouço-vos dizer que pensais englobar o desconhecido nesta palavra; que a aplicais a todas as coisas estranhas, todos os acasos e todas as noites: que justamente era o termo que não se devia aplicar diante deles porque longínquo, vago e fácil demais; e no entanto é bem aquele que impusestes aos pólos interiores que não o queriam admitir.
Não pertenceis aos raros seres que vivem de mistérios particulares, os mistérios originais do Homem tão comuns a todos os homens, o estado da criatura, a paragem do conhecimento, a morte. E outros que pertencem ao seu sofrimento e ao amor, à alma fechada e às suas fronteiras, ao estremecimento do espiritual sobre a terra; já não tendes necessidade do seu estado de poesia para conhecer os homens; conheceis o seu mistério porque sois homem e tentais exprimi-lo pelo canto; que o vosso canto não ressoe nalguns deles, que baste para a vossa satisfação; estabelecereis a sua base de outra forma, talvez de coração a coração, talvez pela inteligência ou pela oração; não estão fora dos vossos caminhos embora não vos compreendam quando cantais, estão ligados a vós pelo mistério da criatura; e se nunca o sentiram vivo é preciso dar-lhes tudo o que os anima.
Tudo isto acontece porque eles escolheram um pólo por si próprios, para dominar os outros, para julgar os outros; não se trata de inteligência, de vontade, de essência e faculdade de amor; o Homem não é divisível nestas partes; trata-se de pólos que formam um feixe com mais ou menos destes elementos; o mais alto não é o mais puro segundo um julgamento humano mas aquele que conhece a existência das coisas sem julgar por si o que é bem e mal; e talvez este se alargue sobre os outros infelizmente sem ter necessidade de poesia.
Porque há tantos desesperados; eles dizem: se conhecesses um pouco melhor o sofrimento, se estivesses no coração do sofrimento, não terias tomado este tom nem escrito este livro; porque nós não somos senhores do lugar em que nos colocamos, as nossas impotências e fadigas gastaram-nos; se pudesses viver as horas de cada dia sobre a Terra…
Esses, amai-os mais loucamente do que aos outros; não os compreendais e dizei-lhes para erguerem os sofrimentos como se tivessem um pouco de esperança. O mistério do amor de tal maneira foi dado ao Homem que ele próprio o pode dar.

É, Patrice foi um esotérico, talvez um pouco hermético mesmo, mas foi também um enorme e especialíssimo poeta.
A sua primeira publicação, aos 22 anos, fê-la por conta própria, trazendo para a luz do dia 600 exemplares de La Quête de Joie, (que contém Les Enfants de Septembre) do que resultou o imediato entusiasmo do poeta Jules Supervielle e do escritor André Gide – que lhe gabaram publicamente a hábil combinação de um fervor espiritual de precisão clássica com atmosferas de lenda.

Le Loiret

Anne e Patrice

Não deixa de ser interessante vasculhar os antecedentes de Patrice Arthur Elie Humbert de La Tour du Pin Chambly de La Charce: pela mãe de origem irlandesa (Brigitte O’Connor) descendia directamente de Condorcet, enquanto do lado do pai vinha duma velha família que chegara a dominar o poder no Delfinado. Morto o pai logo nos primeiros dias da I Grande Guerra, foi essencialmente educado por mulheres, tanto em Paris como nas propriedades da família. Depois do primeiro sucesso, em 1933, recusa qualquer espécie de mediatismo. No entanto contacta e relaciona-se com todos os meios intelectuais do tempo – ateus incluídos, que dizia compreender.
Seis anos mais tarde, troava já a II Grande Guerra, é feito prisioneiro e mandado para a Alemanha, onde permanece por três terríveis anos.
É nessa situação crítica que elabora os poemas do seu primeiro Jogo (termo que utiliza para denominar os seus, chamemos-lhes, agrupamentos de poemas), chamado Une Somme de Poésie, e que será publicado em 1946 – ano em que casa com a sua prima Anne (curiosamente, uma descendente de Mirabeau).
Irão viver no chateau de Loiret, onde criarão três filhos e onde Patrice prossegue na sua discreta busca interior através da poesia.
Os três Jogos de Patrice pretendem representar a relação do homem consigo próprio, com os outros e, finalmente, com Deus. Assim, depois de Une Somme, surge em 1959 o conjunto que será organizado sob o título La Contemplation Errante (a relação com os outros). Por fim, na relação do homem com Deus o poeta irá escrever Petit Théâtre Crépusculaire e Une Lutte pour la Vie, entre muitos outros conjuntos de poemas a que chamou Psaumes de tous mes Temps.
Com a sua vontade de conjugar fé religiosa e poesia, criou algo como uma teopoesia – ou seja, poemas que são em si formas de oração.
Patrice de la Tour du Pin foi nos seus últimos anos de vida um dos tradutores da Bíblia vernacular para a língua francesa.


À la recherche du temps gagné

Não sigo nenhuma ordem especial a não ser uma, que é superior! A do Manancial S. Fonseca — que ma enviou por via quase telepática (diria mesmo que quase-quase sem-se-ver…).
O que tenho a dizer sobre o assunto é isto:

1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Existem vários livros que já li duas ou mais vezes. Sem pretender ser caseiro começo logo pela família: O crime do padre Amaro, a Cidade e as Serras, Os Maias, A relíquia e Uma Campanha Alegre já os li todos duas ou mais vezes; Baudolino e O pêndulo de Foucault (H. Eco), O Mistério de Valis, A penúltima verdade e Depois da Bomba (Philip K. Dick), O jogo das contas de vidro e O lobo das estepes (Herman Hesse) Leão, o Africano (Amin Maalouf). Mas há muitos outros.

2 — Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Sim, do Lobo Antunes. Não vale a pena dizer o título, nunca fui além da 10ª página.

3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
A História Natural, de Plínio (o Velho).

4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

Ainda o poderei fazer, não é? Sei lá!… Nunca li todo o temps perdu do Proust – mas agora também não sei se o quereria refazer. Há tanta coisa por ler.

5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?

Não creio que essa pergunta tenha uma resposta de cor. Assim, para a tornar viável, fui ao livro relembrar o final de   Leão, o Africano – talvez o melhor romance histórico que já li. Uma última palavra traçada nesta última página, e é já a costa africana.
Brancas almádenas de Gammarth, nobres ruínas de Cartago, é à sua sombra que me espreita o esquecimento, é para elas que deriva a minha vida depois de tantos naufrágios. O saque de Roma depois da punição do Cairo, o fogo de Tombuctu depois da queda de Granada: será a infelicidade que me chama, ou eu que chamo a infelicidade? Mais uma vez, meu filho, sou levado por esse mar, testemunha de todos os meus erros e que presentemente te encaminha para o teu primeiro exílio. Em Roma, eras «o filho do Africano»; em África, serás «o filho do Romi». Onde quer que estejas, alguns quererão inspeccionar a tua pele e as tuas orações. Guarda-te de acarinhares os seus instintos, guarda-te de te sujeitares à multidão! Muçulmano, judeu ou cristão, deverão tomar-te como és, ou perder-te. Quando o espírito dos homens te parecer estreito, diz a ti próprio que a terra de Deus é vasta, e vastas as Suas mãos e o Seu coração. Jamais hesites em te afastares, para além de todos os mares, para além de todas as fronteiras, de todas as pátrias, de todas as crenças.
Quanto a mim, atingi o fim do meu périplo. Quarenta anos de aventuras tornaram pesados os meus passos e o meu sopro. Não tenho mais qualquer desejo que não o de viver, junto dos meus, longos dias tranquilos. E de ser, de todos os que amo, o primeiro a partir. Para esse Local último onde ninguém é estrangeiro à face do Criador.


6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Criança com hábitos de leitura, para além dos Mickeys e do Astérix, dos Tintins? Fora os Cinco e os Sete, da Enid Blyton, o GrichkaUma leoa chamada Elsa? Não.
Nasci para a literatura aos oito anos com a Selma Lagerloff e a sua Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

Que me lembre apenas dois: Confissão incompleta, de André Gide, porque me recusei a acreditar que ele tivesse feito uma coisa tão pouco imaginativa, tão desinteressante e, ainda por cima, escrita de forma tão sem chama; … e uma outra abencerrice chamada Poderosas loiras (ou coisa que o valha), dum francês moderno de Goncourt ao peito, de quem nem sequer lembro o nome (e nem posso lembrar já porque deitei-o fora há duas semanas, e com montes de desprezo!)

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Além dos que já citei acima e que li mais de uma vez, há muitos outros dos mesmos autores, a que se somam muitos outros: As cruzadas vistas pelos Árabes e Identidades assassinas (Amin Maalouf), Narciso e Goldemundo, A arte dos ociosos e Siddharta (Herman Hesse), O mandarim, Correspondência de Fradique Mendes, o Primo Bazílio e Contos (Eça), toda a obra de Philip K. Dick, A voz do dono, Memórias encontradas numa banheira e Fiasco, de Stanislaw Lem, O Castelo (Kafka), Abordagem (William Golding), Outono em Pequim (Boris Vian), Les Fleurs du Mal e Les Paradis Artificiels (Baudelaire), A montanha mágica e Os Budenbrook (Thomas Mann), Le tournant (autobiografia de Klaus Mann), Fiesta (Hemingway), O jogador (Dostoïevski), Fernão de Magalhães (uma biografia de Stefan Zwig), Memórias de Adriano (M. Yourcenar), Une somme de poesie (Patrice de la Tour du Pin), A união do Céu e do Inferno (William Blake), Zaratustra (F. Nietzsche), Cem anos de solidão (G.G. Marquez)…
Irra, serão sempre muitíssimos!

9. Que livro estás a ler neste momento?

Romance, de Almada Negreiros.

 

Receita para um amanhã todo risonho

Antes de mais, e por causa do cheiro das tintas, declaro formalmente que nada me move contra o patrão do FMI, o incontornavelmente anafado socialista francês Dominique Strauss-Kahn. Não sei se ele se pôs ou não em Nova Iorque na tal senhora de 32 anos, e se a contragosto da própria – como consta da acusação. A verdade é que não é de todo impossível, afinal trata-se de Nova Iorque – onde se diz mesmo que, se bem procuradas, ainda há virgens. Além de que ele é francês (hoje estou cheio de preconceitos, é domingo).
Agora o que eu verdadeiramente acho é que Portugal devia aproveitar o momento. Eu explico-me: primeiro punha-se o Sócrates, que tem imenso jeito, a gritar aos quatro ventos do planeta que o gaiteiro do Dominique também abusou dele. No passo seguinte entregava-se uma bela duma acção contra o Senhor FMI no Tribunal Penal Internacional (o FMI no TPI liga bem, não acham?) alegando que o nosso país fora obrigado a assinar os tratantes dos tratados sob coação sexual na pessoa do primeiro-ministro – que chegara a estar sequestrado por cerca de mais de hora e meia! Ou isso.
No fim exigia-se evidentemente uma compensação – por elevados danos morais e patrimoniais (estes últimos quiçá insubstituíveis!) –, no valor, digamos, de cem mil milhões de euros. Dava-se uma gorja ao ganapo e saíamos muitíssimo bem desta encrenca toda.
E depois íamos todos de férias!…
(agora a sério: e se assaltássemos um banco?…)

 

Corantino, o eficiente

Mal lhe vislumbrei a face rectangular e expressiva tive um relance longínquo de Vitorino Nemésio no seu programa televisivo dos anos Sessenta, a preto e branco natural, falando das coisas mais absolutamente desconhecidas da literatura e da vida e arredores, com aquele humor dolente e falsamente ponderado que hipnotizava. Achava-lhe montes de piada, apesar de eu ser um miúdo com preocupações de natureza absolutamente diversa.
Ele, mal me viu a vê-lo, depressa arranjou forma de me atrair ao seu convívio quase exclusivo – o que num paquete de férias mediterrânicas pode tornar-se num grandessíssimo frete.
Não foi um frete, longe disso. A sua personalidade de aventureiro um pouco tosco (apesar de bem sucedido), que não se cansava colorir e salgar com pormenores comuns a um fala-barato vaidoso, fez-me desconfiar que mais de metade do que me contava seria apenas para me manter interessado. E o facto é que conseguiu.
Até que um dia, mais propriamente num fim-de-tarde glorioso em que saídos da Sardenha nos aproximávamos de Malta, entre dry-martinis bebidos como se fossem os últimos da civilização tal como até aí a conhecêramos, resolveu confidenciar-me a razão da sua presença naquele cruzeiro específico – sem companhia ou conhecidos de mão. Dias mais tarde, numa ligação com Portugal, tive a oportunidade de ver confirmada uma parte da sua história intermitente e nebulosa.
Corantino Leopoldo da Silva Vaz era um homem bastante bem situado na vida: tinha propriedades no Minho e negócios que iam da construção civil, passavam pela mecânica-auto, e acabavam no retalho em pequenas e médias superfícies – onde actuava sob a marca Amigo Vaz.
Aprendera tudo o que sabia com o seu pai, um ex-volframista de Pedorido (é perto de Arouca), tornando-se já na idade adulta e em pleno salazarismo num audacioso contrabandista de café, bacalhau, divisas e ouro, com sedes várias, cá e lá da fronteira. Com o 25 de Abril aproveitou-se da balbúrdia do PREC para se tornar num cidadão respeitado e respeitador das leis democráticas (as leis são todas iguais, garantia-me). Isto tudo apesar de manter activas uma série de actividades marginais que muito e por muito tempo o foram favorecendo do ponto de vista pecuniário. O tráfico de divisas (e sei lá que mais) assegurava-o com o contributo quase exclusivo de várias colaboradoras que, a coberto da noite e por quelhos e passagens invisíveis ao comum dos mortais, enganavam as polícias de fronteira (em particular a espanhola) e asseguravam o trânsito regular das suas mercadorias legalmente desclassificadas. O ouro e as divisas tiveram neste período importante papel.
O tempo foi passando, a CEE tornou-se num facto incontornável – bem como as fronteiras, que já nada apartavam. E Corantino Leopoldo civilizou-se um pouco mais, polindo um perfil social onde a benemerência junto das populações locais lhe permitia agora concorrer, o poder tenta tanto, à intervenção autárquica como elemento de pressão.
Fora esta súbita exposição aos mediáticos holofotes a grande responsável pela sua presença no Sea Queen, naquela primavera de 1998.
Isso e a sua inépcia social, como adiante se verá.
A coisa começara com um jornalista atrevido que lhe pedira uma entrevista do género história de vida. O velho Corantino, então já com 67 anos, sentiu uma enorme vaidade crescer dentro de si: ia aparecer nos jornais, em letra de forma!
E sabendo que muitos sabiam bem qual fora o seu core business nos anos da ditadura e do PREC (ao que juntou a certeza da compreensão alheia sobre o que fora a sua difícil vida de transfronteiriço por assim dizer libertário), abriu o livro – como por aqui se costuma dizer.
Só que abriu o livro em demasia, às escâncaras. Não que o que contava pudesse indignar de ilegalidade quem o conhecia, nada disso.
A crise real surgiu apenas quando o Milhafre do Larouco deu à estampa a sua vistosa entrevista: foto e chamada à 1ª página, quatro páginas inteiras matraqueadas de publicidade às lojas Amigo Vaz, belas fotos, um título bem rasgado, e um texto que lido por alto nada tinha de complicado para ninguém.
Salvo um pequeno pormenor que o jovem jornalista fizera questão de dar destaque em cacha específica encimada de bela e inocente foto da foz do Minho. O título incomodou-o logo um pouco:
«Promessas sexuais em troca da liberdade»…
Porque fora certo acontecer a algumas das suas colaboradoras, que cruzavam o Minho de madrugada em chatas e de varapau, serem por vezes interceptadas pelos tipos da Guardia Civil.
Corantino Leopoldo contara sem qualquer recato como as senhoras contrabandistas resolviam o problema:
Prometiam umas brincadeiras com os agentes. E se umas ficavam só pela promessa, outras havia que, pois sim senhor, iam até ao fim com a transacção – assegurou-me, acrescentando que a coisa garantia mesmo alguma segurança em posteriores passagens. Achava normal. Até apoiava!
Tudo se passara umas semanas antes de nos encontrarmos a bordo.
Por palavras suas:
No mesmo dia recebi telefonemas dum presidente de câmara (não lhe digo qual), dum cónego de Braga, de vários militares, comerciantes e industriais, todos a gritarem-me que eu espetara no jornal que as mães deles tinham sido um bando de valentes putas!…
Bem…, de facto toda a gente sabia por ali quem andava no rio à noite… Ainda tentei que o jornalista fizesse um desmentido, mas o pulhazito disse-me que estava tudo gravado e que não ia alterar uma palavra do que escrevera – veja-me só! É uma gente do piorio…
Ainda pensei em esclarecer que não eram todas, que umas só prometiam… Mas que fazer? Dizer quais eram as que só prometiam? E quem ficasse fora da lista? Não podia ser…
Assim só restou fazer uma coisa: desaparecer por uns tempos a ver se o clima por ali acalma um bocado.
Ainda lhe perguntei o que faria se o clima não acalmasse tanto quanto ele pretendia com a sua evasão estratégica. A resposta não deixou dúvidas quanto à metodologia:
Faço umas escolas, uns centros sociais, abro uns arruamentos, doo uma biblioteca…, sei lá! Mas eles calam-se, garanto-lhe. Se não, logo se vê…
Nada averiguei sobre esta última perspectiva.
Soube que morreu há cerca dum mês, gasto de velho e dum pulmão, no solar minhoto que comprara nos anos 70 a um barão falido, entre vinhas de Alvarinho e a névoa que sobe do rio. Rodeado pelos seus e chorado por muitos outros.
Paz à sua alma prática.

 

Condado Portucalense decide final europeia

Caso inédito na Europa dos grandes torneios!
Depois de devidamente desmourizada e desratizada — respectivemante pelo Sporting de Braga e pelo Futebol Clube do Porto, que afastaram o Sport Lisboa & Benfica e o Vilarreal -, a Liga Europa terá uma final exclusivamente preenchida por clubes do nobre e vetusto Condado Portucalense.
A UEFA detesta a ideia, o SLB também, Dublin também gostava doutra faena - e sobre os castelhanos (não são mas é como se fossem) estou-me borrifando para o que sequer pensam. O facto do benfiquista confesso José Sócrates também detestar a coisa confirma-o como a cereja em cima do bolo — ou a alcaparra na mayonnaise, o feijão preto na picanha, o queijo na marmelada, bem ao gosto de cada um (bon appétit!).
Porque para nós, os de cá de xima, o simples facto desta gente toda detestar a realidade que hoje se perfila é, por si só, um saboroso ors d’oeuvre e um imenso e imorredouro motivo de galhofa e gáudio.
Ai dos vencidos, ai.

Bom dia, Poly Styrene

Então é (ou foi, melhor dizendo) assim: a minha filha apresentou-me a ti no teu funeral e este velho ouvido de lata, só te digo, gostou.
E muito, até.
Recuei logo até ao Estoril, ao início dos anos 80, e senti a pancada (seria punkada?) dos Clash e de London Calling.
Sim, imagino que para ti talvez fossem um nadinha meninos de coro… Claro que sim, os Sex Pistols, obviamente…
Muito gostava de saber porque escolheste um nome tão… tão sintético!… Áh, sim, pois, por isso mesmo, pois claro.

Mas por favor, instala-te…

(Nascida da relação entre uma secretária de origem escocesa e irlandesa e um aristocrata Somali falido, Marianne Joan Elliott-Said nasceu no Kent mas cresceu e educou-se por entre as turbulências de Brixton. Fundou os R Ray Spex e morreu no passado dia 25 de Abril com cancro de mama. O Billboard considerou-a «one of the least conventional front-persons in rock history, male or female», alguém que nos seus primórdios desprezava tanto o estilo embonecado das divas da New Wave que, ao que parece, fazia questão de se apresentar na pose da artista com aparelho dental…)

 

Nano-story

E o filme ainda é mais pequeno, mas ilustra de forma magistral um momento crucial da semana que agora corre para o seu fim.
E não, não é sobre o Éfémi!!!…

Tentem adivinhar do que se trata, vá lá…

A Terra é redonda com forma quadrada (e gira no seu eixo completamente parada!)

O título disparatado não é apenas um chamariz: trata-se duma melopeia mais ou menos dadaísta, antiga na família, e suponho que pelo menos os meus irmãos ainda se lembrarão de ouvir o nosso Pai decalamá-la em dias de particular boa disposição.
Lermbrei-me imediatamente dela quando ontem o meu filho José Maria me apresentou à mais obnóxia das associações, The Flat Earth Society, uma coisa com raízes coevas numa das interpretações mais ortodoxas das Sagradas Escrituras.
Quem acabaria por dar corpo formal a esta história, contradizendo de rajada Aristótles, Galileu e Fernão de Magalhães, foi um inventor inglês chamado Samuel Rowbotham (1816–1884) que pretendeu, através duma interpretação muito sua das chamadas experiências de  Bedford Level (a observação dos mastros de um navio quando ele começa a desparecer no horizonte), ter descoberto que o planeta era redondo — sim! — mas absolutamente plano…
A partir daí tentou formar uma sociedade de seguidores de que era estandarte o seu panfleto Zetetic Astronomy, que depois se transformaria num conjunto de 430 páginas denominado Earth Not a Globe. Objectivamente Rowbotham jurava que a Terra era um disco plano cujo centro seria o Pólo Norte, e que a Antárida mais não era que uma muralha de gelo rodeando esta espécie de quiche Lorraine pendurada no vazio, o cosmos logo ali, a pouco mais de cinco mil quilómetros acima — e Sol e Lua, en pendant, a cerca de 4.800. Diz ainda o Google que o céptico beef insistiu depois com The inconsistency of Modern Astronomy and its Opposition to the Scriptures, defendendo que a verdade essencial da Bíblia — onde se lê que a Terra é plana e imóvel — não devia ser posta de lado com base em simples conjecturas humanas.
Enfim, o século XIX teve muitas coisas paradoxais, em tempo e substância, pelo que devíamos poder meter esta tralha toda nesse estranho saco.
Mas não podemos.

Porque em 1956, Samuel Shenton, fellow da Royal Gerographic Society, criou a International Flat Earth Society (sucedendo à Universal Zetetic Society que Rowbotham projectara) e fartou-se de evangelizar. Às primeiras fotografias tiradas a partir dum satélite contrapôs com o «evidente erro em que caíram olhos mal treinados». Já com a Missão Apollo o bi-dimensional vigário atingiu o seu clímax e predispôs-se a ser motivo da chacota geral ao afirmar que as putativas alunagens mais não eram do que uma encomenda da NASA a Hollywood com base num script de Arthur C. Clarke. E Clarke, que além de grande escritor de ficção científica era também um tipo bem humorado, logo pegou na deixa e escreveu esta graçola ao administrador-chefe da NASA:
«Dear Sir, on checking my records, I see that I have never received payment for this work. Could you please look into this matter with some urgency? Otherwise you will be hearing from my solicitors, Messrs Geldsnatch, Geldsnatch and Blubberclutch».
A coisa morria? Nem por isso, porque morto Shenton em 1971, logo surgiu o negacionista mais apropriado para o papel — um tal Charles K. Johnson, que rapidametente formou, na Califórnia, a International Flat Earth Research Society of America and Covenant People’s Church, conseguindo o proeminente número de 3.000 membros.
Johnson morreu já no século XXI, e com ele desapareceu formalmente a sua sociedade que tanto animou o mundo científico com deliciosos panfletos de que destaco estes: Nikita Krushchev Father of NASAGalileo Was a LiarScience Insults Your IntelligenceWorld IS Flat, and That’s That, e, guardei para o fim, Australia Not Down Under.
Hoje subsiste um site absolutamente desiteressante — o que é uma pena, chego agora à conclusão. Porque a coisa merecia mais — nem que fosse um directo do Alentejo com a D. Agripina dos Céus a afirmar a pés juntos que à Lua é que nunca ninguém foi!
E porque seria bom que a terra fosse plana e, já agora, ilimitada — como se supõe infinito o universo. Haveria imenso para descobrir sem ser preciso andar de avião — ou morrer de velho numa viagem interplanetária, sem ilhas dos amores à vista e provavelmente com a ira libidinosa de medonhos alliens tetrasexuais cheios de complexos alpha à perna…

Siiiim…, este é bastante estranho (e também interessante)

O desafio que o Manuel Fonseca lançou há dias sobre o mais estranho e interessante livro que alguma vez lêramos deixou-me completamente à nora. Porque, como muito bem lembrou a Marta Costa Reis, os livros interessantes deixam exactamente por isso de nos ser estranhos.
Andei aos trambolhões pelo Zaratustra fora, ainda inquiri o Pêndulo de Foucault (que de todo me respondeu!)… Por fim já me dava por satisfeito com qualquer coisa de ficção científica suficientemente fora. Talvez o Mistério de Valis ou Ubik, do Philip K. Dick, ou ainda Memórias encontradas numa banheira, ou Fiasco, de Stanislaw Lem.
Mas, claro, sendo um pouco estranhos para quem não aprecia o género, estes títulos nada têm de estranho para quem, ao contrário, o aprecia — como é o meu caso. E assim fui vagueando pelas estantes, incréu de sucesso e até um pouco desiludido com a evidente falta de imaginação (simultaneamente pouco estranha e desinteressante) que a minha breve livraria exibia.
Então fez-se-me uma pouca de claridade, percorria eu com dedos vencidos as lombadas da estante dos meus livros esquisitos: tinha ali nada menos de que os dois volumes de Le Nombre d’Or (ritos e ritmos pitagóricos no desenvolvimento da civilização ocidental) e ainda, à espreita, uma coisa que comprei três dias antes de ter embarcado para Angola pela primeira vez. Acho que encarava na altura a minha incorporação nas tropas expedicionárias como um longo retiro que teria de preencher com algo suficientemente absorvente, algo que me fizesse passar os tempos de maior modorra entretido num bom mergulho no esoterismo científico (?), que talvez existisse… Enganei-me pelo menos na modorra.
Mas foi por isso que comprei, em Lisboa, este Conceito Rosacruz do Cosmos (ou Cristianismo Místico) — uma tradução brasileira  da edição americana do Tratado elementar sobre a evolução passada do homem, sua constituição actual e seu futuro desenvolvimento, do ocultista dinamarquês Max Heindel.
Este sim, é o meu livro estranho e interessante.
Ponto 1: no Período Lemúrico, muito antes do homem actual, existiu uma civilização com contornos absolutamente distintos da actual; Ponto 2: a doutrina aqui apresentada deixaria muita gente irritada com a evidente predominância da raça ariana (os Árias), ainda que tal facto reflicta apenas uma cultura de época (finais do século XIX).
O que me fascinou nesta obra não foram apenas os múltiplos sincrestismos os as fantásticas derivas evolucionárias nela descritas: o que me banzou mesmo foi a organização mental que uma coisa destas exige.
Porque nada aqui é deixado ao acaso, tudo tem uma explicação esotérica para que tudo encaixe correctamente — ainda que de forma completamente esotérica: da Estrela de Belém a Adão e Eva, tudo tem data e prescrição superior. Ou antes: para se entrar nele com um mínimo de inteligibilidade é absolutamente necessário pretender ser um iniciado e assim tentar encontrar o mapa da mina…
No fim, é tal a revoada de arcanjos, de espíritos-grupo (os deuses dos animais, por exemplo), de deuses intermédios, de períodos temporais (Lunar, Solar, de Saturno, and so on) e entidades implicadas, que só quase nos resta concluir que este é um manual prático de politeísmo assumido e que os gregos é que tinham razão. Até da alimentação correcta do iniciado, tendo em vista a sua iluminação futura, esta cosmo-antropogénese fala. Áh! E sexo é só para fazer meninos, mais nada!…
Para não complicar mais o que só pode ser mais complicado lendo-o, deixo mais um dos exemplares diagramas destes Rosacruzes quase nossos contemporâneos. 

(777 reencarnações é obra, bem diz o MSF que anda cansadito)

E agora passa-se o imbróglio ao Pedro Norton e ao José Navarro de Andrade — que certamente muito terão com que nos surpreender em matéria bibliófila.

Ita missa est (ou: roubaram-nos, mas Deus estava a ver)

Esta terrível foto foi feita há três dias. A pedido.
É evidente que quando pedi ao meu filho que a fizesse já tinha o propósito de a meter aqui, nesta data precisa, mais hora menos hora. O que prova que sou um excelente adivinho — coisa que tentei explicar ao Pedro Norton, ainda na tarde ontem, através de pequeno comentário que deixei no seu excelente post sobre o último Vargas Lllosa. Eu sabia que ia ter o inefável prazer de virar frangos. E virei. Um, apenas um — mas de grande qualidade alimentar e elevado valor energético.
Do que não gostei nada foi do golo do Duarte Gomes, porque não é mister do sr. árbitro marcar golos. Mas, como disse um amigo meu quando o SLB mandou uma bola à trave nos últimos minutos, «roubaram-nos mas Deus estava a ver, carago!».
É claro que Jesus disse o contrário, que o resultado correcto era o empate. Só que Jesus não é Deus, por muito que ache que sim (aquela cagança toda tinha de lhe cair na cabeça, mais dia, menos dia, e até pode ser que as coisas nem fiquem por aqui).
Quem é que jogou melhor? Mas há lugar para alguma espécie de dúvida?!…
A crispação reactiva dos jogadores do SLB apenas acentuou a imagem geral de incapacidade que o clube da Luz demonstrou em campo: faltas a torto e a direito sob o olhar turvado de Duarte Gomes, perdas de bola junto à sua grande área que apenas não resultaram em golo por acaso, e, no final, aquele touch of class do apagão e do accionamento do sistema de rega, com o hino de Benfica em fundo, qual sinking Titanic, numa demonstração de fair-play que já deu a volta ao mundo.
Que se lixe, nada disso interessa já.
Há uma Liga Europa e uma Taça de Portugal para discutir — e isso sim, ainda interessa.

http://www.youtube.com/watch?v=JeOwVzN5ZMo&feature=channel_video_title

 

D. Ana de Sousa, rei incontestado de Matamba e mãe de todos os jingas

Não obstante a sua avançada idade, o rei gostava de se enfeitar com garrida elegância o que causava admiração a quem a via e lhe dava um ar ameninado, graças à sua franzina e gentil estatura.

Arrancada assim a seco do meio da narrativa esta frase parece, mais gralha menos gralha, a descrição dum real efebo com tendências galhardamente feminis – o que seria bem avançado para uma África ainda muito medieval e bravia, neste seu ano de 1656.
No reino de Matamba a rainha Jinga – que se declarava rei para que ninguém lhe contestasse o poder – prepara-se para receber na sua embala os embaixadores do governador Luis Martins de Sousa Chichorro, apresentando-se num luxuoso vestido de corte e tecidos europeus, e bem adornada de pulseiras de ouro e colares onde brilham as mais variadas pedrarias. Belos tapetes de várias proveniências e estilos cobrem o chão térreo, conferindo ao espaço a dignidade acentuada pela grande cadeira de espaldar onde a rainha se irá sentar e presidir aos acontecimentos previstos.
Contradizendo bastante a imagem que dela fazem os que conhecem a fama de Jinga N’Gola M’Bandi, os seus 73 anos de idade parecem ter amaciado um pouco, ou talvez muito, a mais admirável e temida rainha sub-sahariana de todos os tempos.
Não se pense que simplesmente me deixei seduzir pelo texto bem épico de Jinga – Rainha de Matamba*, obra homónima de J. M. Cerqueira de Azevedo de que já aqui falei antes. É claro que sim, e até o estilo Império da mobília e dos bibelots nele presentes me agrada, porque é aí mesmo, no espanto do narrador do lado de cá, nas reacções dos personagens (que se fartam de andar a reboque das incríveis manigâncias de Jingamãe dos Jingas), que se apercebe o impacto desta mulher verdadeiramente ímpar na sua época.
Para trás ficavam mais de 40 anos de guerras contínuas com os portugueses e com os sobados inimigos, recheadas de vitórias, derrotas e muitos mortos, entre as linhas do Cuanza, Ambaca, Massangano, ou mesmo no refúgio natural de Pungo Andongo. Os raptos retaliatórios, as traições multidireccionais, a aliança falhada com os batávios (pois senhores, são holandeses), e mesmo a fé radical na divindade jaga Tem-ban-Dumba parecia esmorecer de ferocidade com a presença contínua de missionários jesuítas e capuchinhos nas suas terras e zonas de influência. Os quiluvia bestialmente carnívoros – sempre seguidos de magníficas orgias sexuais onde toda a gente trocava de parceiro várias vezes, e onde a própria Jinga se empenhava – rareavam cada vez mais, dedicando-se agora a rainha a reformar o reino de Matamba com legislação dirigida e agora (outra contradição) sempre muito bem aceite pelos seus régulos e séculos, e sempre com o aplauso do povo, ao qual se juntavam já alguns brancos notoriamente cafrealizados.
Na embala de Jinga há mesmo uma pequena igreja, construída a seu pedido pelo português padre Sequeira, onde a rainha guarda um grande crucifixo de madeira que lhe fora entregue anos antes por um dos seus generais mais aguerridos (o seu futuro cunhado e seu golambola, D. António Carrasco Mani Dongo), após um saque numa missão que decorrera particularmente animado pelas febras bem tostadas dum religioso mais azarado. Agora, a rainha queria acabar com isso. Decidia-se finalmente por readoptar a religião cristã, num acto que muito tinha de estratégico.
E com isso havia discordância entre os maiores de Matamba. A discussão centrava-se nesta simples questão: o amável  e misericordioso deus dos brancos (e só os portugueses eram assim tratados) era mais poderoso que a irada e guerreira Tem-ban-Dumba! Os resultados estavam à vista: apesar de anos e mais anos de feroz oposição aos portugueses, por parte dela e de uns quantos sobas relativamente instáveis (alguns, não poucos, traíram-na), o facto é que o poder deles só tinha aumentado.
Curiosamente, segundo o frade italiano Cavazzi, que confessou Jinga várias vezes e a quem daria a extremunção (o que o torna no seu mais abalizado biógrafo de proximidade pois muito escreveu sobre ela), não havia apenas política nestas questões: a poderosa e arrogante rainha terá tido grandes conflitos interiores de cariz religioso.
Coisas da guerra e da fé daqueles tempos – que em Portugal eram de Restauração.
Jinga agora quer a paz, e os portugueses também. E apesar da oposição que lhe tentam fazer os seus régulos e macotas, D. Ana de Sousa (o seu nome católico) parece pender cada vez mais para uma reforma religiosa profunda – que será total em bem pouco tempo.
Os embaixadores do governo de Angola trazem-lhe de volta a sua irmã Cambi (ou D. Bárbara, por baptismo) – prisioneira há mais de nove anos em Luanda (e com todo o gosto porque sempre foi tratada com todos os cuidados e liberdades) – e querem agora estabelecer as pontes necessárias a um entendimento duradouro.
No final da troca de galhardetes, e para espanto geral, Jinga dirige-se à sua capela, ajoelha-se e tenta relembrar as orações há muitos anos aprendidas em Luanda – quando ali estivera em serviço diplomático ao serviço do seu irmão N’Gola Kia M’Bandi, o rei usurpador do Dongo, de quem mais tarde se vingaria cruelmente. Sim, o passo estava dado, mas ninguém sabia se aquele comportamento era a sério ou apenas mais um dos múltiplos truques políticos que sempre soubera usar com maestria.
O que se segue pode confinar numa certa aculturação interior, pois a rainha já fazia as suas refeições mais oficiais sentada à mesa numa cadeira de espaldar alto e em baixela de prata (com o resto do pessoal todo a assistir de cócoras, claro!), além de ter casado cristãmente (aos 75 anos) com um jovem guerreiro plebeu que bem podia ser seu filho, e que depois do enlace será tratado apenas pelo seu nome cristão: D. Salvador.
No entanto, apesar deste sinais de aparente submissão, a sábia rainha de Matamba estava bem longe de ter perdido o seu génio, como adiante se irá perceber.
Porque, já sob os auspícios de D. João IV, subsistem antigos tratados de paz por confirmar pelas partes. A descrição que Cerqueira de Azevedo faz do crucial momento, apoiada em documentação da época, mostra bem porque todos os que temiam e admiravam a fibra da rainha/rei de Matamba – e foram muitos e confessos – lhe destacavam como principal qualidade a  fina inteligência O conselho do governo, presidido por Luís Martins de Sousa Chichorro, aprecia e discute a resposta de Jinga às alterações a introduzir no tratado há muito a ser negociado. Principia ela ratificando o prazer que tinha na realização de uma aliança com o rei de Portugal, seus súbditos e vassalos, e declarando obrigar-se, sob compromisso de palavra de rainha, a respeitar o que se estabelecesse. Manifesta o seu desejo de estreitar mais intimamente as relações entre ambos os reinos, e pede sacerdotes para catequizarem as almas do seu povo e fazê-las tomar o caminho da religião que julga ser a verdadeira. Compromete-se, ainda, a restituir os escravos portugueses, refugiados nos seus domínios e, com rodeios subtis, esforça-se por manifestar a estranheza que lhe causara a exigência da entrega dos jagas Calanda – que tinha fugido do presídio de Ambaca – e Cabuco Candonga, por julgar não ser próprio de uma rainha independente, como é, ver-se obrigada a cercear a liberdade de quem, nos seus estados, por questões políticas, procurou abrigo para viver sob a sua protecção. Fará tudo quanto for possível para os convencer a regressarem ao território português, caso o governador lhe garanta que não os perseguirá, ou então, que se retirem para terras mais distantes do reino de Matamba, empresa esta que não lhe parece fácil visto ambos os chefes jagas disporem de muitos milhares de arcos bem adestrados nas guerras. Acrescenta, também, que se não a atendessem, procuraria outra solução airosa, só para evitar meter-se em guerras, visto sentir-se velha e cansada para aventuras dessa natureza.
Como, em nome do rei, o governador se compromete a restituir-lhe algumas terras do Dongo, acha que tal gesto é muito gentil e simpático, todavia, se lhe restituísse as províncias que lhe pertenceram, nada mais faria do que praticar um acta generoso, justo e, sobretudo, cristão.
Ainda que muito ao de leve, Chichorro, na sua proposta, tivesse incluído uma cláusula pela qual a rainha de Matamba deveria passar a concorrer para a corôa de Portugal com um pequeno tributo, Jinga insurge-se dignamente, alegando ter nascido e vivido sempre senhora e que tributos só a Deus pagaria, agora que se tinha tornado cristã.
Para amenizar, um pouco, a altivez com que repudiara aquela parte do tratado, oferece o que exista nos seus estados e que, por qualquer forma, possa ser útil ao governador, sem quebra do seu prestígio. Quanto às restantes condições D. Ana de Sousa aceita-as, frisando, com orgulho, que o fazia livremente.”

E assim os acordos são adiados sine die, embora as relações entre os governos de Luanda e de Matamba sejam agora muito mais distendidas.
Jinga irá viver até aos 80 anos. Nesses últimos cinco anos de vida imporá o cristianismo nas suas terras, mandará construir uma grande igreja pública e criará legislação bem mais benévola para os seus súbditos. Por fim, num acto marcadamente político, envia ao papa Alexandre VII uma missiva onde anuncia que se submete à fé cristã, reclamando benevolência. E este irá responder em carta lacrada com as armas do Vaticano.
A resposta do Papa, recebida com grande surpresa e no maior segredo, gera imediata reacção de Jinga, que rapidamente promove uma cerimónia especial para a leitura do  breve pontifical. Os que assistem à passagem do cortejo não o compreendem; os missionários outro tanto e a rainha, misteriosa e impenetrável, quando isso lhe dá na real vontade, não se digna prestar qualquer explicação.
Dentro da igreja faz muito calor. O templo regurgita de europeus e de negros, os mais categorizados de Matamba que não se encorporaram no séquito da soberana. À porta aguardam-na os capuchinhos que a conduzem até junto do altar-mor. Aí, a rainha reza por algum tempo, de joelhos. Finda a oração levanta-se e tira da bolsa de seda o breve de Sua Santidade e uma pequena imagem da Virgem, que oferece ao padre perfeito da missão. A seguir a esta cerimónia dá-se começo ao santo sacrifício da missa, a que a rainha assiste, e, logo que o sacerdote profere o ite, missa est, o secretário de estado entrega-lhe a carta do Papa que, do altar, depois de quebrados os sêlos de lacre e de aberta, a lê muito pausadamente, traduzindo-a do latim para português e o língua para ambundo:
Rainha de Matamba
Nós respondemos com singular e paternal afecto à devoção filial expressa por sinais tão evidentes em vossa carta, por forma a que aqueles que a grande distância separa, os una o amor de Cristo pelo laço da caridade Cristã. Como penhor desta benevolência (que será muito útil às vossas empresas) vos enviamos as indulgências constantes do documento junto e vos damos a benção apostólica que com o maior afecto concedemos à vossa Magestade, à vossa côrte e a todos os fiéis do vosso Reino.
Assinava-a o Santo Padre e levara, pela data que tinha de 19 de Junho de 1660, do sexto ano do pontificado de Alexandre VII, mais de dois anos a chegar ao sertão africano!
Os europeus assistiram à leitura com recolhido respeito e os indígenas no meio da maior abstracção. No entanto o reverendo Gaeta esforça-se por fazer compreender aos assistenntes a alegria que o Papa sentiu quando soube que sua magestade, a poderosa Jinga, voltara ao grémio da igreja católica pelo que a exortava na perseverança pela religião de Cristo, de forma a tornar-se a guia dos seus súbditos.”

Não é certo que a rainha tenha ficado completamente satisfeita com a resposta papal, apesar do justo tratamento majestático. Afinal aquele papel apenas consagrava aquilo que ela já sabia e sempre fora. Ainda assim Jinga beijou e guardou respeitosamente a missiva, ao que se seguiriam luxuosas festividades.
Pouco menos de um ano mais tarde, pelo meio dia de 17 de Dezembro de 1663, o já íntimo frei Cavazzi assiste, só, aos últimos momentos da única rainha dos reinos de Angola que nunca se submeteu ou negociou qualquer tipo de submissão aos portugueses.
Com o seu fim terminaria também, anos mais tarde, essa independência, e Matamba (território que compreendia então a actual Lunda) acabaria por integrar a imensa e rica colónia de Angola até Novembro de 1975.
Não é mito mas o tempo transformou-a num. Biografias e romances, nacionais e estrangeiros, tentam-nos com possíveis aproximações à sua realidade. Mas na verdade, eu – que nasci tarde e por isso sou um anacronismo insolúvel – o que gostava mesmo era de a ter conhecido pessoalmente.

ps (Em certos textos que consultei nota-se que os seus autores tentam reescrever um facto histórico, o de que Jinga terá lutado pela libertação de escravos. Tal não é verdade porque se fartou de aprisionar guerreiros, transformando-os em escravos que depois negociava ou incluía nas suas fileiras. Deu de prenda de casamento a D. Salvador nada menos de quinhentos. A escravatura, no século XVII, era comum a todas as culturas)

* (livro editado em 1949)

Glossário
embala — povoação
golambola — capitão das guardas
macotas — ministros
quiluvia — sacrifício
régulo — potestade local
séculos — velhos

Arte canalha

Não, não é povera, nem foleira, nem mais nada se não canalha — no sentido do gosto, entenda-se.
Depois do jantar, bem disposto não sei bem porquê, dei comigo a recitar poemas torpes à família — alguns dos que aprendi na minha infanto-juventude caótico-cultural.
Não sei se já o disse aqui alguma vez, mas considero a anedota um veículo cultural tão bom como qualquer outro (ou mesmo melhor). Estas vilanias que aqui hoje posto não são para ser levadas a sério: tal como as anedotas, representam apenas um pouco, se quisermos, a forma como acedi ao humor nas suas versões mais exóticas e/ou radicais.
Começarei por aquilo que denomino de poesia escatológico-juvenil, que tive a sorte de apreender com a minha nanny preferida: a minha Alice.
Não me lembro que estas coisas tivessem algum título, mas se tinham isso também não tem qualquer importância. A primeira, se lhe quiserem sentir melhor as propriedades sonoras, imaginem-na declamada por Pedro Homem de Mello (coitado do senhor, que não tem culpa nenhuma):

Puxei o autoclismo,
Cagalhão estremeceu,
Deu um passinho de dança,
Cumprimentou-me
E desceu…

Agora experimentem pôr o som do João Villaret:

Bardamerda teve um filho,
Cagalhão foi seu padrinho,
E a bufa,
Toda encantada,
Quis ser ama do menino!…

Segue-se um breve apanhado de canalhices mais avançadas, onde nuances de carácter erótico-tropical informam o distinto público da idade que atravessava e os interesses por que me guiava então. Confesso que quando ouvi isto fiquei um pouco sem saber o que fazer, pois haviam várias meninas em presença — que, segundo concluí muitos anos mais tarde, não perceberam patavina do que aquilo queria dizer. O diseur era mauzote, tinha uma conveniente voz de truão, mas para todos os efeitos esforçava-se por dar o seu melhor.
Deve ser lida em tom de música dolente e maliciosa, como convém a estas coisas:

Estavam dois namorados,
Muito agarrados num bananal;
A garota, que era marota, foi-se chegando, sem fazer mal;
Às tantas dá~lhe a finura, dá-lhe a pinura da brincadeira,
E põe-lhe a mão mais abaixo,
Mesmo no cacho da bananeira!

Para acabar em beleza sirvo-me agora dum poeta celebrizado (e também deportado, por sinal) para caracterizar uma outra fase mais complexa, a da pós-adolescência. Numa certa medida explica os perigos por que passei e de que me defendi, confesso, com imensa arte e não pouco engenho. Como cito de memória é capaz de haver uma ou outra palavra errada no poema — mas, como certamente concordarão, nada afeta a mensagem.

Um rapazinho  como tu,
Lavadinho e todo nú,
Não desgosto —
Enfim, até gosto.
Mas prefiro os fedelhos:
Vou-lhes ao cu,
Dou-lhes conselhos,
Arrancam-me pintelhos…

Não sou Botto nem António,
Sou roto!

(António Botto)

Agora vá: quem nunca ouviu nada do género que atire a primeira pedra!

(mas melhor será deixarem-se de trejeitos de sacristia e mostrarem o que realmente sabem — porque eu sei que sabem…)