A partir de certa fase da vida encontrei a verdade essencial das mulheres nas palavras do velho pai de Dustin Hoffman (em Alfredo, Alfredo!…), que explica ao iniciado sem jeito e já quase encornado qual o segredo inefável do género feminino, essa espécie de lado oculto da Lua que o é no todo da vida no masculino. Diz o velho (e eu, que o repito muitas vezes): “As mulheres são seres misteriosos e imprevisíveis e, meu filho, é exactamente por isso que nós gostamos delas”.
A Rikio não fugiu à regra: foi imprevisível e de certo modo misteriosa.
Apareceu-me aqui no Porto. Levei-a a almoçar num sítio à beira-mar, que adorou, diga-se de passagem, em particular um robalo de mar com algas, acompanhado de um quilito de percebes e de gélido Alvarinho. Na conversa que fomos tendo surpreenderam-me duas coisas: uma foi a graça serena dos seus movimentos que, no entanto, não escondiam um vigor pulsante, como que pronto para no nico dum segundo mudar radicalmente de tensão; a outra foram os seus gostos musicais – que, misteriosamente, se misturaram com alguns dos os meus: Can, Faust, Mozart, Stockhausen… Conhecera mesmo Damo Susuki, o vocalista japonês dos primeiros (que por sinal foram alunos do último).
Logo ali, em plena esplanada, já amorenada dum sol a que a sua milimétrica vestimenta pouca ou nenhuma resistência oferecia – usava uma fita como top e um cinto como saia –, Rikio obrigou-me a ouvir uma das suas peças preferidas: em tempos assistira a uma das instalações sonoras do grão-mestre alemão da música elctro-acústica, e tinha no seu laptop um excerto gravado de Helikopter Streich Quartett.
Como seria óbvio a todos – menos a mim, que nunca me preocupei com o que o sol pode fazer à pele (sobretudo quando muito branca, dum tipo quase lácteo que o meu empirismo praticamente desconhece) – às quatro da tarde estávamos no hotel dela, ela estendida na cama que nem um escalope de salmão com listinhas, eu magnetizado pelo espectáculo poderoso das minhas mãos untadas de creme gordo, já bem esfregadas uma na outra, e completamente preparadas para aliviar algum sofrimento à pobre jornalista germano-nipónica.
Ao fim dum certo tempo, já de ardores aceitavelmente acalmados, a Rikio pediu-me para trabalharmos um pouco naquela coisa para o tal almanaque das viagens do Manuel.
Rikio – Qual é a tua mais antiga memória de viagem?
Eu – Para uma criança de quatro ou cinco anos ir do Porto a Baião num Volvo marreco já era coisa impressionante. Essa deverá ter sido a primeira coisa que se pode assemelhar a uma primeira viagem.
Rikio – Algo mais substancial… A tua primeira viagem de avião, por exemplo…
Eu – A primeira vez que voei? Bem…, isso aconteceu lá para os 14 anos, quando fugia às aulas em Espinho para ir até ao aero-clube de Paramos. Gostava imenso do local, das dunas, da Barrinha de Esmoriz, dos aviões. Foi assim que uma vez consegui boleia numa Tiger Moss e fiz o meu primeiro looping…
Rikio – Viagem, António, é viagem que eu quero…
Eu – Áh bem, ok… Pode-te parecer um pouco estranho mas a minha primeira grande viagem de avião foi a caminho duma comissão de serviço, como militar, em Angola.
Rikio – Um impacto irrepetível, o da primeira viagem, claro!
Eu – Hmmm… Sssssim… Agora que penso nisso acho que sim. Adorei assistir lá de cima à aurora e ao ocaso, passei a viagem de nariz espetado no quadradinho transparente que me cabia no magnífico Boeing 707 da Força Aérea Portuguesa. Assisti pasmado a uma tempestade eléctrica à vertical de Dakar, pasmei mais ainda com o vermelho da costa angolana, em contraste absoluto com aquele azul do mar. Finalmente, levei um murro denso no corpo todo quando a porta do avião se abriu e eu mergulhei por inteiro na atmosfera dos trópicos. Por momentos pensei que me ia dar a sofeca…
Rikio – Sofeca?…
Eu – O badagaio…
Rikio – O badagaio?!…
Eu – Sim, a sofeca, o badagaio – algo como morrer…
Rikio – E então?
Eu – À noite, de copo de whisky na mão, rodeado de mulatas (e não só), percebi que Angola já se apoderara por inteiro da minha alma…
Rikio – Associas sempre as viagens a pessoas?
Eu – Aí só não posso dizer nunca.
Rikio – Tudo muda quando se passa a viajar profissional. Já nem se olha lá para fora!
Eu – Nada disso. Algumas das minhas melhores viagens foram exactamente profissionais. Olho sempre para fora, para os lados, para dentro, por dentro…
Rikio – Preferes os hotéis de luxo ou os familiares?
Eu – Há coisas excelentes ou tenebrosas em todas as categorias e lugares.
Rikio – O dinheiro é importante quando se viaja?
Eu – É.
Rikio – Num hotel, por ordem de importância, o que é que mais valorizas?
Eu – Conforto geral, vista, serviço, localização.
Rikio – Imagino que tenhas episódios pitorescos…
Eu – Devo ter vários, de certeza, mas há um de morrer. Passou-se num voo entre a Ilha do Sal e a Cidade da Praia, em Cabo Verde. O avião era um Casão – uma espécie de autocarro com asas onde se entra pelas traseiras por umas portas tipo saloon. Pelo menos estas eram do tipo saloon, porque mal a geringonça saiu do chão elas abanavam de mal presas que estavam por uma corrente de aspecto manhoso. O momento dramático aproximava-se, inexorável. De entre o gado variado que seguia no atafulhado Casão destacava-se um estupor duma cabra que não parara de espernear e guinchar desde que deixara terra. A dada altura, fosse por o dono ser pouco expedito, fosse porque o espernear atingira o seu pico de desespero libertário, solta-se a cabra no corredor – onde começa a evoluir em derrapagens descontroladas em direcção às portas do saloon!…
E nelas ficou presa até que o solo da Praia, já firme e quieto, permitiu complicada e sobretudo ruidosa operação de caprino resgate.
Rikio – Do passado, em viagens, de que é que tens mais saudades?
Eu – De conhecer.
Rikio – Já perdeste as malas?
Eu – Nunca. Mas fiz contrabando.
Rikio – Contrabando?!… Não acredito! De quê?…
Eu – Isso não posso dizer… Pelo menos aqui…
Rikio – Ameaças de acidente?
Eu – Tive uma fase da minha vida em que, estranhamente, ganhei medo de andar de avião. Nunca tivera, passei a ter. Depois de Angola. Depois de aterrar alegremente em 50 metros de pista de terra batida, nos aviões mais ronceiros (ou não) que já vi na vida. Nessa fase de medo qualquer voo era uma ameaça de acidente. Entretanto passou.
Rikio – Pior: já viajaste ao lado de pessoas famosas?
Eu – Elas sim!…
Rikio – E nos hotéis?
Eu – Que me lembre não, sou muito distraído.
No fim, perto da hora de jantar, saí para mudar de roupa e trocar o descapotável por uma berlina mais aconchegante.
A noite aconselhava, esfriara bastante.





























































