Arquivo | 2011


Biscoito Chinês

 

 

Hoje, ao partir o biscoito chinês: “as lágrimas dos bons não caem por terra, vão para o céu”.

 

Ah, bom! isso deve explicar a trovoada e o aguaceiro que se abateu sobre a cidade.

 

* * *

Portugal…

Arredado deste meu querido blog muito mais do que gostaria, por razões que deixariam muito contente a troika do FMI, do FEFE e do BCE – explico: por razões de trabalho e de estudo que quase não me deixam tempo para outras actividades de carácter lúdico, não consentâneas, ao que parece, com a época de sofrimento * que vivemos –, ouso aqui roubar alguns minutos à nossa objectiva e nacional produtividade para vos falar, ensombradamente, de Portugal.
Falo-vos de Portugal, no entanto, não a partir do olhar exterior proporcionado pela visita de uma europeia troika (contradição tragicómica que parece querer esquecer que a Europa e a Rússia teimam em não olhar o futuro lado a lado), mas de um olhar interior proporcionado por uma popular e antiga vivência de um fértil tríduo pascal.
Uma primeira observação que gostaria de fazer sobre isto é que Portugal é mais antigo do que esta Europa que agora nos visita. Esta Europa, na verdade, pretende fundar-se em revoluções – inglesa, americana, francesa, russa… – que fazem tábua rasa do passado. Nós, porém, somos já antes disso. Temos que senti-lo, temos que vivê-lo, temos que sabê-lo, para resolvermos as nossas próprias contradições e, então, falarmos, a partir de nós, com todos os outros.
Na Casa do Carboal, em Covas do Douro, onde fui para passar a Páscoa, na porta, logo à entrada, pode ler-se: «Si Deus pro nobis quis contra nos: 1689». Esta inscrição, tirada da Carta aos Romanos (8, 31), dá o mote que deve inspirar uma família que, desde então, se reconhece daquela casa. Faltavam 100 anos para a revolução francesa, com a qual esta noção de propriedade familiar e comunitária iria dar lugar a uma outra, apenas económica e política. Esta exterioridade totalitária que desde então nos tem vindo a ser imposta levou ao absurdo generalizado de se pensar uma casa apenas como um investimento económico, uma aplicação financeira, um bem transaccionável, exagero que, no nosso país, tão atreito às modernidades vindas de fora, foi mesmo, nesse sentido, comentado pela troika.
Ora, se de um ponto de vista económico e político nós temos uma casa, de um ponto de vista familiar e civil, contudo, nós somos de uma casa. Esta pertença diferenciada a um espaço e a um tempo, brutalmente combatida pelas revoluções universalistas em que esta Europa quer fundar-se, tem a sua raiz num sistema feudal que, nalguns pontos, como este, faremos bem em recuperar. E nós somos daqueles que têm uma longa tradição feudal. Fazemos mal, por isso, em deitá-la fora.
Claro que esta tradição foi, de um modo geral, ultrapassada. E bem, pois que continha princípios que hoje reconhecemos como inaceitáveis. É com estranheza que observamos, com efeito, que esta mesma casa erigida sobre pilares de pedra cristãos seja arrolada num morgadio em que, «nos casos em que não haja sucessão legítima dos chamados nesta instituição, poderão suceder os filhos bastardos sendo havidos com mulher limpa sem má raça, e tidos por filhos, e por tais reputados; e quer e é sua vontade [– do fundador –], que o que suceder neste vínculo e morgado não seja cristão novo, nem judeu, nem mourisco, nem mulato, nem de nação com defeito, nem casado com mulher que o tenha. (…) [Do mesmo modo não poderão nele suceder] Frades, Freiras, Clérigos e Malteses, (…) para que só sucedam nele aqueles que possam casar…» Eis o que dizia o direito. Esta contradição, no entanto, é nossa, e, como tantas outras, tem de resolver-se, ou melhor, temos de resolvê-las. Mas não com revoluções que fazem tábua rasa de um passado que é também a nossa história. No Minho, no meu Minho, que é verde, por causa da água que sai de todas as pedras, as contradições resolvem-se a cantar. No campo, nas praças, nas festas e na igrejas. Os cantos não são, muitas vezes, nem os mais afinados, nem os mais bem cantados. Mas saem fortes e puros das almas das gentes como a água sai dos campos e das pedras, conferindo, com o seu som, a todos a graça de um mesmo caminho.

Foi assim, uma vez mais, no sábado de Aleluia. A igreja cheia, de uma gente que convive com o pecado como convive com a terra. E que canta com uma força que irrompe nos corações, comovendo-os, como comoveu a mim, que sei hoje mais das letras que dos elementos. Ora, a troika nada sabe desta terra, desta água, deste fogo e deste ar. E nem tem que saber. Mas é deles que somos feitos. E só neles podemos ser – ou então não ser, como dizia o outro!

 

* Tripalium, como é sabido, é um termo latino que significa sofrimento, do qual deriva, em português, a palavra trabalho.

Haverá mais do que um Fausto?

1 — A lenda de Fausto é por todos amplamente conhecida. As versões da história são múltiplas e nem todas exactamente coincidentes. Na obra de Goethe, a mais celebrizada, o eminente estudioso que não se conforma com as terrenas limitações do saber, do poder e dos carnais prazeres, celebra um famosíssimo «pacto como o Diabo»: Fausto contará com a ajuda de Mefistófeles para alcançar, em vida, a glória e felicidade supremas mas compromete-se a entregar-lhe a alma assim que alcançar o êxtase.

Não me alongo com mais jactâncias literárias nem vou sugerir – imperdoável mentira — que li Goethe. Mas a verdade é que, tendo todos nós direito a uma certa dose de bizarrias, sou um fã de Murnau e do seu cinematográfico Fausto, e foi nele que pensei ao assistir à declaração ao país de José Sócrates na noite do acordo com a Troika. Não tanto porque o Primeiro-Ministro me fizesse lembrar Gösta Ekman (no meu imaginário reservo-lhe, como já se verá, o papel de Mefistófeles) mas porque tive uma súbita revelação: Teixeira dos Santos vendeu a alma ao Diabo. Preferia, confesso, tê-lo visto amordaçado ou sob o notório efeito de estupefacientes. Assim, silencioso, avermelhado e a andar pelo seu próprio pé, não consigo encontrar outra razão para que um homem que continuo a considerar e que julgava estar a engolir sapos para preservar uma réstia de honorabilidade do Estado, se tenha prestado a tão indigno papel. Porque uma coisa é preservar a imagem do país, outra coisa é servir de escudo humano a José Sócrates. Talvez esteja a ser injusto. Em boa verdade, espero mesmo estar a ser injusto. Mas uma coisa é certa: Teixeira dos Santos vai ter muito para explicar quando entender tornar públicas as suas memórias recentes.  

2 – E já que estamos em maré de lendas medievais germânicas, tenho de confessar que, acto contínuo, me assaltou outra pavorosa ideia: a de que pudessem existir, não um, mas dois Faustos na política portuguesa. Falo do inescrutável Pedro Passos Coelho. Tenho-o, devo admitir, na qualidade de um homem bom. Cordato, educado, agradável no trato, nunca me constou que tivesse telhados de vidro e acredito, gosto genuinamente de acreditar, que avança para a liderança do país animado de um desejo verdadeiro de bem servir. Infelizmente não tenho, não consigo ter por mais que me esforce, grandes ilusões sobre o aparelho que o guindou a tão altos voos. O mesmo é dizer que não tenho grandes dúvidas de que no PSD medram muitos aprendizes de Mefistófeles. Ora o líder do PSD tomou a opção, legítima, de guardar o seu «governo na cabeça». Com essa estratégia pede-nos um acto de fé. Pede-nos que acreditemos que o melão será bom uma vez aberto. Pede-nos que acreditemos que, na hora da verdade, terá a frieza e o sentido de Estado necessários para escolher os melhores para conduzir os destinos do país.

Dir-se-á que é a única estratégia possível para chegar ao poder. E que uma hostilização prematura dos caciques sociais-democratas nem sequer lhe daria a oportunidade de estar em posição de escolher. Pode bem ser verdade. Mas não deixa de ser uma estratégia arriscada. Porque é impossível adivinhar quantos votos lhe custará a metafísica dúvida que a muitos assalta: e se o homem tiver vocação para Fausto? Eis uma revelação que só vamos ter daqui a mais umas semanas.

Publicado na Visão em 12.5.2011

Outra palavra mais clara

[s/i/c]

 

 

Da versatilidade frásica de Fausto Nilo, poeta

 

algum aspecto sobre um dos mais brilhantes letristas da música popular brasileira

 

Há um trovador provençal. Seu estilo era hermético. E seu nome, Peire Raimon de Tolosa. Seus versos mais famosos são:

 

Atressi cum la candela

que si meteissa destrui

per far clartat ad autrui,

chant, on plus trac gren martire,

per plazer de l’autra gen.

 

Que podem palidamente ser traduzidos como:

 

assim como a candeia

a si própria consome

para esclarecer gente alheia

canto fundo meu tormento

para o prazer de outra aldeia

 

Toco nisso, porque lembro do apreço que Fausto Nilo nutre pela poesia dos trovadores. Na verdade, em certo rumo, Fausto se converteu num deles. E, embora seja exclusivamente letrista, achou as palavras certas para as belas melodias de quase todos os grandes compositores e intérpretes de sua geração. Ao se falar de letristas, se pode pensar nos mineiros Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Márcio Borges. Nos cariocas Paulo César Pinheiro e Abel Silva. Nos baianos Capinam e Luiz Galvão. O paranaense Paulo Leminski foi um poeta muito rente à letra de música, embora tenha produzido pouco especificamente para a canção. E há o grande Torquato Neto, outro que se foi ligeiro, e também oscilou entre a poesia impressa e a letra de música. E todos eles são excelentes. Mas nem todos possuem a versatilidade de Fausto Nilo. Lembro de haver, aí por 2003, escrito um artigo para O Povo, em que defendia a tese de que o canto de cisne, não só de Raimundo Fagner, como de todo o propalado Pessoal do Ceará, havia sido o magnífico – e elegíaco – álbum Beleza, de 1980.

Alguns dias depois recebi um imeio de Fausto. Ele, muito educadamente, como usa ser, contrargumentou que não era bem assim. Que eu estava fechando a questão um tanto sob um ângulo extra-estético. Ou seja, que o fato de a música de Raimundo Fagner se haver tornado mais popularesca, ou mesmo cortejado o número, não impediu que também, eventualmente, fosse calcada em canções de grande voltagem musical e refinamento poético.

Depois do que lembro? De vagamente sair da Desafinado, a loja de discos, certo lusco-fusco, conversando com Fausto a lhe indagar – provavelmente pela milésima vez – sobre a confecção do Beleza, ao qual além de contribuir com letras, ele também desenhou a capa. Seguíamos Dom Luiz acima, e, claro, devido ao horário, havia um tráfego medonho na avenida. Lembro que estava do lado exterior da calçada – das exíguas calçadas de Fortaleza – e, volta e meia, pisava a pista, desviando-me dos carros para evitar os transeuntes e o pessoal que esperava nos pontos de ônibus. Os automóveis, no entanto, passavam muito rente de onde meus pés. Eu fazia isso quase inconsciente, levando fé em minha capacidade de driblar obstáculos em caminhadas. Porém, numa das vezes em que estava com os dois pés no asfalto, senti uma mão puxando meu braço:

Não faça isso – disse Fausto – esse negócio é perigoso. Sei que você é jovem. Mas, repare, eu já vou para sessenta. A gente quando ganha em anos perde um pouco de reflexo. Inevitável ver uma fração a mais de perigo em tudo. Boa garantia é andar nas calçadas. Mesmo que se espere um pouco.

Aquele senso de cuidado, cautela e, sobretudo, de medida, de espaço, só poderia provir da conjunção dos dois ofícios de Fausto, que, de resto, causariam inveja a João Cabral (a despeito de este não gostar de música — à exceção do frevo e do flamenco): arquiteto e letrista. Eu diria poeta, embora Fausto reitere que não; não é poeta, mas letrista. Isso, contudo, é já outra discussão, longa e inconclusiva.

Mas, sim, Fausto tinha razão. Há canções de grande requinte – e não poucas – da fase pós–Beleza. Ou só um pouco antes. Ou muito depois. E em parcerias diversas, com Moraes Moreira, por ilustração; e escute-se a belíssima “Meninas do Brasil”. E ainda com Moraes, “Chão da Praça”, recentemente relembrada por Caetano Veloso. Mas, além dessas, fico com duas, que me parecem extremamente bem conseguidas: “Pedras Que Cantam” (Dominguinhos/ Fausto Nilo) e “Palavras de Amor” (Manassés/ Fausto Nilo).

Teria muito pano para as mangas para tecer alguma prosa sobre “Pedras que Cantam”. Mas seus dotes são tão evidentes que seria perda de tempo. Ela foi abertura de telenovela da Globo, anos atrás; e tocou à exaustão. Quanto à segunda, sim; essa segunda, ao mencionar o “romance de amor” – gênero medieval – lança Fausto na intensa direção de sua pesquisa em torno da música francesa. Recordo de uma vez – e passamos de ano sem nos ver – ele me indagar se por acaso eu tinha notícia de algum detalhe sobre uma história em versos, um “rumance” – muito popular no interior do Ceará – , que fazia alusão a um aluno, que havia morto a pedradas um pavão, bicho do afeto maior de seu professor, e, pelo crime, ficara jurado de morte.

Sim, na verdade, tinha ouvido essa história da boca de minha avó, quando criança. Mas sequer recordava o teor dos versos. Senão uma vaga melodia. O sentido geral da trama. E o número de sílabas ecoando na cabeça. Aquele cavername de ritmo. A medida (forma) verberava em minha mente mais do que a trama (conteúdo).

Depois consultando em casa, descobri que J. Leite de Vasconcelos, o eminente filólogo português, a tinha recolhido em algumas variâncias e que, de resto, ela também havia sido muito popular no Norte do Brasil, da Bahia ao Piauí. E provavelmente durante mais tempo do que se imagina. Ou ao menos até a televisão arrasar essas finas narrativas, plenas de arquétipos.

Palavra de Amor” aponta para algo que o clichê (e a telenovela) ainda não atentou: a afectividade entre sertanejos é contida. Pode ser de uma deliciosa reticência. De um laconismo com “regras” de corte muito próprias. Daí a fatura do verso que o calar fala mais que o filosofar.

E, aqui, é preciso lembrar que Fausto nasceu em Quixeramobim e, por uma dessas conjunções astrais, na mesma casa que viu vir ao mundo ninguém menos que Antônio Conselheiro. “Palavra de Amor” também aponta, como umas poucas de outras canções, para essa pequena obsessão de Fausto – que, de resto canta como um diseur: a música medieval, e em especial, a francesa. Esse interesse de Fausto estica-se de um trovador antigo, Raimon de Tolosa – que possui o mesmo prenome de Fagner – à modernidade de Leonard Cohen, o judeu-canadense, em cuja tradição de grande letrista Fausto também pode ser inscrito. Aliás, há algo de judeu no temperamento de Fausto Nilo. De algum modo. Até mesmo em suas feições. O poeta norte-americano George Oppen dizia: “em algum lugar a meio caminho entre o fato de ser singular e o fato de ser numeroso está o fato de ser judeu”.

*

Fausto é alguém que caminha nesse limiar entre o singular, o numeroso. Como arquiteto. Mas também como um homem com uma permanente canção. Sua memória de velhos sambas é prodigiosa. Não menos seu enciclopédico conhecimento sobre clubes de futebol — ele é vascaíno. E quem quiser comprovar a sua fertilidade com as letras – onde, no caso, além das lais francesas entra uma pitada de García Lorca e dos cantadores do sertão profundo – escute as canções abaixo. Na segunda há a habitual plangência da voz de Fagner e a perícia pop dos músicos do Roupa Nova nessa rendição de “Palavra de Amor” (Manassés/Fausto Nilo) no velho e bom tube, além da íntegra da letra, mais abaixo. Na primeira, há a malemolência nova-baiana da voz e do violão de Moraes Moreira em “Meninas do Brasil”, que é já um clássico: “Três meninas do Brasil/ Três Corações Democratas […] ”

 

“Três Meninas do Brasil”

http://www.youtube.com/watch?v=I1zL5-3WXBA&feature=player_embedded

 

“Palavra de Amor”

http://www.youtube.com/watch?v=JbgDAoUeLdE

 


Palavra de Amor

 

 

Na divina claridade

Em que você se iluminou,

O calendário seria

Um dia de cada cor,

Futuro, ah, como eu queria

Te cobiçar, ventania,

Num romance de amor –

E a lua ainda mais clara

Queria escutar tua fala

Com palavra de amor.

 

Meu amor quando se cala

Fala mais que um pensador.

Me ensinou que a vida vai

Onde a saudade ficou

E enquanto a vida não pára,

Não pára nunca esse motor.

Outra alegria mais clara

Seria escutar tua fala

Com palavra de amor.

 

[Fausto Nilo]

 

* * *

 

Um Sergipe do Espírito

Cartaz de Le diable probablement, filme de Robert Bresson, 1977

 

 

 

Se eu fechar os olhos nessa esplêndida tarde de verão em que minha inconsciência como uma pipa sobrevoa a amplidão da Praia de Atalaia, joguem meu corpo no mar. Eu queria uma última vez dar um abraço na Rainha, e cumprimentar um a um todos os peixinhos que me ensinaram a nadar. E ensinaram em tão boa fé. Com a clarividência com que se enxerga o fundo do mar profundo e calmo, como num soneto de Camilo Pessanha:
Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina…
- Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!
Anos atrás, Princesa, e eu tinha água do mar e fina areia. Tinha pólvora, chumbo e bala. Aliás era só o que eu tinha. Era um paiol ambulante. Disparei pra todo lado. Fiz um fuzuê dos diabos. Passei risco de faca no chão. Comi juízos à vista e a prazo. Fiz carradas de inimigos. Fui o antidiplomata por excelência. O criador-de-caso. O contrariador-mor. Minha loção após barba se chamava maldição.
Ainda assim, era jovem. E a um garoto tudo se perdoa. Há uma espécie de complacência dos mais velhos que se diverte com a desbragada ousadia, ambição dos aspirantes no campo do Vida Futebol Clube. Perdoam até essa compulsão por, digamos, uma excessiva sinceridade de formas e meios. Le mot juste. As pessoas, em geral, gostam mais de mentira e fealdade. De engodos. De ser guias turísticas, com pacotes de voos promocionais, para a Hipocrisia do Norte, bilhetes só de ida. Graduam suas consciências. Até o ponto do sabor da Emulsão de Scott ser tomado por champanha, se assim é de melhor vantagem tirar.
Porém esse zelo por denúncias em um sujeito de meia-idade já não sabe tão atraente do que quando, ainda no começo do primeiro tempo, os adversários a se estudar, medindo distâncias aos jabs, meio deslocado na vida, tonto de mão cheia, você queria – e ainda havia essa porta – de estar só em times da Premier League. E demonstrar sua mestria — de fundo do mar e areia fina —  naqueles estádios limpinhos, gramados imaculados, diante dos quais todos sentam em poltronas como num teatro para lhe apreciar a arte. Palmas. Ou então, ao passarem pela alameda, se há um leve toque de ombros entre os sobretudos, se diz um polido, entanto mais que protocolar: Sorry! E a outra responde: Cheers! Tudo civil e desportivo. O figurino comanda. E, well, well, algumas temporadas depois, alguns títulos a menos, outros protestados, mesmo com uma alcunha de super-heroi, lá está você batendo uma bola em Sergipe. Não um bolão. Uma bola que mal dá pro gasto. Já um pouquinho quadrada. Naqueles campinhos de quarta divisão. E, pior, perdida toda a londrina empáfia, a incorporar uma espécie de Sergipe do espírito.
E é quando você nota designers gorduchos que escrevem versinhos de pé-quebrado ou crônicas melosas ao Natal e redatores publicitários com aquela sofisticação fílmica da mais escancarada província lhe passarem para trás no gosto das meninas. É o fim. E, olha, não daquelas meninas d’antanho. Neves de outrora, como diz o bom Villon. Mas de uma magricela qualquer que mal conjuga dois verbos em francês lá no Jardim das Oliveiras:
–Bon jour, ma chérie – diz ela.
–Bon jour, mon chéri – diz ele
E assim vão axerrrisando a vida. Et le diable abre um sorriso. Sim, le diable probablement. Está como ele gosta.
Deus meu. É de entregar pontos. Esse abandono. É de pensar: o pé entortou de vez. Gangrenou por falta de samba. E há a cabeça. Dessa, melhor nem falar. Como escapar das insônias que te roem os dias? Aqueles dias de passadas glórias. Llenos de ilusión. De goleadas fundamentais:
–Você gosta de caqui? Caqui? Dióspiro the scholars use to say. Prefere qu’eu descasque? Fino ou mas destampado? Como? Eu não estou entendeeeeendo. You’re so cute.
Quantos diálogos em meio-off por charme e excesso. E eram tantos so’s à frente de excelsos adjetivos.
Porém há como em versos bem sabidos, o instante em que toda essa exuberância – na qual os espertos tomam carona – acaba. Espartanamente mais que espotaneamente. Isso de ser jovem. Ter ritmo. Fazer isso. Dizer aquilo. Deslizar. Degustar vinhos verdes ao sabor de amêijoas, e o rio da aldeia ser mais largo que o Tejo. Mas então os bares fecham, as virtudes se negam. Os rios secam. Qual Tejo o quê! Aquele charme de cativar a mais apática aluna, sentada lá na última fila, a que comutou de ônibus em dois terminais depois de uma jornada de trabalho de treze horas, vai para as cucuias. Ela cai no sono e baba toda a carteira, bem no meio de sua aula. Da aula que já tinha sido melhor show que Sílvio Santos. E você, grisalho, calvo, cardíaco, se olha no espelho e pergunta como o tempo pôde ter feito isso áquele menino assim tão depressa. E o que você ainda pode fazer para merecer aquilo que está à sua frente.
Mesmo com aquele Sergipe no espírito.
*   * *
Short Film

Ronaldo
Jan Mettler

Como é que os outros nos olham? Aqueles que vivem do lado de lá da fronteira. Que conhecem o nosso nome, mas nunca nos visitaram. Aqueles que cresceram em países onde em tempos lá estivemos, ou aqueles que, pela geografia, nada têm que ver connosco. E que influência tem isso na maneira em que vivemos, até que modo moldam quem somos?

Há umas semanas fui ao festival de curtas europeias no MIT. Havia uma participação portuguesa (Nenhum Nome de Gonçalo Waddington) que não cheguei a ver. Mas os dois filmes que abriam o festival era inspirados por nós: Inspiração da francesa Elodie Rivalan (apenas o trailer está disponível) e o Ronaldo, acima, pelo suiço Jan Mettler (curta completa).

Corantino, o eficiente

Mal lhe vislumbrei a face rectangular e expressiva tive um relance longínquo de Vitorino Nemésio no seu programa televisivo dos anos Sessenta, a preto e branco natural, falando das coisas mais absolutamente desconhecidas da literatura e da vida e arredores, com aquele humor dolente e falsamente ponderado que hipnotizava. Achava-lhe montes de piada, apesar de eu ser um miúdo com preocupações de natureza absolutamente diversa.
Ele, mal me viu a vê-lo, depressa arranjou forma de me atrair ao seu convívio quase exclusivo – o que num paquete de férias mediterrânicas pode tornar-se num grandessíssimo frete.
Não foi um frete, longe disso. A sua personalidade de aventureiro um pouco tosco (apesar de bem sucedido), que não se cansava colorir e salgar com pormenores comuns a um fala-barato vaidoso, fez-me desconfiar que mais de metade do que me contava seria apenas para me manter interessado. E o facto é que conseguiu.
Até que um dia, mais propriamente num fim-de-tarde glorioso em que saídos da Sardenha nos aproximávamos de Malta, entre dry-martinis bebidos como se fossem os últimos da civilização tal como até aí a conhecêramos, resolveu confidenciar-me a razão da sua presença naquele cruzeiro específico – sem companhia ou conhecidos de mão. Dias mais tarde, numa ligação com Portugal, tive a oportunidade de ver confirmada uma parte da sua história intermitente e nebulosa.
Corantino Leopoldo da Silva Vaz era um homem bastante bem situado na vida: tinha propriedades no Minho e negócios que iam da construção civil, passavam pela mecânica-auto, e acabavam no retalho em pequenas e médias superfícies – onde actuava sob a marca Amigo Vaz.
Aprendera tudo o que sabia com o seu pai, um ex-volframista de Pedorido (é perto de Arouca), tornando-se já na idade adulta e em pleno salazarismo num audacioso contrabandista de café, bacalhau, divisas e ouro, com sedes várias, cá e lá da fronteira. Com o 25 de Abril aproveitou-se da balbúrdia do PREC para se tornar num cidadão respeitado e respeitador das leis democráticas (as leis são todas iguais, garantia-me). Isto tudo apesar de manter activas uma série de actividades marginais que muito e por muito tempo o foram favorecendo do ponto de vista pecuniário. O tráfico de divisas (e sei lá que mais) assegurava-o com o contributo quase exclusivo de várias colaboradoras que, a coberto da noite e por quelhos e passagens invisíveis ao comum dos mortais, enganavam as polícias de fronteira (em particular a espanhola) e asseguravam o trânsito regular das suas mercadorias legalmente desclassificadas. O ouro e as divisas tiveram neste período importante papel.
O tempo foi passando, a CEE tornou-se num facto incontornável – bem como as fronteiras, que já nada apartavam. E Corantino Leopoldo civilizou-se um pouco mais, polindo um perfil social onde a benemerência junto das populações locais lhe permitia agora concorrer, o poder tenta tanto, à intervenção autárquica como elemento de pressão.
Fora esta súbita exposição aos mediáticos holofotes a grande responsável pela sua presença no Sea Queen, naquela primavera de 1998.
Isso e a sua inépcia social, como adiante se verá.
A coisa começara com um jornalista atrevido que lhe pedira uma entrevista do género história de vida. O velho Corantino, então já com 67 anos, sentiu uma enorme vaidade crescer dentro de si: ia aparecer nos jornais, em letra de forma!
E sabendo que muitos sabiam bem qual fora o seu core business nos anos da ditadura e do PREC (ao que juntou a certeza da compreensão alheia sobre o que fora a sua difícil vida de transfronteiriço por assim dizer libertário), abriu o livro – como por aqui se costuma dizer.
Só que abriu o livro em demasia, às escâncaras. Não que o que contava pudesse indignar de ilegalidade quem o conhecia, nada disso.
A crise real surgiu apenas quando o Milhafre do Larouco deu à estampa a sua vistosa entrevista: foto e chamada à 1ª página, quatro páginas inteiras matraqueadas de publicidade às lojas Amigo Vaz, belas fotos, um título bem rasgado, e um texto que lido por alto nada tinha de complicado para ninguém.
Salvo um pequeno pormenor que o jovem jornalista fizera questão de dar destaque em cacha específica encimada de bela e inocente foto da foz do Minho. O título incomodou-o logo um pouco:
«Promessas sexuais em troca da liberdade»…
Porque fora certo acontecer a algumas das suas colaboradoras, que cruzavam o Minho de madrugada em chatas e de varapau, serem por vezes interceptadas pelos tipos da Guardia Civil.
Corantino Leopoldo contara sem qualquer recato como as senhoras contrabandistas resolviam o problema:
Prometiam umas brincadeiras com os agentes. E se umas ficavam só pela promessa, outras havia que, pois sim senhor, iam até ao fim com a transacção – assegurou-me, acrescentando que a coisa garantia mesmo alguma segurança em posteriores passagens. Achava normal. Até apoiava!
Tudo se passara umas semanas antes de nos encontrarmos a bordo.
Por palavras suas:
No mesmo dia recebi telefonemas dum presidente de câmara (não lhe digo qual), dum cónego de Braga, de vários militares, comerciantes e industriais, todos a gritarem-me que eu espetara no jornal que as mães deles tinham sido um bando de valentes putas!…
Bem…, de facto toda a gente sabia por ali quem andava no rio à noite… Ainda tentei que o jornalista fizesse um desmentido, mas o pulhazito disse-me que estava tudo gravado e que não ia alterar uma palavra do que escrevera – veja-me só! É uma gente do piorio…
Ainda pensei em esclarecer que não eram todas, que umas só prometiam… Mas que fazer? Dizer quais eram as que só prometiam? E quem ficasse fora da lista? Não podia ser…
Assim só restou fazer uma coisa: desaparecer por uns tempos a ver se o clima por ali acalma um bocado.
Ainda lhe perguntei o que faria se o clima não acalmasse tanto quanto ele pretendia com a sua evasão estratégica. A resposta não deixou dúvidas quanto à metodologia:
Faço umas escolas, uns centros sociais, abro uns arruamentos, doo uma biblioteca…, sei lá! Mas eles calam-se, garanto-lhe. Se não, logo se vê…
Nada averiguei sobre esta última perspectiva.
Soube que morreu há cerca dum mês, gasto de velho e dum pulmão, no solar minhoto que comprara nos anos 70 a um barão falido, entre vinhas de Alvarinho e a névoa que sobe do rio. Rodeado pelos seus e chorado por muitos outros.
Paz à sua alma prática.

 

Reparação a ONÉSIMO TEOTÓNIO DE ALMEIDA

“Egas Moniz, o Aio”, painel de azulejos na estação de S. Bento no Porto

Fui infame, declarei falso testemunho e só não devo ter ofendido Onésimo Teotónio de Almeida porque ele demonstrou bonomia e bom carácter na interpelação que me fez. Valha-me a paciência dos outros para os meus dislates.
O caso é o seguinte:
No meu post “Interrogatório (sem holofotes na cara)”, no passo em que alinho os meus livros favoritos, apenso a “Mau Tempo no Canal” a seguinte frase: “nem Onésimo Teotónio Almeida, cujo gosto literário costuma ser infalível, conseguiu fazer-me duvidar dele.” (escusam de ir lá ver, a parvoíce já foi retirada). Ao que o visado teve a caridade de responder: “Fico com curiosidade de saber que mal fiz eu ao meu querido Nemésio…”
Foi mais ou menos neste instante que me caiu um meteoro na cabeça: as minhas débeis sinapses haviam-me traído e fizeram-me confundir Onésimo Teotónio de Almeida com outra pessoa que há alguns anos, nas páginas do JL, escrevera uma crónica, aliás bem sustentada e inteligente, relatando a sua desilusão ao ler “Mau tempo no canal”.
Cometi o monstruoso erro que nos outros tanto me irrita: dizer as coisas de memória, sem desconfiar quão traiçoeira e fantasiosa pode ela ser. E tanto mais desastrada foi a minha falta que logo incidiu sobre aquele que, sendo açoriano e literato como Nemésio , melhor o entendeu, tão finamente o analisou e tanto tem feito para o divulgar. De toda a gente que há no mundo, haveria precisamente de me meter com Onésimo…
Sinceramente – desculpe.

Design e fantasia

[s/i/c]

 

Impressiona como o design dos mouses tem evoluído. Há uma variedade — de volumes, contornos, cores — cada vez mais proporcional à vertiginosa fantasia dos desenhadores industriais. O modelo acima, por exemplo, lembra vagamente algo entre um molusco, uma papoila, uma ameixa. E, porém, algo me diz que não parece um presente sutil para o Dia dos Namorados, que, no Brasil, celebra-se tradicionalmente no 12 de junho, véspera de Santo Antônio (embora uma corrente noveau riche entenda mudar a data para o São Valentim, como nos blockbusters). Enfim, assemelha-se a um espécime de lagosta, que certa vez vi em abundância nas praias de Florianópolis. Levei algumas para a casa. O sabor, posso garantir, é assim diferente de tudo neste mundo.

 

*   * *

A letter to Elia

Há uma coisa de que gosto quase tanto como ver cinema. É de ver e ouvir alguém falar apaixonadamente de cinema. O que, na ausência de João Bénard da Costa, é o mesmo do dizer: ouvir Scorsese falar de cinema. É estranho dizê-lo mas, nos dias que correm, prefiro Scorsese a falar de cinema do que Scorsese a fazer cinema. Houve tempos em que assim não foi, quer porque Scorsese não nos falava ao ouvido de cinema, quer porque Scorsese fazia melhor cinema (quase cortei relações com ele por causa do Aviador Howard Hughes). Hoje, mais do que nunca, sei que isso é verdade depois de mais uma amena cavaqueira sobre cinema com Marty – ele deixa-nos tão à vontade com estas conversas que não conseguimos deixar de tratá-lo pelo seu nickname. Desta como das outras vezes, o cinema foi só um pretexto para nos falar do poder das emoções que as imagens nos trazem. Para nos falar da sua vida e das nossas vidas através da vida de um homem, o seu mestre Elia Kazan. Desta como das outras vezes com Scorsese, e tal como acontecia também com Bénard, acabei a gostar de filmes que nunca vi (ou vira até então) e a gostar ainda mais de filmes de que já gostava. Mais uma vez, depois de ouvir Scorsese, tive vontade de celebrar com ele um pacto irrevogável: ver todos os filmes do mundo e gostar de todos eles. Marty, por sua vez, só teria de se comprometer com o necessário para que esse milagre se cumprisse: falar-me deles antes de eu os ver.

 

N´Orleenz P. Hall

Tenho a certeza que o nosso José Navarro de Andrade já lá esteve a abanar o pé pelo menos uma vez na sua vida. E a nossa Eugénia se não esteve, deveria ter estado. Este é um local de gente velha mas de gente nova também. E de muita gente morta claro está. Uma velha Juke Box cheia de memórias de grande música, muita bebida e pouca conversa. Fica-lhe aqui uma homenagem e a minha imensa vontade de lá voltar um destes dias.

Salvador Dali

As obras importam claro. E gosto bastante delas, embora, confesso, de entre os surrealistas, prefira os quadros de Magritte ou as esculturas de Giacometti.

Mas de Salvador Dali invejo uma coisa: a capacidade de manipulação do público. Perante uma obra de Dali, não somos nós que lançamos o olhar sobre ela, mas é ele, Dali, que nos envolve na teia cuidadosamente urdida. As suas criações tendem a transcender o material físico que as compõem — dirão que toda a arte assim o é — mas de Dali vem sempre uma grande obra teatral, uma construção excêntrica e meticulosamente preparada. O expoente máximo talvez seja o Teatro-Museu em Figueres, sua terra vital, onde todo o visitante cai como uma presa desorientada nos detalhes daquela grande história que Dali nos conta.

“¿Dónde si no en mi ciudad ha de perdurar lo más extravagante y sólido de mi obra, dónde si no? El Teatro Municipal, lo que quedó de él, me pareció muy adecuado y por tres razones: la primera, porque soy un pintor eminentemente teatral; la segunda, porque el Teatro está justo delante de la iglesia en que fui bautizado; y la tercera, porque fue precisamente en la sala del vestíbulo del Teatro donde expuse mi primera muestra de pintura.”

As tiradas de Dali são famosas e sobejamente recontadas — the nerve. Genial para muitos, a verdade é que como excêntrico Dali, até nisso, teve algumas particularidades originais, entre as quais o facto de ter tido Gala sempre na sua vida e de não ter morrido cedo. Talvez porque soy muy mal pintor por la razón de que soy demasiado inteligente para ser buen pintor. Fez da sua arte fortuna, e embora não tenha sido tão bem sucedido nesse domínio como Warhol, foi igualmente um mestre no que toca ao savoir-être mediático.

Mas a sua presença ficou e sente-se em cada uma das suas obras. Há que, no entanto, ir a Figueres e, aí sim, sentir inveja de alguém que nos deixa indefesos e tão bem nos consegue manipular, com uns cordéis invisíveis, com um talento enorme.

Interrogatório (sem holofotes na cara)

Matej Kren, “Bookcell”, CAM da Gulbenkian, 2006

A nossa compagne de route sem-se-ver” que tantas vezes nos afaga com os seus comentários, entrou no outro dia pela porta dos fundos a propor que alguém respondesse a este inquérito, a passar de mão em mão, por aí na bloga. É uma frivoleira, ou seja, um divertimento — cheguei-me à frente.

1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Porquê o condicional? Há sempre um livro para reler. Aliás – é um lugar comum – a verdadeira leitura é a releitura. Um exemplo? Os contos de Graham Greene, sobretudo “May I borrow your Husband?”, sempre que lá volto está diferente. Ou “O vale de Josafat” de Raul Brandão, um autor que aprecio muito pouco à exceção destas memórias onde está tudo o que foi a nossa 1ª República – por isso é que nunca paro de regressara a ele: de cada vez percebo um bocadinho mais.

2 — Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
“Poesia toda” de Herberto Hélder. Refiro-me à edição legítima, a de capa em forma de embrulho, antes das sucessivas “Poesias que já não são todas” cada vez mais reduzidas, publicadas ano sim ano não pelo Natal, sabe-se lá se por que rasos motivos.
Nunca o consegui acabar porque queima. Leio um troço e as palavras incendeiam-se, a cabeça entra em sobreaquecimento e sou forçado a interromper. E depois volto e torno ser derrotado. Sei que nunca vencerei esta luta, o livro é maior do que eu, mas hei de levá-la até ao fim.

3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Além de servirem para ler, os livros são objectos decorativos muito lindos. Uma sala com uma parede forrada a estantes repletas de lombadas tem logo outra gravidade, ganha um ar de scriptorum, ressuma inteligência. Ora, se um pobre diabo como eu, que já comprou tantos livros e continua a comprar mais, tivesse que ficar reduzido a um voluminho, então haveria de ser um daqueles sublimes álbuns de Franco Maria Ricci (FMR ou éfemerre para os habitués) que parecem incunábulos e dão vistas largas, primorosos sobre a coffee table da sala.

4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Ui, o que para aí anda escondido ou mesmo à mostra sem eu saber. Mas quantas vezes descubro um clássico como se tivesse sido publicado agora e acabo a lamentar a minha ignorância por não me ter chegado a ele uns anos antes? Que mais hei de encontrar por abrir  e que esteja tão diante de mim como a  carta sobre a lareira de Poe?

5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
“Trabalhos e Paixões de Benito Prada” (agora é que vem o nome do autor:) de Assis Pacheco. Ele acaba por disparar ou não? A História diz que não mas no livro sabe-se lá…

6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
À bruta; não havia muito mais para fazer além de ver a Pipi e o Franjinhas na escassa TV, nesses tempos em que o Sporting era campeão de 3 em 3 anos. Eram palettes de banda desenhada: Tio Patinhas, a revista “Tintin” do Dinis Machado (orgulho-me de ainda os ter todos) e depois, por bizarria, os Peanuts, aos 12, anos em inglês, ia do Lumiar à Bertrand do Chiado comprá-los, sozinho de autocarro,uma jornada hoje impossível.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Os diários de Enver Hoxha, publicados depois de a Albânia romper com a RP China. Porque teve que ser. (Isto na altura fazia sentido, hoje nenhum).

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Hoje, às 23h30, de memória e tal como vêm, são:
Jorge Luís Borges – “Obras completas”, para resolver o assunto numa penada.
“Amor de perdição” de Camilo. Este entrou e nunca mais saiu.
“The long goodbye” Raymond Chandler.
“Vom Krieg” (“On War”, li em inglês) de Clausevitz. Muito prático e útil.
“Underworld” Don DeLillo.
“Mau tempo no canal” de Vitorino Nemésio.
“Art as experience” de John Dewey. Uma chave.
“The whole equation” de David Thomson. A melhor história do cinema (americano) embora não seja bem isso (se o lerem percebem o que quero dizer).
“Grande sertão: veredas” de João Guimarães Rosa. Qual Joyce, qual quê…
“A toca do lobo”; “Uma noite na toca do lobo”; “O jardim das oliveiras”; “Nó cego” de Tomaz de Figueiredo. O mais anacrónico, irascível, reaccionário, gramatical, saudosista, eloquente, amargo, olvidado, escritor português do séc. XX.
São 10 e faltam tantos. Daqui a uma hora seriam outros de certeza.

9. Que livro estás a ler neste momento?
Como de costume um punhado que vou rodando conforme a disposição:
“Ricos e pobres no Alentejo” de José Cutileiro (Feira do Livro 2011). Supostamente uma tese de antropologia, na verdade uma descrição fulgurante (e tão bem escrita!) do Alentejo dos anos 60.
“A heartbreaking work of staggering genius” de Dave Eggers. Romance, ainda não sei, mas até agora vai bem.
“It’s not TV: HBO in the post-television era” editado por Marc Leverette. É trabalho.

10 -
É suposto passar a tocha antes que derreta na mão. Ó rapazes, não haverá aí ninguém que pegue nesta graça?

Condado Portucalense decide final europeia

Caso inédito na Europa dos grandes torneios!
Depois de devidamente desmourizada e desratizada — respectivemante pelo Sporting de Braga e pelo Futebol Clube do Porto, que afastaram o Sport Lisboa & Benfica e o Vilarreal -, a Liga Europa terá uma final exclusivamente preenchida por clubes do nobre e vetusto Condado Portucalense.
A UEFA detesta a ideia, o SLB também, Dublin também gostava doutra faena - e sobre os castelhanos (não são mas é como se fossem) estou-me borrifando para o que sequer pensam. O facto do benfiquista confesso José Sócrates também detestar a coisa confirma-o como a cereja em cima do bolo — ou a alcaparra na mayonnaise, o feijão preto na picanha, o queijo na marmelada, bem ao gosto de cada um (bon appétit!).
Porque para nós, os de cá de xima, o simples facto desta gente toda detestar a realidade que hoje se perfila é, por si só, um saboroso ors d’oeuvre e um imenso e imorredouro motivo de galhofa e gáudio.
Ai dos vencidos, ai.

O Forasteiro

Lyonel Fininger, Ye Learned Apothecary, 1901

 

[depois de Kafka]

 

Eu não conhecia bem a cidade e tinha de chegar ao terminal rodoviário. Chovia escasso. A prevenir algum atraso — entendo a pontualidade ser um índice civil mesmo numa capital estranha e sem terceiros interessados (como a gente se engana, e aí é que mora o perigo) — caminhava apressado, com a mala de rodinhas. O guincho das rodinhas a abater-se sobre o macadame com intervalado pio de araponga. Malho na bigorna do juízo. E, mais contínuo, em esmeril às vezes disfarçado maçarico. A hora começava a ermar. Era lua nova. Um bonde sulcava pela rua plana. E, em breve, apenas sua trepidação fez-se ouvir nos longes. Havia tavernas esparsas, vagabundos dormindo sob marquises. No remoto, os fiapos do bonde. Um aroma agridoce de haxixe. Para um americano, como essas velhas cidades podem ser lúgubres quando saem dos cartões-postais. Rua após rua. Labirintam-se. E o frio. Um grupo de ciganos à volta de um violino não só desfiava a canção triste, a que de uso é desfiada por um grupo de ciganos à volta de um violino ou de um realejo em noites assim, mas eram tristes por igual. Em um quiosque fechado pendia uma manchete em mofo: Europe Was Yesterday. Uma mulher chorava um vale de lágrimas, resmungando algo em um dialeto eslavo. Apenas por sua inflexão sentia-se que o que arengava tinha a ver com aquele desespero quase infantil de querer muito uma coisa e não poder tê-la: fosse biscoito, pulôver, sexo. Eis a flecha que o arco do exílio primeiro arremessa. O estofo de que são feitos os sonhos. Não com uma explosão, mas com um suspiro. E eu entendia: aquilo que ela dizia já tinha sido dito em português. E da seguinte forma: até que venha aquele alegre dia que eu vá onde vós is, contente e ledo. Mas tanto tempo quem o passaria. Ao passar pela praça onde havia a magnífica quadriga dominando a fonte, caminho e sempre, algo não batia com o mapa virtual, no celular. E foi então que notei, próximo, dois guardas:

Por favor, qual é o rumo do terminal rodoviário?

O senhor quer saber o rumo – um deles disse com uma expressão séria.

É a intenção.

E ao cotovelar o outro:

Este senhor quer saber o rumo, Aloysius. Este senhor quer saber o rumo.

Tanto riram juntos que um deles teve de tossir para desenredar o fôlego. Quebravam-se de segurar quepes à cabeça. O rumor de um carrilhão assaltou a rua.  E então, semi-recomposto, o que não era Aloysius disse:

Meu Senhor, desista. Quem pode ter um rumo numa noite dessas?

 

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Mortificações

William Eggleston, in “Troubled waters”, 1980

William Eggleston, in “10 D.70.V2”, 1996

Duas velhas que se tratam por mana, “mana isto”, mana aquilo” e depois zangam-se. Nenhuma se cala a reivindicar a derradeira palavra. E depois nada. Vão dormir, cada uma no seu quarto, que o sono consome as teimas.
Os maridos já os levou a ceifeira, já criados e saídos de casa os filhos, os tostões contados, sobra-lhe o tempo para roçarem os dias assim.
Lá tornam de manhã ao mesmo, esquecidas à janela a bisbilhotar quem passa, “mana viste”, “mana ouviste”.

O Colóquio

[sem indicação de crédito]

 

Primeiro, foi indagado sobre desconstrução e sujeito. Seguiu-se um longo desvio meandrado por perguntas secundárias. E então Didier Jacquestas, filósofo mais famoso do mundo em 2012, ergueu a mão. Como se sua mão, venada e bem composta, amparasse o peso da pausa. E todos seguiam a mão pré-amparando o próximo pensamento a provir daquela formidável moleira. Lentamente. Até se deter.

Porém não se deteve. Fora blefe? Tropo? Elisão? Silêncio e gestos às vezes tão bem coalescem. E a mão seguiu erguendo.

Da cabine, o diretor da TV inglesa mandou o câmera fechar o quadro na mão do filósofo, desconstruindo o ambiente: a cinzitude da tarde em Oxford, as árvores peladas, os seres humanos excessivamente vestidos, pelas amplas janelas do salão. A mão do homem que ensinara a desler textos. E todos estavam extasiados diante daquela brusca pausa e erguer de mão. E seguiam a postos, porque sua palavra era lei para muitos.

Mas ele não falou, nesse segundo instante. Nada contraleu. Limitou-se a erguer a mão.

Uma comoção percorreu os circunstantes. É que eles se deram conta de que ele estava velho. E uma líder separatista radical sentiu um calafrio só de pensar na hipótese de o filósofo ser avô. Tomar nas mãos uma criança ao invés de abaixo-assinados. Dirigir a ela todos aqueles mimos, dengos e lengalengas – com sonoplastias próprias e muitas momices – que se tem dizer a uma criança para ela reconfortar-se no mundo. Seria isso uma narrativa possível de contraler? Melhor não pensar nisso agora. Solteira, a líder militava pela separação da Herzegovina.

Herzegovinas à parte, como são mais filósofos os filósofos continentais. Parece faltar a seus sucedâneos britânicos certo senso de mise-en-scène. Um semblante. Essa prosperidade do gesto, o compassar do ritmo. Nada parente da mão a suster no espaço o peso da pausa. Fisionomia de filósofo. Sobrancelhas de filósofo. Mau nó de gravata de filósofo. Lapelas rotas. Meias puídas de filósofo. Como os latinos conseguem ser muito mais, digamos, efetivos e dignos nessas situações. Outro dia um filósofo – português, ao que parece – estava na TV, cantando um rap. Ah, que inveja dessas liberdades do Continente.

Um placar luminoso informava que no parque, lá fora, fazia doze abaixo de zero.

Fortes eram as sobrancelhas de Monsieur Jacquestas. Elas, de certo modo, o salvavam. Espalhavam-se negras e enérgicas pelas duas metades da testa suportando rugas quase desconstruídas, e as cãs. Os olhos pouco serviam. Eram de uma fixidez cética, porém piedosa. Uma brusca piedade que às vezes tudo corroía. Certa culpa católica calcada —  retinas adentro — à Santo Agostinho. Embora não de uma piedade fácil, corpo-com-órgão. Tanto que entre os palestrantes fora o único a não abrir mão de seu estipêndio em prol da Anistia Internacional:

Não era um fariseu – compreendeu o renomado antropólogo. O mesmo que, ano passado, havia vendido a mansão da família – oitenta e dois cômodos – no Surrey, em prol de uma fundação de proteção à vida selvagem no Quênia.

Para já, dependendo do ponto de vista, a mão mascarava o rosto do filósofo. Era firme. Dedos não tremiam. E a mão saía da manga do casaco corduroy. E prosseguia, lentamente: pré-erguendo o próximo argumento?

E todos ainda estavam com o que há pouco ocorrera. O professor Eagleton contrargumentara:

Mas isso não tem lógica.

E o filósofo em adorável acento francês:

And so what?

Ah, em que terceiro ato do bardo isso poderia se achar. Foi o suficiente, junto com um soerguer de sobrancelhas e um embicar de lábios, para provocar o umedecimento de certas superfícies, em geral pilosas, mas em tendência depiladas à brasileira. E também para elevar, do braço do assento ao queixo, nove mãos basbaques.

E agora esse interregno. O silêncio e a mão do filósofo. O filósofo e a mão do filósofo. Um mediterrâneo.

Setenta e três pares de óculos acompanhavam o movimento. Quase duas centenas a olho nu. Três câmeras postadas. Mais uma divagando pelo salão em langoroso travelling.

É, havia algo de Andaluzia, oh boy! What other use for castanets. – E isso ocorreu a um desafeto de Didier Jacquestas. Mas mesmo o desafeto era incapaz de desconstruir a mão do filósofo, porque tinha poucos discípulos. E esses nenhuma importância na liga acadêmica. E o filósofo erguia a mão. E o desafeto era quem mais o admirava no salão de conferências do colégio.

Porém chegou o ponto em que a mão sobrepujou a altura da cabeça, do privilegiado quengo do filósofo franco-argelino. E, então, a plateia – incluindo os câmeras da BBC – começaram a levitar, suavemente, teleguiados pela ateleologia da mão.

 

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Benfica by Panda Bear

Aqui fica a revelação, para quem tem passado ao lado das últimas tendências na cena musical: alguns dos sons mais inovadores, para não dizer revolucionários, que no planeta têm sido produzidos nos últimos anos têm a sua origem, acreditem que é verdade, no nosso país. Sim, em Portugal mesmo. Para sermos mais precisos, em Lisboa, em pleno Bairro Alto, onde mora o Sr. Noah Lennox, mais conhecido por Panda Bear. Como até os menos informados já perceberam, este Panda Bear não é português. É um rapazinho a caminho da idade de Cristo, nascido em Baltimore, que em 2004 teve a feliz ideia de trocar NY por Lisboa (“since I got off the airplane here [for the first time] I had a good feeling about this place”, disse Mr. Lennox quando aqui desembarcou). Pois é, tomou-se de amores pela nossa capital, o que é o mesmo do que dizer por uma jovem, essa sim bem portuguesa, residente em Lisboa. E foi ficando. E ainda bem, dizemos nós, porque não fosse isso sabemos lá se lhe tinha vindo a inspiração suficiente para criar o aclamadíssimo Person Pitch, de 2007. E, sobretudo, não sabemos se as revistas da especialidade poderiam dizer, como o dizem sem sequer admitir margem para discussão, que os Animal Collective – de que o próprio é co-fundador e um dos mais eminentes membros — formam, só, a banda mais influente da actualidade.

O som não foi feito para gente conservadora, ou não fossem eles tidos (com algum exagero, é certo) como autores de uma quase revolução musical. Mas é daqueles que se estranha ao princípio para depois se entranhar. Goste-se ou não, é de louvar a capacidade que a cidade de Lisboa, o Bairro Alto e a digníssima cônjuge portuguesa (pois, entretanto casou e até já tem prole portuguesa) têm para levar Panda Bear à transcendência. Mas será que a inspiração do rapaz repousará só na luz e nas vistas de Lisboa, no ambiente boémio do Bairro e no aconchego de um amor e de uma família portuguesa? Não. Ficámos agora a saber que os momentos de genialidade de Panda Bear têm uma explicação suplementar. E é tal a dívida de gratidão de Panda com o seu catalisador-mor que resolveu prestar-lhe uma sentida homenagem musical. Mas deixemo-nos de palavras para dar lugar à música, até porque neste caso esta vale mesmo mais do que mil palavras. Para quem tem dúvidas de que a cultura de massas pode conviver pacificamente com as vanguardas, deixo-vos com Benfica (batam palmas), um dos temas-forte do recentíssimo álbum de Panda Bear, Tomboy.

 

Depois de Abril

 

«Lembra-te, Eterno, das tuas bondades, porque elas existem desde a eternidade»
(Salmo 25,v.6)

O tempo passa por nós – ou nós por ele – sem quase darmos conta. Já sou velho e por muito que tenha vivido  — e vivi muito – não dei conta do escorrer da vida. Hoje sou um ser angélico. Indiferente aos moinhos de vento, vivo do prazer de existir e fumo. Parei um mundo inteiro num cigarro, na pura fruição, na largueza e no consolo das bondades do Senhor, sobretudo as mais pequenas. Íntimos e ínfimos momentos de gratidão. A eternidade presente na minha mão.

 

Adorável Bergman

Portugal teve azar com Ingmar Bergman. Quando os seus filmes começaram a poder ser vistos sem constrangimentos, a partir de 1974, declinava o realizador a sua fase mais taciturna. Era talvez o ar dos tempos, dos anos 70.
Como todas as imagens, esta que dele se formou também não é falsa (não há imagens falsas, há é visões falsas das imagens) e se nos detivermos só nela, de Bergman molda-se a impressão de um homem atormentado, amaro, desesperado com as noites longas do norte e repugnado com os fervores do sul, desconsolado com os afetos submergidos pela ética e, sobretudo, irritado com um deus espetador do sofrimento humano.
Mas houve outros Bergmans antes deste. Um era o ansioso amante que filmava para conquistar as mulheres. Com a câmara perscrutava os rostos femininos, encostava-se a eles com enorme proximidade, quase incómoda para as actrizes, que era como o tímido Ingmar lhes pedia que o amassem. Nenhum outro realizador tentou tanto seduzir as mulheres com o cinema – nem Luis Malle. Harriet Andersson (que deixou tontos de luxúria os poucos portugueses que iam a Paris ver os filmes interditos em Portugal), Bibi Andersson, Liv Ullmann, todas partilharam com Bergman a cama antes de lhe oferecerem a imagem.
O outro Bergman, decorrente deste era o realizador de comédias românicas. Nelas o desejo, um conceito depois tão na moda, não passava do parente pobre do sexo. E com uma liberdade protestante que parecia obscena aos nossos beatos costumes – por isso estes filmes nos passaram ao largo em seu tempo – todas as personagens sabiam ao que iam, só não sabiam o que haveriam de conseguir.
Comédias por certo imorais, ou seja, corrosivas para decência e contumazes às probidades em vigor. São de um humor talvez demasiado em filigrana para os nossos dias, mas ainda assim suecamente espirituosos, como o exemplo que aqui fica.