Trocar umas galhetas, uns bons sopapos, era a atabalhoada arte da minha infância. Em Luanda, a caminho da escola, já se sabia que “quem vai à guerra dá e leva”. Os mais velhos do bairro, tipos com a vetusta idade de 17 a 20 anos, ensinavam-nos uns truques aprimorados.

a arte da bassúla
Capanga, era fazer com o braço a rija prisão do pescoço do adversário, cortando-lhe o pio e pondo-o a cuspir fininho por uns minutos. Bassúla, era meter a perna direita atrás do asqueroso inimigo e, com forte empurrão no peito, fazê-lo malhar de costas na poeira rubra, para gáudio da turma no recreio.
Brad Pitt, pai de “Tree of Life”, sabe destes arrebatamentos infantis e das funestas consequências metafísicas de só se levar sem se dar. Ensina aos filhos a nobreza do pugilato, ou seja, como enfiar um sonoro murro nos queixos de putativos contendores. O meu pai, pacifista e tendo por hobby a carpintaria, tentou ensinar-me a usar um serrote, a plaina, o esquadro e um torno, esperando converter-me no Harrison Ford do “Witness”. Atraía-me vocação mais inglória e canalha: resultado, socorri-me do cinema para sobreviver na aguerrida selva da meninice.
Por sorte, coincidiu-me a infância com a idade de ouro do peplum, filmes pintados a socos e golpes de Hércules, Maciste, David (tive uma fisga!), Golias e Spartacus, protagonizados por expoentes da representação como Jacques Sernas, Steeve Reeves, o marmóreo Charlton Heston.
Iniciávamo-nos com os gregos e algum direito romano: uma base sólida. Mas o alargamento de horizontes veio-nos da América. E foi nos westerns (tive uma espingarda!) que aprendemos a usar os punhos com liberalidade e clarividência.
Exaltante, nas sessões de pancadaria dos filmes de cow-boys, era a sua democracia. Toda gente molhava a sopa, toda a gente comia pela medida grossa. Havia um clima de festa naquelas abruptas trocas físicas. Lembro-me de John Wayne, em “McClintock”, filme de 1963. Há um brutamontes de espingarda na mão a dar cabo do juízo de todo o mundo, inclusive dos índios. Wayne, com paciência de Job, a mostrar-lhe o caminho da harmonia universal e o brutamontes, nada! Continua a escovar a alma de quem já não pode, mas tem de o ouvir. Wayne, com habilidade quase feminina, tira-lhe a arma e, como a culpa não deve morrer solteira, espeta-lhe o que então chamávamos um murro no céu-da-boca. Para espanto dos índios, meia centena de cow-boys desatam aos socos e acabam, aos baldões pela ravina arenosa, no lago de lama que os espera lá em baixo. A música vem gloriosa, na banda sonora, cumular de alegria toda a cena.
Nem em noites eleitorais há o mesmo júbilo. E o meu pai, no céu que tanto merece, bem sabe que ainda hoje sou capaz de serrar, com rigor irrepreensível, a primeira tábua que me ponham à frente.
Gosto tanto da algazarra da sequência do vídeo junto que, agora que saio do Gente Morta, não quis deixar de publicar extemporaneamente esta crónica do Expresso. Porque é assim que vou lembrar sempre este blogue que me acolheu: em festa.

















Tantos anos a acreditar no 70 x 7, ainda que a não baixar os braços perante outros mais frágeis a estarem sujeitos a apanhar tanto física como emocionalmente de bestas, e, hoje, acredito que se o código da Outra Face não É Entendido, as Próprias Escrituras não deslegitimam o inalienável direito da legítima defesa, até para que o mal não continue a estender-se (se tal deixarmos acontecer estamos até a assumir a responsabilidade ue a ausência da imposição de limites desperte as piores pulsões nos outros)…saber aplicar o direito da proporcionalidade da reacção é difícil, mas depois da filária travada com nitrato de prata, há que deixar o resto nas Mãos da Jurisprudência Divina — só Ela Saberá todas as causas dos comportamentos…
…até porque há pessoas que agem mal não por serem maus, mas porque deixam-se encadear pelas sombras projectadas na parede da caverna platónica, mas todos temos a capacidade para tentarmos sair dela, essa é a grande esperança e quando isso acontece Dá-se Um Autêntico Milagre. Abraço