
Fora uma fotografia feliz. Era um ritual seu, o de as fotografar depois do duche que lhes apetecia, sempre, a seguir ao prazer. Mais do que nos momentos de intimidade partilhados momentos antes, era nesses instantâneos que nelas captava aquilo que Kundera chamara a “milionésima parte de diferente” que distinguia cada uma de todas as outras. Mas desta vez a diferença ia muito para além de milionésimos. E, por isso, ao contrário de todas as outras que saíam, ainda a pingar a água do duche, para não mais voltarem, desta vez quis o que nunca quisera. Que ela ficasse. Que ela voltasse. Que voltasse, uma, duas, três vezes, até ficar para sempre. Ela era, não tinha dúvidas, aquilo que Teresa fora para o Tomaz de Kundera. Ela era a síntese dos milhares de milionésimas partes de diferente (uma por noite nos últimos vinte anos, assim o provavam as fotografias) que somara ao longo da sua vida de predador. A essência viera, finalmente. Se era isto a que chamavam amor, ele aí estava em todo o seu esplendor.
Nunca percebera por que se fora ela, de forma tão repentina. Aquela sua cara, que ele captara a seguir ao duche retemperador do prazer, parecia ser a imagem da felicidade pura. Parecia. Mas ele sabia que ela não era uma mulher como as outras. Para o bem e para o mal, a sua diferença ia para além de milionésimos. Aparecera-lhe, assim, sem mais nem menos, para lhe mudar a vida. E mudara. Depois dela, nunca mais tivera uma mulher. Se não a tinha, pensava ele, não podia ter mais nenhuma. Porque a tinha para sempre. E tudo, por causa de uma fotografia que nunca mais o largou.

















Diogo, o seu narrador/coleccionador/pavor tem quelque chose do Spader no filme do Soderbergh, Sex, Lies e lailailailai. E daquele coronel do Jorge Amado que usava no colar uma argola, missanga, por menina tida na primeira vez.
Fez bem em ir-se embora logo à partida, esta menina. No amor, mais vale cedo que tarde.
Ela era diferente das outras — mas ele tratou-a de forma igual.
Ele quis que ela ficasse, que ela voltasse — mas não lho disse.
Ela mostrou-lhe o que sentia – ele não.
Por isso a vida dele não mudou. Porque tê-la assim não é tê-la. Nem que seja para sempre.
E depois as mulheres é que são complicadas.
Fotos podem ser um problema, eu bem sei.
Essa é a foto real? É mesmo Teresa?! Estou impressionada com o site, parabéns para todos.
Camila, 15 anos, Santa Catarina