
O Gente Morta é melhor que deus, melhor que o diabo. A nenhum dos dois lembraria fazer dum cemitério um lugar de festa, a nenhum deles lembraria juntar queridos mortos e infames. A nenhum, deus ou diabo, tão obstinados e eficazes a pescar almas, passaria pela cabeça consolarem-se com o descarado onanismo de escrever por escrever, graciosamente.
O Gente Morta abre covas a rir-se, enterra pessoas sem vergonha e a bater palmas, faz raios X de nus e vestidos, converte o telefonema dum sobrinho numa short-story. É um blog sem sentido nenhum. E, por nenhum sentido ter, é o melhor blog do mundo. Um tipo, para deixar o Gente Morta, é preciso estar doido.
Foi o que, que estou doido, confirmou a minha junta médica, autorizando-me a sair com atestado. Saio hoje, deixando este cemitério, a única linda razão que me fazia estar na blogosfera.
Sei bem que nunca mais me vou divertir tanto, seja qual for o manicómio para onde agora vá. Sei bem que não encontrarei gente mais luminosa do que os 13 autores que faziam o favor de deixar-me acompanhá-los.
Estava aqui tão bem morto e vou agora arranjar chatices em ruas de carne e osso. Mas tem de ser: até a um morto se permite a peregrina ideia de licença sabática para uma vida sem vencimento.
Aos leitores do blog agradeço a gentileza de, até a mim, me terem lido. Asseguro-vos que, a partir de agora, vão ter-me como um rival furioso e invejoso nas caixas de comentários. Lutarei convosco pelo amor e aprovação dos maravilhosos autores que vão continuar o Gente Morta. À Turmalina, Luciana e Mr. Orcama, os mais historicamente fiéis e persistentes leitores e comentadores, praticamente cadáveres como os autores, protesto os mais vivos obrigados.
Antes que a porta se feche, abraço com descabelada efusão os mortos-autores, meus companheiros de dois anos. Admiro-vos. A dois, aqueles com quem abri os portões do cemitério, a Eugénia e o Pedro N, estampo-lhes na cara dois beijos choramingas e de fungada ranhosice. Adoro-vos.
Então adeus.

















… em surdina, falo aqui para os meus botões: isto que acabo de ler deve ser outra peta, e das grandes e desavergonhadas … e oxalá seja!
Prosaica verdade, gb, mas obrigado pelo seu wishful thinking. Tive gosto em partilhar consigo memórias caluandas.
Não dá prá ser um até mais?
É claro que vou adorar tê-lo ao meu lado na caixa de comentários, mas você tem idéia do quanto perderei, perderemos, sem você alí sobre a primeira lápide?
Sei que não estou sendo nadinha altruísta… vou sentir muita a falta dos seus textos, Manuel, principalmente daqueles que falam sobre coisas que eu nem imagino que existam.
Mas se é mesmo assim, respeito sua vontade ou necessidade.Só não nos deixe sozinhos aqui na caixa de comentários também.
Até mais! Vou esperar essa loucura passar ou então os remédios fazerem efeito :o)
Obrigado Turmalina, vou tentar seguir a medicação à risca. Entretanto, e como muito bem sabe da sua visita lusíada, este cemitério tem autores fantásticos: não lhe faltará excitação e surpresa. Abraço-a.
Hum …
Hum, hum, cara Ivone.
olhe
pois eu cá
assim e agora
estou de luto
Rita, nada de exageros. Vá aparecendo, traga o WE e vai ver que faremos picnics nas caixas de comentários destes belos mortos.
De tudo o que escreve não há uma razão para ir, e há uma série delas para ficar. Mas nada o obriga a dar-nos uma razão para a despedida, com ou sem ela, percebendo ou não, deixará saudades, deixará o seu lugar vazio.
Um cemitério sem um morto que é uma vida, um respirar constante.
~CC~
Claro que não há razão para sair e todas seriam para ficar: este cemitério é mesmo e só de prazeres feito. Hèlas, não posso. Obrigado pela sua simpatia ccf e por não se ter zangado comigo quando uma vez (ou foram duas?) lhe troquei o nome. Um abraço
eh eh CCF não e nome que se registe…nem nome é, três letrinhas meio tontas, como poderia zangar-me.
E há ainda “o cinema dá o que a vida rouba”, espero que por lá continue.
Esta semana, Luanda e pai, duas palavras que me enchem grande parte da vida.
até…
~CC~
PS. Onde aprendi a gostar de cinema? nessas matinés de cinema ao ar livre pela mão do meu pai…lá em Luanda (mas está tão abandonado o de Luanda, já o de Benguela, é mesmo um dos cinemas mais bonitos do mundo, vou publicar umas fotos).
Ainda bem que há a palavra saudade (palavra que foi escolhida por mil tradutores profissionais como a sétima mais difícil de traduzir em todo o mundo. Sabe qual é a campeã? “Ilunga”, uma palavra do idioma africano tishiluba que significa: uma pessoa que está disposta a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez. Não sei do que nos servirá saber isso, mas é tão difícil lidar com certos espaços vazios, não acha?)
Saudade, então.
Luciana, olhe que me parece acertadíssimo esse termo tshiluba. Avisado e sereno serve-me às mil maravilhas.
Agradeço-lhe ter tantas vezes, e com cantado entusiasmo, comentado este nosso cemitério. E vai ver que não haverá saudades com os tão bons posts que daqui em diante aqui se escreverão.
Manuel:
O JAVALI SENTADO arrancou hoje e fui ver onde estavas. Apanhando-te em hora de partida aqui te deixo, e aos teus compaheiros de blogue, um abraço,
Armando, espero que sejas tão feliz no teu blog como eu o fui aqui. É sempre um prazer saber de ti, agora já sei onde te encontrar. Não voltarei à blogosfera, mas para o que precisares na Guerra e Paz e no fb, sempre à disposição. Abraço
não percebi nada. se for por razões de saúde, ponha-se bom! se por outras, mantenha-se bem. :)
abraço e obrigada pela sua militante gentileza.
A da militante gentileza é gira. Às vezes, concordo, também é enjoativa. Se calhar é disso que estou doente, mas de mais nada, sem-se-ver. Obrigado pelas suas palavras e já sabe que para nos zangarmos teremos sempre o cinema português, eh, eh, eh! Felicidades com o seu blogue.
Manel, li tantos textos seus que me comoveram e me deram força para perceber melhor o mundo cuja realidade ultrapassa, por vezes, tanto a ficcção…vou tb sentir saudades, pois era um dos meusn portos de abrigo…um abraço sempre Amigo
Cara Alienista (julgo que este é o seu quarto — ou quinto? — nome neste blogue), agradeço a simpatia e a generosidade. E obrigado pelos sobressaltos que nos causou. Acima de tudo, seja feliz. Um abraço
Creio (e rezarei por isto) que nessa sua jornada urbana e tão cheia de “chavões” e “mesmices”, teus neurônios se revoltem, tua criatividade inunde teu cérebro, tuas mãos peçam a independência nas teclas do notebook e, de quando em vez, nos encontremos aqui. Amor demais!
Olá Mafalda, cérebro fraco e mão tremelicantes é o que é. Espero que vá tudo bem consigo nesse grande Brasil. Um beijo de saudades. sabendo que sempre nos iremos encontrando se não noutro lugar, pelo menos no fb.
Caro Manuel, vinha eu aqui comentar com graves palavras a sua bela despedida e dou logo com a “ilunga” da Luciana. Só para dizer que desde que achei este blog nunca cá encontrei senão coisas muito boas.Tem com certeza razão e há um tempo para tudo. E eu deito-me a adivinhar que tem, também, um plano para estes escritos. Oxalá esteja certa. Felicidades.
Também acho que, sem falsas modéstias, fizemos o belo de um blog. Menos do que a excelência era coisa que não se podia aceitar. Foi um prazer receber tantas vezes a sua visita.
Bem, diz o Manuel que “…que estou doido, confirmou a minha junta médica, autorizando-me a sair com atestado.”. Expirado o prazo do atestado, voltará com certeza! Não posso acreditar que queira ter faltas injustificadas… Cure-se lá depressa dessa doidice e volte rápido, que já estamos à espera.
Já vê, Maria João, que tudo se precipitou. Mas não deixarei de me tratar. Gostei muito de muitas coisas suas que, pela mão da Eugénia, invadiram este blog. Os seus comentários, quando tive a honra de ser o agraciado, souberam-me a figos doces. Gostei. Obrigado.
Para si, caro Manuel, o desabafo agradecido, amigo e sem limites de um sonoro PORRA !!!!
Diria mais, Fernando: PORRA, o bem que isto me soube. Soube-me a eternidade enquanto durou. Se me deixa abraçá-lo, abraço-o!
Oh, Manuel, mas que morte tão madrasta neste especialíssimo Père Lachaise blogosférico!
Não protesto porque já percebi que não vale a pena, a eutanásia é definitiva. Mas faço luto com a Rita, pronto. Aqui todos os mortos são de luxo, mas você vai fazer falta. Snif.
Pére Lachaise da blogosfera, olhe só Ana, a sua bela ideia. Vamos meter este belo cemitério no circuito turístico. Pomo-lo logo ao lado do dos Prazeres. Apanha-se o 28 e a viagem só custa a leitura de 2 posts…
Um snif, snif de obrigado pela sua simpatia. E felicidades no seu blog baluarte!