Uma mão nas nuvens, um olho na paisagem

um rio cá em baixo no que aos meus olhos pareciam mil metros de altura

 O  Travel Almanac é uma nova revista de viagens com um conceito muito eyebrow. Tanto que no seu número de estreia (têm 2 por ano, que não estão para se cansar) a entrevista de capa é ao David Lynch. Para o 2º número o entrevistado principal será um dos autores do “Gente Morta”. Mandaram cá a Rikio Hossback. Por mero acaso entregou-me ela as perguntas a que respondo abaixo, mas com a condição (frisou bem) de que as passe aos outros mortos deste cemitério. Vão depois – eles – escolher a entrevista que lhes interessar para publicação. Avisa-se a navegação de que se trata de uma revista alemã. Coisa de seriedade irreprochable.

 Mr. Fonesca, qual é a sua mais antiga memória de viagem?
    — Fonseca.
Como?
    — O nome. É Fonseca. Mas, bora lá, às lembranças. Aos 5 anos, de comboio. Uma viagem longa e surpresas irrequietas. Levantava-me, sentava-me, espreitava à janela que nesse tempo ainda se podiam abrir. De repente, a velocidade reduziu-se e o comboio entrou, majestoso, numa ponte, um rio cá em baixo no que aos meus olhos pareciam mil metros de altura. Mas a impressão que mais perdurou colou-se-me ao céu-da-boca: o sabor das cerejas que comemos, a minha mãe, a minha irmã e eu, no pequeno compartimento que ocupávamos. Ainda hoje os comboios me sabem a cerejas.
Um impacto irrepetível, o da primeira viagem, claro!
    — Não a quero contrariar, mas poucos dias depois viajei num transatlântico para outro continente. A minha mãe tinha de cuidar dos miúdos que nós éramos, a minha irmã e eu, e levou-nos a toque de caixa para o camarote. Só no dia seguinte subi ao convés. O mundo tinha desaparecido. Flutuávamos num oscilante lençol azul e verde com outro de seda azul celeste a fazer de tecto. Foi um sonho, é um sonho, de que nem o mais abrutalhado Freud será capaz de me tirar: estou só eu numa cadeira de balouço feita de mar e céu.
Associa sempre as viagens a pessoas?
    — Ou à ausência de pessoas. As grandes viagens, entre continentes, as de barco ou de avião, nunca as fiz com o meu pai. Viajei com ele de carro, em Angola, e depois em Portugal. A família viajou, de barco e de avião, mas por qualquer razão ou última hora acabei por não ir com eles. Mesmo a minha primeira viagem de avião foi para ir, sozinho, ver a minha irmã ao Lubango. Ia à janela do Friendship (ou talvez um Dakota) com uma mão nas nuvens e um olho na planície, no planalto e, a chegar, na belíssima e dramática paisagem de serras e atormentadas fendas do Lubango.
Tudo muda quando se passa a viajar profissional. Já nem se olha lá para fora!
    — Desculpe, mas olhe que não acerta uma. Não sei viajar profissional com o portátil em cima das pernas ou lá o que é, e a aproveitar a maçada de voos transatlânticos. Nos aviões pode sempre ver-se o Pólo Norte ou o sol a nascer no Sahara, como nunca se sabe quando nos cruzamos com um disco voador. Já vi os dois primeiros, não perco a esperança de ver o último.

O humilde Claremont

Prefere os hotéis de luxo ou os familiares?
    — Todos. Mas enternecem-me os hotéis de primeira vez numa cidade. O humilde Claremont Hotel, em Westwood, a dois passos da sinfónica Wilshire Boulevard. Foi a estreia em Los Angeles, há 25 anos. O setecentista Hotel des Tuileries na rua da Saint Hyacinthe, em Paris, ao lado do qual, nos anos 80, havia uma tasca de barril à porta e se comia um bom boudin. O Halcyon, escondido em Holland Park, o La Residenza a dois passos da Via Veneto. Claro que como a carne é fraca e se corrompe com facilidade (e felicidade), hoje prefiro o W, o Shutters ou, em NY, o Plaza, o Ritz em Madrid ou Lisboa, o Crillon. Mas há uma pensão de Porto Amboim que jamais esquecerei.
O dinheiro é importante quando se viaja?
    — Boa! Na mouche. First class: desbunda ou nada. As viagens familiares, por rejeição de ma femme a essa impossibilidade tecnológica que é o avião, exigem o lento e longo tempo quase oitocentista do comboio. Dinheiro e tempo, já vê, caso contrário, prefiro ficar em casa a ler ou a escrever
Escreve?
    — Sim. Num cemitério.
Perdão?
    — Está perdoada.
Num hotel, por ordem de importância, o que é que mais valoriza?
    — A cama, o restaurante, um piano. Uma esplanada sobre o Pacífico como o Shutters. Um lindo pátio como o da York House, nas Janelas Verdes, se não puder ser mais nada. Em Sorrento fiquei num que tinha um laranjal e a piscina no meio da fruta e daquele perfume todo. Os donos eram um casal de professores de história.
Imagino que tenha episódios pitorescos…
    — Nenhuns. Mas em Sorrento, não sei se dada a proximidade da viciosa Pompeia, uma amiga nossa, no quarto ao lado, fazia meditação nua (ou melhor, nua fazia meditação), estendida na cama e com duas rodelas de pepino nos olhos. A empregada entrou intempestiva e ouviu o maior berro da vida dela saído de uma boca que expelia também rodelas de pepino. Ninguém mais lhe voltou a limpar o quarto: la signora io non la tocco, foi a desculpa generalizada.
Do passado, em viagens, de que é que tem mais saudades?
    — Do verdadeiro valor do passaporte. E dos câmbios. As liras eram um delicioso pavor. Em Roma, num dia de greve, não só fui miseravelmente enganado no troco como, ao emprestar a caneta ao motorista para fazer o recibo, fiquei sem uma Montblanc. Só voltei a ter outra quando uma alma gentil me ofereceu, generosa e piedosamente, uma nova.
Já perdeu as malas?
    — Duas vezes. Uma em Berlim, outra em New Orleans. Tenho um fatinho fatela dos Brook Brothers, oferta da British Airways.
Ameaças de acidente?
    — Em L.A., tivemos de voltar duas vezes para trás. As luzes do Boeing apagavam-se a meio da pista. À terceira, trocaram o avião. Dormi com um justo toda a noite até Nova Iorque.
Pior: já viajou ao lado de pessoas famosas?
    — Ah, sim. Do José Navarro e do Pedro Norton.
Perdão?
    — Se for ao La Chunga logo lhe explicam. Mas se está a falar de aviões, lembro-me de uma grande entrada. Quero um bloody mary, gritou a Melanie Grifitth, ainda não se tinha sentado. E depois dormiu as 10 horas de voo. Doutra vez, discretíssima tanto quanto em si cabe de discreta, a Elizabeth Hurley. E também com o Pierce Brosnan quando era James Bond.
E nos hotéis?
    — Pequeno almoço na mesa ao lado do Gene Hackman três dias seguidos. Éramos sempre e sozinhos os últimos e ele tinha um sereníssimo jornal à frente dos olhos. Era para não me ver. No Lancaster, em Paris, que é o favorito do David Lynch, tive a mais amena conversa que se pode ter com Mr. Coppola e um puto chamado George Lucas. As sobremesas eram fantásticas. Já comi um hamburger com o Danny Glover e lambi um gelado ao lado da Valeria Golino. E quem ficou tu cá, tu lá com o Mr. Big do Sex and the City foi o Zeff Navarro no Dan Tana’s, esse landmark de West Hollywood.

E, agora, ai dos mortos que não respondam ao Travel Almanac! A estas perguntas ou a outras alternativas que a Rikio não se importa que lhe dêem música: ela dança mesmo muito bem. Quem é que avança já?

Comentários a “Uma mão nas nuvens, um olho na paisagem” (8)

  1. João Pessoa diz:

    Em Nova York, só rejeitei um Hotel, o Sofitel, na Wall Street, perto dos Teatros, para não me cansar. É que gosto muito de ir lá ás Estreias. Este Hotel lembra-me garrafas fechadas com bom vinho lá dentro, e a ansiedade de as abrir com o saca-rolhas. Perigoso!!! Eu sei que é perigoso, por isso peço sempre ao “service room” para as trazer abertas acompanhadas pela polícia, não vá alguém estar escondido dentro da banheira.
    Quanto aos restaurantes, fico-me pelo Maxinde, a meio da Avenida dos Massacres, do lado esquerdo, de quem vai para o bairro da CAOP. Serviço primeira, para quem gosta de comer um mufete em véspera de feriado á noite. São cinco travessas!!!- O peixe fresquíssimo, outra com fungi, outra com batata doce, outra gimboa e a última com maçaroca. Claro que acompanhada de marufo q.b. Uma delícia só vos digo!!!
    Só falta dizer que fui acompanhado pelos realizadores mais destacados do panorama cinéfilo de Angola. Os meus queridos Amigos, António Ole e Zézé Gamboa, por acaso meus vizinhos de juventude no bairro Cosmopolita da Vila Alice.
    Não posso deixar de referir que FONSECA, é um intelectual, de prestigio e respeitado internacionalmente, sendo meu ídolo desde que se destacou nestas viagens fantásticas!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Olá João, mas que grande visita. Tens que me contar — já sei que nos vais contar a todos, em Setembro — o teu mais recente e fulminante ataque a Luanda. Ainda por cima com esse tratado de vida que se chama Zezé Gamboa. O Ole sei muito bem quem é, mas amigo de amigos meus, achi que só nos vimos de raspão, numa casa da Afonso VI.
      Maravilhosa visita a tua. Um kandando todo ufano para ti, meu irmão.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Depois de me espolinhar de inveja no teu mapa (e pior, na tua elefantina memória para nomes), cresceu-me uma pergunta esquisita mesmo por entre meninges: as perguntas base e derivas, é?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Antoine, procede na tua entrevista com toda a liberdade. Miss Hossback não se importa. Antecipo ufano o fabuloso périplo.

  3. Turmalina diz:

    Manuel, Fonseca, nem sei dizer o quanto gostei dessa sua entrevista.Fui com você à todos esses lugares e parei em alguns para buscar minhas memórias.
    No comboio que aqui chamamos de trem, viajei muito com meu pai quando era pequena.Minha mãe não gostava muito e eu adorava e sempre que podia, ele me levava.Aqui não tínhamos cerejas e sim biscoitos de polvilho vendidos em formato de pequenos pneus, embalados sempre em números pares.
    A primeira grande viagem que me tirou o fôlego não foi a travessia aérea do Atlântico lá pelos meus 10 anos, mas sim uma viagem até a Terra do Fogo à bordo de um Transatlântico.Percebo bem o que disse.
    Acho que nunca viajei profissionalmente porque sempre dou um jeito de transformar o trabalho em prazer, principalmente em lugares que estou pisando pela primeira, ou então, segunda.O que me faz lembrar que a única coisa que não me dá prazer é andar de avião.Eu odeiooooo…e se pudesse faria tudo de carro, trem ou navio.
    E mais uma vez concordo contigo: ou desbunda ou nada.E esse desbunde, necessariamente não significa luxo e modernidade. Mas principalmente conforto, físico e espiritual.
    Buscando minhas lembranças, sinto saudade do câmbio, quando menina eu adorava colecionar notas dos países por onde passávamos.O Euro acabou com muita coisa.
    E do restante preferi acompanhar-lhe!
    Obrigada pela viagem.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Bem eu tinha a sensação de a ter visto, estimada Turmalina. No mesmo trem, eu às dentadas às cerejas, a minha amiga a mastigar delicadamente seus biscoitinhos. Acompanhá-la é sempre uma bela viagem.

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Não lhe vou dizer, Manuel Fonseca, que gostei tanto da sua entrevista, perguntas, respostas, tom, assins, que lhe colei a minha…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Já lá fui ver Miss Vasconcellos. Mas thanks por se ter agradado desta minha conversa a armar ao pingarelho com a jovem jornalista japonesa da revista alemã! O Zé Navarro veio depois dizer que afinal ela é um homem…

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