Uma declaração de independência

Ostentam cicatrizes conquistadas em portos e alto mar

 

A danada inveja acontece-me, no cinema, sempre que, numa explosão de felicidade, as personagens se libertam do filme e ameaçam, eufóricas, ficar a gozar uma comunhão de que, na sala, já somos indesejáveis voyeurs. Como se as personagens dissessem ao espectador: “Agora é privado, não desejamos que estejas aqui. Vai-te embora, não arruínes o encanto.”

Exemplo? No “Deer Hunter”, a cena do bar, com De Niro e Christopher Walken a jogarem snooker, quando a juke box debita o “Can’t take my eyes off of you”. De Niro, Walken e os quatro amigos, numa coreografia de jovens machos em noite sabática, jogam, bebem, cantam cada um para seu lado, até que o refrão os junta num coro de “i love you baby to warm a lonely night”. A amizade e a confiança deles queriam ficar ali, guardadas para sempre. Ficariam se o filme não os tivesse destinado ao Vietnam que lhes secará a voz na garganta.

Spielberg, no “Jaws”, também foi ultrapassado pelas personagens. Num barco, três homens diferentes, o chefe de polícia Roy Scheider, o lobo do mar Robert Shaw e o académico Richard Dreyfuss, entretêm a noite de espera pelo tubarão que vão matar. Ostentam cicatrizes conquistadas em lutas de portos e alto mar, com impecável mise-en-scène de Spielberg. E a cena é ainda trabalho de actor, a voz extraordinária e cava de Robert Shaw, o riso tão bonito, solto e cómico de Dreyfuss, o olhar cândido de Roy Scheider. Mas, num de repente muito devagarinho, entram em comunhão mística e desatam a cantar em coro “show me the way to go home”. Cantam, gritam, desafinam: “i’m tired and i want to go to bed.” Já saíram do filme, são cem por cento personagens, vencedoras dos actores que lhe deram vida. Em coro, “i had a little drink about an hour ago”, esqueceram-se do mar, da noite, do tubarão, a mesa tão boa para o ritmo batido palas mãos, a linha de horizonte oscilando ao ritmo das ondas. Até que uma pancada mais forte, rufo da artilharia inimiga, os traz de volta ao filme, aos dentes assassinos, olhos sem vida do tubarão. O filme volta a ser de Spielberg, fim da fantasia dentro da fantasia.

A inveja que tenho dessa alegria selvagem. Menos boa, mas ainda boa, há uma cena em “My Best Friend’s Wedding”. É um almoço de família num restaurante cheio e há uma história de amor por explicar. Rupert Everett, que bem sabe ser a história inexplicável, canta-a. O contágio é imediato, a mesa dele e as outras mesas, o piano da sala, cantam em coro “i say a little prayer for you”. Sabemos, pela expressão de Julia Roberts, que é tudo encenado, mas é um restaurante inteiro a cantar e eu tenho por hábito comover-me com um restaurante inteiro a cantar. Já não é filme, é a verdade das personagens, a sua cantada declaração de independência.

Ah, a cena do bar no The Deer Hunter tem de ser vista aqui.

Publicado no Atual do “Expresso” a 10 de Junho. Se pudesse fugir para dentro de um filme, mesmo para dentro, não fugia? Veja, amanhã, para que filme fugiria Passos Coelho. Na página do costume, no Expresso”.

Comentários a “Uma declaração de independência” (17)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Era bom que se pudesse incorporar no Expresso istos do youtube. Gostei uma fartura deste canibalismo em que a verdade da ficção devora a ficção da verdade pela música comum. Nunca tinha pensado nisto antes.

    A despropósito, sabia que The Deer Hunter é o filme que mais vezes vi na vida — creio que ainda mais do que o O Padrinho, não sei se não o saberei de cor. Acho que é um daqueles filmes perfeitos. De vez em quando acontecem.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Eugénia, já viu no ipad? eu ainda não aderi, mas devem aparecer com coisas do género… Os seus Cimino e o Coppola são muito boas escolhas!

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Eu lá tenho ipad?! Mal me amanho com o pc, tenho um telemóvel daqueles de ligar e desligar, onde a função mais tcharam é fotografar e vem falar-me de ipad?

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Eugénia, esse e Apocalypse Now — por razões diferentes (gostáveis diferentes) — foram os dois filmes que mais vezes vi. Aliás Manuel, neste último há uma cena com o puto negro a dançar o ‘I can’t get no’ dos Stones que também me parece ultrapassar o pedido do realizador. Mas nesse filme tudo é um pouco assim, afinal…
    Agora pergunto: não será precisamente por essa capacidade escapista que certos realizadores contratam certos actores?…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Também gosto muito da cena do Satisfaction. Só não a pus por ser uma curtição individual, sem contágio do colectivo. E tens toda a razão, há uns actores que “abrem” mais do que outros.

  3. Luciana diz:

    “Uma bala. O cervo precisa ser abatido com uma única bala. Eu tento dizer isto aos outros, mas eles não prestam atenção.”

    Às vezes ocorre isso com a escrita, faz-se precisão. É um tiro certo, digo, um texto, como esse que faz-me ter vontade cantarolar e ser, eu mesma, personagem.

  4. pedro marta santos diz:

    Que bem lembrado, doutor. Quando se atinge essa sensação de espreitar para a mais pura fruição vital das personagens, como se quase não tivéssemos direito de ali estar, mas estamos, acontece o prazer máximo do cinema. O cinema não é razão e intelecto, nem ética ou estética, é a única forma afectuosa de voyeurismo.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Quando te vejo aparecer penso logo que raio é que terei escrito mal. Quando não é, como acima não é, agradeço aos deuses a benção e ponho-me a pensar que era bom apareceres mais às vezes, pode ser a cantar!, porque este blog sem Pedros mais parece um blog de Paulo.

  6. Fausto diz:

    Caro Manuel S. Fonseca,

    Infelizmente não tenho acompanhado este blog com a regularidade desejada e este seu post faz me imaginar o que tenho perdido. Muito obrigado pelas primeiras duas (grandes) recordações do Deer Hunter e do Jaws. Vi o Deer Hunter pela primeira vez no inicio da adolescência 12–13 anos claramente uma idade pouco adequada à beleza e violência do filme. A violência da cena da roleta russa quando Deniro vê morrer o amigo (não me lembro do nome da personagem do Christopher Walken) faz com que ainda hoje me emocione com a musica de stanley myers sempre que a oiço numa simples ida de carro para o trabalho. Mais tarde, mais adulto, voltei a ver este filme e completei as valiosas embora violentas recordações dos meus 12 anos com a beleza de uma história de amizade e com as paisagens sufocantes das montanhas das cenas de caça ao veado. Ia escrever algo sobre o Jaws mas pronto, fui ao youtube ouvir a musica e já não consigo ver o monitor. Muito obrigado e um abraço,

    Fausto

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Caro Fausto,
      visite-nos sempre: vai ver que encontra aqui, neste nosso cemitéiro, matéria muito variada, tanta como os autores, 14 ao todo, que animam esta casa.
      Agredeço-lhe o seu comentário cinéfilo e ainda bem que sobreviveu em bom estado ao espectáculo que é ver o Deer Hunter na primeira adolescência. Só prova que o filme é mesmo bom.
      Abraço

  7. Fausto diz:

    Caro Manuel S. Fonseca,

    Estou de volta para a parte II e prometo não me alongar em demasia. Já não me lembro do que lhe ia dizer sobre o Jaws mas tenho algumas recordações cinematográficas para partilhar consigo:

    1) Filme Cinema Paraíso, diálogo entre o Alfredo já velhote e cego (tinha perdido a visão no incêndio do cinema) com toto na estação de comboio no momento da partida deste último.

    2) Filme Fargo, o diálogo entre Frances MacDorman e o marido quando ele se levanta mais cedo para lhe fazer ovos mexidos (ela estava grávida no filme)

    3) Filme Love Actually (o amor acontece), embora ligeiro tem uma cena que muito me marcou pela beleza da representação de uma senhora que, para mim, é uma das grandes atrizes da actualidade — Emma Thompson, quando ela descobre que, afinal, o colar não era para ela.

    4) Ultimos segundos do padrinho 3

    5) Ultimos segundos do Gran Torino (que grande filme)

    6) Dialogo de Jack Nicholson com o “chefe” no voando sobre um ninho de cucos do milos forman

    7) Momento em que o soldado (cujo o nome do actor não me lembro) lê a carta da mulher a dizer que se apaixonou por outro homem em Thin Red Line de Terrence Mallick.

    8) Momento da escolha de sofia no filme Sophie’s Choice.

    Um abraço,

    Fausto

  8. Manuel S. Fonseca diz:

    E como reincidiu, reincido eu também: bela lista a sua. Eu, como gosto de cenas curtas, escolho os primeiros 30 minutos do primeiro The Godfather. É um assombro, essa cena do casamento da filha de Don Corleone. A perfeição, diria.

  9. Fausto diz:

    Sem dúvida a perfeição em filme esses primeiros 30min. Mais duas (e prometo que acabo):

    1.) Cena do Tango no Perfume de mulher
    2.) A perfeição da cena e representação de Christoph Waltz (Hans Landa) na primeira cena dos Inglorious Bastards nos Alpes Franceses. Uma obra de arte.

    um abraço

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