Um dia na selva

Piquenique na floresta de Xe Pian — foto tc

                 Saio para o passeio que havia combinado no dia anterior na casa do turismo: na floresta…em elefante. Sei que o meu anfitrião, Hudong, não fica aborrecido: há 13 paquidermes em Khiet Ngong e os rendimentos dos passeios turísticos são divididos pela comunidade.  A aldeia recebe cerca de 3000 visitantes por ano. Cada viagem de elefante pelo Parque Natural de Xe Pian custa 30 euros, para duas pessoas. Esse dinheiro vai para a caixa comum e é distribuído, não apenas entre os donos dos elefantes, mas por todos os que tratam dos bichos — e todos têm de se revezar: os animais ocupam-lhes muito tempo.           

             Nenhum dos meus companheiros passaria no casting para Tarzan, e eu, sem banho há dois dias, ainda menos para Jane. Mas para Jumbo, temos contrato: Nam vai na perfeição. Bem, é fêmea, não se pode pedir tudo.  Com o condutor Laoh e o guia Toui, formamos um quarteto de filme…série B ou assim.  Toui tem boa voz e canta em lao canções de musical romântico, passe o pleonasmo.  É o único que pode pôr legendas nesta história — entende inglês, benzódeus.             

              Há sofá de bambu para dois no dorso, o condutor vai entre as orelhas ao comando. Somos três e um piquenique em cima da Nam, em passo lento. Sinto-me abusadora, eles riem-se: este é o trabalho mais leve que um elefante pode ter. Antes cortavam e carregavam árvores para construção. Não como estas gigantes, de folhagem densa. Estamos em área protegida. Nam pára sempre que detecta pasto tenro: a toda a hora. A tromba ergue-se em busca das melhores folhas. Se puder passa 20 horas a comer, que chatice ter de dormir quatro.                         

                O nosso piquenique vai além das verduras: tem arroz com um saboroso refogado de peixe picante. Sobremesa de manga e bananas, que partilhamos com a Nam. Ela come um cacho de cada vez! Fica à espera enquanto comemos na margem do regato. Não é preciso prendê-la: estes animais que cresceram com humanos não fogem. Como tem o nosso sofá em cima, não pode rebolar-se na água. Laoh não a deixa passar calor por muito tempo. O banho à mão dura um quarto de hora. Ela, deliciada. Se a água salobra parecesse mais atraente que os meus toalhetes perfumados, nem eu me importaria de fazer figura de elefante.

Comentários a “Um dia na selva” (4)

  1. manuel s. fonseca diz:

    Que viagem principesca! E um banhinho à mão faz com que o mais pintado (ou pintada) queira logo ser elefante.

  2. Turmalina diz:

    Acho esse contato, com pessoas, cultura e natureza tão diferentes de nós, algo libertador. Alguns, infelizmente, só conseguem se incomodar com a saída da zona de conforto.
    Entretanto, muitos outros conseguem experimentar na alma como é colocar-se na vida de outra pessoa, viver como vive o outro e ficar feliz assim.
    Já me senti muito feliz andando quilômetros numa estrada poeirenta no banco duro de um jeep, para no final do dia dormir numa rede e comer uma comida preparada no fogão à lenha numa cozinha de chão de terra batida.
    Como também já desci as ruelas de favelas, aonde fui muito bem recebida, para compreender as dificuldades daquela gente. Foi uma honra!
    Só faltou o elefante :o)
    Hoje confesso que o calor intenso me atrapalha um pouco e já não me arrisco a grandes aventuras, mas incentivo toda e qualquer iniciativa nesse sentido. Isso é viver!

  3. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Não sei se ficou a apetecer-me a manga, se o peixinho picante, se a margem do rio. Que linda menina elefante, esta sua. Gosto destas bichezas.

  4. Turmalina diz:

    Em tempo, esse post me fez lembrar também dessa canção:

    http://www.youtube.com/watch?v=mM_Wc1dQRbM&feature=related

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