Quando eu era pequena, não gostava de comer (devia ser mesmo pequena). E o meu pai, com a paciência dele, inventava: fazia soldadinhos. Quadradinhos de presunto sobre quadradinhos de pão e aqui temos um exército num pires. Rodela de tomate sobre retalho de alface, e lá ía a bandeira portuguesa para a goela.
Desde que fosse pão com histórias, a coisa ía. Papá, os soldadinhos saem de casa para ir correr mundo? Mundo, munto, fatia de presunto. O mundo é aqui no prato? Prato, pato, cabeça de gato. O mundo são muitos quadradinhos grandes. E este soldadinho vai de Singapura para Hong Kong. A minha boca era Hong Kong, eu o King Kong a comer um soldadinho. Papá, eles têm que lutar muito? Sim, minha filha, a floresta é muito perigosa. E lá seguia meia folha de alface, arbusto poderoso a camuflar perna de chumbo.
De batalha em batalha, de prato em prato, lá fui engolindo migalhas de Portugal do Minho a Timor. Miolo de Guiné, côdeas de Angola, S.Tomé uma ilha de tomate com sal.
Meu papá, gosto de ti do tamanho dos quadradinhos todos, mas não quero mais. O pai já não volta para lá, meu fifi. Só mais este, vá. Ah, paciência de pai, são horas de jantar e ainda vais no lanche. Vamos, agora um de queijo. Este não, papá, olha, o queijo caiu, não se come um soldadinho sem bóina. Amarela como aquelas cartas com muitas linhas que mandavas à mamã, vais mandar mais cartas daquelas? O pai não volta para lá, só mais este, vá.
As histórias do pão tinham sempre pouco sumo. O único sangue era molho de tomate. E tudo o que então aprendi sobre a guerra colonial foi pão com presunto e nomes pitorescos. Distraía-me a olhar para os piões ou berlindes à minha espera, e lá marchava mais um soldadinho.




















Teresa, que gostoso texto. Aqui, no meu nordeste, fazemos “capitão”: feijão temperado com carne de sol e misturado com farinha (às vezes falta a carne). Tudo amassadinho, bolinhos com cabeça e zás, pro bucho, rapidinho. Todas um pouco rainhas de copas nesta brincadeira de se ter fome.
Teresa, não conheço ninguém que tenha comido a guerra colonial com tanta inocência e tanto apetite. Abençoada menina.
Teresa! Que bom. Já tinha saudades da sua voz tão menina ina inha. O meu ouvido gosta-a.