Quantas voltas tem o mundo?


Apresentou-se como Rikio Hossback, redator do Travel Almanac. Vinha credenciado pelo sr. Pedro Norton, a mando do sr. Manuel Fonseca — as mais finas referências, portanto. Queria coisas, vá lá que não era vendedor.
Foi brusco de entrada, julgando que assim me desarmava e que eu já tinha o discurso na ponta da língua. Tinha-o era tomado de ponta, sem paciência para perguntas teutónicas.
Então? — disse.
Então o quê? — retorqui — Faça o favor de dizer ao que vem.
Era umas perguntinhas sobre viagens, hotéis, experiências dessas…
Não me apetecem inquéritos. Quero que lhe conte tudo como deve ser?
Se fizer o favor.
Serei económico. Relatarei apenas os transes decisivos.
Seja.

A primeira grande viagem de que tenho memória foi no elétrico nº 2, a riscar Lisboa ao meio, do Lumiar ao Martim Moniz. Ir à Baixa tinha o prémio de andar nas escadas rolantes do Grandella – um frisson impagável. Valia bem a pena as enormes e variadas horas truc truc por ali fora: Alameda das Linhas de Torrres, Campo Grande, Av. Da República, Estefânia, Campo Santana, S. Lázaro e enfim o descampado do Martim Moniz no sopé do castelo. Demorava mais a percorrer do que a contar; parecia um tarde inteira e quase dava pena desembarcar, tão entretida era a jornada. Muito mais tarde, li num conto de José Rodrigues Miguéis, acho que “Saudades para a Dona Genciana” (agora não tenho como confirmar), uma evocação lírica dos elétricos de Lisboa, em tudo igual ao que eu vivia a bordo do nº 2.

A segunda grande viagem, continuava eu a ser criança, era muito mais temerária. Minha mãe acordava-me de madrugada e íamos até ao Areeiro apanhar a camioneta para o Vale. Uma aventura infindável, ao longo de uns extensíssimos 50 kms, que obrigava a xixis preparatórios e farnel para o meio da manhã. Uma a uma, com método e minúcia, a camioneta dava conhecer todas as povoações, lugares e vilas entre Lisboa e Vila Franca, em todas resfolegando e vibrando as vidraças como numa derradeira etapa. Desembarcava-se na indolente Azambuja e havia ainda que esperar a carreira para Alcoentre, a qual evoluía agora com peripécias mais rústicas e informais. Era gloriosa a entrada no Vale: os miúdos a empoleirarem-se nas escadas traseiras de acesso ao tejadilho, as mulheres a virem à porta, os homens afastando-se do monstro para a berma, o revisor a saltar de repente em andamento para perseguir os tais miúdos. Poucas vezes consegui noutras viagens repetir tão plena sensação de “enfim chegámos”.

A terceira grande viagem foi assaz burguesa. No princípio dos anos 70, mesmo antes da crise petrolífera, a pequena burguesia portuguesa constatou que lhe sobravam algumas economias. Começavam assim os charters para Londres da Abreu, na famigerada Court Line. Essa minha primeira viagem de avião desiludiu: a terra lá em baixa passava devagar e não à velocidade estonteante prometida pelos 800km/h da aeronave. Em Londres confirmaram-se todas as lendas urbanas: os homens tinham cabelos compridos, as miúdas andavam de mini saia com imprevidência, os polícias eram gentis (eu vi uma hippie a beijar um bobby!), havia ajuntamentos de pessoas sem horror das autoridades, podia-se cantar e gritar nas ruas sem desacato e estava em cartaz o escandaloso “The Clockwork Orange”, que não me foi permitido ver. Aos 12 anos estivera no mundo – e era grande.

Dash Snow, “Untitled (Hell)”, 2005

Algumas tribos africanas mais avisadas, agarram nos rapazes, circuncisam-nos e largam-nos na floresta. Eles que voltem semanas depois, sobrevividos e já adultos. Nos anos 80, os jovens europeus, sem que percebessem, passavam por um ritual idêntico – chamava-se inter rail e foi a minha quarta viagem. De mochila às costas parti, com os meus pais a acenarem adeuses em St. Apolónia, um pouco preocupados. Estive um mês sem dar novas, nesses tempos sem telemóveis, nem trocos dispensáveis, nem vagar para informes. No regresso, fui lacónico nos relatos, para não os afligir, descrevendo apenas os episódios mais inofensivos: a parcimoniosa Hungria socialista, onde me impressionara um estendal urbano de cuecas como só as velhas mais soezas usavam em Portugal; a familiar Grécia, tão igual a nós, pois tudo recordava o passado glorioso e nada se mostrava interessante no presente; a circunspecta Viena de Áustria, sem migalha de paciência para mochileiros. Tudo o mais que vivi, ainda hoje creio ser extemporâneo relatar; deixemos correr mais umas décadas. O saldo logístico desse primeiro inter rail foi decente: um número igual de dormidas ao relento e em catres de albergue e zero sobras das 10 latas de atum com que me tinha aviado. Conheci quem fizesse pior.

A quinta viagem foi ao luxo. Na companhia de um senhor muito conhecido de todos vós, éramos dois executivos a caminho de Los Angeles com mordomias adequadas à nossa posição empresarial. Hoje será capaz de parecer irresponsável o que à época era banal e mesmo necessário para que os portuguesitos não desembarcassem em Hollywood com ares de remediados, mas de igual para igual com o resto do mundo. Ainda guardo os pijamas de bom algodão egípcio da First da British e em melhor cofre preservo as belas memórias de andar por Los Angeles como se lhe pertencesse. Já que podíamos, fazíamos vida de filme.

Não houve mais nada?
Houve muito mais, mas estas sobram para chegar onde estou. Só me resta declarar que ao contrário doutros cavalheiros, nunca me comoveu o que se passava portas adentro do La Chunga de Cannes. Been there, done that, digo eu armado aos cucos. Para que saibam, aquilo é hoje um restaurante de grandes janelas, com os interiores à mostra. Já não se guardam segredos.

Comentários a “Quantas voltas tem o mundo?” (5)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Gostei de te ver, groovy, em London aos 12 anos. E, antes, a antecipares Rodrigues Miguéis, pelas linhas de um eléctrico.
    Mas temos aqui um sério problema. Ou a Rikio se vestiu de mulher para mim, embora seja um homem, ou temendo o pior contigo apresentou-se-te de homem escondendo a mulher que é. Como a Eugénia, já foi também entrevistada por ela, aguardo ansioso a confirmação da misteriosa identidade desta Sylvia Scarlet!

  2. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Poderia ter contado de mais retroactivas viagens, José Navarro, teria continuado a lê-las, mesmo que fossem assaz burguesas.

    • José Navarro de Andrade diz:

      Obrigado pelo seu apreço querida Eugénia, mas tive que me conter senão ficava um lençol de king size bed. Short é short, como bem promove. O Mali, a China, o Pantanal, a África do Sul e a burguesa Orlando, tiveram que ficar na gaveta.

  3. Turmalina diz:

    José, sua Genciana me lembrou de Violeta Genciana, que minha avó usava para picadas de inseto quando íamos à fazenda aonde viviam suas primas.Pequena, eu tinha medo das histórias que contavam por lá como o Curupira e a Mula sem cabeça.
    Cá entre nós, as mães eram um tanto mais corajosas nos anos 80, não? Não consigo imaginar nos dias de hoje um filho ficar fora tanto tempo e sem comunicação.
    Gostei de tudo que li!

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