
Leo McCarey com ZaSu Pitts e Charles Laughton
Uma comédia que nos faça chorar continua a ser uma comédia? Ruggles of Red Gap, um filme de 1935, assinado pelo genial Leo McCarey, que filmou Laurel e Hardy e os irmãos Marx, é a melhor e mais inteligente comédia que conheço. Charles Laughton faz um mordomo inglês que um aristocrata perde ao jogo para um milionário americano genuinamente provinciano.
Ruggles, o mordomo, é mais rígido do que um pau de vassoura, como rígida é a etiqueta que venera e a estratificação social a que se submete.
Como é evidente, a vida em Red Gap, ao lado do poço de espontaneidade que é o milionário americano, revela um mundo novo ao emproado e submisso criado inglês. E quando já estamos perto do fim do filme, é nesta cena, que eu, se estiver no escuro da sala de cinema, choro sempre *.
Claro que o pasmoso e tão bem escrito discurso de Lincoln ajuda muito. Dito no campo onde quatro meses antes a batalha de Gettysburg tinha ceifado 7.500 vidas, o discurso converteu-se numa referência da cultura democrática americana.
Mas a profunda humanidade que nesta cena nos comove vem muito da inversão de papéis a que assistimos e na adopção, pelo conservador e convencional mordomo, de uma liberdade individual que nunca imaginara ou sonhara.
Já agora, que os nossos mortos não tenham também sido em vão e que “this nation, under God, shall have a new birth of freedom—and that government of the people, by the people, for the people, shall not perish from the earth.”
* É mentira. Até a ver isto no youtube acabo numa choradeira. Uma vergonha.

















Grande! Uma finta a Capra. Tenho uma tese: todos, os filmes americanos, todos, sobretudo os actuais, são políticos. Não é só serem politizados em sentido lato, mas políticos deveras, no modo como mostram as instituições, sempre com um “olhar”, ou como introduzem o poder “político” na narrativa, sempre com um ponto de vista.
Thanks man. Há, sim, uma ideia de “cidade” neste McCarey. Mas ele finta sempre o Capra: tem a mesma ternura só que com riso e nonsense em cima. Em todo o caso, lembro que o “An Affair to Remember” apenas deve ser visto depois da compra de uma caixa de lenços de seda (kleenexes, não, por favor, ou não fossemos todos mordomos ingleses).
Um olhar estrangeiro, não tão estrangeiro assim.
Pois é, já deixou de ser o estrangeiro e já na integração dele que os outros conferem o patriotismo que tinham esquecido, não é, Turmalina?
Que bem lembradas estas cenas, Manel.
Mesmo só em excertos comovem.
Pode ser tão fina a linha que separa a lágrima do riso, não é?
Mas é preciso ser muito bom para conseguir isso.
Teresa, não estão mal lembradas, não, que eu já sou só lembrança.
O McCarey era um daqueles finos realizadores católicos que, como o Hitch e o Ford, fizeram a alegria de Hollywood. Julgo que a plena humanidade das personagens dele advem de uma mundiviância particular…
A minha ignorância desconhecia tudo o que nos trouxe. Mas já sabia que pode chorar-se numa comédia — é mesmo o melhor dos lugares para chorar.
Tem de ir ver o filme. Acho que o Paulo Branco tem uma cópia. Faça um abaixo assinado para que o filme faça um périplo que inclua a Sardenha. Eu subscrevo. Vai ver que não dá o seu tempo por perdido.