Oeste de novo selvagem

Mark Ruwedel, “California Eastern #12″, 2001

Será que Larry McMurtry conhece Mark Ruwedel? Venho então apresentá-los porque ambos concordam em murmurar-nos a memória do Oeste.
Como se sabe, o oeste americano só existiu enquanto imaginação, porque aquilo foi uma coisa bárbara de violência, brutal de esforço, ingrata de proveito e muito pouco recomendável para a saúde e para a moral. Ou seja: o património ideal para uma gesta heróica e um épico de proporções sobre humanas. O Oeste foi a melhor ficção do séc. XX acerca do séc. XIX, resgatando o que de mais grandioso, puro e generoso ficou desse passado – permite-nos o orgulho de sermos o que somos.
Passada a fase eufórica e quando se teve que reconhecer as mãos sujas, os mais prudentes, em vez de desmanchar a glória numa punição, tiveram tanto juízo como arte em transformar o Oeste na nostalgia do Oeste perdido que nunca houve. Foram-se os dedos? Que fique a memória dos anéis.
No topo de tais nostálgicos, bastante realistas para não serem sentimentais, suficientemente seguros para prescindirem do cinismo, colocaria Larry McMurtry. É um belíssimo escritor, embora de prestígio enevoado pelo estigma de autor de paperback, e um notável alfarrabista, sustentando, por puro prazer, um gigantesco armazém de livros raros na terreola onde vive: Archer City, um remoto canto do Norte do Texas. Mas talvez seja mais conhecido pelos argumentos de cinema que assinou: Hud (o melhor filme de Paul Newman?), Terms of Edearment, The Last Picture Show e a sequela Texasville e a adaptação de um conto original de Annie Proulx que resultou em Brokeback Mountain.
Parece absurdo dizer isto de um escritor cinematográfico, mas a melhor imagem do pathos que rescende da escrita de McMurtry, palpitei-a em Mark Ruwedel. Aliás, foi ao contemplar as fotografias de Rwedel que automaticamente – c’est mon côté surréaliste – recordei as emoções de McMurtry.
Desde 1994 que Ruwedel se dedica a percorrer – e a fotografar – os trilhos onde outrora se alongavam os carris das linhas de caminho de ferro que atravessavam o Grande Oeste. Foi a sua construção a epopeia máxima da conquista do território, por entre perigos, tiroteios, doenças, negócios, traições, emboscadas, trabalhos forçados, fortunas rápidas e um bom punhado de massacres. À série deu o nome de “Westward the Course of Empire”.
Aquilo que resta é uma cicatriz inscrita na terra, mas observando com atenção, consegue-se ouvir o vento.

Central Pacific #7, 1994

Tonopah and Tidewater #23, 2002

San Diego and Arizona Eastern #7, 2003

Comentários a “Oeste de novo selvagem” (12)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Aprendi tudo, não sabia nada de MacMurtry, apesar de ter visto, os filmes. Também não conhecia Mark Rewedel, gostei deste grande silêncio para ouvir a memória dos carris.

  2. José Navarro de Andrade diz:

    há pequenos livros dele que são deliciosos e aconselho vivametne. Ora ainda bem que começo a poder retribuir o muito que tenho aprendido consigo.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Incrível, tenho a certeza de me lembrar daquela ponte com um comboio em cima e uma emboscada à frente! (não tenho memória cinematográfica que chegue para me lembrar se algum dos nomes dos filmes que citas corresponde à minha recordação já velha).
    Numa espécie de retrocesso arqueológico, gostei tanto disto quanto daquele teu fotógrafo que capta imagens de sítios classificados de ‘invisíveis’ ou ‘inexistentes’ nos EUA. Há um qualquer mistério temporal que as junta — acho eu.

    • José Navarro de Andrade diz:

      Mas é que está muito bem visto! Era o Trevor Paglen. Esse fotografava o que existe mas não é oficialmente reconhecido como existente, este fotografa o que apesar de já não existir ainda deixa marcas. Tudo muito próximo de facto — “mistério” e “temporal” são duas palavras que te invejo por não as ter escrito.

      • António Eça de Queiroz diz:

        Esse mesmo. As fotos dele são mágicas, aquele difuso apelo à curiosidade que o medo não consegue ignorar.
        Já estas cicartrizes são nostálgicas, não assustam mas doem um pouco.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Só li um McMurtry, o próprio Texasville. As fotografias fazem-lhe mais do que justiça, dando severidade poética à escassez da ficção. Great post.

  5. pedro marta santos diz:

    Zé, gostei muito do post, mas só uma achega: os guiões que o McMurtry assinou de facto foram o — belíssimo — argumento do “Brokeback Mountain” (com Diana Ossana) e o do “Last Picture Show” com o Bogdanovich (embora rezem as crónicas que o autor é, sobretudo, o Bogdanovich, como de resto era hábito com ele). O título que me chamou a atenção foi o “Hud”: o livro é do McMurtry, mas o guião é de uma das minhas parelhas favoritas de argumentistas, Irving Ravetch e Harriet Frank Jr. O guião do “Terms of Endearment” é inteiramente do James L. Brooks (como também é hábito neste) e o “Texasville” é totalmente Bogdanovich. Porém, o McMurtry é co-argumentista da minha série de tv preferida sobre o Oeste, o “Lonesome Dove” (grande Duvall). Abraço.

  6. José Navarro de Andrade diz:

    Obrigado pela coreção. Estava tão seguro de que sendo o autor dos livros também seria dos argumentos, já que tarimba não lhe falta, que não fui verificar. E não falei do Comanche Moon — que prefiro ao Lonesome Dove — porque sou parte interessada: comprei-o para o MOV, onde foi exibido em 2009.

  7. Joana Vasconcelos diz:

    Fantásticas imagens, Zé.
    É impressionante a força que tem o efeito combinado deses espantosos vestígios e da memória/imaginação: olha-se as imagens, belíssimas, e é como se se visse o que lá não está — vento e tudo, dizes bem.

    E apeteceu-me que alguém fotografasse assim a nossa linha do Tua.

  8. pedro marta santos diz:

    Vou já investigar esse “Comanche Moon”. Cheira-me bem.

  9. Marta Costa Reis diz:

    Gosto muito desta espécie de sinestesia que tu fazes, lá vão os nossos neurónios acendendo mas trocam-se e começam a cheirar as cores! Mas tenho de confessar que me faltam mesmo as cores…as imagens sabem-me a pouco sem aquela terra em todos os tons do vermelho.

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