Se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável
(Séneca – o jovem)
Esta tirada abateu-se-me Público abaixo um dia destes, no café Velásquez, à hora do almoço, e logo ali a crismei como a mais parva e mais datada declaração de todos os tempos mais ou menos conhecidos.
Não teria o tutor de Nero ouvido falar de Ulisses, ou será que o mais político dos filósofos romanos, aquele que partilhou leito e delícias ao lado de Agripina (e que mais tarde abrilhantou com oratória de luxo a sua condenação à morte) e se reclamava dos Estóicos, entendia que o mito grego representava apenas a dramatização simbólica da excepção à regra – a sua regra?
Como todos sabemos Camões contradisse Séneca de forma limpa, comprovando em palavras únicas que foi exactamente a muitos portos desconhecidos que 1500 anos mais tarde demandaram os melhores ventos que qualquer marinheiro poderia desejar.
Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Zarco, Gama, Cabral, Colombo, Magalhães, Cook e tantos outros desejaram-nos e obtiveram-nos.
Séneca caracterizou o fracasso desaconselhando a aventura e riscos inerentes pois estes seriam o cadinho do falhanço.
E é certo que muita gente morreu na peripécia dos Descobrimentos – como aliás em toda a parte e a toda a hora.
Muito bem.
Isto foi num dia, porque no seguinte apareceu uma outra, filha dum outro Público, que é uma verdadeira (repito da TSF que oiço neste instante) mudança de paradigma! Mas, apesar do seu optimismo simplista, a frase do para mim desconhecido escritor espanhol Pio Baroja é bem melhor que a minha radiofónica classificação:
O contágio dos preconceitos faz crer muitas vezes na dificuldade de coisas que não têm nada de difícil
Será mais isto – mas também nada de exageros.
Porque isto em si também está datado – o senhor que o pensou e escreveu nasceu no século XIX e morreu em 1956.
Ou seja: tendo em conta a relação comunicacional do presente somos levados a conjecturar que será num qualquer meio-termo entre estes dois extremos que se encontra a mais aceitável aproximação a um movimento bem sucedido – ainda que sempre no sentido Baroja-Séneca, nunca no contrário.
Porque se há coisa certa que neste momento vivemos esta materializa-se no nosso inapelável e total desconhecimento sobre o próximo (presumível) porto a que nos dirigimos.
Porque é isso que duma forma ou doutra estamos todos a fazer.


















O Brel, de porto em porto, nunca envelhece: está mais actual do que o aforismo do Séneca e o dito do Pio. Se cantássemos assim, que interessaria para que porto estávamos a ir.
Meu caro Antonio, seu texto me fez viajar, não exatamente por onde indicavas — me perdendo aqui e ali. Fiz duas paradas que achei por bem partilhar contigo. Uma Amsterdã, mesma e outra: http://www.youtube.com/watch?v=sApUBUg4V_w
e um porto que é naufrágio: http://www.youtube.com/watch?v=BJj9UpjBuk4
Gostei muito do passeio.
Muito bom, Luciana, Ana de Amsterdam já conhecia, claro.
Exactamente, adoro todo Brel e esta música em particular. E ele também era marinheiro, se não me engano…
Confesso, Antoine, pensei, logo ao início do texto, e pelos tempos em que vivemos, que nos ia atirar com o tio Aristófones à cabeça. Ufa…
Brel é uma chatice: não se pode gostar, faz da pessoa um passador, e só se consegue gostar muito.
Ps: um fotógrafo, cujo nome agora a minha memória não recorda ainda que o trabalho dele muito me alegre a retina, resolveu as questões que a sua fotografia coloca com a inteligência de Magritte — mais logo, ao fim da tarde, vou à procura desse malvado para lho trazer pela orelha. Vai gostar dele. Espero que goste.
Vim num pulinho: lembrei-me, por causa da polémica com a campanha do Tim Walker para a Hermés, e fui lá direitinha. Aqui tem o Philippe Ramette de que lhe falei.
Muito divertido, o seu Ramette, é o que se chama colocar as coisas na devida perspectiva.
Agora o Brel!… Se pudesse ser cantor queria ser como ele, o único francófono verdadeiramente fascinante. É como diz, só se gosta muito.