Há muito que a Quinta-feira da Ascensão deixou de ser feriado nacional e que a liturgia católica moveu para o domingo seguinte a correspondente celebração litúrgica. Subsiste, porém, neste quadragésimo dia após a Páscoa a colorida tradição da Espiga, radicada em antigos cultos pagãos associados ao ressurgir da natureza após o desolado Inverno.
Desde tempos imemoriais que ao amanhecer deste dia se apanham no campo espigas de trigo, rebentos e flores silvestres que, atados em ramos, se guardam em casa por todo o ano seguinte. Estes “ramos da Espiga”, diz-se, atraem tudo o que de bom simbolizam as diferentes plantas neles juntas: o trigo o pão; o malmequer o ouro e a prata; a papoila o amor e a vida; a oliveira a paz; a videira a alegria e o alecrim a saúde e a força.
É muito de cidade a minha Quinta-Feira da Espiga. Espreito, manhã cedo, as mulheres com os ramos empilhados em cestos ou em caixotes, um pouco por todo o lado — nos passeios e esquinas mais movimentados, à entrada das lojas, nos corredores do metropolitano. Acho graça à ideia de o campo, primaveril como agora está, vir sorrateiro até nós. Faço por abstrair do facto de os ditos ramos, colhidos de madrugada, quando não de véspera, se apresentarem às vezes murchos e quase sempre muito fanados de papoilas. E também da aterradora hiperinflacção que ano após ano atinge o seu preço. Lembro-me de os ver atrás das portas nas cozinhas de quando eu era pequena. E também da minha primeira casa e do gosto com que nela pendurei o meu primeiro ramo da Espiga. Desde então que, sem falhas, trato das Espigas para as várias casas - a minha, mas também as da família e de amigos — que de tantas formas me pertencem.
Desta vez trouxe mais um ramo do que é costume. Deixo-o aqui, virtualmente pendurado. Para que tenhamos saúde, prosperidade e alegria, de preferência em abundância. Não posso garantir que resulte em pleno — mas nestes tempos difíceis que correm, it’s worth a try ..


















Gostei, sobretudo do raminho virtual…a trazer humanização a estes espaços, que se vão colorindo de gentes.
O nosso raminho virtual foi muito bem entregue e recebido. Também “colho” sempre um ramo neste dia e lá fica pendurado um ano inteiro na cozinha a lembrar-nos as coisas boas da vida.
Que bela Espiga aqui nos deixa a todos!
Gosto muito da Quinta-Feira da Espiga por toda a alegria e esperança que lhe associo. Agrada-me a beleza do ramo da Espiga em si mas também, e sobretudo, o facto de chamar a atenção para o que de bom temos e de, quando algo não corre tão bem, dar esperança de que melhores tempos virão.
Muito obrigada pelo ramo virtual que aqui nos deixa! Retribuo os votos associados à Espiga, para que esta lhe traga saúde, alegria, amor, paz e prosperidade!
Obrigada, querida Joana!!!!! Gostei do alegre colorido e principalmente da idéia de trazer a natureza e a fé à todos. Que os seus votos se concretizem :o)
Como visitante assíduo ( e feliz por sê-lo ) deste espaço, também tomei para mim a sua linda espiga, do tempo em que os afectos e os ritos nos surpeendiam e enchiam o coração de alegrias espontâneas, talvez porque crianças.
Mas aí sigo o princípio de guardar sempre a criança que há em mim, assim vou saboreando o passado e o presente, do futuro tratarei mais tarde.
Muito obrigado, Joana, não imagina quanto gostei da sua espiga !
A espiga, lá em casa, é dos meus últimos redutos de menina-filha. É que é a minha mãe quem, pacientemente, a oferece anualmente, garantindo que, na azáfama dos meus dias, essas coisas simbólicas não se perdem. Confesso que achava mais uma mania da minha mãe que outra coisa. Afinal, “somos” mais :)
que queriiiiida Joana
Obrigada
Que bom — há já muitos anos que faço batota: apanho-as em Fátima, em Maio, pouquinhas, só as suficientes para 3 portas, e levo-as à Benção de Domingo. Pensava que já ninguém fazia isto. Fico contente que tenha trazido a espiga para nosso lindo blog. Merci.
Queridos George Sand, Marta, Teresa, Turmalina, Fernando, Anita, Rita e Eugénia, quando logo pela manhã pendurei o raminho virtual da Espiga por detrás da porta de entrada deste nosso ETGM, fi-lo em casa minha. Como esta de onde agora escrevo, como outras a que me prendem fortes laços de afecto.
Porque é exactamente assim que eu sinto este blog: um espaço acolhedor, animado e partilhado, onde podemos ser nós próprios e onde temos o gosto de receber e de desfrutar da companhia dos amigos — virtuais, é certo, mas nem por isso menos reais. Os vossos sentidos e tocantes comentários confirmaram aquilo que há muito suspeitava: que não sou a única a senti-lo. E isso deixou-me muito, muito feliz!
Bem hajam, pois. Um beijo.
Muito bom este seu périplo pagão, lembrei-me das maias e daquele ramo de espigas e flores seguro por duas mãos do Picasso.
Qualquer tradição que inclua flores devia ser moralmente obrigatória.
Curiosamente, hoje comprei um ramo de flores amarelas.
(afinal você é uma disfarçada: é bentinhos para aqui e para ali mas depois, vai-se a ver, e é só paganices…)
Mas há algo melhor do que uma boa paganice misturada com um dia santo? Como o Natal em Dezembro, por exemplo :)
Obrigado pelas maias. Sorte e saúde ‘miga.
Resulta, vai ver que resulta, Joana. Domingo à noite, já vamos todos respirar mais aliviados. Tempos pagãos sim, mas mais senatoriais e menos caligulares.
São as maias, pois são António. Nem mais. E sabia que também eu me lembrei dessa imagem que refere?
(quanto à rezinguice entre parêntesis, palavra que não percebo tanta estranheza: por esta altura já deveria saber que uma rapariga completa como eu deita a mão a tudo o que de bom apanha, na terra como nos céus … mas que coisa).
Absolutamente de acordo, Marta. Como o inigualável e providencial São Gonçalo de Amarante, que logo nos primeiros dias tratei de trazer aqui para o lindo cemitério (http://www.etudogentemorta.com/2010/01/casai-me-que-bem-podeis/)
De nada Zézinho, my pleasure, que bom que gostaste!
Pois que também a Mãe Natureza o/nos ouça, Manuel!