Era o liceu

Foi este o meu liceu. Por ser o meu, mas mesmo que não o fosse, é o mais belo liceu que conheço. Tem uns braços abertos sempre a dizerem-me “sê grande” (a mim, tão pequeno), duas sucessivas escadarias (da avenida Brito Godins até lá acima, eram uns bons três metros de desnível) sempre a dizerem-me “sobe mais um degrau”. Era imponente e carinhoso. Foi clássico e moderno. Liceu de rapazes e de raparigas, liceu de corpo e alma. Ficou-me com o raio do coração.

 

Este foi o meu primeiro dia. Serei eu? Sou, de certeza, eu. Era a praxe, a única praxe, fazer-se uma careca de frade a cada caloiro. Como se entrássemos no mosteiro. Ou seja, antes de entrarmos no mosteiro, era, o nosso último canto profano, mais gentil do que grosseiro, a nossa macia carmina burana. Depois entrávamos: para saber, para uma devoção, a de sermos muito melhores. Era o liceu.

 

E sei bem que estou nesta fotografia. Mas onde?

ps — no campanário do liceu — façam o favor de olhar para a primeira foto, à esquerda - havia um ninho de corvos. 7 anos lá estive, 7 anos lá estiveram, outros 7 tinham antes estado, mais 7 depois lá ficaram. Ou como escreveu Pessoa escrevendo Poe: Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»  /Disse o corvo, «Nunca mais».

 

Comentários a “Era o liceu” (13)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    O edifício é imponente e elegante. Alguma da chamada arquitectura do Estado Novo/Duarte Pacheco era isso mesmo.
    Tem o seu quê de monacal, daí a tonsura — e assim te tornaste santo sem saber…
    Não foi?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Acho que ninguém tem vocação para santo. Só se vai para depois de se falhar a vocação para demónio. ´

      Olha, o Liceu foi o projecto de um “demónio da educação”, Monsenhor Alves da Cunha. São ínvios os caminhos da santidade…

  2. Fernando Vale diz:

    Pois é, caro Manuel, África fica-nos com o “raio do coração”…como tão bem diz !
    Bem antes no tempo e com menos idade passei pelas terras vizinhas do Congo, onde minha mãe (à falta de Liceu português) me ensinou as primeiras letras e contas. Passava-se a cena pela frescura matinal numa longa varanda da casa térrea, mesmo ao lado de um jardim onde pontificava uma enorme palmeira que abrigava dezenas de pássaros, com aquelas cores tropicais que não se encontram na Lusitânia. Pelas 11 horas servia-se o intervalo de “mata bicho”, por vezes com um bifinho de carne maravilha e pão caseiro…e as jornadas de piroga rio acima, qual Willard “avant la lettre” em busca de sua missão Kurtziana. Fcou-me lá o Destino !

    God, I was a really lucky bastard !!!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Fernando, o Congo deve ter sido a hell of a ride!!! Meus matabichos eram iguais: um prego no pão caseiro e depois dos 15 anos, quando fora de casa e com o meu pai, com direito a uma cerveja preta. É o diabo, este raio de coração que tão bem nos arrancaram.

  3. ccf diz:

    E o diabo é que quando queremos recuperar já não sabe ao mesmo. O matabicho da infância de uma menina em Luanda não podia ser prego no pão. Mas como não gostava de nada, só queria farinha de pau com água. Nunca encontrei em Portugal aquela farinha igual, porque era torrada e feita de modo caseiro. Em 2007, em Benguela, vi à venda uns sacos de plático com farinha igual à da minha infância, comprei-a muito entusiasmada pelo matabicho que teria no dia seguinte. E no dia seguinte mal contive as lágrimas pois não sabia ao que a minha memória tinha guardado como absolutamente delicioso. Não acredito que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes, podemos voltar, mas com o coração preparado para o choque da realidade. Guarde bem o seu liceu (também o da minha irmã mais velha por esses mesmos 7 anos) e se voltar lá, vá preparado.
    ~CC~

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Gostei de a ler ccf e agradeço-lhe o benévolo aviso. Mas já vê que, como o corvo de Poe, bem sei que “nunca mais”. Se quer que lhe diga é exactamente por isso, por saber que “nunca mais”, que me autorizo esta despudorada nostalgia africana. Ou seja, vou guardar tão bem o meu liceu como tão bem guardou a sua particular farinha de pau.

      ps — voltei em 86, ainda ano de guerra e miséria, ao salvador. Já era, como já era quando eu saí no final de 76, mutu ya kevela. Começava então outro e novo mundo.

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Que belo liceu, o seu, inspirador. E a memória dele, feliz e com voz de aluno. Mesmo a tonsura. Gostei tudo. Juventude posando para o futuro, lê-se na legenda. E do futuro também gostei.

    Ps: ó diabo, publiquei isto duas vezes?!

  5. Helena diz:

    por lá andei em 1962÷63÷64… fazendo terceiro e quarto anos… :)

Comentar