Esperara pelo meio-dia para lhe ligar. Mesmo assim, acordara-o. Desculpa, mas são os meus óculos, esqueci-me deles aí ontem e fazem-me tanta falta… Posso passar a buscá-los?
Avançou por entre o caos de pratos, copos, garrafas e cinzeiros. Depressa encontrou os óculos, lá onde estrategicamente os colocara mesmo antes de sair, com os últimos convivas do animado serão. Pronto, já os tenho! Esta sala está que mete medo! Deixa-me ajudar-te a dar um jeito nisto! Ele deixou, claro. Vou só tomar um duche, a ver se acabo de acordar … olha se quiseres um café, tens a máquina na cozinha, acho que ainda há cápsulas, eu não demoro. Saiu mas voltou segundos depois. Já me esquecia, a Sara deve estar aí a aparecer, ligou-me ainda agora, esqueceu-se cá dos óculos, diz que ficaram na entrada …
- Não te preocupes, eu trato dela.
Os óculos, pois claro. Grande sonsa. Passara boa parte da noite num crescendo de irritação a vê-la insinuar-se junto dele, com aquele ar de quem não parte um prato e as duas amigas feiosas a ajudar. E ele, o grande tanso, ainda inconsolável por causa da outra pindérica e prestes a deixar-se enredar, sem dar por nada, na teia da criatura.
Espreitou os presentes que se amontoavam numa cadeira, entre sacos e papéis de embrulho rasgados. Um jogo de toalhas turcas amarelas. Que espécie de anormal oferece toalhas a um amigo nos anos ? Ainda por cima amarelas …
Soou a campainha da porta. Ali onde estava ouvia o esquentador na cozinha, a água a correr na casa de banho. Com gestos rápidos despiu-se e descalçou-se. Enrolou-se na toalha amarela maior e pôs a outra na cabeça, tipo turbante. Fez um sorriso radioso e abriu a porta.
- Olá, entra, entra, ele está a tomar um duche, mas não demora.
A outra, estarrecida, pregada ao chão, no patamar, lá fora.
- eu … os meus óculos … ficaram cá …
- bem sei, são estes, não são? toma … não queres entrar? tomar um cafezinho?
- não, não, obrigada… tenho de ir, tenho mesmo … o carro mal parado, sabes como é …
Fechou a porta. Vestiu-se e dobrou as toalhas. Dirigiu-se à cozinha e fez dois cafés. Acabara de se sentar no sofá quando ele apareceu. Estendeu-lhe uma chávena.
- A Sara sempre passou, para buscar os óculos, mas vinha numa pressa doida, nem entrou …
- Numa pressa? Mas se ainda há bocado queria por força vir ajudar-me a arrumar tudo …
- Que estranho … bom, vai-se a ver e arranjou melhor programa… Mas deixa lá isso, tens-me aqui para o que for preciso! Estive a ver os teus presentes … Que bem lembradas, as toalhas: dão sempre imenso jeito, não achas?


















Delicious, as usual.…
Suddenly next Summer, enjoy it !
Fernando, courteous as always: gosto sempre de saber que gostou!
Wish you a beautiful, warm summer, too!
Que bem lembradas mesmo, Joana. Toalhas amarelas e risadas ao pequeno-almoço, obrigada. Timing de cinema, que bela “curta” à Hitchcock que esta história dava, com a heroína a estender muito inocente a chaveninha de café no fim, depois de ter feito das suas — e o assassinato nem é fisico.
Pois não Teresa, e é isso que o torna tremendo: um certeiro tiro right between the eyes, sem barulho, nem sangue. Um cadáver que vai morrer longe, pelos seus próprios meios. E, melhor que tudo, nada de testemunhas, impressões digitais ou outras provas comprometedoras…
Adorei o texto, excelente para começar o dia.E que também me lembrou que mais de uma vez dei toalhas à minha sogra no Natal, mas não eram amarelas.
Que óptimo que gostou, Turmalina.
E estou certa que a sua sogra deu sempre um uso bem mais convencional às toalhas: basta, garanto, o não serem nesse absurdo tom de amarelo…
Mas estou pensando em dar-lhe umas amarelas, só para variar um pouco.A vida aos 60 e poucos anos às vezes precisa de alguma agitação.
Joana,
o que me fez rir! Que texto genial. levado em crescendo até ao final, com arrematada punch line.
Que bem que soube.
Teresa, e que bem me soube a mim, ao fim um dia tremendamente trabalhoso, moída que estou como um punching bag, ler este seu comentário e ir reler a tal da punch line (uau).
As terríveis coisas que, em amarelo e atoalhados, se passam nas costas de um homem. Bela reviravolta na linha das histórias, so far…
Não sei a que se refere, Manuel: uma tarântula corrida à toalhada, um campo de batalha sem vestígios da mesma, um cafezinho quente servido com um sorriso, uma ajudante so devoted and well meaning, pronta para despejar cinzeiros, lavar copos à torneira e fazer máquinas e máquinas de pratos … só bondades, como diria a nossa EV.
Joana, adorei! Sempre detectei que nada escapa à mulherada (temos uns radares especiais incorporados é o que é :)), enquanto a eles tudo parece passar ao lado :))) às vezes, tem de se fazer justiça com as próprias toalhas, não é? especialmente se forem amarelas
Sabe, alienista, estou deveras convicta de que foi o intenso amarelo das toalhas o detonador de tão luminosa ideia! Que bom que gostou!
Querida Joana:
Sorrizinho irritante e sonso magistralmente traduzido em história e devidamente enroscado em turcos amarelos.
Enrola-se e entala-se o turco, aparência e realidade, num enredo *comme il faut* em short (1) que se preza, pois, como há pouco li:
“The amazing thing about the short story is that beginning and end make a strong loop. Epiphany expressed through analogy fuses past, present and future in a moment of flux. Epiphany encompasses answers to the questions posted by structure, reconciling the contraries inherent in the differences between appearance and reality on the one hand, and form and content on the other.”(1)
Magnífico *loop* narrativo para epifânico turbante amarelo. Que bem lembrado!
Gosto, pois. Então não gosto? É do melhor.
Cusca
(1) Uma short, como soi dizer-se na bloga… consta.
(2) Rohrberger, Mary. 2004. “Origins, Development, Substance and Design of the Short Story” in: The Art of Brevity. Excursions in Short Fiction Theory and Analysis. P. Winther, J. Lothe and H.H. Skei eds. Columbia: South Carolina University Press. 11.
Querida Cusca, gimme five: também eu, quanto mais mirava o sorrizinho da menina, mais o mesmo me parecia sonso e irritante, muito a condizer com o amarelo que tanto me desgosta …
Agora a sério, que não é caso para menos: impressive, quite impressive o trechozinho sobre short story (sem artigo definido, que é para não te pores praí a fazer género …) e sobretudo a constatação de que ele há autorizados quems que acham a doutrina do dito aplicável ao textozinho above … Só te digo: it really threw me for a loop!
Claro! Aquele maquiavelismo inter-pares que todos os homens desconfiam existir mas não conseguem detectar… A menos que apareça uma amarela Bellatrix a fazer das suas nas barbas de todo a gente, que foi o que foi, afinal.
Excelente!
Começo pela parte boa: gosto sempre muito de saber que gostou.
Mas, incauto António Benedito, por esta altura já deveria saber que há qualificativos que é totalmente desaconselhável, perigoso até, aplicar à malvada Bellatrix. Como por exemplo “amarela”. Depois queixe-se, é o que é …
Insisto: só promessas…
ah ah ah
Também eu, Rita, também eu, enquanto escrevinhava …
Gostei, Jeanne. Bom twist. Boa! Ou melhor, twisted.
Twisted indeed, como o turbantezinho amarelo … muito bom saber que gostou, Eugénia!
Joana, só pude pensar: que boba que fui fazendo a cirurgia de miopia, não há óculos a buscar e aqui faz demasiado calor para luvas… Mas tenho cá um jogo de toalhas vermelhas, cabe?
Mas que pergunta, Luciana! Se um par de toalhas amarelas tem este poder de fogo, não duvido que o seu conjunto de toalhas vermelhas está previsto – e proibido – nalgum artigo de alguma Convenção de Genebra sobre armas não convencionais …
Óculos vs toalhas… ninguém diga que são inanimados. Até ganharam vida! E o que eu me ri! Well done!
Marta, que divertida a ideia de toalhas e óculos em versão super animada (como os bules e as chávenas da Bela e o Monstro da Disney)!
Com as primeiras, triunfantes, a verem os segundos a afastar-se, estrafegados na mão nervosa da respectiva dona e a exclamarem, no regresso ao pacote: já fostes!!!
E não é que quando pensamos que nada de útil se pode fazer com um jogo de toalhas turcas amarelas (logo amarelas, ainda por cima!!!), este lindo blog e esta sua maravilhosa short dão-nos excelentes ideias?!
O que eu me fartei de rir à medida que ia lendo todo o desenrolar da história (e simultâneo enrolar maldoso de toalhas), acompanhando de perto o engraçado e eficaz plano da sua protagonista!
Num tipicamente português uso do que está “mais à mão” lá deram imenso jeito as toalhitas amarelas…
Gostei muito!!!
Teresinha, e o que eu gostei do “enrolar maldoso” das aparentemente imprestáveis toalhas!
Prova, afinal, da abrangência daquela Lei (não das nossas, das outras …) que se estudava, já não sei se em Ciências da Natureza, se em Físico-Química (para o caso, tanto faz) segundo a qual, na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma … Lavoisier, acho.
“O que fazem mulheres” é o título de um romance de Camilo que contém grandes promessas. Parece que estou a ler uma atualização, com o subtítulo “A verdade dos factos”. Continuo a aprender como se estivesse escondido num toucador e continuo a acreditar que somos um pouco lerdos face às táticas femininas…
Beware, Zé … não vá dar-se o caso de tão abundante quanto imprudente disclosure de “tácticas femininas” mais não ser que uma ardilosa manobra de diversão …
Demolidor. Genial. Surpreendente. E arrasadoramente feminino. Adorei (a minha primeira visita ao blog, arrastada via facebook atrás de uma curiosidade súbita sobre o que te poderia levar a ti, Joana, a escrever sobre toalhas turcas amarelas). Vou voltar (se voltar a ter tempo para isso nos próximos 10 anos).