
Sofia Areal (da exposição “SIM”), s.d.

Ana Vidigal, “Bolas azuis”(?), 2011 (?)
Está-se mesmo a ver: elas são circulares. Querendo, dá-se um passo em frente para dizer: as mulheres, as pinturas das mulheres, são circulares.
Círculos?, circunferências?, mulheres?, oh lala… [com sotaque francês no original] Está-se mesmo a ver onde é que isto iria parar apenas com um punhado de sintagmas freudianos: que divagações vaginais, que sugestivas comparações com a forma perfeita do círculo e a origem feminina da vida, que metáforas e metástases inteligentes se desenvolveriam acerca da harmonia do uno feminino e a sua serena interioridade vis a vis a desordem do múltiplo masculino, todo exterior; multiplicar analogias e interpretações, sobre a circularidade, a antiga forma redonda do mundo e das coisas que ele arrasta, na ordem natural feminina.
Eis o momento de fugir a sete pés dos gender studies, ou não chegaremos a lado nenhum por habitar.
– Então porque as juntaste?
– Porque a familiaridade que lhes vi ao princípio foi-se transformando em distância quanto mais as vejo. E foi este trajecto o que mais gostei de fazer.
Além das linhas e de tudo mais que neles é curvo, os quadros de Sofia aproximam-se ainda dos de Ana pela espessura. No liso e espelhado ecrã em que estamos agora a olhar para eles, é difícil perceber que há camadas rugosas por debaixo daquilo que aparece à superfície; pastas de tinta em Sofia, presumo, colagens de papel em Ana. Em ambos os casos o que vemos é um resultado, é o que vem ao de cimo e a fábrica subentende-se, poderia apalpar-se mas não se pode nada, porque é proibido tocar nas obras.
Daqui em diante tudo se afasta entre Sofia e Ana, cada qual apontando à sua estrela e de rota batida ao longo de cartografia própria.
Sofia traça circunferências com um gesto de mão, alavancada pelo braço, provavelmente auxiliada por um instrumento que lhe permita não ofender a retidão matemática. Ana desenha, recorta e cola círculos bem formados. Sofia é contorno, é linha, Ana é superfície, é espaço. Sofia sobrepõe órbitas, rastos da passagem do pincel; Ana acumula densidades, formas gravitacionais suspensas na composição. Sofia passou por ali, Ana ficou lá.
A suposta perfeição do círculo estragou as contas do conhecimento durante milénios. Além disso entre a circunferência e o círculo, são complementares mas diferentes as solicitações matemáticas e os resultados do entendimento. Fazer arte é também a intuição dos problemas que provavelmente nunca acudiram aos artistas quando trabalhavam na sua pintura.
Entre Sofia e Ana há dois maravilhosos – não sei se é a palavra adequada – corpos celestes que fazem uma tangente, mas seguem trajetórias diversas. Gosto muito da turbulência que este contacto provoca – mas já passou.

Ana Vidigal, “Claridade”, 2011

Sofia Areal

















Obrigada Zé! Gosto que o tenhas baptizado (ainda tem p?) de “bolas azuis”. Eu chamei-lhe “neblina”. E gosto muito de fazer par com a Sofia. Beijos
De facto o título que estava acima da imagem era “neblina”, mas depois quando o copiei a apareceu “bolas azuis”. Na dúvida escolhi o errado.
Gosto muito de círculos, circunferências, movimentos circulares, curvas e tudo que não indique uma reta.E de todos que nos trouxe gostei mais do branco da Sofia e da forma como ele foi formado.
Bela associação — e também gostei muito do ‘sim’ de Sofia que é realmente afirmativo
É de facto um bálsamo um artista a dizer SIM