Ai, o escândalo

Caminhavam pelo descuido da ociosa tarde. À volta delas, a cidade ardia em trânsito, transportes, homens e outras mulheres vergados ao peso da competitividade, por conta de outrem como assinavam nos recibos verdes.

- Sabes que ela, um dia, entrou nua na sala?
– Estás a brincar?
– Não estou, não.
– Ai o escândalo, que vergonha.
– Pois não, não houve escândalo nenhum. Estava ele, os amigos dele, as mulheres dos amigos e foi como se tivesse entrado o menino Jesus.

As quentíssimas quatro horas da tarde desenhavam um rio nítido. Sentaram-se as duas na esplanada. Pediram a graça de um chá frio.

- Queres uns scones?
– Menina, só tenho sede. Mas olha e ele não sabe? Dizem que ela se enrola com outros gajos.
– E ele?
– Ele? Com outros gajos?
– Ó filha, só tu para me fazeres rir. Já traçou metade da população feminina da cidade. E sabes que é que ele diz? É por amor! diz ele com aquele sorriso que dá logo vontade de matá-lo.
– Odeio esse tipo de promiscuidade.
– Ele também. Só o vi torcer o nariz num jantar quando o alarve do Arménio se saiu com esta: ‘O que é preciso é um gajo vir-se, nem que seja entre as pernas de uma cadeira’.
– Ordinarão.
– Foi o que ele disse. E voltou a jurar que com ele era sempre por amor. Mas que era impossível não se amar várias pessoas ao mesmo tempo.
– Um vadio. Nem a ela a deve amar, não achas.
– Não, não acho. Tomara eu que alguém me amasse como ele a ama a ela. Só de ver já acho que é melhor do que sexo.

O empregado pousou os chás na mesa e uma brisa fez círculos à volta do dourado vidro dos copos. No meio azul do rio três barcos à vela espreitavam a solidão.

- Olha, desculpa lá, se ele a ama porque é que a deixa andar com outros? Ou não sabe?
– Não é bem não saber. Ele é engenheiro, mas tem a mania da filosofia: diz que há coisas que não são da área do conhecimento. 
- Filósofo, agora. É mas é corno, desculpa lá.
– Ó querida, até ele se ria se te ouvisse. Um dia disse-nos que há coisas que já só se encontram no Camilo e no Eça, testas altas, esplêndidas. Hoje, disse ele, já não há testas para cornos!

A outra margem, difusa, desfazia-se contra a lenta vaga de calor, o perdido brado de uma invisível gaivota. As amigas recostavam-se no abraço das cadeiras, abriam agora um pouco mais as pernas à frescura do ar.

- Mas estavas lá quando ela entrou nua na sala?
– Não, mas a semana passada sim.
– Outra vez nua? Mas será que essa mulher chegará algum dia a vestir-se.
– Não seja parva, amor. Estávamos a rir-nos, uma coisa contagiosa. Ela veio do banho, uma toalha amarela enrolada à cabeça, outra à volta do tronco, amarela também. Mais luminosa do que um girassol de Van Gogh.
– Bolas, contigo é tudo kóltura…
– Espera, parva. O que foi, perguntou ela e só tínhamos olhos para as tolhas. Ele disse e ela sorriu. Saiu e dez minutos depois o sorriso dela ainda estava nos olhos dele. Vi eu. Falava connosco, bebia, levantava-se, sentava-se, mas nos olhos dele só estava o sorriso dela, a fiada imaculada de dentes, a boca tão encarnada bonita dela.
– …
– Matava por ficar assim, presa, guardada, nos olhos de alta segurança dele.

Puxaram um pouco mais acima as já curtas saias. As pernas eram o esplendoroso espelho da curva do sol que o tímido vento vinha lamber. Fecharam as duas um pouco os olhos para melhor ouvirem o silêncio das quatro da tarde.

Comentários a “Ai, o escândalo” (16)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Em 2009 esteve em Portugal uma senhora antropóloga/socióloga cujo nome não recordo, e agora não tenho tempo para ir ao Google procurar, que é especialista em POLIAMOR, teoria, e prática, que defendem uma forma de relação amorosa com vários parceiros em simultâneo, com conhecimento e aceitação por parte de todos os poliamorosos envolvidos, com hierarquia vertical e com regras definidas e negociadas por cada um dos intervenientes nela.

    Defende também que todo o ser humano é poliamoroso, se não em simultâneo, sequencialmente poliamoroso. Quando sequencialmente, estabelecendo relações paralelas com ónus de traição e sofrimento. Se não as estabelece, reprime e deforma a sua natureza animal.

    Mais defende. Este é o modo amoroso natural-animal do ser humano. Como somos animais, estabelecemos naturalmente uma hierarquia relacional.

    Exactamente o seu post, exactamente muitos felizes casamentos. Às vezes, o eu sei que tu sabes que eu sei, mas aqui dentro só nós dois é que sabemos, é toda a poliamorosa negociação necessária.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Ó que coisa antropológica e coisa e tal. O que é que isso tem a ver com o meu post que é só uma short? E eu a pensar que tinha escrito uma prosa divertida e de arrebiques literários sobre um sorriso e uns olhos… O meu post não é sobre poliamorosos, nem swingers, coisas de que não precebo nada nem me atrevo a perceber.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Nunca ouviu dizer aquela grandeza do texto ser de quem o lê e lailailailai, Manuel Fonseca, seu egoísta de letras?! Pois bem: à décalage que vai do texto que se pensa ao texto que se escreve, some a que vai do texto que se escreve ao texto que se lê e verá que a escrita é uma impossibilidade. Ou isso, ou sou uma tresleitora, uma incompreensiva do piorio que merece umas orelhas de burro ao canto da sala, já!

      Ps: aquela senhora antropóloga era toda flower power, the age of aquarium e o que é teu é nosso e que é meu é meu — um pavor, até lhe fiz um post no extinto Mátria. Quando me começam com as animalidades só me dá vontade de rezar à civilização.

      Ps 2: ganda frase Gonçalo, vou ficar com ela: se nem tudo o que reluz é ouro, também nem todo o filósofo é corno.

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Plenamente de acordo consigo: a escrita é uma impossibilidade. Mas é a mais imaginativa, encantadora, intrigante, desarmante impossibilidade que eu conheço. Mais do que o cinema, mais do que a pintura. Há, é claro, a música…

        • Eugénia de Vasconcellos diz:

          O Oscar Wilde dizia que a arte não servia para nada, era inútil. No entanto, digo eu, presta-se a tudo. Creio que não será por mal, apenas por ansiedade: entramos em modo explicativo para não entrarmos em modo contemplativo e para não sermos levados em corpo e espírito sem qualquer parúsia. É mais sério, de senho franzido, psicologizar Shakespeare ou psicanalizar contos de fadas ou dissecar poemas, do que apenas ir. O prazer assusta a lógica.

          Eu gostei desse amor subido até aos olhos.

          E sim, a música é a mais bela das impossibilidades.

  3. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Manuel, a partir do momento em que, aqui mesmo em cima, escreveste esta tão triste frase — «Filósofo, agora… É mas é corno, desculpa lá.» -, morreste eternamente para mim. Toda a consideração que por ti tinha — e tinha -, já não a tenho. Toda a estima, toda a amizade, todas se foram. Já não as tenho. Apetece-me mesmo chamar-te nomes e dizer mal, muito mal de ti. Mas os teus parentes não têm culpa — e nestas coisas, como bem viu Freud, acabamos sempre por querer regressar até eles. Digo-te apenas isto: és um sonso, um malandro, um falso, um falinhas mansas. Começas por dizer que não há factos morais para logo contares o teu fantástico encontro com um unicórnio, tudo com o único objectivo, já se viu, de vires depois ofender os pobres filósofos, atribuindo-lhes, ao mesmo tempo, duas dessas tuas tão tresloucadas e loucas visões. Não. Não te desculpo. Estamos de relações cortadas, até que escrevas algo com que manifestamente te redimas. Embora eu não o creia possível. E termino, de dedo em riste, atestando, com a mais pura lógica, que, se nem tudo o que reluz é ouro, também nem todo o filósofo é corno. Ora batatas!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ó Gonçalo,
      quero já dizer-te que:
      a) eu não escrevi coisa nenhuma;
      b) a terrível frase saiu da boca da Princesa Caraboo;
      c) creio que o cronista terá sido um tal e infame Louis Herbert Mayall.

      Mas já ficas a saber que a ameaça de “matar-me eternamente” tansforma-se em elogio na boca do cadáver que és neste cemitério de Gente Morta.

  4. fitinhadobonfim diz:

    Eu, para quem a fidelidade (da minha parte para com quem amo :) numa relacao e basilar, embora a vida me tenha ensinado que algumas situacoes nao sao pretas nem brancas, como eu tanto gosto para preservar os meus cosmos algo asseticos, gostei muito do texto e, se bem percebi, ha aqui algumas questoes muito interessantes: (a) a mais dolorosa traicao sera quando existem fortes sentimentos do tradittore para com o terceiro elemento (deu-me que pensar, de facto, e talvez tenha razao, a mim que sou uma imberbe e tantas vezes maniqueista, o que me empobrece…); (b) alguem maturo sabera distinguir as duas situacoes ; © os olhos nao mentem quando veem o ser amado– brilham; (d) e esse brilho e raro — talvez por isso uma das duas senhoras tivesse real consciencia do valor desse “sparkling” look;(e) face a uma nudez da alma…Aprendi!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Os seus pontos c), d) e e) são os únicos que têm a ver com a historinha que escrevi. Bem ou mal, o que escrevi é ficção. O meu objectivo, como o de qualquer pessoa que escreva ficção, não é fazer declarações sociológicas, antropológicas ou filosóficas sobre o que é ou deve ser o mundo. A vantagem da ficção é inventarem-se pessoas e inventarem-se situações. Ora pessoas e situações inventadas não podem servir para delas se retirar qualquer assumpção sobre a vida real ou sobre o mundo.
      Sobre a minha historinha, como sobre qualquer ficção, o que se pode e deve dizer é se nos causa alguma emoção. Se decorre do que se lê algum sentimento estético. Por isso me agradam particularmente os seus pontos c), d) e e) que resumem aquilo que eu quis fazer: uma historinha que pintasse um lindo sorriso feminino que, por sua vez, inspirasse ao homem que o contempla um amor incondicional. Agradeço-lhe essas alíneas. Já os seus restantes pontos são matéria que não tem a ver com o meu texto.

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Áh, mas não senhor! Desta vez estou total e absolutamente de acordo com o Manuel: o tom levemente burguês do par é um retrato quase aristocrático duma relação funcional de felicidade média, com pequenas ou bruscas subidas de temperatura e sempre, mas sempre!, boas abertas. Lembrei-me por momentos do meu ‘Omnia vincit amor’. Existe um fundo de semelhança.
    Ao espelho daqui sou absolutamente poliamoroso e não traio ninguém. Quando traía não sabia que amava.
    A poliandria das hienas, por exemplo, é muito diferente. Também já conheci, de perto…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Gosto muito que estejas de “acordo” comigo, mas tal como disse no comentário à fitinha, não consigo perceber que alguém esteja de “acordo” ou em “desacordo” com uma ficção. Se um dia me decidisse a escrever conceptualmente sobre a “traição”, as minhas ideias (se tivesse algumas) sobre a matéria até poderiam estar nos antípodas do que nesta short se descreve.
      Eu quis, e se não o consegui o texto é então uma treta:
      – pintar uma tarde quente;
      – inventar o discreto gossip de duas amigas;
      – louvar o sorriso da foto que é, de facto, um sorriso que me apaixona;
      – inventar um amor tão encantado por esse sorriso que outra pessoa tenha vontade ser amada assim.
      Do que gostei no teu comentário foi que estabelecesses um paralelo com o teu “Omnia vincit Amor”. Se esta short, que eu queria despretensiosa, roça um texto teu, isso basta-me.

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Mas conseguiste isso tudo, adorei quando abrem um pouco as pernas para que o vento as refresque…

  7. Turmalina diz:

    Eu gostei principalmente do não tão discreto assim gossip das amigas.Ele as traduz muito.E o cenário é bem aconchegante.Dá vontade de puxar uma cadeira.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Escapou-me, Turmalina, este seu comentário aconchegante. Vamos sentar-nos e abrir o livro do gossip? Bebe um suco de abacaxi ou, como eu, prefere um tinto?

  8. Joana Vasconcelos diz:

    Belo texto, Manuel.
    Eu sei que é muito feio e não se deve, mas o que eu gosto, desde criança, de apanhar assim bocados de conversas alheias, numa esplanada, no metro, num restaurante … o que se fica a saber e às vezes até se aprende!

    O grande problema desta forma de coscuvilhice é que se perdem trechos, presumivelmente cruciais das tais conversas … Como porque é que a senhora entrou nua na sala, daquela vez? E porque é que apareceu de toalha? E o que lhe perguntou ela e lhe respondeu ele nessa ocasião …
    È que não se aguenta …

  9. Manuel S. Fonseca diz:

    Joana, fui a correr perguntar ao narrador bisbilhoteiro. Disse-me que, por acaso, até lá tinha estado, no dia da linda senhora nuinha na sala, mas que a religião dele é “a gentleman never tells”. Com narradores destes, fundamentalistas, não vamos a lado nenhum. Obrigado pela gentileza do beau texte.

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