Aguirre was here!

Esta imagem, que manipulei um nadinha para também a poder considerar um pouco minha, causou-me verdadeiro espanto, uma surpresa plástica da mais incrível realidade que se intrometeu por recordações de filmes e livros adentro, antes de me aquecer a consciência àquele ponto em que sentimos que algo naquilo ali à frente também está a falar de nós.
O primeiro impacto levou-me à América do Sul imediatamente colombiana, à devassa espanhola que Werner Herzog tão bem caracterizou com o seu louco Aguirre incarnado no não menos louco Klaus Kinski.
Depois de ler a explicação técnica da fotografia lembrei-me d’ O atalho para os ninhos de aranhas, talvez porque no seu primeiro e último romance neo-realista Ítalo Calvino não mostre ao leitor, de forma convincente, como são os ditos ninhos dos inteligentes bichos.
Seja como for guardei a foto, guardo sempre fotos que me impressionam de alguma forma.
Acho que agora sei porque vi que a imagem também tinha a ver comigo, com o meu eu instantâneo.
Chegado a este ponto logo saltei para Quixote e para a sua louca cruzada por Dulcineia – mas explicar esta última ligação seria em si uma cruzada demasiado fastidiosa quer para mim quer para quem se desse ao trabalho de a ler.
Por aqui me quedo de intimidades.
A explicação da imagem é natural e, provavelmente, muito mais vulgar do que nós, assépticos europeus que só nos envenenamos com pepinos espanhóis parecidos com soja alemã, conseguimos imaginar: depois de uma imensa cheia de monção, colónias de aranhas abrigaram-se nas árvores e aí construíram seus vastos impérios. Aconteceu ano passado, no Paquistão, e crê-se hoje que foi devido ao fenómeno que a malária não foi particularmente letal durante esse período de inundações – por norma um excelente alfobre para a proliferação do insidioso e sujo anopheles.
Onde é que tudo isto se liga?
Em mim, é claro.

 

Comentários a “Aguirre was here!” (7)

  1. quim diz:

    eles ficam todos malucos e só um ou dois se escapam para contar como foi. psico. mas dis-me: foi no amazonas ou no mississipi? os alemães trocam tudo: eu acho que subiram as calendas, perdão! o mississipi.os. E, com sorte, não apanharam com ninhum tornado…
    mas gostei do filme. a rtp2 passou-o várias vezes: tipo ‘moda’. tres pelo menos. Aguirre. tenho uma ‘amiga’ aguirre argentina e contei-lhe acerca do filme que desconhecia.
    hoje comprei pela milésima vez o sidartha… apetece-me dá-lo a alguém.…
    um grande abraço

  2. quim diz:

    ainda há quem corra o rio de trás prá frente… :D

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Olá Quim!, acho que só pode ter sido o Amazonas, ou algum afluente, é na América do Sul…
    Sidartha é dos tais que se compra, se lê e se dá mil vezes e sempre bem.
    Grande abraço

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Já cá volto, à noite, para uma leitura com calma que há aqui muita informação — você, Antoine, de vez em quando, parece que faz gosto em dar-nos tratos de polé.

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Volte sim, Eugénia. Mas olhe que eu não dou tratos de polé a ninguém (ou quase…), e menos ainda aos meus co-defuntos, valha-me S. Judas Tadinho!

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Aguirre, as aranhas e seus ninhos, a malária, ligam-se em ti? Admito entusiasticamente que sim. Mas como? E sobretudo porque é que é assim tão CLARO que tudo isto se ligue em ti? Só vejo uma clara e luminosa razão: ter-te o Klaus Kinski apresentado a cat people que é a linda filha! Adivinhei, claro.

  7. António Eça de Queiroz diz:

    E não incluíste Quixote e Dulcineia!…
    Claro que adivinhaste, mas o processo foi inverso: ela é que me apresentou a ele.

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