Cheira a carro vermelho

Bela, ela, cheira a carro vermelho, à lavanda dos hotéis de negócios, a saxofones no auto-rádio, à frescura seca do fim de Junho, a dedos grossos marcados nas coxas, a gemidos de jumento, a risinhos nas varandas dos bares, a smile de telemóvel, ao cu prodigioso virado para ele, que a toca como só ele consegue tocar. Ela não disfarça. Exibe o cheiro como Niké, como as núbias dúbias de Courbet, como o violino suspiro de John Adams, como a frivolidade do Mal, a puta que me tirou vontade de comer, de comê-la. Tantos banhos e o mesmo cheiro intenso a felicidade, como se fosse fácil duas conversas de ginásio, os glúteos ajeitados, um café ao fim da tarde, três rondas da noite nas redes sociais, o acre furtivo da esplanada no Guincho, a adolescência súbita no carro vermelho, e cheira. Cheira a fantasma, o fantasma sou eu e, amanhã, vou matá-la. Só não sei como.

Comentários a “Cheira a carro vermelho” (7)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Já tinha saudades de ler o que escreve, assim, à solta. Que bom, fiquei contente.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Deep blue

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Se a reunião de uma energia incomensurável e a emissão de radiações violentas é o que define um buraco negro, acabei de ver ali em cima um buraco negro.

  4. pedro marta santos diz:

    Obrigado, Eugénia. Já tinha saudades de ler os seus comentários. Deep blue, absolutely (for the cheated, of course). Fonseca: Aaah? Just began speaking in riddles? Fala direito, homem!

  5. manuel s. fonseca diz:

    Quais riddles, qual carapuça. Tu plantas na escrita um prodígio virado para ele, seja ele quem for, eu tento ver no prodígio uma energia cósmica e ainda te queixas! Onde é que meteste a hermenêutica?

  6. José Navarro de Andrade diz:

    Olha, encontrei uma cena do “Sauve qui peut… la Vie”. Boa, boa.

  7. pedro marta santos diz:

    Desculpa, doutor, mas é que não percebi o comentário. Não cheguei lá, prontos. Sorry. Nunca vi o “Sauve qui peut”, Zé. Vale a pena?

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