Arquivo | Junho de 2011


O preço da discórdia

Li, há uns anos valentes, um livro que mudou radicalmente a forma como via mas sobretudo como “sentia” a segunda grande guerra. É bem verdade que não foi o primeiro nem o último. O tema sempre me suscitou curiosidade e os livros, históricos, biográficos, romanceados, há muito que se acotovelam na desordem aparente que é a minha biblioteca. Também é verdade que nunca é inteiramente possível “experimentar” a segunda guerra mundial como objecto de simples reflexāo intelectual. Ainda hoje guardo na memória o olhar angustiado de um rapazinho que um dia teve a minha idade e que sobreviveu no genérico, cem vezes repetido, do fabuloso documentário com que a BBC assombrava as minhas tardes de meninice ao Domingo. Mas foi com “Se isto é um homem” de Primo Levi que o conflito de 39 — 45 tomou para mim uma dimensão verdadeiramente humana. A escala não é a das grandes batalhas, a tragédia não é a das grandes opções políticas e geo-estratégicas. Os personagens não são os heróis míticos nem os génios amorais que escreveram as linhas maiores da História. A miséria, muito pelo contrário, tem tamanho de homem, a angústia cabe no peito de um rapazinho, a batalha mais impressiva é a que opõe um pai e um filho e o seu objectivo é a conquista de um simples pedaço de pão. Algures, num comboio sobrelotado a caminho de um campo de extermínio.

Tudo isto, embora nada pareça, vem a propósito da crise grega. Que, é bom não esquecê-lo, não é essencialmente grega e muito menos é sobre dívida soberana, agências de notação financeira, ou mais uma dúzia de conceitos relativamente abstractos. A crise dita grega é a crise de um dos projectos de paz mais fabulosos da história da humanidade. Filho dos horrores dilacerantes e muito concretos da segunda grande guerra e de um par de estadistas que os vivenciaram.

E assim regressamos a Primo Levi. Tenho para mim, é uma tese que vale o que vale, que a crise da Europa é a crise do desaparecimento dos últimos líderes que viveram, experimentaram, sofreram, directamente, o horror da segunda grande guerra. É a crise do desaparecimento de uma geração de líderes, mas também de cidadãos em geral, que conheceu o terrível preço de uma alternativa ao projecto de unificação europeia. Para quem os custos que agora paralisam e parecem condenar a Europa mais não seriam do que risíveis minudências quando comparados com a tragédia da simples ameaça, por mais ténue que possa julgar-se, de um conflito continental. A crise da Europa, que só metaforicamente é grega, é pois uma crise de memória. Memória viva, memória vivida, que não tem a Sra. Merkel, o Sr. Sarkozy, o Sr. Barroso, mas que também não têm os milhares de gregos, espanhóis e portugueses que protestam na ruas, como não a têm os milhões de eleitores e contribuintes alemães ou finlandeses.

Tenho uma certa tendência para o pessimismo. Dêem-me pois o devido desconto. Mas, feito o aviso, estou absolutamente convencido de que o que andamos a discutir na Europa é a viabilidade de legar aos nossos filhos os anos de paz que herdámos dos nossos pais. Postas as coisas assim, concordarão que o preço a pagar — apareça ele sob a forma de sacrifícios financeiros ou de cedências de soberania — será sempre pequeno demais.

Publicado na Visão em 30.06.2011

A cansada e absoluta imobilidade

A vida vai depressa, o cinema vai a 24 imagens por segundo. A mesmíssima velocidade. Ao som e fúria de cada dia – um apartamento que explode, a histeria duma ama numa creche, o pandemónio do e.coli ou a violência no Iémen – o cinema responde imitando a vida: som Dolby a rebentar pelos quatro cantos da sala e 3D a meter-nos meteoritos pelos olhos dentro. Afinal, a palavra mágica para se fazer cinema é “acção”.
Desminto-me, apesar de saber que não é mentira. A velocidade da vida é um cliché com que nos roubaram a preguiça, nos roubaram o andar consolado dum tipo a roçar-se pelas esquinas, a delícia do dolce fare niente, o estoicismo de uma sesta em frente ao mar. Por isso, nos melhores filmes, dando o que a vida tira, o cinema pára.

Vejam: Gary Cooper nunca se mexeu. A pureza, a pele infantil que lhe recobre o corpo enorme, sustenta-se na sua lentidão. Em “Sergeant York”, ou herói de Capra ou de Hemingway, o vagar de Cooper é sempre o mesmo: quieto e calado. E é devagar que, no mais belo dos americanos, vemos desenhar-se o essencial: a humaníssima natureza que perdemos, a bondade da inacção, a irrazoável confiança no devir.

 

Há uma galeria de heróis destes. São heróis solitários, de irrepreensível consciência moral. E são lentos. Ao lado de Gary Cooper, está Henry Fonda. Alto como ele, como ele desajeitado, tímido e taciturno. Até o corpo lhe pesa e Fonda alivia-se: no seu “Young Mr. Lincoln” e em “My Darling Clementine”, ambos do lentíssimo Ford, o actor deita-se debaixo de uma árvore ou senta-se num alpendre, sempre de pernas esticadas e mais altas do que o corpo, construindo irresistíveis ícones de elogio à calma contemplação das coisas e à sábia ignorância de si mesmo.

 

É lendária a lentidão de John Wayne na abertura e fecho de “The Searchers” e até o prodigiosamente veloz Howard Hawks se rendeu ao ocioso Bogart em “To Have and Have Not” e “Big Sleep”. Criaram uma tradição, assegurada até há pouco por Clint Eastwood e Gene Hackman, actores grandes, fisicamente descoordenados e lentos.
Robert Mitchum elevou esta arte a um patamar sublime: a cansada e absoluta imobilidade. Estilizando a lentidão, ao ponto de a tornar espessa e poética, Mitchum edificou uma improvável carreira de obras-primas. Invoco “The Lusty Men”, de Nick Ray, onde ele é a resignada solidão na solidão do filme. 

Qual é o segredo destes actores que tiram devastador sentido e significado da aparente indiferença da sua expressão? E qual o segredo de fazerem mover o mundo mantendo-se imóveis?
Segredo de homens. Só duas mulheres, Ingrid Bergman e Greta Garbo, se aconchegam à bondade da inacção, à lenta solidão de um “quero estar sozinha”.  Deus me guarde de pensar que eram homens.

 

Publicado no Atual do “Expresso” a 25/6. Sábado que vem, conta-se a história de um bom par de estaladas.

CENAS: “Blue Velvet”

Está cheio de demónios, está cheio de fantasmas.
Os demónios estão nos filmes passados de David Lynch. Os fantasmas vêm dos seus filmes futuros. Começa tudo com uma orelha. “Não sei porque é que tinha de ser uma orelha. Mas precisava de ser a abertura para uma parte do corpo, um buraco para outro lado… a orelha está na cabeça e é uma ligação directa à mente, portanto pareceu-me perfeito”.
Poderia ser uma frase de alguém encerrado há anos numa ala abandonada de um hospício – em boa medida, não é difícil imaginar o senhor David Keith Lynch metido numa camisa de forças. Para satisfação do mundo inteiro, os demónios e os fantasmas do senhor Lynch, que poderia facilmente confundir a mulher com um chapéu, são traduzíveis em imagens, e o seu génio não acaba na patologia mental. Lynch, como James Joyce, adoptou a “free stream of consciousness”, tornando indistinguíveis o lado escuro da lua e a face abrasiva do sol. Entrar num filme de Lynch é aceder ao cérebro quando este acabou de ser aberto, em vida – é tão assustador como isso. E os tais demónios, e os tais fantasmas, não vivem no escuro. Vivem em nós.

Ninguém queria enfiar-se em “Veludo Azul”. Só os suficientemente lúcidos para serem loucos. Val Kilmer, que não é nenhum menino de coro, declinou o convite para ser Jeffrey Beaumont, o jovem protagonista, por entender que o argumento era “pornográfico”. Hanna Schygulla, a musa de Fassbinder que é tudo menos pueril, e Helen Mirren, cuja nudez fez o entusiasmo dos espectadores dos anos 60, recusaram ser Dorothy, a Judy Garland sado-maso que paira sobre todas as cenas de “Veludo Azul”. Quando Lynch conheceu a modelo Isabella Rossellini num restaurante, foi tiro, queda e estrelato. Bobby Vinton, o intérprete da canção-tema, não quis o seu nome associado à “depravação” da fita e Roy Orbison, autor do lindíssimo “In Dreams” – síntese musical do universo de “Veludo Azul” — fez o mesmo (ambos acabaram por voltar atrás). Dino de Laurentiis, o canastríssimo produtor de pérolas como “King Kong Lives”, “Conan o Destruidor” e “Flash Gordon”, fez das tripas coração e defendeu o filme até às últimas consequências, garantindo que a fita estreasse quando ninguém mais a queria. Vários actores foram contactados para interpretar Frank Booth, o psicopata inalador de hélio, mas todos acharam a personagem repulsiva. Todos excepto Dennis Hopper, o filho maldito de Hollywood, que não descansou enquanto não garantiu o papel. “Eu sou Frank” disse a Lynch, e quem somos nós para duvidar?

Depois, há os mortos: no quarto da virginal Sandy Williams (Laura Dern, aquela actriz que parece estar em dores de parto sempre que sorri) vê-se um poster do estilhaçado Montgomery Clift, destruído em vida por um grave acidente de automóvel; o ambiente torna-se um negativo do Technicolor de “O Feiticeiro de Oz”, um filme que atormenta Lynch (basta ver “Wild at Heart”); as referências à morte de Abraham Lincoln, o presidente dos E.U.A. assassinado por John Wilkes Booth num teatro, são compulsivas (do nome do vilão, Frank Booth, à “terra de ninguém” de Lincoln Street); e é impossível olhar para Isabella Rossellini sem ver a mãe, Ingrid Bergman – quando Isabella/Dorothy sai de casa nua, corpo pesado, rosto em transe, não se consegue deixar de ver aquilo como uma usurpação além-túmulo da mamã. É também por isso que as fitas de David Lynch metem medo ao susto: ele esventra-nos o super-ego, descobre o que nos aterroriza, vira o mundo de pernas para o ar e não nos deixa voltar a pôr os pés em terra firme – é como ter o mais voraz dos pesadelos e não conseguir acordar. Nunca mais.

O início de “Veludo Azul” é uma verdadeira carta de intenções: há um céu de azul robusto e nuvens fofas, a cerca pintadinha de branco que faz a glória da América WASP, um relvado gentil. Mas no meio da relva há milhares de formigas devorando uma orelha humana.
Jeffrey Beaumont, interpretado pelo falso ingénuo Kyle McLachlan, regressa à paz de Lumberton, após vários anos na grande cidade, para visitar o pai, que está doente. É Jeffrey que descobre a orelha, e será Jeffrey a tentar descobrir a verdade, repondo o equilíbrio do Universo. Mas o Universo está doente: o detective que o recebe não lhe liga nenhuma e a filha deste, Sandy, não percebe o que se passa, embora lhe ofereça dois nomes, ouvidos entre paredes: Dorothy e Frank. Jeffrey resolve ir mais fundo, e penetra na toca do lobo, infiltrando-se na casa de Dorothy. Mas ela chega subitamente, e o rapaz não tem alternativa: esconde-se no armário do quarto. A partir daí, é puro Lynch.

O cinema, disfrutado no escuro, feito de espectros, larápios, demónios, fantasmas, magia negra, é a suprema arte dos “peeping toms”. Sempre que vemos um filme, no armário fechado da nossa psique, protegidos pelas sombras, olhamos furtivamente para alguém que não sabe que estamos lá: a personagem. Seguimos a sua vida, testemunhamos o seu fracasso, imiscuimo-nos na sua alegria, entramos na sua casa, na sua sala, no seu quarto. Na sua cama Toda a intimidade da personagem é nossa. Mais: muitas vezes, pressentimos o seu destino antes de ela sequer imaginar o que lhe calhou. Não é apenas a realidade da personagem que nos é permitido observar. O sonho dela também nos pertence, tornando-se o nosso sonho. Ou será que ela sabe que estamos ali, no armário dela, no nosso armário?

Dorothy/Isabella mergulha em veludo, Jeffrey espreita como um miúdo que descobriu anteontem os wet dreams, ela pressente-lhe a presença, chega Frank/Dennis Hopper, Dorothy rejeita-o, ele violenta-a, ela gosta, ele devora hélio por uma máscara, ele põe a língua dele no sexo dela, fazem amor como dominador e dominada na primeira manhã do Apocalipse e Jeffrey observa tudo à altura da adolescência: tudo o excita, tudo o repele.

David Lynch, o agorafóbico, confessou uma vez que observar furtivamente uma rapariga a despir-se, e a comportar-se como se ninguém ali estivesse apesar de saber que estava, era uma das suas maiores fantasias de adolescência. O resto, é a entrada no mistério terrível de um novo mundo.

Nothing that we see or have seen/ is but a dream within a dream

Singing in the rain

Verona, Novembro 2002

Somos uma pequena amostra de mundo. Pelas salas da nossa discreta business school Milanesa, no meio da molhada estudantesca, pode-se encontrar um pouco de tudo. Um arquitecto Chileno, uma editora de moda de Madrid e um par de brokers londrinos. Dois engenheiros alemães da BMW, um economista Peruano, um Russo vendedor de Smirnoff e uma Dinamarquesa especialista em energy bonds. Temos também um italiano desenhador de motores de formula 1, um espanhol de Alicante importador de mármores, uma contabilista de Kiev, um marketeer de Lyon, um outro de Atenas e ainda uma outra de Nova Iorque. E também uma catrefada de Italianos oriundos das muitas províncias desta terra. Depois há também uns meninos e meninas do papá vindos das Américas e do Sudeste Asiático que aqui vieram para encontrar vocação ou talvez só para gastar o dinheiro do mesmo, quem sabe. Ah! E há um português claro. Como é que me podia ter esquecido? Há sempre um português.

Durante meses, enturmamo-nos e guerreamo-nos em confrontos simulados, em apresentações fictícias, em debates ilusórios. Vivemos de Excel e Powerpoint. Desenhamos negócios, aprendemos as artes e os vícios da alta finança. Calculamos terríveis Futures e ainda mais sombrias Derivatives. Pensamos um mundo todo virtual. Todinho. Feito de e-commerce e de produtos invisíveis, que ajuntem máximo valor, custem o mínimo possível e se possam vender por muito dinheiro. Dinheiro. Aprendemos a fazer dinheiro. Aos montes. Para nós e para o outro, esse ilustre e anónimo vulto que entrou nas nossas vidas e que se chama shareholder e que aprendemos a amar e de quem tentamos perceber e adivinhar apetites e caprichos.

Mas os tempos são duros. Na maioria, despedimo-nos de bons empregos para poder aqui estar. Alguns endividaram-se com isso. Quase ninguém tem uma perspectiva de emprego. Manhattan explodiu o ano passado, a bolha das Dotcom também e estamos em guerra. Agora parece que vem aí mais uma. Vai ficar tão lindo o Médio Oriente a ferro e fogo. Londres não contrata. Milão fechou as portas. A Alemanha está parada. Trabalhar nos Estados Unidos para um não residente é uma impossibilidade. A Job Fair que aqui organizaram na escola foi um desastre. Apareceram meia dúzia de empresas Italianas de segunda a distribuir brochuras e pouco mais. Faltam duas semanas para a graduation e a coisa está a ficar feia para a maior parte de nós. Os ambicionados montes de fat green paper que todos esperavam que viessem, tardam a chegar.

Mas esta noite ninguém pensa nisso. Num comboio para Verona mandamos à fava a Finança, o comportamento das organizações, o e-marketing e a gestão de operações. Viemos quase todos numa espécie de catarse colectiva para limpar o espírito e aligeirar a alma. A bordo, no bar do comboio somos uns 30. Preparam-se Martinis a rodos e os mais prosaicos dão cabo do stock de cerveja a um desesperado barman das Ferrovie dello Stato. Bebe-se e dança-se. A real party on wheels! Só a Dinamarquesa dos energy bonds é que olha pela janela do comboio em movimento. Nos olhos alguma preocupação. Será que pensa no seu futuro? No futuro da economia mundial? Nos milhares de desempregados e nas suas famílias? No fim de um ciclo económico. Volta a olhar para dentro. — Looks like it´s gonna rain guys.….

Jamiroquai — Corner of the World - Live in Verona  - 11/11/02

Freud e Jung revistos por Keira Knightley

Os dois últimos filmes de David Cronenberg são extraordinários. Valem por si, mesmo que não soubessemos que eram assinado por ele.
Eu, que gosto do que gosto e detesto vir a gostar mais de qualquer coisa futura do que de uma coisa de que já gostei, receio que o próximo seja ainda melhor. É um filme sobre 8 decepções, as 8 decepções que sustentam a relação entre Sigmund Freud e Carl Jung, dois famosos malabaristas de um pouco mais do primeiro terço do século passado (Jung deixou-se andar, a fingir-se vivo, até aos anos 6o, mas isso mal interessa, por volta da 2ª Guerra o caso deles estava arrumado).

Este rosto, este corpo tenso que quase não se ajusta ao sofá, terão parte da culpa. Chama-se Keira Knightley e juro que nunca a tinha visto: só sei que dá corpo (a linda boca, os pequeninos seios, o tão esquinado recorte de ombros e, digamos, ancas) a uma das mais soberbas decepções que dividirá os dois irmãos fundadores de desavindas psicologias. David Cronenberg filmou tudo, e aparentemente filmou tudo com a confiança da linearidade, if you know what I mean. Para já, o trailer não me desmente.

Klaus Kinski

Klaus Kinski um querido morto? Convenhamos que, de querido, o homem pouco teve ao longo da sua vida. Não me terei enganado na coluna? Pensarão alguns, enquanto juram a pés juntos que o actor fetiche de Werner Herzog assentaria que nem uma luva numa história de infâmia, muito mais do que numa homenagem como esta. E quem sou eu para os desmentir. Se o próprio Herzog sofreu na pele os excessos do seu best friend Kinski, ao ponto de, segundo reza a lenda, o ter ameaçado de morte na rodagem de Fitzcarraldo, nada mais me resta senão juntar-me ao coro de todos (e são todos mesmo) os que dele guardam a imagem de um demente violento, narcísico e obsessivo, capaz de explosões coléricas em pleno plateau pelo motivo mais insignificante, de deixar pendurada uma equipa inteira de filmagem enquanto não lhe satisfizessem o capricho mais extravagante e outros devaneios do género.

Bastam umas breves pinceladas biográficas para nos rendermos ao lado atormentado da personagem. Uma infância e adolescência atribuladas em Berlim, que o levaram inclusive a ter de roubar para comer, o recrutamento forçado na Wehrmacht na Segunda Guerra Mundial, a deserção e a rendição às tropas britânicas e o aprisionamento num campo inglês ajudam a explicar o seu comportamento pouco convencional. Foi na prisão, aliás, que começaram a despontar dois traços marcantes do seu percurso: o seu talento nas artes da representação, que deixou à prova nos espectáculos organizados para manter o moral dos seus colegas de campo; e o seu temperamento obsessivo, perto da loucura, bem evidenciado nos estratagemas que usou para merecer o privilégio da deportação reservado aos doentes: permanecer nu na zona exterior da prisão pela noite fora; beber urina, comer cigarros, e outros que tais. De regresso à Alemanha, decidiu apostar numa carreira de actor autodidacta mas só mais de dez anos depois – após alguns despedimentos, um diagnóstico de esquizofrenia e duas tentativas de suicídio falhadas – começou a adquirir uma certa reputação na Alemanha, Áustria e Suíça como spoken word artist e declamador de François Villon, Shakespeare e Oscar Wilde. No cinema, ao longo dos anos 50 e 60, vieram os filmes de guerra, uma especialização em personagens de Edgar Wallace, os western spaghetti, os série b e os exploitation movies, antes do reconhecimento internacional à larga escala com Herzog e o seu Aguirre, The Wrath of God, em 1972. A partir daí, muitos grandes mestres, de Fellini a Visconti, de Pasolini a Spielberg, quiseram tê-lo nos seus elencos, mas a todos deu negas, preferindo continuar a trabalhar com realizadores de menor notoriedade para nunca correr o risco de ver negadas as suas exigências de primadonna, para que lhe fosse sempre garantido, a ele e só a ele, o estatuto de grande estrela das produções em que entrava.

A excepção foi, sempre, Herzog, que cedo percebeu que pouco ganhava em domesticar o incorrigível feitio de Kinski e que, como nenhum outro, conseguiu capitalizar para o grande écran a sua raiva e agressividade. Por alturas da estreia de Aguirre, tinha onze anos de idade a sua filha Nastassja, que, para os seus detractores, foi aquilo que de mais relevante produziu em toda a sua existência. Embora tenha, em certo período da minha juventude, feito parte do grupo alargado dos que reconheceram estatuto de divindade a Nastassja, permitam-me discordar de tamanha injustiça. Um só nome, de filme e de personagem, bastariam para guindar Klaus Kinski à galeria da imortalidade: Fitzcarraldo, nome que lhe deram os indígenas de Iquitos que não sabiam pronunciar o nome do sonhador e idealista (Brian Sweeney) Fitzgerald.

Com Fitzcarraldo, Herzog conseguiu aproveitar a loucura de Kinski para os mais altos desígnios a que o ser humano pode aspirar. Numa época — a dos dias que correm – em que a cultura deixou de ser prioridade e é considerada pelos economistas que dominam o mundo como um gasto supérfluo e dispensável, a quixotesca empreitada de Fitzcarraldo – trata-se, literalmente, de mover uma montanha para levar uma ópera à selva amazónica – permanece como o último reduto de sonho que a cada um de nós pode e deve ser permitido. Numa era em que a cultura nem do seu factor simbólico se pode valer (até o Ministério da Cultura, ingloriamente, se foi), a simples ideia da música de Verdi ou Bellini, ou a voz de Caruso, terem o condão de apaziguar os espíritos malignos da natureza, ou de demover os temíveis jívaros – afinal, tão inocentes como Fitzcarraldo – do seu hábito de cortar e reduzir cabeças humanas é, no mínimo, reconfortante. Que me perdoem o cliché, mas haja uma ínfima partícula de Brian Sweeney Fitzgerald em cada um de nós, e teríamos certamente um mundo melhor. Para ficarmos ainda mais falidos, dirão os (sempre eles) detractores de Kinski? Talvez falidos, sim. Mas muito mais felizes. Que me perdoem, uma vez mais, as mentes lúcidas que fazem avançar o mundo, mas, se há imagem que me ocorre sempre que alguém se insurge contra um orçamento digno para a cultura, é a de uma cidade inteira em êxtase absoluto, em plena Amazónia peruana, com uma companhia de ópera a actuar no convés de um barco a vapor. E essa é, também, a imagem que guardo de Klaus Kinski: não o do insuportável cabotino que mais não fazia do que representar-se a ele próprio, mas a do idealista inocente, que move montanhas para levar a sua paixão até aos confins do mundo.

Uma coisa assim mais eyebrow

 

Não é o Fiat do meu pai mas vai ali a minha avó.

 

 

 

Deixe-me ser franca Sr. Norton: Não estou nada convencida que valha a pena entrevistá-lo. São cunhas do Sr. Fonseca. Ainda assim faz questão de dizer alguma coisa?

- Gostava imenso. E acha que pode pôr uma fotografia minha?

Despeje, vá. Não tenho o dia todo.

- Olhe viajei na selva. Na selva virgem.

Na selva?

É verdade. Fica ali ao fim da Rua da Escola Politécnica, antes do Mundo começar a caminhar para o Fim do Mundo. Eu devia ter três, talvez quatro anos. Tudo aquilo era imenso, tropicalíssimo, sufocante de verde. Tinham-me jurado que existia um lago no centro da selva. Uma coisa oitavada com uma gruta por baixo. De uma frescura intensa. E eu fui. Já lhe disse que usava botas ortopédicas? Imagina a dificuldade de atravessar a selva de botas ortopédicas? Pois é. Montámos o primeiro acampamento ao pé da casa do jardineiro. Romântica. De madeira. À sombra infinita de uma árvore de borracha. Daquelas que nos sussurram lendas primordiais ao ouvido, nas noites de verão. A partir daí continuei sozinho. A Maria distraiu-se e eu achei melhor deixar mulheres e crianças para trás. A minha irmã também se ficou, o meu irmão ainda não era, e o valente lá de casa era só eu. Durante uns tempos ainda vi o cume abobadado do castelo do meu avô, depois, aos poucos, o verde fechou-se, apareceram patos e fracas do tamanho de ursos, formigas gigantes e um bichos de conta que não me cabiam nos punhos. Palavra de honra! Agora pare lá a merda do gravador. Off the record ou lá como se diz. Comecei a ficar à rasca. Sabe como é? Um homem não é de ferro e o terror começou a instalar-se na minha alma de menino armado aos cucos. Não consigo precisar-lhe quantos dias andei assim. Eu e os meus pés chatos. O tempo não se mede em meses, muito menos em dias no coração angustiado de quem nos perde. Para a Maria foram anos, confessou-me ela depois. E eu só cheguei ao lago muitos anos depois.

Muito bem. Apresente os meus cumprimentos ao Sr. Fonseca.

Espere lá, espere lá! Ligue lá essa coisa outra vez. Quero falar-lhe do meu pai. Pode fazer-me aquela perguntas sobre as pessoas a que associo as viagens?

Sr. Norton, associa sempre viagens a pessoas?

Ora ainda bem que me faz essa pergunta. Queria falar-lhe do meu pai. Tinha um Fiat 125 que comprou ao meu bisavô. Começou por ser grenat. Ou grená como agora se escreve. Estofos cor de caca, escaldavam que se fartava no Verão. Depois pintou-o de verde escuro e até parece que passou a andar mais depressa. Mas do que eu queria falar-lhe era das viagens para Ponte de Lima. Nós éramos 5, com a Lucília ficávamos seis e não havia ano em que não sobrasse lugar para mais um primo. Partíamos invariavelmente de manhãzinha, no início de Julho. Um calor dos diabos e os estofos, já se vê, a merda dos estofos a dar-lhe. A auto-estrada, a bem dizer, era só uma amostra para enganar incautos. Ainda não nos tínhamos feito à dita e ela acabava num perigosíssimo repente. Ali para Vila Franca. Naquela época a ponte ainda era Marechal Carmona e tinha umas portagens todas giras, de tijolo. Mas para o efeito tanto faz porque seguíamos em frente. Cruzávamo-nos com o Zé na Azambuja e depois, ala que se faz tarde, Venda das Raparigas. O almoço normalmente ficava para Coimbra, já a larica era muita. Não consigo dizer-lhe o que comíamos porque o que nos impressionava eram os trolleys. Sabe o que são trolleys? Assim como os eléctricos do Zé (eu era mais o 24) mas com uns senhores pneus. Antes do Porto era certinho que alguém já tinha vomitado mas o meu pai tinha um jeitão para travar a fundo e a minha mãe levava sempre uma muda. Depois era Braga, a noite caía, parávamos religiosamente para fazer xixi ao pé de uma carantonha de granito e voltávamos a sair do carro para tentar abraçar o maior eucalipto de Portugal. Corvos, Anais (são nomes de freguesias, não olhe para mim com essa cara) e finalmente Queijada. Só primos eram trinta, os avós e os tios também se perfilavam no topo da escadaria e começavam oficialmente, ano após anos, as melhores férias grandes do Mundo.

Olhe Sr. Norton, não vá levar a mal, mas responde outro dia às perguntas sobre os hotéis, está bem? A nossa revista é assim uma coisa mais eyebrow, sabe como é? Cumprimentos ao Sr. Fonseca.

 

 

O século de Camões

 


saiba o mundo de Amor o desconcerto,
que já coa Razão se fez amigo,
só por não deixar culpa sem castigo.

Se o século XVI não foi português, nenhum outro virá a sê-lo. As caravelas lusíadas atravessavam os mares. Cabral chegava ao Brasil, o Gama à Índia. E Colombo e Magalhães, um tocando a América, o outro circum-navegando o mundo, foram trânsfugas que a Coroa portuguesa sentou no colo de Espanha. A ousadia não tinha limites: Albuquerque pôs o Oriente a ferro e fogo, estabelecendo um Império. O escuro e hirsuto português comerciou com o Japão, aliou-se ao etíope, bordou de fortes e feitorias a costa de África, fortificou-se em Tuen Mun com ambição de conquistar a China do que o dissuadiu o terrível poder dos Ming e, num tratado desmesurado, dividiu com Castela, ao meio, o mundo por achar.

Foi nesse mundo novo, de especiarias e ouro, que nasceu e viveu Luis de Camões. No século em que pela primeira vez olhos europeus viram o Grand Canyon, a baía da Guanabara e toda a extensão do Amazonas, também os dele viram Ceuta, a Índia, a China, a costa de Moçambique, três oceanos, o pequeno mar que, depois de Gibraltar, separa e junta a Cristandade e o Islão, homens e mulheres de múltiplas raças, estranhas crenças. 

E é este Luis de Camões, de vivência universalista, que, a par das viagens, explorações e conquistas, ou também como expressão delas, faz do século XVI um século português. Mais claramente do que qualquer outra voz do século, Camões sente e pensa esse mundo novo numa poesia de admirável expressão épica e lírica.

Camões partilhou literariamente o seu tempo com Garcilaso de la Vega, Juan de la Cruz, Teresa d’Ávila, Christopher Marlowe, Gongora, Miguel de Cervantes, Pierre de Ronsard, Torquato Tasso. Parcialmente contemporâneos, John Donne e Shakespeare pertencem, no essencial das obras respectivas, já ao século seguinte. Comparada com as dos expoentes literários do século, a obra de Camões iguala-as no plano da emoção e apresenta, porventura, um superior fulgor filosófico. 

Habitantes desse século foram também, e por ordem de nascimento, Copérnico, Kepler e Ticho Brahe. Coube-lhes fundamentar uma ordem nova, deslocando o centro do universo conhecido, da Terra, que ajudaram a pôr em movimento, para o Sol. A missão de Lutero, outro contemporâneo, foi a de fragmentar a centralidade de Roma e a infalível entronização papal, enquanto Erasmo sublinhava a soberania da vontade e libero arbitrio como essenciais à condição humana. Também Maquiavel torna perceptível, pela primeira vez, a dinâmica em que radica o Estado, os mecanismos empíricos do governo das nações. Nem o Tempo escapou a essa onda avassaladora do novo: é neste século que se fixa o calendário gregoriano, acertando-se de vez o instável equinócio e corrigindo-se a medição do ano solar.

 Não sabemos, de quase nada sabermos biograficamente dele, se de Copérnico a Maquiavel tudo isto foi de conhecimento directo de Camões. Mas sabemos que o ar intelectual deste tempo foi também o do poeta. O mundo que “Os Lusíadas” retrata, “com saber só de experiências feito”, é um mundo de triunfo do empirismo subjacente à revolução científica que os quinhentistas Francis Bacon e Giordano Bruno conceptualizaram. E em “Os Lusíadas”, os mares por onde navega a armada do Gama são os mares que o planisfério de Gerardus Mercator revolucionariamente então representou.

Sem renegar um saber clássico, conhecedor de Aristóteles e Platão, infiltrado de neo-platonismo, o movimento do amor para a razão faz da poesia de Camões uma esplêndida interrogação da condição humana em termos que talvez não tenha paralelo nas figuras maiores da literatura do século: “Quem será que não julgue por celeste / a causa donde vem tamanho efeito, / que faz num coração / que venha o apetite a ser razão.”.

A sensualidade camoniana tem, por certo, correspondência na erótica de Donne e no lirismo amoroso de Ronsard. Prescientes do dualismo que Descartes afirmará triunfante no século seguinte, os poetas proclamam a soberania do corpo, dando luminosa e às vezes urgente expressão a uma carnalidade que os distingue do ascetismo místico, por arrebatador que seja, dos avilenses Juan de la Cruz e Teresa de Jesus. Do mérito e superioridade da experiência física e plenamente erótica do amor, Camões deixou testemunho liminar: “Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.”

A liberdade erótica tem a sua expressão suprema na imaginária Ilha de Vénus, do Canto IX, povoada de Ninfas que “Nuas lavar se deixam na água pura”. Como prémio terreno para os heróicos trabalhos dos lusitanos “Em cristalinos paços singulares / … / Os esperam as Ninfas amorosas, / De amor feridas, para lhe entregarem / Quanto delas os olhos cobiçarem.” E não se nega aos sentidos o que os olhos cobiçam: “Acende-se o desejo, que se ceva / Nas alvas carnes, súbito mostradas”.

A par dessa exposta sexualidade, a poética camoniana exprime, ao mesmo tempo, uma consciência reflexiva e intelectualizada do “eu” que parece adivinhar o cogito cartesiano: “Que, como um acidente em seu sujeito / Assim coa alma minha se conforma / Está no pensamento como ideia / E o vivo e puro amor de que sou feito / Como a matéria simples busca forma”.

Rendendo-se consoladamente à palpável realidade de um impetuoso erotismo, Camões não deixa de ser herdeiro da tradição neo-platónica e, com ela, de uma cosmologia sustentada num mundo superior que não se reduz à realidade sensível. Por isso, se no épico as Ninfas vão “Nuas por entre o mato, aos olhos dando / O que às mãos cobiçosas vão negando”, o Camões lírico há-de cantar (ou já teria cantado) o quão cedo desses olhos a Alma gentil se parte descontente.

Em Camões, o Amor assume ainda a forma de superior conhecimento do mundo, nele se fundindo o conhecimento de si e do outro que é transformar-se o amador na coisa amada: “Não tenho logo mais que desejar, / Pois em mim tenho a parte desejada”. Essa oscilação entre a clara e distinta objectivação da experiência e uma subjectivíssima fusão cujo conhecimento é inalcançável para a mente humana, dá lugar à, tão lúcida como angustiada, meditação camoniana sobre a condição humana que estes versos exprimem: “Que dias há que na alma me tem posto / Um não sei quê, que nasce não sei onde, / Vem não sei como, e dói não sei porquê.

Se o século XVI foi português, só terá sido por nunca, como nestes versos, a poesia escrita em língua portuguesa ter estado tão adiante do que racionalmente noutras línguas do seu tempo se escrevia: “Morrendo estou na vida, em morte vivo; / vejo sem olhos, e sem língua falo; / e juntamente passo glória e pena.”  

Este texto foi uma encomenda. Escrevi-o com muito gosto e com um descaramento que se baseia numa ideia simples: os poetas, os pintores, os romancistas devem ser falados, interpretados e comentados pelos seus leitores, mesmo por aqueles que só como amadores os comentem. Os amadores nunca dispensarão os especialistas. Mal do especialista que, magnânimo, não deixe, como crianças, sentarem-se os amadores aos pés do artista.

Quantas voltas tem o mundo?


Apresentou-se como Rikio Hossback, redator do Travel Almanac. Vinha credenciado pelo sr. Pedro Norton, a mando do sr. Manuel Fonseca — as mais finas referências, portanto. Queria coisas, vá lá que não era vendedor.
Foi brusco de entrada, julgando que assim me desarmava e que eu já tinha o discurso na ponta da língua. Tinha-o era tomado de ponta, sem paciência para perguntas teutónicas.
Então? — disse.
Então o quê? — retorqui — Faça o favor de dizer ao que vem.
Era umas perguntinhas sobre viagens, hotéis, experiências dessas…
Não me apetecem inquéritos. Quero que lhe conte tudo como deve ser?
Se fizer o favor.
Serei económico. Relatarei apenas os transes decisivos.
Seja.

A primeira grande viagem de que tenho memória foi no elétrico nº 2, a riscar Lisboa ao meio, do Lumiar ao Martim Moniz. Ir à Baixa tinha o prémio de andar nas escadas rolantes do Grandella – um frisson impagável. Valia bem a pena as enormes e variadas horas truc truc por ali fora: Alameda das Linhas de Torrres, Campo Grande, Av. Da República, Estefânia, Campo Santana, S. Lázaro e enfim o descampado do Martim Moniz no sopé do castelo. Demorava mais a percorrer do que a contar; parecia um tarde inteira e quase dava pena desembarcar, tão entretida era a jornada. Muito mais tarde, li num conto de José Rodrigues Miguéis, acho que “Saudades para a Dona Genciana” (agora não tenho como confirmar), uma evocação lírica dos elétricos de Lisboa, em tudo igual ao que eu vivia a bordo do nº 2.

A segunda grande viagem, continuava eu a ser criança, era muito mais temerária. Minha mãe acordava-me de madrugada e íamos até ao Areeiro apanhar a camioneta para o Vale. Uma aventura infindável, ao longo de uns extensíssimos 50 kms, que obrigava a xixis preparatórios e farnel para o meio da manhã. Uma a uma, com método e minúcia, a camioneta dava conhecer todas as povoações, lugares e vilas entre Lisboa e Vila Franca, em todas resfolegando e vibrando as vidraças como numa derradeira etapa. Desembarcava-se na indolente Azambuja e havia ainda que esperar a carreira para Alcoentre, a qual evoluía agora com peripécias mais rústicas e informais. Era gloriosa a entrada no Vale: os miúdos a empoleirarem-se nas escadas traseiras de acesso ao tejadilho, as mulheres a virem à porta, os homens afastando-se do monstro para a berma, o revisor a saltar de repente em andamento para perseguir os tais miúdos. Poucas vezes consegui noutras viagens repetir tão plena sensação de “enfim chegámos”.

A terceira grande viagem foi assaz burguesa. No princípio dos anos 70, mesmo antes da crise petrolífera, a pequena burguesia portuguesa constatou que lhe sobravam algumas economias. Começavam assim os charters para Londres da Abreu, na famigerada Court Line. Essa minha primeira viagem de avião desiludiu: a terra lá em baixa passava devagar e não à velocidade estonteante prometida pelos 800km/h da aeronave. Em Londres confirmaram-se todas as lendas urbanas: os homens tinham cabelos compridos, as miúdas andavam de mini saia com imprevidência, os polícias eram gentis (eu vi uma hippie a beijar um bobby!), havia ajuntamentos de pessoas sem horror das autoridades, podia-se cantar e gritar nas ruas sem desacato e estava em cartaz o escandaloso “The Clockwork Orange”, que não me foi permitido ver. Aos 12 anos estivera no mundo – e era grande.

Dash Snow, “Untitled (Hell)”, 2005

Algumas tribos africanas mais avisadas, agarram nos rapazes, circuncisam-nos e largam-nos na floresta. Eles que voltem semanas depois, sobrevividos e já adultos. Nos anos 80, os jovens europeus, sem que percebessem, passavam por um ritual idêntico – chamava-se inter rail e foi a minha quarta viagem. De mochila às costas parti, com os meus pais a acenarem adeuses em St. Apolónia, um pouco preocupados. Estive um mês sem dar novas, nesses tempos sem telemóveis, nem trocos dispensáveis, nem vagar para informes. No regresso, fui lacónico nos relatos, para não os afligir, descrevendo apenas os episódios mais inofensivos: a parcimoniosa Hungria socialista, onde me impressionara um estendal urbano de cuecas como só as velhas mais soezas usavam em Portugal; a familiar Grécia, tão igual a nós, pois tudo recordava o passado glorioso e nada se mostrava interessante no presente; a circunspecta Viena de Áustria, sem migalha de paciência para mochileiros. Tudo o mais que vivi, ainda hoje creio ser extemporâneo relatar; deixemos correr mais umas décadas. O saldo logístico desse primeiro inter rail foi decente: um número igual de dormidas ao relento e em catres de albergue e zero sobras das 10 latas de atum com que me tinha aviado. Conheci quem fizesse pior.

A quinta viagem foi ao luxo. Na companhia de um senhor muito conhecido de todos vós, éramos dois executivos a caminho de Los Angeles com mordomias adequadas à nossa posição empresarial. Hoje será capaz de parecer irresponsável o que à época era banal e mesmo necessário para que os portuguesitos não desembarcassem em Hollywood com ares de remediados, mas de igual para igual com o resto do mundo. Ainda guardo os pijamas de bom algodão egípcio da First da British e em melhor cofre preservo as belas memórias de andar por Los Angeles como se lhe pertencesse. Já que podíamos, fazíamos vida de filme.

Não houve mais nada?
Houve muito mais, mas estas sobram para chegar onde estou. Só me resta declarar que ao contrário doutros cavalheiros, nunca me comoveu o que se passava portas adentro do La Chunga de Cannes. Been there, done that, digo eu armado aos cucos. Para que saibam, aquilo é hoje um restaurante de grandes janelas, com os interiores à mostra. Já não se guardam segredos.

Nada explica tudo

Foto: Julio Bittencourt

 Nada explica tudo
o que não é exactamente a mesma coisa que dizer que não há nada que explique tudo.
Talvez seja mais verdadeiro dizer-se que só nada explica tudo…

Segue-me

 

Estava a dormir e lembrei-me: neste século de abandonos, o momento em que estive mais próximo de recordar-me de Minnelli — sempre vai, vem sempre — e de Demy — vem e vai — foi em “Three Times” de Hsou Hsiao Hsien. Não sou grande fã do chinês. Vi “Flowers of Shanghai” por volta de 1998, em Cannes, com os críticos a chorarem que nem marias madalenas. É seca valente. “Millennium Mambo”, está tudo no título — um arrogante pechisbeque. Há alguma coisa para dizer de “The Puppet Master”, e muito para dizer acerca de “City of Sadness”, um longo portento mais difícil de encontrar do que uma primeira edição do “Tale of Two Cities” de Dickens.

Mas os primeiros oito minutos de “Three Times”: os primeiros oito minutos de “Three Times” são Minnelli levantado da tumba após quatro meses de Revolução Cultural, e Demy feito ladrão de bicicletas. Não é dita uma palavra, ouve-se apenas um excerto do “Smoke Gets in Your Eyes” dos Platters (quando era puto, os meus pais ouviam tanto isto que eu pensei que era a banda sonora da libertação sexual). Há um jogo de bilhar às três tabelas — o snooker é para maricas -, um breve passeio a duas rodas, a câmara levita sobre o asfalto, infectada pela paixão, barcos cruzam o rio, bailarinos, uma carta é entregue, e acabou.

Depois, há outras maravilhas, por outros tempos, três, urgentes. Mas o arranque do filme diz, a dançar: “Segue-me”.

Não há “you tube” que vos valha. É preciso ver no escuro, grande, grande, olhando para cima.

Já posso dormir.

 

 

O que é National é bom

É uma velha reminiscência da minha adolescência a de insistir em discutir quem é, em cada momento, em cada ano, em cada década ou geração, a melhor banda do mundo. Essa é uma referência sem a qual não passo desde então, uma espécie de força gravitacional de onde irradia tudo o que o meu ouvido musical vai retendo. O reinado pode ser curto, de alguns meses apenas, uma paixão fulminante que se apaga à mesma velocidade com que me invade a alma. Ou pode prolongar-se por toda uma década, por vezes instituindo-se a banda como fundadora de dinastia com herdeiros que vão prolongando o estado de graça. Verdade se diga que sempre tive certezas inabaláveis na matéria. Certezas que começaram com os Pink Floyd, em finais de 70 e por causa do maravilhamento provocado por Dark Side of the Moon e The Wall. Que continuaram na década de 80 com os Joy Division e os seus legítimos descendentes Cure, Echo & The Bunnymen e Smiths. E nos 90´s prosseguiram com os Massive Attack e, já para finais da década, com os Radiohead. Estes últimos com o mérito de terem sido os únicos a guardar o ceptro de uma década para outra (neste caso, até mesmo de um século para outro).

Confesso-vos, no entanto, que me vinha sentindo órfão desde meados dos anos 2000, momento em que se esgotou a minha tolerância na espera de dignos sucessores de Kid A e Amnesiac. Até que resolvi olhar para uns senhores nascidos no Ohio e convertidos a NY, que estavam mesmo ao meu lado já há uns bons anos sem eu lhes dar grande crédito. Pois é, bem me avisavam alguns entendidos que teria de os ver ao vivo. E assim foi. Fui vê-los ao Campo Pequeno em Maio e ainda bem. Ainda bem porque deixei de ser órfão. Voltei a ter a minha “melhor banda do mundo”. E desconfio que não fui o único a ser privilegiado com tal revelação. Desconfio que todos os que, no encore final, cantaram com eles o Vanderlyle Crybaby Geeks com o microfone desligado, partilharam comigo a descoberta. Se quiserem ter uma pálida ideia do que estou a falar, só têm de assistir a um concerto dos National. Ou então, à falta de melhor, cantar o Vanderlyle aí mesmo, em frente ao écran, com o microfone desligado. Como se estivessem no Campo Pequeno, como eu estive, e o video vos mostra, a cantar com o Matt Berninger.

 Leave your home
Change your name
Live alone
Eat your cake

Vanderlyle crybaby cry
Though the water’s a-rising
Still no surprising you
Vanderlyle crybaby cry
Man, it’s all been forgiven
Swans are a-swimmin’
I’ll explain everything to the geeks

All the very best of us string ourselves up for love
All the very best of us string ourselves up for love
All the very best of us string ourselves up for love
All the very best of us string ourselves up for love

Vanderlyle crybaby cry
Though the water’s a-rising
Still no surprising you
Vanderlyle crybaby cry
Man, it’s all been forgiven
Swans are a-swimmin’
I’ll explain everything to the geeks

Hanging from
Chandeliers
Same small world
At your heels

All the very best of us string ourselves up for love
All the very best of us string ourselves up for love
All the very best of us string ourselves up for love
All the very best of us string ourselves up for love

Vanderlyle crybaby cry
Though the water’s a-rising
There’s still no surprising you
Vanderlyle crybaby cry
Man, it’s all been forgiven
The swans are a-swimmin’
I’ll explain everything to the geeks

I’ll explain everything to the geeks

I’ll explain everything to the geeks