
Tinha-a dado. Voltei a tê-la. A primeira edição em dois volumes da Poesia Toda
O Zé foi quem primeiro se chegou à frente e tão bem respondeu ao desafio da sem-se-ver. Por ser de livros, não resisto. Respondo.
1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Existe. Existem. Lidos e relidos. As Obras Completas de Borges, meu circuito de manutenção. “Os Passos em Volta” do Herberto. O “Debaixo do Vulcão” do Lowry que me desaparecia sempre, quando acabava de o ler e me obrigava a comprar novo exemplar na Feira do Livro seguinte. Recebi mesmo a medalha de comprador frequente do editor. (E depois digam que não há bruxas!)
Existe. Existem. Lidos e relidos. As Obras Completas de Borges, meu circuito de manutenção. “Os Passos em Volta” do Herberto. O “Debaixo do Vulcão” do Lowry que me desaparecia sempre, quando acabava de o ler e me obrigava a comprar novo exemplar na Feira do Livro seguinte. Recebi mesmo a medalha de comprador frequente do editor. (E depois digam que não há bruxas!)
3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Se me metessem numa cela em isolamento, por anos e anos, pedia o Quixote e a Bíblia. Job bem precisava do amparo de Sancho Pança – imagino-os a mergulhar numa amizade viril que nunca chega a ser sexual, como a de Bogart e Rains no fim de Casablanca. E o Quixote foi o discípulo que Jesus nunca teve.
Se me metessem numa cela em isolamento, por anos e anos, pedia o Quixote e a Bíblia. Job bem precisava do amparo de Sancho Pança – imagino-os a mergulhar numa amizade viril que nunca chega a ser sexual, como a de Bogart e Rains no fim de Casablanca. E o Quixote foi o discípulo que Jesus nunca teve.
4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
“Gödel, Escher e Bach” de Douglas Hofstadter. Motivo: ignorância matemática, lógica e computacional. O livro está ali, ao lado, de olhar acusador e trocista. É o meu banho de humildade. E se ali continuar, um dia começarei a beber sem remissão.
“Gödel, Escher e Bach” de Douglas Hofstadter. Motivo: ignorância matemática, lógica e computacional. O livro está ali, ao lado, de olhar acusador e trocista. É o meu banho de humildade. E se ali continuar, um dia começarei a beber sem remissão.
5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
O fim de um livro que a bem dizer talvez nem exista: “As Palmeiras Bravas” do Faulkner. Prefiro esse fim a tudo e a nada. Dói que se farta. Borges traduziu-o para espanhol, Sena para português.
E o mais bonito começo é o da “Reivindicação do Conde Julião” de Juan Goytisolo: ‘tierra ingrata, entre todas espuria y mezquina, jamás volveré a ti.’
O fim de um livro que a bem dizer talvez nem exista: “As Palmeiras Bravas” do Faulkner. Prefiro esse fim a tudo e a nada. Dói que se farta. Borges traduziu-o para espanhol, Sena para português.
E o mais bonito começo é o da “Reivindicação do Conde Julião” de Juan Goytisolo: ‘tierra ingrata, entre todas espuria y mezquina, jamás volveré a ti.’
6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Sim. Numa árvore tropical. Subia à mangueira do meu quintal que tinha um ramo robusto no ângulo certo com o tronco. Quase um sofá. Isto é verdade, horas e horas de verdade que me fizeram uma coluna direitinha, três metros acima da rasteira realidade. Tinha pouco dinheiro e lia o que me caía nas mãos: os cinco, os cow-boys e navajos do Zane Grey, a Rosa do Adro que me faz parolo para o resto da vida, o Júlio Dinis e às escondidas uns livros do Vilhena que tinham ilustrações de lindas maminhas a preto e branco. O que contritamente (falso, falso) chorei quando a minha mãe descobriu.
Sim. Numa árvore tropical. Subia à mangueira do meu quintal que tinha um ramo robusto no ângulo certo com o tronco. Quase um sofá. Isto é verdade, horas e horas de verdade que me fizeram uma coluna direitinha, três metros acima da rasteira realidade. Tinha pouco dinheiro e lia o que me caía nas mãos: os cinco, os cow-boys e navajos do Zane Grey, a Rosa do Adro que me faz parolo para o resto da vida, o Júlio Dinis e às escondidas uns livros do Vilhena que tinham ilustrações de lindas maminhas a preto e branco. O que contritamente (falso, falso) chorei quando a minha mãe descobriu.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Um romance do Georges Steiner (“O Transporte Para San Cristóbal de A. H.”), um autor que tem tanto de excelência no ensaio como de prisão de ventre narrativa na ficção. Li tudo: precisava de ter a certeza.
Um romance do Georges Steiner (“O Transporte Para San Cristóbal de A. H.”), um autor que tem tanto de excelência no ensaio como de prisão de ventre narrativa na ficção. Li tudo: precisava de ter a certeza.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
O que agora arbitrariamente me vem à cabeça: o meu Conrad (Heart of Darkness e Lord Jim), o Melville de todos (Moby Dick e o Bartleby preciosamente traduzido pelo Gil de Carvalho), o Herberto que devia ser dos portugueses (A Vocação Animal), Sena (As Evidências e Os Sinais de Fogo), Raul Brandão (El-rei Junot). Estes poetas e os livros deles: François Villon, Ronsard, Yeats, Larkin, Eliot, Pessoa, Ruy Belo, Christina Rossetti, e e cummings, Whitman, René Char, Drummond, Ezra Pound. Também Joyce (Dubliners é tão saboroso), Tolstoi (Guerra e Paz) Stendhal (O Vermelho e o Negro), Dostoievski claro, o D.H. Lawrence (Filhos e Amantes e Mulheres Apaixonadas), o Somerset Maugham (Fio da Navalha e Histórias dos Mares do Sul), Salinger, Roth, Bellow (Ravelstein), Ernst Jünger (Eumeswill), Philippe Sollers (Estranha Solidão), Blaise Cendrars (Moravagine), Flaubert (Salambô), Klossowski (Roberte Nessa Noite), Raymond Queneau (As Obras Completas de Sally Mara que dá mais tesão do que o Sade), Scott Fitzgerald (Terna É a Noite e um conto fulminante, The Crack Up). E já me esquecia da Edna St. Vincent Millay.
9. Que livro estás a ler neste momento?
Releio devagar o “O Amor e o Ocidente” de Denis de Rougement. Leio “O Ensino do Português” de Maria do Carmo Vieira, “The Complete Dramatic Works” do Becket que a minha filha me trouxe da Irlanda (estou bem arranjado), “Violência” de Slavoj Zizek e, à maluca, “L’ Évangile de Nietzsche” de Philippe Sollers.
O que agora arbitrariamente me vem à cabeça: o meu Conrad (Heart of Darkness e Lord Jim), o Melville de todos (Moby Dick e o Bartleby preciosamente traduzido pelo Gil de Carvalho), o Herberto que devia ser dos portugueses (A Vocação Animal), Sena (As Evidências e Os Sinais de Fogo), Raul Brandão (El-rei Junot). Estes poetas e os livros deles: François Villon, Ronsard, Yeats, Larkin, Eliot, Pessoa, Ruy Belo, Christina Rossetti, e e cummings, Whitman, René Char, Drummond, Ezra Pound. Também Joyce (Dubliners é tão saboroso), Tolstoi (Guerra e Paz) Stendhal (O Vermelho e o Negro), Dostoievski claro, o D.H. Lawrence (Filhos e Amantes e Mulheres Apaixonadas), o Somerset Maugham (Fio da Navalha e Histórias dos Mares do Sul), Salinger, Roth, Bellow (Ravelstein), Ernst Jünger (Eumeswill), Philippe Sollers (Estranha Solidão), Blaise Cendrars (Moravagine), Flaubert (Salambô), Klossowski (Roberte Nessa Noite), Raymond Queneau (As Obras Completas de Sally Mara que dá mais tesão do que o Sade), Scott Fitzgerald (Terna É a Noite e um conto fulminante, The Crack Up). E já me esquecia da Edna St. Vincent Millay.
9. Que livro estás a ler neste momento?
Releio devagar o “O Amor e o Ocidente” de Denis de Rougement. Leio “O Ensino do Português” de Maria do Carmo Vieira, “The Complete Dramatic Works” do Becket que a minha filha me trouxe da Irlanda (estou bem arranjado), “Violência” de Slavoj Zizek e, à maluca, “L’ Évangile de Nietzsche” de Philippe Sollers.
10. Indica dez amigos para o Meme Literário:
Um amigo que, de tanto amor ao livro, vale por dez: o Pedro Norton. Agora faça-me a triste desfeita de não responder!
Um amigo que, de tanto amor ao livro, vale por dez: o Pedro Norton. Agora faça-me a triste desfeita de não responder!

















O que escrevi do Mindlin aqui, mais especificamente o fato dele ser a pessoa que eu conheci que mais livros leu, acho que precisa ser revisto.É capaz que você, estimado Manuel, aos 95, que é a idade que Mindlin tinha quando nos deixou, ultrapasse bem a marca do famoso bibliófilo brasileiro.Com a diferença que além dos clássicos lidos por ele você ainda tem muita literatura contemporânea pela frente.Sua lista é um verdadeiro deleite…senti-me dentro de uma biblioteca.
Olá Turmalina, nossa amada irmã do lado de lá! Não me venha com o Mindlin que eu morro de inveja. O homem era esmagador: na quantidade e na qualidade. Há dias tive de tratar de uma doação pessoal de livros que fiz entrar numa bibliotec pública. Pensei: eeu ainda tenho mais em casa. Quando a biblioteca publica me deu o balanço dos livros, ultrapassavam os 10 mil. Comparei e acho que tenho mais ou menos a mesma coisa. Jà vê que isso é uma gota de água comparado com esse gigantíssimo coleccionador.
Tem graça. Acabei de ler as Aulas de Literatura e as Opiniões Fortes do Nabokov e o russo detesta praticamente todos os livros de que o Manuel gosta. Não faz mal: o pedófilo irreverente também não gostava do Kazantzakis e eu prefiro as Aulas de Cinema do Manuel… mas, credo, o Lowry…? D.H Lawrence? Maugham? Deus o perdoe.
E, se me permite, visto ter lido o último grande escritor (Jünger), meta aí o “Sobre as Falésias de Mármore” no meio do “o que estou a ler” =)
Meu caro, está a ver o que dá a irreflectida velocidade da blogosfera: esqueci-me da Lolita de que já qui falei com euforia. Mas acabei de lei o romance póstumo do homem e acho que é uma terrível maldade editorial. Devia ser proibido, como diria o outro.
Os meus gostos são, de facto, lamentáveis, mas — e como se dizia no musseque luandense, “é que nem que foras tenente” eu deixaria de gostar do Maugham e do Lawrence. Sabe o que é: quando se leu, como se leu, com quem se leu!!!
Do Jünger já marcharam com garbo e em passo de ganso não só as Falésias, mas também O Passo da Floresta, a Guerra com Experiência Interior, O Coração Aventuroso, os Jeux Africains em poche do Folio, e tenho das editions du rocher um estudo de um De Towarnicki, “Jünger, Récit d’un Passeur de Siècle” a que ainda não me atrevi.
Obrigado pela simpatia cinematográfica. Fico à espera de mais desafios literários.
Olhe, ainda bem que fica à espera, que tenho um aqui pronto… você que já viu tantas noites, não nos quer falar de Céline? :)
Meu caro, sou um péssimo céliniano. Tenho (uns 4) o que a Assirio (e julgo que a Ulisseia) publicou e mais uns pequenininhos franceses: Semmelweis (da Gallimard), Casse-pipe e os entretiens avec le professeur Y. Mas ainda não me consegui encaixar. É uma prosa áspera e árdua. Até o, às vezes meu, Sollers mo recomenda. Mas eu arrasto-me pelas páginas com pouca emoção. Tenho, já vê, de o aprender. Quem é que o leu bem na sua opinião?
Não sei Manuel, não sei… eu não creio que o tenha lido bem… não tive aquela vida… A Viagem não nos deixa os mesmos, isso eu sei, por experiência. A minha noiva não me deixa ler de novo a Viagem, palavra de honra! Leio às escondidas…
Mas é desses que ando à procura, dos que o tenham lido bem. E de quem possa ter tido uma vida assim… de irmãos, se assim se pode dizer.
Talvez o Jünger no seu Tratado do Rebelde. Não sei.
Yesss! Festim!
Duas suculentas listas de livros em resposta ao desafio da sem-se-ver!
Já li a correr, agora vou num instantinho cuscar a da Marta.
Já cá volto com mais vagar …
Enquanto percorria esta sua bela lista, Manuel, e lhe cobiçava tantos e tantos livros que nunca li, alguns de que nem nunca ouvi falar, dei por mim a pensar naqueles volumes gordíssimos que elencam “1001 montes de coisas para ler/ver/visitar antes de morrer” e na irresistível ideia que o respectivo título sempre me evoca: como seria bom cada um poder fazer uma tal lista, na certeza de que viveria o tempo suficiente – e por definição feliz – para ler todos esses livros, ver todos esses filmes, visitar todos esse lugares … Boa parte da minha seria alegremente surripiada daqui. No entretanto, pois faz-se o que se pode: ando a ver se entro no Conrad e hoje na Feira do Livro comprei um Roth, curiosa de tanto o ouvir elogiar por aqui. E fiquei com saudades de reler o Rougemont … speaking of which, por onde será que anda o meu?
Joana, surripie à vontade daqui e da Marta também, mesmo que ela não deixa.
Já dos 1001, seja livros, seja filmes, torço o nariz. Está tudo certinho e deve lá haver muita coisa de que todos gostamos, mas é a arrumação de “classificadores”. Falta-lhes o acidente e o incidente, esse seu “speaking o foi which” de quem não encontra o raio do livro e se enerva por não saber onde está e se alegra mais por finalmente o encontrar do que por ler, porque ler fica para amanhã. Os livros são, “so far”, uma coisa que se tem na mão.
Olha lá! Então não havia de deixar porquê? Gostei do acidente e do incidente…suspeito os meus livros de serem todos muito acidentais, ligados mais que tudo ao momento em que os li. Vou ver se me organizo e risco uns dos teus– e outros do Zé — da minha resposta 4, desde já agradecendo as sugestões.
Marta, nós devíamos era ir trabalhar para uma biblioteca!
olha o philippe sollers… :) há tanto tempo, deus meu.
maugham, claro. e lowry.
quanto aos mais, muitos do meu conhecimento e gosto, outros que nunca li.
obrigada por ter respondido ao meu (que não é meu, sei lá quem o começou…) desafio(zito).
uma boa semana.
Sem-se-Ver o Sollers faz-me sorrir. E o primeiro romance dele, a Estranha Solidão, é mesmo muito bonito. Tem uma autobiografia muito corajosa. As maluqueiras dele sobre pintura, filosofia e religião têm a vantagem de uma liberdade quase total: liberdade de ideologia, liberdade de gosto, liberdade da academia, liberdade da ciência. muitas vezes liberdade do sentido. Há pouca gente que se esteja tão nas tintas como ele. E eu, parvo, rio-me.
Olha, olha, ele a ler o Zizek — estás a preparar alguma…
Gosto de saber, por antecipação, o que é que andas a pensar, my man zeff!
Que lindo HH. Não tinha visto ainda. Fico contente que o tenha outra vez.
Foi assim que comecei a ler o HH. Vou dizer uma coisa horrível: era puto e palmei os dois livros dessa Poesia Toda da Plátano editora numa livraria, porque estava a arder de massas. Li-os como um doido, de alegria, de comoção, de sol tropical na casa do quilómetro 36, num kayak a andar pelos mangais, e sempre um sol inclemente. Em Lisboa, quando voltei, com uma mala de livros que trouxe de Luanda, dei-os porque tinha a nova edição. Agora que os voltei a comprar num alfarrábio sinto que paguei a dívida do gamanço juvenil.