Arredado deste meu querido blog muito mais do que gostaria, por razões que deixariam muito contente a troika do FMI, do FEFE e do BCE – explico: por razões de trabalho e de estudo que quase não me deixam tempo para outras actividades de carácter lúdico, não consentâneas, ao que parece, com a época de sofrimento * que vivemos –, ouso aqui roubar alguns minutos à nossa objectiva e nacional produtividade para vos falar, ensombradamente, de Portugal.
Falo-vos de Portugal, no entanto, não a partir do olhar exterior proporcionado pela visita de uma europeia troika (contradição tragicómica que parece querer esquecer que a Europa e a Rússia teimam em não olhar o futuro lado a lado), mas de um olhar interior proporcionado por uma popular e antiga vivência de um fértil tríduo pascal.
Uma primeira observação que gostaria de fazer sobre isto é que Portugal é mais antigo do que esta Europa que agora nos visita. Esta Europa, na verdade, pretende fundar-se em revoluções – inglesa, americana, francesa, russa… – que fazem tábua rasa do passado. Nós, porém, somos já antes disso. Temos que senti-lo, temos que vivê-lo, temos que sabê-lo, para resolvermos as nossas próprias contradições e, então, falarmos, a partir de nós, com todos os outros.
Na Casa do Carboal, em Covas do Douro, onde fui para passar a Páscoa, na porta, logo à entrada, pode ler-se: «Si Deus pro nobis quis contra nos: 1689». Esta inscrição, tirada da Carta aos Romanos (8, 31), dá o mote que deve inspirar uma família que, desde então, se reconhece daquela casa. Faltavam 100 anos para a revolução francesa, com a qual esta noção de propriedade familiar e comunitária iria dar lugar a uma outra, apenas económica e política.
Esta exterioridade totalitária que desde então nos tem vindo a ser imposta levou ao absurdo generalizado de se pensar uma casa apenas como um investimento económico, uma aplicação financeira, um bem transaccionável, exagero que, no nosso país, tão atreito às modernidades vindas de fora, foi mesmo, nesse sentido, comentado pela troika.
Ora, se de um ponto de vista económico e político nós temos uma casa, de um ponto de vista familiar e civil, contudo, nós somos de uma casa. Esta pertença diferenciada a um espaço e a um tempo, brutalmente combatida pelas revoluções universalistas em que esta Europa quer fundar-se, tem a sua raiz num sistema feudal que, nalguns pontos, como este, faremos bem em recuperar. E nós somos daqueles que têm uma longa tradição feudal. Fazemos mal, por isso, em deitá-la fora.
Claro que esta tradição foi, de um modo geral, ultrapassada. E bem, pois que continha princípios que hoje reconhecemos como inaceitáveis. É com estranheza que observamos, com efeito, que esta mesma casa erigida sobre pilares de pedra cristãos seja arrolada num morgadio em que, «nos casos em que não haja sucessão legítima dos chamados nesta instituição, poderão suceder os filhos bastardos sendo havidos com mulher limpa sem má raça, e tidos por filhos, e por tais reputados; e quer e é sua vontade [– do fundador –], que o que suceder neste vínculo e morgado não seja cristão novo, nem judeu, nem mourisco, nem mulato, nem de nação com defeito, nem casado com mulher que o tenha. (…) [Do mesmo modo não poderão nele suceder] Frades, Freiras, Clérigos e Malteses, (…) para que só sucedam nele aqueles que possam casar…» Eis o que dizia o direito.
Esta contradição, no entanto, é nossa, e, como tantas outras, tem de resolver-se, ou melhor, temos de resolvê-las. Mas não com revoluções que fazem tábua rasa de um passado que é também a nossa história. No Minho, no meu Minho, que é verde, por causa da água que sai de todas as pedras, as contradições resolvem-se a cantar. No campo, nas praças, nas festas e na igrejas. Os cantos não são, muitas vezes, nem os mais afinados, nem os mais bem cantados. Mas saem fortes e puros das almas das gentes como a água sai dos campos e das pedras, conferindo, com o seu som, a todos a graça de um mesmo caminho.

Foi assim, uma vez mais, no sábado de Aleluia. A igreja cheia, de uma gente que convive com o pecado como convive com a terra. E que canta com uma força que irrompe nos corações, comovendo-os, como comoveu a mim, que sei hoje mais das letras que dos elementos. Ora, a troika nada sabe desta terra, desta água, deste fogo e deste ar. E nem tem que saber. Mas é deles que somos feitos. E só neles podemos ser – ou então não ser, como dizia o outro!
* Tripalium, como é sabido, é um termo latino que significa sofrimento, do qual deriva, em português, a palavra trabalho.



















Este texto só pode merecer uma atitude: TODOS DE PÉ, PARA APLAUDIR !
Obrigado, Fernando. Ainda bem que gostou.
que beleza! no fundo escreve-se sobre as mesmas coisas: uma terra, um ofício, uma mulher… essa falta de qualquer organicidade com uma tradição, com a capacidade de renová-la, derivar dela, descontinuá-la — mas sentindo-a como um marco de referência — é uma grave doença contemporânea. parabéns pelo texto! e pelos cantares do minho.
É verdade Ruy: uma grave doença contemporânea, na qual concordam as esquerdas e as direitas, todas, deste nosso mundo ocidental. E julgo até que é uma das razões, ainda que também talvez inconsciente, que torna muitíssimo difícil qualquer diálogo com os outros mundos não ocidentais — nesta altura, especialmente o árabe.
Que texto tão bonito, Gonçalo. E que ideia tão bem condensada.
Tradição, contradição. Se calhar as tradições também se fortalecem a cantar.
Se calhar estavamos todos a precisar de ir cantar juntos assim.
Será que esta força só se retira de um ritual espiritual? será que temos todos de ir à missa?
Sim, Teresa. Todos. Cada um à sua, claro está. :)
Julgo que tens uma gralhinha no texto latino: faltou-te uma letrinha (um r que faz do conta um contra) que faz toda a diferença. Não é: Si Deus pro nobis quis contra nos? Se Deus está connosco, quem pode estar contra nós?
Será que o teu belo texto consegue que Deus volte a “estar por nós”? Julgo que mesmo Deus, saído da concha feudal, se universalizou e ecumenizou e está com todos que é, diria a Eugénia, o mesmo que não estar com ninguém. De tão ubíquo, o velho Deus de granito é hoje uma moldável argila que serve para tudo menos para construir casas. Ó se percebo a crise do imobiliário! Um abraço, também para o teu comovido sábado de Aleluia.
Claro que é gralha. Vou já mudar. Mas na pedra pode ler-se com o necessário “r” no meio de “conta”. Quanto ao meu texto, Manuel, não creio que consiga tal proeza. Muito menos de maneira objectiva e universal. A ubiquidade de Deus significa que ele pode estar em todo o tempo em toda a parte. Mas não significa que ele esteja em todo o tempo em toda a parte da mesma maneira que nós estamos algum tempo em alguma parte. O encontro com Deus é pessoal. Seja onde e quando for. Mas para nos encontrarmos com alguém precisamos de ter uma casa. Melhor: de sermos de uma casa. Era esse o ponto. Um abraço também para ti. Sabes porquê.
Eu que conheci somente o meio e o sul de Portugal encantei-me com todos os detalhes que pude perceber. O norte do país tenho conhecido pelas páginas dos livros.E o Minho é uma região que tem me deixado prá lá de saudosa daquilo que não conheço.E essas suas fotos só contribuíram para o meu gostar dessa região, porque afinal sou uma pessoa de closes e planos fechados, enfim, detalhes que considero tão essenciais.
Todo o restante do texto na sua complexidade e contradição prefiro deixar para pensar depois.Por enquanto quero aproveitar somente as imagens, as reais e aquelas que construí.
Lindo texto e que belo sábado de Aleluia, deu-me até vontade de ouvir esse canto de tanta força.
Obrigado Turmalina. E você nem sabe o que eu me coibí de pôr mais e mais imagens neste post…
Bem te percebo caro primo, e melhor te leio… não fossemos da mesma casa. Si Deus pro nobis quis contra nos?