Parecia Ter Mais

[s/i/c]

 

O Professor Edwin McCohert. Ele era muito sério. Um cientista. Matemático de renome. Com artigos em revistas conceituadas. Era membro do conselho de editorialismo científico da Universidade de Edimburgo, onde lecionava. Alunos brilhantes haviam passado por sua tutoria. Edwin McCohert era quase incapaz de pensar essas futilidade inúteis e moderadamente estúpidas que quase todo mundo pensa. Mas às vezes ele pensava. E em outras vezes, até as experienciava meio a contragosto. Coisas do tipo: seria possível a uma mosca dar a volta à Terra se dirigisse todos os esforços nesse sentido, ao invés de ficar revoando sobre o cabelo do Professor Louis Herbert Mayall, que devia ter esquecido mais uma vez de tomar banho?

Ah!, as moscas, os mosquitos… sim, são, no fim, tão anatômicos. Os mosquitos, então, mais parecem caças a jato de tão bem desenhados. Com certeza devem ter inspirados os designers da McDonnell Douglas a projetar o F-18. Já as moscas, parecem so disgustingly annoying. How could such a petty thing be so stubborn? Como ousam pousar em nossa sopa? E, superando elefantes, incomodar muito mais. Como é chato, depois de um lauto almoço no fim-de-semana jazer estatelado em um macio sofá e, daí, vem aquela mosca que pousa sempre no mesmo lugar. Um pouco para esquerda na tua testa, que está crescendo em calva. A gente a espanta e é mesmo que nada. Ela vem de novo e pousa um pouco para esquerda, na testa. No exato ponto. No centro do moscoporto. E, então, lá pela enésima vez, quando ela já nos enlouqueceu por completo, saímos correndo atrás de esmagá-la com o jornal pela sala afora. Leda tentativa, mas pelo menos isso a afasta da testa e nos dá uma probabilidade maior de siesta.

Mas eram raras às vezes que o Professor Edwin McCohert pensava assim. Em geral, era muito mais lógico. Sisudo. Comedido. Sua mulher tinha quase vontade de convencê-lo a ter um affair com uma professora assistente, cuja especialidade eram curvas e parabólicas. Mas ele, embora pressentisse os innuendos da mulher, não se animava tanto. Mesmo que achasse a colega não de todo desatraente. E notasse certos olhares oblíquos sob os espessos óculos dela. Será? Não. Devia ser impressão. E, além disso, ela era casada e levemente estrábica (quiet charming!). E anglicana devota. Se ao menos fosse católica… Na verdade, de todo esse imbróglio, apenas uma coisa lhe ocorreu. Algo um um tanto constrangedor, indeed, um tanto fora de propósito, enquanto erguia a chávena de Earl Grey: como as moscas trepam? Será uma sobre a outra; ou será, well, como aqueles cachorros quando definitivamente encangados, cada um vira-se para um lado? Será que trepam durante o voo ou tão-só nas cornijas um tanto empoeiradas das lareiras? E se for durante o voo, quem despenderá mais energia, pois há que manter o curso do voo e, ao mesmo tempo, well, you know, actually:

–Oh, fuck off, what a hell of a thought – dizia com os botões de seu roupão de flanela, que o abotoava até o pescoço o Professor Edwin McCohert. Mas nem Rangers X Celtics na TV conseguia desviar seu pensar da cópula das moscas. Havia enciclopédias e uma boa seção de livros de entomologia para tanto na biblioteca da universidade, ponderou. E o Departamento de Biologia não era dos mais fracos. Porém o Professor McCohert não tomava a iniciativa: – I wonder if, I wonder if…E o que era pior: ele não se lembrava. Ainda que o dilema lhe tenha parecido infame, repulsivo, indigno de um cientista; de momento, lhe parecia quase essencial que dirimisse a dúvida. Como pôde ter esquecido essas coisas que a gente sabe desde a adolescência? Mas não. Não ousaria ir ao Google ou indagar a ninguém. Nem mesmo ao zelador paquistanês, que certamente era versado nesses… ‘subjects’. Foi então que resolveu pôr, por garantia de pensamentos mais saudáveis, telas protetoras nas janelas e portas da casa. De forma que as moscas não viessem perturbar seu sonho de equações diferenciais, pousando sempre no mesmo lugar; e arruinando sua sacrossanta siesta.

Dizem que morreu durante uma delas, antes dos sessenta.

Mas com certeza parecia ter mais de oitenta e cinco.

 

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Comentários a “Parecia Ter Mais” (2)

  1. Pedro Norton diz:

    Porra Ruy! Agora estou eu a pensar na merda das moscas a … you know what. Tenho de trabalhar e não consigo.

  2. Marta Costa Reis diz:

    O Kinsey também começou com os bichinhos e depois foi o que deu…

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