“What’s in a name? That which we call a rose
By any other name would smell as sweet.”
Romeo and Juliet (II, ii, 1–2)
Ao contrário do que nos diz o eterno Shakespeare, na sua voz de Julieta-menina, os nomes têm muito em si. Talvez não o nome da rosa, pois a rosa cheira e é bela por ser bela e por cheirar tão bem e em tantas cores. A rosa talvez nem precise de nome, ou poderia o seu nome ser Julieta e seria igualmente bela. Mas, para Julieta, Montague ou Capuleto não pode nunca ser igual. Ou pode ?
Somos seres de nomes. Pelos nomes descobrimos o mundo e o trazemos à nossa adâmica medida, co-criadores dos seres agora nomeados. Antes do nome era o silêncio. O silêncio do Verbo que apenas no nosso silêncio encontramos. Podemos renomear-nos, transformar-nos em segundas vidas mais ou menos literais, heterónimos de gozo ou de castigo, o anonimato que nos esconde a vergonha ou nos dá liberdade.
Não temos a placidez da rosa, que não conhece os seus espinhos. O Sem-nome está sempre um passo longe demais, demasiado perto da divindade. Conseguiríamos viver inominados? Conseguimos viver despidos de quase tudo, mas o que somos nós quando não somos o que fazemos, o que escrevemos, o que de nós mostramos? O que somos sem o nome que temos, o que nos deram ou o que para nós reinventamos ?
Podemos ter muitos nomes. Conseguiríamos não ter nenhum?


















O próprio Platão deixou a pergunta — pergunta pela relação entre os nomes e as coisas — sem uma resposta cabal no diálogo em que especificamente a tratou, intitulado Crátilo. A questão permanecerá actuante durante toda a Idade Média, que a tratará entre os extremos do nominalismo e do intelectualismo (enfim, o nome poderia bem ser outro). Humberto Eco divulgou a controvérsia com o seu romance justamente intitulado «O nome dsa rosa».
Hoje, porém, em consequência de uma modernidade que desdivinizou o absoluto e elidiu a questão da verdade, a questão da linguagem não se põe já tão fundamente, isto é, de tal modo que entrelace a filosofia da linguagem, a filosofia do conhecimento e a ontologia. Em rigor, a questão tornou-se técnica, demasiado técnica, e incompreensível para a maioria dos seres humanos. Desumanizou-se.
De um certo ponto de vista, aliás, hoje, a ausência da pergunta pela relação entre os nomes e as coisas privilegia uma realidade em que a realidade se reduz à aparência, a verdade ao discurso, a coisa ao nome. Mesmo aqui, porém, permanece uma lógica que não depende de nós, ainda que a possamos manipular. Vale ainda, portanto, do meu ponto de vista, a pergunta de Platão e o ensaio da sua resposta: as palavras, ou os nomes, são aquilo com que andamos à volta da verdade, ou das coisas.
Gonçalo, duas acerbas críticas.
a) devias com tudo isto que disseste ter feito um belo post (eu desacordaria de tudo, está claro!);
b) devias ir ver o “A Árvore da Vida” do Terrence Malick estreadinho de fresco esta semana para veres como o divino está, como talvez nunca tenha estado, na ordem do dia. Não por ser o establishement (que era na Idade Média), mas por vir da inquietude vivente de multidões que correm para o emprego no metro, vão à praia no fim-de-semana, se embebedam 6ª feira à noite e fazem repetida, alegre a angustiadas vezes o que às vezes dá filhos.
Ó céus! Concordo com ambos! Também, como o Manuel, vejo o divino muito presente e na ordem do dia e, como o Gonçalo desgosta-me a tecnicidade com que por vezes se arrumam as questões e a reflexão sobre elas.
Mas os nomes são, independentemente da sua dose de verdade, parte fulcral da nossa identidade. Apresentamo-nos com um certo nome, somos “X”, somos esse nome, ou conjunto de nomes que pode, por variadíssimas razões, mudar ao longo de uma vida. Nomear é também dar vida, trazer à existência, materializar certa ou certas características. Falamos de nomes de baptismo — como noutras culturas nomes de apresentação num dado grupo ou iniciação — já pouco descritivos os nossos, no ocidente, mas que remetem para uma história, um exemplo, um destino desejado. Mas podemos também mudar de nome quando tomamos ordens, nos tornamos sannyasin ou assumimos determinada função em que a identidade anterior perde o seu relevo, por nos despirmos dela em submissão ou por representarmos uma “persona” bem maior do a que qualquer ser humano caberia ser. Podemos questionar a ordem dos factores, mas acredito que mudar o nome muda-nos. E volto à minha questão: se não tivermos nome, existimos?
Marta,
antecipando a tua pergunta final, Prince, o Prince de Purple Rain, o Prince que sabe ler a tua mente “des années en avance”, tentou não ter nome ao ponto de a Imprensa não o poder designar de outra maneira que não fosse o Artista anteriormente conhecido como Prince.
Será que Durkheim, ao estudar o sucídio anómico, terá pensado no suicídio dos nomes? Poderá cada um e nós, num momento de perda de identidade, suicidar só o seu nome, numa de que se lixem as jóias, salve-se a nudez dos dedos?
O Prince pode ler a minha mente à vontade e fazer o que quiser, não consigo sair da minha triste condição de groupie desde os meus tenros anos… mas essa do the artist… não lhe correu lá muito bem. Ainda hoje estou na dúvida: foi maluquice ou copyright?
O suicídio anómico não conheço mas parece-me que é bastante sensato suicidar o nome e preservar os dedos em momento de perda identitária. Não sei se se pode equiparar ao que referia acima: nota como, por exemplo, ao tomar ordens um religioso pode mudar o nome, ele já não é o que era, a vida anterior desapareceu e o novo nome vai marcar qualitativamente a novo vida. Há uma espécie de morte (e um renascimento que se segue) e a alteração do nome imprime uma nova tonalidade naquele ser. Ou noutro caso, como os militares perdem o nome próprio e mesmo no Colégio Militar as crianças se conhecem pelo número, que os torna parte de um outro todo em que o indivíduo se dilui. Vou ver o que diz o Durkheim.
What’s in a name? A lot, I would say.
Gosto muito, mas mesmo muito do meu nome de baptismo.
E de todos os outros que me foram dando aqueles que para mim muito significam: nomes que começaram com brincadeiras de miúdos, que encerram private jokes, que tudo dizem numa só palavra (e quero lá saber se é piroso, é que é mesmo assim) …
Tal como não gosto nada que me tirem o nome e, com ele, a minha individualidade: ainda hoje, vários anos volvidos, fervo só de lembrar as vezes em que, em infantários, hospitais, centros de saúde, lojas tive que levar — e em dose tripla — com o tão irritante quanto inquestionavelmente cândido e bem-intencionado “mãe” (“esta mãe já preencheu o impresso?”, “então conte lá, mãe, o que tem a …?”, “mãe, já sabe que …?”) … Grrrrrrrr
Lá está mais uma forma de deixarmos de ser quem somos (ou a totalidade do que somos) ao perdermos o nome! E como outros nomes nos acrescentam, não anulando o nosso, antes engrandecendo partes do que somos e experiências comuns e íntimas. No meu caso, não tenho essa versatilidade. Gosto também muito do meu nome, mas é notoriamente pouco dado à construção de petits noms e alcunhas não tenho (que eu conheça!)
Podíamos tentar arranjar uma espécie de nomnes de índios. Eu, por exemplo, seria quase pela certa um “Aquele que está convencido que o seu hálito frita”!…
Não me parece que seja possível abdicar ou extirpar um nome com que nos identificamos.
Que nome esse! Mas é uma boa sugestão a dos índios: exige-se é um medecine-man adequado para nomear e a correspondente cerimónia iniciática … sem risco de vida de preferência e mutilações, só das menores!