O Forasteiro

Lyonel Fininger, Ye Learned Apothecary, 1901

 

[depois de Kafka]

 

Eu não conhecia bem a cidade e tinha de chegar ao terminal rodoviário. Chovia escasso. A prevenir algum atraso — entendo a pontualidade ser um índice civil mesmo numa capital estranha e sem terceiros interessados (como a gente se engana, e aí é que mora o perigo) — caminhava apressado, com a mala de rodinhas. O guincho das rodinhas a abater-se sobre o macadame com intervalado pio de araponga. Malho na bigorna do juízo. E, mais contínuo, em esmeril às vezes disfarçado maçarico. A hora começava a ermar. Era lua nova. Um bonde sulcava pela rua plana. E, em breve, apenas sua trepidação fez-se ouvir nos longes. Havia tavernas esparsas, vagabundos dormindo sob marquises. No remoto, os fiapos do bonde. Um aroma agridoce de haxixe. Para um americano, como essas velhas cidades podem ser lúgubres quando saem dos cartões-postais. Rua após rua. Labirintam-se. E o frio. Um grupo de ciganos à volta de um violino não só desfiava a canção triste, a que de uso é desfiada por um grupo de ciganos à volta de um violino ou de um realejo em noites assim, mas eram tristes por igual. Em um quiosque fechado pendia uma manchete em mofo: Europe Was Yesterday. Uma mulher chorava um vale de lágrimas, resmungando algo em um dialeto eslavo. Apenas por sua inflexão sentia-se que o que arengava tinha a ver com aquele desespero quase infantil de querer muito uma coisa e não poder tê-la: fosse biscoito, pulôver, sexo. Eis a flecha que o arco do exílio primeiro arremessa. O estofo de que são feitos os sonhos. Não com uma explosão, mas com um suspiro. E eu entendia: aquilo que ela dizia já tinha sido dito em português. E da seguinte forma: até que venha aquele alegre dia que eu vá onde vós is, contente e ledo. Mas tanto tempo quem o passaria. Ao passar pela praça onde havia a magnífica quadriga dominando a fonte, caminho e sempre, algo não batia com o mapa virtual, no celular. E foi então que notei, próximo, dois guardas:

Por favor, qual é o rumo do terminal rodoviário?

O senhor quer saber o rumo – um deles disse com uma expressão séria.

É a intenção.

E ao cotovelar o outro:

Este senhor quer saber o rumo, Aloysius. Este senhor quer saber o rumo.

Tanto riram juntos que um deles teve de tossir para desenredar o fôlego. Quebravam-se de segurar quepes à cabeça. O rumor de um carrilhão assaltou a rua.  E então, semi-recomposto, o que não era Aloysius disse:

Meu Senhor, desista. Quem pode ter um rumo numa noite dessas?

 

* * *

Comentários a “O Forasteiro” (14)

  1. Turmalina diz:

    Nesse instante ouve-se uma intensa gargalhada que vinha de uma mulher que passava quase que despercebida.Não fosse por aquela pesada maquiagem de gosto duvidoso.O olhar arregalado de tanto rímel e o batom vermelho escorrendo pelo canto esquerdo da boca.Além da calça de lycra lilás.
    – O rumo , meu bem? Quem é que o tem?
    Não sei se ria ou me espantava com tão estranha figura.
    – Cai fora que aqui não é o teu lugar, disse Garcia.
    – Toma teu rumo, completou o segundo guarda.
    Nesse momento eu o interpelei:
    – Perá lá.E o rumo da rodoviária?
    E a mulher que já se afastava do grupo, virou-se para eles e disse:
    – Ah, meu bem, desista. Quem pode ter um rumo numa noite dessas?

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    ou talvez, t., a mulher que passava quase despercebida, apesar da “discreta” maquiagem, devesse ter dito:

    “ah, meu bem, textos conversam com outros textos: veja se você descobre outras coisas nessa noite sem rumo em que todos estamos por um fio”. rsss

    p.s. — hoje o ceará jantou o flamengo 1×2, lá, no rio de janeiro. e não foi mais, por mero triz. bora ceará! [detalhe: não é o meu clube].

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Excelente, protótipo e réplicas. E gostei do Ceará, «jantando» o Fla.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      é. sim. importante não avaliar textos pela repercussão. alguns sentem-se roubados se não há um bocadinho a mais de telenovela. rsss

      o manuel tomou outro chá de sumiço. dessa vez consigo levou eugénia. os pedros estão mais reticentes. mais pedras. vasco faz negócios da china e ouvidos de mercador. às vezes, lembra-se de compartir algum jazz, que ouviu no submundo de xangai — um post a cada década. leote tem aparecido um pouco mais, nos últimos tempos. pistacchini mora na filosofia — e dela não tem saído. teresa sempre foi turista. chico feijó está a estudar para o nobel. então o que tenho visto por aqui é a disposição de zé navarro, e uma joana que poderia postar mais. e, sobretudo, sinto muita falta de mais textos da marta.

      • Turmalina diz:

        Pois bem, Sr Ruy, fale baixo sobre a derrota do Fla, pois nossa colega continental deve estar chateada.É preciso respeitar a dor alheia…assim como derrotas de 6 X 0, por exemplo.
        E vambora escrever uma telenovela.
        Sinto falta da Joana por aqui tb :o)

        • Ruy Vasconcelos diz:

          but actually i rather spoke low. and gentle. she said sorry for the ‘horizonte’ defeat, a week ago. i said the same for the ‘flamengo’ one, couple of days ago. but wow 6×0!!! what a slaughter. do you support palmeiras? anyway, let’s sort things out and write together a long soap opera. you’ll be janete clair.

          ass. dias gomes.

          • Turmalina diz:

            BEM AMADO Dias, na verdade não sei se lhe chamo de Gomes…então a coisa toda do Flamengo me parece resolvida.E na verdade a referência sobre o time carioca, não foi crítica, foi mais UM SINAL DE ALERTA.E quanto ao verdão, prefiro não comentar, afinal não é O FIM DO MUNDO.Não que eu torça, mas eu prefiro.
            Nada mal combinarmos IRMÃOS CORAGEM com O PAGADOR DE PROMESSAS, ou ainda com ROQUE SANTEIRO.
            Acho que mais divertido ficaria o ASTRO com um quê de DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS.Ou então PECADO CAPITAL com SARAMANDAIA.
            Penso ainda que poderíamos adequar AS NOIVAS DE COPACABANA à SELVA DE PEDRA.
            Deveríamos tentar algo totalmente inovador, uma vez que você anda tão virtualizado, algo que fuja da abordagem um tanto quanto batida utilizada já pelo nosso colega W.Carrasco.
            EU PROMETO pensar em algo nos próximos dias.
            J.C.

            • Ruy Vasconcelos diz:

              má, tá rápida demais no gatilho. uma calamity jane…rsss e as novelinha tudim debaixo do braço da memória. também assisti. todas.

              acorda, maria bonita. avia esse café.

              [dinheiro na mão é vendaval./// minha pedra é ametista. /// o que fizeste, sultão, de minha alegre menina? [ah, que letra essa de jorge amado para música de dori caymmi e interpretação, perfeita, com um coro de flautas e um percussão ducá, de djavan. éramos felizes. e sabíamos, maria jan]

              ass. virgulino dias

  4. Turmalina diz:

    Tão rápida que você levou o café embora antes que eu pudesse terminá-lo.…e depois ainda quer que eu seja feliz…rss…

  5. Ruy Vasconcelos diz:

    truxi de vorta. cuspes. pressa tem quem nunca estrelas olhou. já viu o setestrelo? diz que lá nem de manhã café se mói.

  6. Turmalina diz:

    Carambolas…olhando direito as estrelas vejo araras amarelinhas.

  7. Joana Vasconcelos diz:

    Ruy, muito estimado e transatlântico primo,Tal é o frenesim (mesmo para os meus padrões habituais) em que anda a minha vida que só agora, mais de doze horas volvidas sobre a emissão do mesmo, me chegou o eco do seu justo lamento pela minha pouca assiduidade aqui pelo cemitério — e a demora na recepção, acredite, não se deveu à distância que nos separa, mas ao turbilhão de afazeres em que ando mergulhada.

    Mal tenho conseguido espreitar o cemitério, sempre a horas mortas e a cabecear de sono. Gosto muito do que leio e sinto algum remorso pela totalmente imerecida falta de feed-back a que tenho submetido todos os escrevedores que por estes dias aqui perseveram — você em especial. A verdade é que quando estou assim cansada e repartida por solicitações jurídicas de toda a ordem fico completamente sem jeito e sem graça … Ou seja (e como sempre me disseram e já me várias vezes me ouvi dizer às minhas filhas) é para o maior bem de todos que me abstenho de escrever mais: para não os massacrar ou maçar horrivelmente com textos secos, áridos, baços e, nunca se sabe, horror dos horrores, com algum desvio juridicizante …
    Prometo que vou tentar aproveitar parte do fim-de-semana para me redimir … a ver se consigo
    Sempre por aqui e sua devotada admiradora, por mais que não (a)pareça
    Joana

    Minha querida Turmalina, também eu tenho saudades. Muitas.
    Este mês de Maio está a ser duro e os dois que se seguem também prometem dar luta … tomara eu poder desfrutar mais da desassosegada paz deste cemitério …
    Um beijo
    Joana

  8. Ruy Vasconcelos diz:

    ora, transantlântica prima joana,

    É possível que parecer — seja ser
    Como o sol é algo que parece e é.

    O sol é um exemplo. O que parece
    é e nessa aparência todas as coisas são.

    não sei porque diz “embora não pareça”. a mim sempre pareceu. na verdade, tenho feito um pouco de barulho por aqui, porque sei, dentro em breve, devo me ausentar de novo por uns bocados, como de uso, por conta de afazeres outros. mas então terei o álibi de haver escrito bastante. e o manuel não poderá me acusar de absenteísmo — que é um de seus esportes prediletos. e não só em relação a mim, claro está.
    quanto a seus textos, faço eco à turmalina: é claro que fazem falta por aqui, digo, com mais frequência. há neles o sinal generoso da simplicidade — e simples nunca quer dizer fácil. mas também de uma mundividência que faz adivinhar um temperamento extremamente engajado — no melhor sentido — com o mundo à volta. essa capacidade de ‘comércio’ entre algo mais pessoal e o ‘mundo grande’. como em seu texto sobre a constituição portuguesa. em que você praticamente a tutua, tratando-a como a uma colega de sala de aula, ou a um desses amigos distantes, que lêem verso de horácio — mas secretamente influem no amor, na vida, na carne…

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