Se elas são ou não razoáveis, isso é uma outra história. Mas que elas passam pela sanção de um grupo, nem se discute. Pode-se, no entanto, discutir se isso é democracia. Se chega perto de ser. Ou se, do contrário, é apenar uma oligarquiazinha torpe, visto que se está a falar de um grupo exíguo; menor mesmo, em seu núcleo duro, que os Trinta Tiranos. Uma congregação formada, digamos, por um grupo de amigos pós-adolescentes que deixaram a faculdade há não muito. E em que cada um ainda anda à cata de seu próprio grifo, em busca de seu tempo rentável. E o deslumbre de começar a vida profissional em meio a um aparato técnico tão presente em suas vidas – como nunca, nunca dantes – parece sustentar a corda bamba da sociabilidade entre todos – ao modo de um cordão umbilical que, como o verdadeiro cordão umbilical, tem o condão de virtualizar-se pelo resto da vida –, e é o que suprapessoalmente e ao fim das contas, afere o peso delas. Das ideias.
Ah, as ideias. A configuração que elas assumem por intermeio de determinadas gírias. O perigo aqui mora em se tomar a afetividade do grupo como molde de mundividência efetiva. Única. Exclusiva. O papel de parede sob o qual repousam os ícones, constritivos e senháticos como gírias. Basta clicar neles e prosseguir com esse novo estilo de pensar que pode durar o tempo de se beber uma soda em lata, o de assistir um clipe no Youtube ou o de ler, dia após dia, no iphone, os cabeçalhos dos noticiosos ou outras manchetes, mais pentatêuticas, onde estão escritas, nas tábuas digitais, os volúveis decálogos do consumo e do gozo. O perigo, aqui, é inadvertir-se de algumas possibilidades. Ou seja, que entre outras, no jogo do bicho, há um lado de nossa personalidade que é também e magnificamente estepe e lobo. E lobo não dos outros. Mas lobo apenas. E uma longa estepe. E há aqueles instantes em que não se é só mais um entre tantos. E há decisões que ninguém, por mais que se grude à nossa pele no transcorrer de muitas noites e incontáveis argumentos, pode tomar pela gente. E, então, sim: segue-se o diagrama em 3D como algo tão rígido quanto o trotar dos cavalos obedientes, adiante e sempre, eia, tracionando o tílburi, limitados pelos tapa-olhos laterais – e pode-se ouvir como o rumor de seus cascos ritmados retine sobre o macadame. É, sim, porque num grupo, como num partido neo-nazi, numa torcida organizada ou numa reunião de Centro Acadêmico, tudo fica mais fácil. Guarda o mesmo figurino, o mesmo ar, a mesma atitude. Uma tatuagem mental quase idêntica de um corpo para o outro. E há sempre aquele mais disposto a sugerir uma badernazinha na cervejaria, na loja de cristais do imigrante ucraniano, que seja. Começa assim, depois piora. E, então, queimam-se livros em público, ou eles são apagados na virtuália, etc.
Na maioria das vezes, contudo, nem quebradeira ou fogo são reais, mas metafísicos – o que, por vezes, não resulta em sevícias lá muito mais mitigáveis. São praticados à direita, mas também à torto. A banalidade de demonizar o outro para salvar a pele do próprio grupo. Isso vem de tão longe, não é mesmo? Isso tem sido procedimento padrão, não exceção, ao longo do que se convencionou chamar História, ou Ocidente ou Civilização Judaico-Cristã ou diga-lá-sua-senha. Sua palavra-passe para adentrar essa maquininha que se pode portar à mão e nela compilar enciclopédias e a Biblioteca do Congresso. Quase sem desvio. Em qualquer lugar. Seria o Aleph de Borges? E é preciso muito tutano para tentar enxergar as coisas para além do espesso véu que o mundo não analógico propõe, ao modo de tapa-olhos laterais: alinhar o obediente trote dos cavalos virtuais que rebocam o tílburi do teu pensamento ao gosto do cocheiro-software, cujas chicotadas espasmam-se por soluções TI que te permitem, ao alcance de um clique, verificar todas as espécies de pinguins – inclusive as já extintas – com seus respectivos nomes científicos: Spheniscus magellanicus, Pygoscelis adeliae, Aptenodytes forsteri, Megadyptes antipodes, enfim, toda uma litania de pinguins que equivale a um daqueles longos genealogias ou inventários em Crônicas e em Números. E quando se pensa na incrível faina dos exploradores. Nos frios e fomes passados. O desconforto das viagens, o escorbuto. A saudade de casa. No lapso de anos sem conta. Sem uma mulher. Nos que morreram enregelados nos convés dos navios desabastecidos, cercados pelo gelo nos círculos polares, para que, à conveniência de um tênue toque de indicador, deitado em tua cama, certo começo de noite, com o notebook escorado à bandeja do cooler, pudesses ter acesso a um volume de informações que eles próprios, exploradores não tiveram, nunca. Embora a experiência não virtual – digamos, loboestépica da coisa – essa é, no fim, inacessável.
Sim, a virtualidade é um bom casaco tecido por códigos expressamente devotados a não vestir todo aquele que a põe em xeque. Que expõe a eventual feiura de seu rosto. Um rosto que, nas rugas invisíveis sob a máscara atraente de softwares, ícones, designs, amortece a selvagem valentia do coração. Porque a virtualidade quase sempre é uma forma de tornar mais ampla a invisibilidade no grupo, embora individuada na medida exata de certa mesquinhez, tédio, banalidade, número, dispêndio. Ou o que se costumou chamar de dialógico – aqueles acanhados comentários à barra das notícias, como notas de rodapé desconsoladas. E essa vontade de soltar a voz no coro das demais. Parece ser uma banalidade comum a todos nós, consumidores, filhos de Eva, cujos tijolos e argamassa mental são confeccionados pela pasmaceira e a profusão – em geral levianas – das referências, citações, cantos de cisne apocalípticos e descartáveis. Uau! O que a virtualidade, propõe, no fim, é o impossível: um indivíduo.
E, então, o que se pensa ser afeto, não é mais que lealdade ao partido neo-nazi, fidelidade ao grupo pequeno. À torcida organizada que solta mais abertamente aquele grito reprimido. Um urro tribal. Aquele berro de mortal ódio ao estranho. E pensar que, quando sozinhos, a mastigar pipocas, mitigar devaneios e engolir soda diante do televisor, meio barrigudos e inofensivos, cada um se desmancha em lágrimas diante da puerilidade de um comercial da Coca-Cola. Porém juntos, quão diferentes. Conformamos aquele grupo operoso e disciplinado, cego, tripulando uma caravela virtual, com os canhões voltados, alertas, a farejar na delicadeza do múltiplo em torno de si, no imenso mar oceano dos signos, o milagre da diferença.
E é assim; em um daqueles quartiers sem rosto, a imigrante a portar seu véu – não por imposição, machismo, mas por convicção íntima e uma delicadeza que tem a ver com tradição. E, por uma sanha coletiva, cedo ou tarde, sabemos, ela terá de passar pela humilhação de retirá-lo. Para poder votar, acomodar-se numa sala de aula.
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Não sei porquê Ruy, a lê-lo, dei conta que antes, na tarde doméstica que tive, com passagem pelo cinema incluída, deu tempo para ler a Veja, e lá vinha uma reportagem sobre um mundo (brasileiro) de leitores juvenis para além do simples digital touch. Gostei de saber de comunidades juvenis de leitores saídos de Harry Potter e a desaguar em Jane Eyre ou Machado de Assis ou Oscar Wilde. Sempre desconfiei que Harold Bloom não tinha razão. Caramba, eu era miúdo e li Corin Tellado até me espatifar no Sartre. Quando sou optimista, sou optimista: valeu a pena a caravela e o escorbuto pelo que se sente que anda no ar de desejo da autêntica experiência loboestépica. Mesmo daqui, do anémico Portugal, saem jovens, quase miúdos, para África, para o Norte da Europa, trintões avançam bandeirantes para o Brasil. Sozinhos.
Fez.me pensar muito o seu texto, e já vê que nem sempre de acordo que é a forma pela qual se vê que alguma coisa nos faz pensar. O seu fim puxou-me ao cepticismo meio nostálgico de quem desconfia que a delicadeza de um véu mais do que uma tradição pode acomodar o outro urro tribal.
só posso agradecer sua atenção, Manuel.
também discordo feio de bloom. o harry potter do meu tempo era monteiro lobato. se mais sofisticado literariamente? isso são outros quinhentos. agora, propedêutico, da mesma forma. ali, para sugerir voos mais largos.
quanto ao véu, ainda pretendo conversar com mais vagar sobre o assunto. é que convivi com mulheres islâmicas na inglaterra. algumas delas faziam MbA — ou seja, preparavam-se para serem executivas no retorno a seus países, nem por isso abriam mão voluntariamente do uso do véu… mas quero apenas nuançar um pouco mais uma questão que me parece excessivamente FECHADA. UNILATERAL. CLICHÊ.