Louis Herbert Mayall
História Particular
da Infâmia

LHM, à direita, sem gravata

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Chamemos-lhe coincidência. Foi em 1986 e o hasard juntou-nos na recepção da Guest House da UCLA. Era a primeira vez dos dois na cidade e protegemo-nos da imensidão de Los Angeles jantando juntos. Eu vinha por Francis Coppola a preparar ciclo e catálogo que faria um ano depois, na Cinemateca e na Gulbenkian; ela da Alemanha para uma investigação sobre o Shubert Theatre da Century City. Abancámos no entretanto extinto Alice’s de Westwood e foi assim que soube de Louis Herbert Mayall. Para Kristin, a coisa começara como um hobby revitalizador das rotinas de bibliotecária, mas baralhava agora a sua organização germânica como obsidiante pesquisa alternativa.
Louis Herbert Mayall fora, contou-me Kristin, um pensador e escritor maldito. Nascido em 1880, no seio de família abastada de Indiana, Mayall teve educação requintada e rebelde. Um comportamento heterodoxo para os padrões sociais e morais da época acabou por determinar a sua expulsão da Universidade de Indiana. Graduou-se na Columbia University, em Filosofia, tendo sido aluno de John Dewey, de quem ficou discípulo e amigo para quase toda a vida.
Ao contrário de Dewey, Louis H. Mayall não tinha vocação pedagógica e era, de natureza, um assistemático. De novo ao contrário de Dewey, a quem, de universidade em universidade, as origens humildes moldaram uma carreira persistente e ascendente, Mayall reunia os meios sumptuários que lhe permitiam cultivar as flores do mal num périplo físico e mental de negligente hedonismo.
Com inteligência de excepção, Louis era dotado de uma capacidade de escrita fulgurante e mimética. Em 1934, Dewey publicou “Art as Experience”. Um mês depois, Mayall veio em segredo a casa do filósofo e entregou a Roberta, a segunda mulher, um manuscrito de 15 páginas, combinando com ela que fosse ocultada a origem do misterioso ensaio. (Louis, ça va de soi, tinha uma certa maneira com as mulheres: ao contrário de outros homens, ganhava-lhes tanto mais confiança quanto mais era fidelíssimo amigo dos maridos.) Nesse curto texto, postumamente titulado “Art: Misery and Solitude” Mayall, num estilo petulo-diletante, nega a ideia de experiência e partilha social da arte sustentada por Dewey e fulmina-lhe a função teleológica de celebração de vida e civilização. De raspão, Philip N. Zeltner, no seu “John Dewey’s Aesthetic Philosophy”, desvela o episódio, o conluio de um vago discípulo com Roberta, e a surpresa, primeiro irritada, depois bem humorada, do professor.
Só que Louis Herbert era camaleónico e um mês depois, desta vez através do Professor A. C. Barnes que patrocinara a escrita da obra, põe nas mãos de Dewey um ensaio de “irónica perversidade” reflexo das “ironic perversities” que o próprio Dewey invocava na primeira linha do primeiro capítulo (The Live Creature) de “Art as Experience”. Em tantas páginas quanto os dedos de uma mão, Mayall devasta a tese do seu professor, segundo a qual a compreensão do sentido da obra de arte exige uma espera que passa pelo esquecimento da obra e um posterior regresso à mesma, um “we must arrive at the theory of art by means of a detour”.
Dewey não gostou da crítica e escavou na areia da praça a este segundo ferro. E pior ficou quando soube que a autoria dos dois textos era do seu diletante discípulo. Parece que, porque não há forma de o confirmar. A proximidade temporal e a cultura biográfica da época barraram qualquer referência ao caso: um biógrafo de 1939, Sidney Hook, omite-o em “John Dewey, an Intellectual Portrait”. E desenganem-se os que esperavam um mundo mais transparente e informado com o triunfo do feminismo: omite-o também, em 2001, Charlene Haddock Seigfried, no “Feminist Interpretations of Dewey”.
Preciso de fazer breve a história que já vai longa. Até aqui, quase tudo foi o que me contou a alemã acidental que comigo partilhou um jantar e não voltei a ver. Nas minhas escassas e ocasionais buscas posteriores, nada me assegura que Dewey não tenha perdoado Mayall. Roberta e o Dr. Barnes terão sabido aplacar a filosófica indignação desencadeada pela elegante displicência de um discípulo niilista. Mas Louis Herbert Mayall foi mais longe. Amigo de filósofos, foi também íntimo de escritores, em particular de Hemingway e Fitzgerald. Mayall descobriu Hemingway quando, em 1930, leu na Fortune um artigo dele: “Bullfighting, sport and industry”. Nos Hemingway Papers, consta um postal de Mayall, de 1931, felicitando o escritor pelo nascimento do terceiro filho, Gregory Hancock Hemingway, com uma citação de Whitman: “… the delicious singing of the mother.”
O entusiasmo de Mayall não teve limites quando, em viagem por África, soube da presença de Ernest nas caçadas que dariam origem a “Nas Verdes Colinas de África”. Louis estava na África do Sul envolvido em negócios de marfim. Arranjou maneira de chegar ao Tanganica e juntou-se, por uma semana, ao grupo. Outra extraordinária coincidência é haver duas raras fotos de Mayall (que junto) e ambas serem dessa sua viagem. Na foto de grupo, Hemingway está à direita, ao lado dele Percival, o caçador que o acompanhava, encoberto pelo torcido corno está Louis H. Mayall, e à esquerda Karl o fellow hunter de Percival.

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Do entusiasmo de Mayall não há o mais insignificante ou subtil eco na obra de Hemingway. A biografia “hugely exasperanting” de Carlos Baker não tem sinais de Mayall, nem a contabilidade hostil de JeffreyMeyers se lhe refere. E é preciso muito boa vontade para, nas sombras que Michael Reynold convoca no seu “Hemingway: The1930s”, se vislumbrar a silhueta de Louis Herbert.
A que se deve o apagamento? No seu estilo diletante, Mayall , em 1935, terá feito chegar ao escritor e à Scribner’s Magazine um verde texto sobre as colinas de África com ecos das notas que Hemingway, com viril confiança, lhe mostrara no Tanganica. E, mimético, fê-lo quando a revista se preparava para publicar em folhetins o que depois seria o livro de Hemingway. O escândalo do escritor e dos editores da revista chamuscou Mayall, cujo texto nunca foi, obviamente, publicado. Mas está na UCLA, e foi essa a razão clandestina que trouxe Kristin a Los Angeles estudar uma cadeia de teatros cuja origem e lenda está na Broadway.
A irreverência de Louis H. Mayall parece-me despida de má fé. Não lhe subjaz nenhuma ideia de plágio, nem qualquer tentativa de aproveitamento, material ou intelectual, que seria estranha à sua forma hedónica de encarar a vida intelectual. Porquê, então, terem enterrado o seu nome nas profundas do inferno?
A chave do esquecimento não é a heterodoxia do intelectual ou mesmo a agitada vida sexual, que envolveu pelo menos três abafadas histórias de adultérios, uma das quais com a mulher de outro escritor famoso.
A chave do esquecimento foi a 2ª Guerra, a WWII. Amigo do influente historiador Charles Austin Beard, Mayall apoiou-o numa convicta e militante oposição ao envolvimento dos EUA na Guerra. Beard e Mayall, antigos apoiantes do New Deal, eriçaram-se contra Roosevelt e mostraram-lhe todos os bigodes que (não) tinham. Defenderam à outrance o isolacionismo da grande nação americana. Mas a big band da História abafou-lhes o solo lírico e cada um deles pagou duramente a dissensão.
Beard tinha uma obra e uma carreira. Foi vencido. A graça e a aceitação de Mayall sustentavam-se no seu risonho descompromisso que desgraçou ao anunciar-se como profeta. Foi apagado.
Louis Herbert Mayall morreu a 27 de Julho de 1953. Em Honolulu. Nunca publicou.

Comentários a “Louis Herbert Mayall” (4)

  1. Fernando Vale diz:

    O que se aprende neste excelente ETGM.…obrigado, caro Manuel, por mais esta interessante lição !

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Fernando, em boa verdade, e como verá em e-mail acima, o meu objectivo, diletante confesso, foi o de imaginar uma figura totalmente fictícia — este LH Mayall — e colocá-lo num contexto em que todas as as figuras sejam verdadeiras. Se houvesse um Mayall talvez ele se tivesse divetido a exasperar o seu professor. Se houvesse um Mayall talvez ele tivesse plagiado Hemingway. Mas é um pena ele não existir.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    quase erudito neste texto, Manel. as referências a mayall, john dewey, etc. dewey é já mais conhecido. quanto a mayall, muito prazer. o único que conhecia com este apelido é o bluesman — inglês, por sinal.

    agora, nas entrelinhas, remotas de um texto assim, parece-me que o que mais fica é certa saudade, certa fragrância dessa única noite, desse jantar — quem sabe à luz de velas — com kristin, a alemã — que à época ainda precisava de ser ‘ocidental’. ah, como é vasta e sem lados a lembrança: arrumar um louis herbert mayall para falar de kristin! e com supina elegância…

    auf wiedersehen!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ruy, como verá, ao ler um post posterior com mentiras minhas no blog, não admira que não conhecesse o Mayall (o dos blues foi dele fã nos idos de 70!).
      A senhora alemã existiu mesmo, mas juro-lhe que sem a aura consupiscente que a sua perversidade cearense (alimentada a vastíssimo oceano) insinua.
      Schuss!

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