Revelar a vala abissal que nos separa hoje do sonho infantil ou adolescente, expor a nossa própria realidade até onde ela pode ser observável por nós próprios, sem persona que nos amacie os traços marcados do eu íntimo?…
Talvez começasse por lembrar, se me desse à tarefa, os sonhos que fui sendo sem porvir, que o tempo desses tempos chegava sempre sem se fazer anunciar (sim, como agora, mas agora agorinha já lhe vemos aqui e ali alguns anúncios que se dizem prenúncios).
Sempre gostei de pássaros e de mulheres – de todas as espécies sem excepção. Suponho-lhes uma identidade próxima em si, um ar sem dúvida alado mesmo quando não voam. Imagino-as sempre, às aves e às mulheres, de belcanto e amável índole – yin, madeira, suavidade, penetração (a terminologia delicada do I Ching permite, para o bem e para o mal, as interpretações mais díspares e imaginativas… A Eugénia não me deixa mentir, pois não, Eugénia?…).
E fui caçador, sim, não só de espingarda na mão mas também de armadilha já montada lá pelo fim da madrugada. E tive gaiolas com pássaros tão diversos que só forças alheias aos seus interesses juntariam num espaço tão confinado.
E sim, andei sempre apaixonado desde os seis anos – é verdade. Por tias distantes, por amigas dos meus pais e dos meus irmãos, por primas, amigas ou nem isso. Sei hoje que andava nesses tempos permanentemente apaixonado, a relativa diversidade dos objectos em adoração (em raríssimos casos obrigando-me à divisão do ser para adorar em paz e simultâneo mais do que um objecto) não me permitia à época uma boa auto-análise. O que é um belíssimo mecanismo de defesa da bela da juventude.
Hoje sei isso.
Mas antes disso haviam outras coisas. Como por exemplo uma família magnificamente turbulenta e diversa. Eu queria uma assim mas em mais calmo, talvez mais cool – no sentido de um pouco menos explosiva, se bem me faço entender. Mas só me apercebi de tal desejo mais densamente na ressaca de Angola: quando o avião abandonou Luanda, em 1975, nada mais queria da vida que não a dádiva última e primordial a que sabia ter direito.
Mesmo antes de tudo deram-me uma flauta.
Hoje sei isso muito bem.
ps (como é coisa de passar, perfile-se nova alma a esparramar: e para não ser mais um chato dum homem mais ses petits grandeurs, aponto à menina Joana um dedo nervoso e inquiridor…)


















António, só por esta sua surpreendente resposta, que gostei tanto de ler, já valeu a pena ter feito a pergunta.
A pergunta também era boa…
Ainda bem que gostou!
Man, man, tu de flauta mágica e a sair de Luanda. Ri-me com o brejeiro implícito e touched por me lembrar da última vez, em 86, que o avião em curva inclinada para a direita apontou a norte, em baixo, as quatro horas da tarde a mostrar o fundo do mar verdíssimo, de uma lúcida limpidez…
Engraçada a ligação que fazes entre aves e mulheres. Quando as penso animais são gatas, serpentes, nunca bicho de gaiola.
Manuel: Luanda, claro, mas em 75, à noite, de luzes apagadas e a ver tracejantes não muito longe. Agora «bicho de gaiola» não é o termo correcto, só o usas para denegrir a minha performance (já aplaudida por algumas das teoricamente visadas…). Era a minha inexperiência que fazia com que as armadilhasse e engaiolasse — hoje já não uso métodos tão primários.
De forma alguma!
Rapazes, rapazes, rapazes! Essa zoofeminamorfia já me está a subir à cabeça… depois queixem-se.
Eugénia, esse plural está mal colocado aqui, é «rapaz, rapaz, rapaz»…, e sabemos todos bem a quem se refere…
Antoine,
não venha cá sacudir a água do capote à minha frente lá porque estou a ler o post da Jeanne! Sou bem capaz de o ouvir, sou praticante de multitasking ou lá o que é. Deslargue-me o plural que não o quero singular. Olhe que estou por aqui e ainda vou reler o texto Expresso do Manuel Sibilino Fonseca. Não se desgrace.
Injustiça, tremenda injustiça é o que é… (ia dizer tenebrosa mas contive-me a tempo)
Não diga que não o avisei a si, Antoine, o Injustiçado. Tremendamente? Veremos, mas farei o possível.
Quer-se dizer, eu digo que as meninas são todas tri-tri-liri-lili, e prriu-tuí-tuí — e levo pela medida grande. Já o MSF é só miau-renhau-nhau-nhau, e FFFFsssttt!, e ratle-ratlesnaking noises e estrafegamentos jiboiáticos (squish-squish!…) — e fica tudo pela pequena advertência!… Parece o túnel do ano passado!
Duas justiças, sem dúvida! Diria mesmo: um certo corporativismo lúdico!
E depois querem que eu não seja desconfiado,quiçá um revoltado…
Vou dizer-lhe, Monsieur Antoine: sempre me saiu um grande passarinho de trilirili e de piupiu a trinarem à distância.
Passarão, faxavor!…
António, ao fim de vários dias e de umas quantas releituras a correr, no meio de desalvoroços vários, felizmente terminados, consigo vir aqui, só para lhe dizer o quanto que me encantou este seu avatar …
Gosto muito de toda a Flauta Mágica – a qual relembro amiúde, pois me revejo, tudo culpa do meu tremendo mau feitio, na Rainha da Noite (as minhas filhas confirmarão que os meus agudos metem no canto qualquer soprano de coloratura de renome internacional …). Mas o Papagueno não é nada disso. Bem pelo contrário. É um crescido que mantém a alegria, o gosto pela vida, a bondade, a simplicidade e a inocência de um miúdo. Não é para qualquer um ser-se e saber-se um verdadeiro Papagueno. Que é como quem diz um grandessíssimo e amabilíssimo passarão. Só mesmo V.Exa.
Quanto à passarificação das mulheres, o Manuel, primeiro e a Eugénia, depois, que me desculpem a incompreensão pelas suas (deles) reservas, mas eu só vi dela o lado positivo – que o contexto de todo o texto amplamente confirma. Lembrei-me de cores e de diversidade e de liberdade e de altos voos, de cantoria e, às vezes, claro de barulheira. Por isso achei simpático, super simpático. Para uns e para outras.
Áh!…
Fez-se justiça! Ou por outra: chegou a Justiça! E por mão very expert, como aliás se depreende do todo acima elaborado.
Ainda bem que gostou, Joana — mas você, Rainha da Noite?…
Isso é autocrítica em demasia…
Jeanne, você desgraça-se! O rico post do António está isento de qualquer reparo. Pelo contrário. Mas a partir do momento em que nós sabemos quem entrou em cena, nos comentários, houve, como direi, uma quebra no tento da língua e armadilhas, gaiolas e o mais que está documentado.