Anedota de Português

[s/i/c]

 

O Manuel viajou para o Brasil. Era sua primeira viagem e cercada de expectativas.

Após duas semanas, seu amigo Joaquim for buscá-lo no aeroporto:

E então, Manuel, como se foi de Brasil?

Ah, pois nem te conto, Joaquim: o Brasil é lindo! Trouxe-te até um berimbau e fitinhas do Bonfim.

Mas diga-me cá uma coisa: o que mais gostaste?

Ora, de não pouco, rapaz: as praias, a música, as mulheres… O Brasil é uma maravilha!

E o que menos gostaste, Manuel?

Das escadas rolantes?

De facto? E por quê?

Imagina que estava a subir por uma delas, houve um blackout, e lá fico eu, quase duas horas, de pé; a esperar o retorno da energia.

Arre, mas tu és mesmo burro, Manuel. Por que não te sentaste, rapaz?


* * *

Comentários a “Anedota de Português” (20)

  1. Marta Costa Reis diz:

    Ok ok, a última parte é gentileza! Esta bela história é também contada pelos franceses a propósito dos belgas e muitas das que eu ouvi sobre os belgas, contavam-nas os portugueses sobre o defunto Samora Machel (em que cemitério andará ele?) e/ou sobre os alentejanos. Quando nos toca a nós não tem tanta graça, mas a capacidade de rir de si mesmo é uma generosa marca de civilização.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    marta. pus esse post a propósito de suscitar uma pequeno debate sobre clichês. talvez me sinta tão português quanto qualquer um dos autores deste blog. ou até mais do que alguns, tenho certeza. mas isso de piadas, forjam-se sobre clichês. em um post meu antigo, eu fazia referência a “uma das mais belas cearenses” que já havia visto na vida. e nos comentários veio algo como “e por acaso tem gente bonita no ceará?”. sei que o comentário veio de um espírito mesquinho, alheio à cordial convivência que mantemos neste blog. e, no entanto, se eu mandasse algumas fotos de mulheres cearenses que conheço ou do meu círculo de amizades, ou que foram minhas alunas, ou que vejo passar nos shopping-centers de Fortaleza, quem escreveu tal coisa ficaria de queixo caído.

    mas você notou bem. tudo isso são estereótipos. os franceses gozam os belgas (valões) por dizerem octante, enquanto eles próprios, franceses, lançam mão da esdrúxula forma: quatre-vingt (que é muito mais barroca, no mau sentido). quando penso que o brasil tem 190 milhões de habitantes, e portugal pouco mais de 10 milhões; e, quando num dos posts meus, mais abaixo, ‘o presente deve ser mais discreto que do indicativo’, reconheço que não há um só poeta brasileiro tão excelente quanto herberto hélder no momento presente, reconheço também que algo de muito especial portugal teve, tem e terá sempre a nos reservar… o que não impede que possamos “brincar” um pouquinho entre nós.

    um beijinho carinhoso

    • Fernando Vale diz:

      Humor, sempre, a começar por nós mesmos.

      Essa da escada rolante tem graça e não ofende, penso eu. Permita-me um pequeno rectificativo: os belgas dizem huitante…que eu saiba, posso é saber mal, mas neste caso não creio.

      Continue escrevendo seus magnificos textos !

  3. Marta Costa Reis diz:

    Obrigada pela resposta e beijinho carinhosos. Mas não se preocupe que não fiquei melindrada. Acho a discussão dos clichês muito interessante mesmo. Ouvi há uns anos um investigador (seria belga?) defender a sua utilidade forma de organização do pensamento sobre o outro, separando-os do preconceito (prejudicial). Infelizmente não me lembro do nome dele, nem de outros detalhes.

  4. Turmalina diz:

    Não comentei antes porque apesar de me considerar uma pessoa muito bem humorada não gosto de piadas.De espécie alguma.Mas já que a Marta tocou no assunto, com tamanha propriedade e delicadeza, resolvi escrever.
    Gosto de textos que contenham certa graça, gosto até mesmo da ironia, melhor ainda quando quase imperceptível. Aliás, acho que gosto mesmo é das sutilezas.E definitivamente piadas não são sutis. Nada contra quem as aprecie. Podem continuar a brincar :o)

    • Ruy Vasconcelos diz:

      querida, t. este texto — vejamos, como posso dizer — foi, no íntimo, pensado e postado como uma espécie de anti-piada. quando o estava a escrever, me ocorreu mais de uma vez se não deveria pôr tudo ao contrário: uma viagem de brasileiros a portugal, etc.
      o ‘humor’ que há nele, pode não parecer, mas procura ser um pouco mais ambicioso. transcender o mero estereótipo que se cristaliza, preconceituosamente por vezes, na casca da fruta cristalizada, que é a piada. daí que no título haja ‘anedota’, que é um gênero para além da ‘piada’. e tem mais a ver com o que os ingleses chamam de ‘humour’. é claro que há nele muito de auto-humor, porque ao descender de portugueses predominantemente (com pequenas tinturas judias, holandesas e africanas) estou a brincar com meu próprio povo, de certa forma. além disso, me interessa mais o ‘timing’ do texto. a extensão das frases. a efetividade (ou não) dos diálogos, do que propriamente o ‘conteúdo’ em si.
      de resto, estou com você. sequer sei contar piadas, digamos, no botequim — embora aprecie quem o faça com garbo e desenvoltura. as minhas, quando muito, funcionam por escrito. e olhe lá…
      mas, de qualquer modo, grato, mais esta vez, por suas observações. tão preciosas e pontuais, que já se estão tornando uma espécie de nota ou coda para o que escrevo por aqui. :+)

      * * *

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Ruy, não pense que é anedota (ou piada). O Manel sou mesmo eu e o Joaquim, engano seu, não é o Joaquim, é Zé, no caso o Navarro que me foi, sei lá porquê, esperar ao aeroporto.

    Há mil e uma “piada de português” no Brasil e é uma extraordinária falta de gentileza nós, que somos capazes de as contar dos nossos alentejanos, dos nossos ex-colonizados africanos, não termos uma, uminha que seja como diria a Eugénia, para contar sobre os nossos, às vezes muito mais portugueses do que se pensam, brasileiros. A remediar com urgência: caramba, até os espanhóis as contam dos argentinos.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      concordo, manuel.

      agora, eu já sabia que era você no aeroporto. só estava em dúvida sobre quem era, afinal, o joaquim a ir apanhá-lo lá na portela: se o zé ou o PN.

      ah, e também acho uma tremenda “falta de desconsideração” [a expressão é comum no interior do ceará] de vocês ‘purtugueses’, essa de não ter ao menos tantas (e de tão bons níveis) piadas sobre brasileiros. é mais uma prova de o quanto nos indiferenciam. alentejanos e angolanos possuem melhor sorte.

  6. Luciana diz:

    Já eu, Ruy, gosto muito de piadas, ainda mais porque não as sei contar, começo a rir no meio da fala e já se foi tudo pelo ralo. Gosto mais e mais das piadas sobre mulheres porque me rio sempre, ora da veracidade, ora da ingenuidade dos que a contam como se verdade fosse, e é sempre um riso fácil — e eu gosto de rir. Gosto de rir de mim mesma, talvez porque seja fácil, costumo ser tão ridícula quanto admirável.
    De qualquer forma, na piada que partilhamos acima, o principal é discreto como seu presente: a maravilha do Brasil é de fitilhos e samba (extrapolando a música)…

  7. José Navarro de Andrade diz:

    E uma piada de paulista a gozar com nordestino, não vai? Descanse que não fiquei de mau humor…

    • Ruy Vasconcelos diz:

      ah mas vale, zé. e há algumas muito boas. agora, o ponto aqui, é que os nordestinos, em geral, “contrapiadam” com muito mais verve e impiedade. você não faz ideia da matreirice, sobretudo a do sertanejo. nós do litoral, somos fichinhas perto dos sertanejos. ainda vou postar uma piada de sertanejo para você perceber a sutileza da coisa.

      o sudeste do brasil é afluente — tenho muitos e bons amigos especialmente em são paulo e em minas — mas é também um pouco sem alma, em termos coletivos. é tanto que não há uma cultura “sudestina” como há uma nordestina. e, de resto, nos últimos anos se tem dado o inverso, muita gente do sudeste e do sul tem vindo morar no nordeste, atrás de boas praias e qualidade de vida… então, até isso tem contribuído para atenuar mais esses arroubos bairristas…

  8. Ruy Vasconcelos diz:

    querida lu, “do ridículo não se escapa”. a frase é do poeta francês francis ponge. e nós, cearenses, talvez por essa tremenda carga de auto-humor com que levamos o cotidiano, e para qual você tão bem aponta, temos um verdadeiro trunfo nas mãos. eu, em particular, passo longe desses shows de humor que pipocam nas casas noturnas e teatros de fortaleza. mas não condeno quem gosta. o humor a que me refiro está no dia-a-dia: no parada do ônibus, no boteco, na repartição, na fila do banco ou do supermercado, etc. e, de resto, nem sempre tem a ver com aqueles humoristas profissionais, alguns deles até alçados à fama nacional, como chico anysio, renato aragão ou tom cavalcante. guardadas as proporções, se o brasil fosse a inglaterra, fortaleza seria liverpool — que é a terra dos comediantes, lá deles.

    • Luciana diz:

      Ruy, também eu não me referia a estas piadas cristalizadas e esvaziadas. O único a que compareci me deu sono e olhe que tenho o riso frouxo. Falo das piadas em mesas de amigos onde o riso vem casado com o cansaço e o afeto.

  9. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Tudo de provinciano me assenta: era bem capaz de fazer o poema da escada rolante.

  10. Ruy Vasconcelos diz:

    um verso para cada degrau. o problema como poema, então, seria o eterno retorno dos degraus.

  11. fitinhadobonfim diz:

    Sou uma crente fervorosa (esta palavra tem algo de pirómano ou mesmo de pirotécnico :)), mas as melhores piadas que já ouvi foram aceraca de Jesus e de freiras :)))- sei que Jesus Partiria o côco a rir, pois a auto-ironia é o tipo de humor mais inteligente! Algumas do samora Machel são imperdíveis, até porque ele próprio era uma anedota :)) As das loiras tb são giras :))

  12. Ruy Vasconcelos diz:

    de seu iventário, gosto em especial de piadas com loiras.

  13. fitinhadobonfim diz:

    Me too :))) especialmente das loiras com um interior preto 8no bom sentido– de mestiçagem! :))), pois não é natural, nem sei se fica bem, mas, por vezes, é hilariante! :))

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