Arquivo | Maio de 2011


Música Celestial

CANIS MAJOR

The great Overdog,
That heavenly beast
With a star in one eye,
Gives a leap in the east.

He dances upright
All the way to the west,
And never once drops
On his forefeet to rest.

I’m a poor underdog,
But to-night I will bark
With the great Overdog
That romps through the dark.

Robert Frost, 1928


 

Qual é a música das estrelas?

Dois investigadores deram som às cataclismicas explosões das supernovas, atribuindo-lhes notas de piano segundo a distância das respectivas galáxias em relação a este cantinho do universo.

Já podemos ouvir o céu estrelado.


Site de um dos autores http://www.astro.uvic.ca/~alexhp/new/supernova_sonata.html

Itinerante na biblioteca
Michael Brophy, “Memory trip #4″, 2006
- livros de viagem? Não. Livros para viagem? Também não. Deturpei o desafio do PN

Os livros são um magnífico meio de transporte. É disso que eu gosto mais neles, quando o enredo (que às vezes faz falta) e as personagens (habitualmente úteis), parecem depender e desprender-se de um lugar.
Para que a sensação de viagem resulte, o livro tem que ser discreto e sonso: nós estamos entretidos a ler os mexericos que as vestais de Jane Austen trocam entre si, quando de repente começamos a ver os prados rolantes do Hampshire debaixo daquela chuva miudinha que afasta os amantes dos prazeres da sombra.
Ao contrário das “-gias” a geografia não empobrece o prazer da leitura, decorre dele e alarga-o, sem o inconveniente das explicações nem a afronta da interpretação.
O que mais e mais imediatamente me impressionou em Mau Tempo no Canal, foi a sensação de ter lá vivido nos Açores. Durante uns tempos, por blague, jurava conhecer o arquipélago por ter lido o livro, o que na realidade foi confirmado quando visitei a Horta. Aquelas ruas melancólicas, o que é natural nas cidades insulares, ainda apresentavam claros sinais da guerra mesquinha e surda entre Dulmos e Garcias que, decerto, ainda hoje corre sob outras formas. O próprio Norberto não sabia onde arrumá-lo: se nas páginas de Nemésio se no Moby Dick.
Um livro – e também um filme – que não dê vontade de ir lá, não me interessa. Quase sem exceção — só o cego Borges me demove.
Já sequei sob o sol estremenho com o patife Pascual Duarte; com Buzatti já senti como é ermo e lento o início da Ásia; já frequentei os mares do Sul com Corto Maltese; já afugentei mosquitos e fugi de serpentes nos pauis do Caribe durante 100 Anos de Solidão; já veraneei com tristeza solar na Cotê d’Azur de Françoise Sagan; há bairros de Los Angeles onde só entrei com James Ellroy; gosto mais de conversar noite dentro, fumando tabaco de onça e picando linguiça, no Alentejo de Manuel da Fonseca do que no de Monica Ali. E sempre que sofro esperas em aeroportos temo que me apareça finalmente Godot.
Nenhum destes livros estará entre os que diga favoritos, mas todos tiveram a gentileza de me levar consigo, enquanto os tive na mão. Nem sei como lhes possa agradecer.

Pablo Fernando, “Shanghai’s visual interruption”, s.d.
Romance de Pedro a conduzir um Jaguar #3 — Futilidades no banco de trás

Mas … agora andamos a 20 à hora!? O Pedro deu em não saber guiar? Está todo nervoso porque a noiva vai no carro da frente com o Júlio… já se sabia! É mesmo danado aquele Júlio! Foi propósito, está-se  a ver, faz qualquer coisinha para irritar o Pedro. E como brinde ainda enerva a Lili, bem que a sinto a espumar no banco da frente. Deve estar quase quase a atirar-se ao Pedro. Ela finge que não, mas é doida pelo Júlio…estão bem um para  o outro, e como ele se atracou à Teresa vai de certeza meter-se com o Pedro. É assim que eles se vão picando um ao outro.  Estou-me nas tintas! Quero é sossego…

Nem me atrevo a abrir os olhos. Vou continuar a fingir que durmo antes que me metam nas alhadas deles. Foi de certeza o Manel a sussurrar-lhe ao ouvido esta bela ideia… aquele mefistófeles! Mandou-nos de passeio e baldou-se com a desculpa de que tinha de preparar sei-lá-o-quê-de-última-hora para a festa. Agora a coisa pega fogo e ele a lamber-se com a ideia da trapalhada que armou, para ver à chegada… ainda acabam todos enrolados e não no melhor sentido.  Se bem conheço o Júlio, já anda em cima da Teresa: uma mãozinha aqui, outra ali, “tens uma folha no cabelo”, “olha já viste aquelas árvores, tenho uma igual no jardim” e lá se debruça todo por cima dela. Coitada! Não fez mal nenhum a ninguém para aturar aquela prenda. Ai! Mas este está doido? Agora quer-nos atirar para a estrada? Passou de tartaruga a lebre! Que seca de viagem! Estes aqui ao meu lado também devem estar a fingir… quase que aposto. Ao menos vamo-nos rir os três logo à noite se isto continuar assim. Ainda falta muito?

**capítulo anteriores desta saga aqui e aqui

Forte

In line, in line, it’s all in line.
My ducks are all in a row.
They do not change, they do not move.
They have nowhere to go.

 

Diz-se que a melhor coisa que se pode ter na vida são os filhos. Gerar uma vida. Criar uma vida. Dar de nós uma parte que há-de ficar, que nos perpetua um bocadinho mais. E que tudo faz sentido depois, ou se não faz, já não sei bem, pelo menos passa-se a reconhecer que nada mais vale, verdadeiramente, a pena. Que até os mais monstruosos homens o reconhecem, mais tarde ou mais cedo. Tretas. Senão como estaria eu, aqui, a guiar esta soberba máquina? O mundo é dos fortes.

A invencível armada

Há 423 anos, quem de Lisboa tivesse vista panorâmica sobre o Tejo teria contemplado, a sair de Belém, naquele movimento majestoso que antecipa a glória, o último galeão da Grande y Felícisima Armada.
Sob o comando do duque de Medina-Sidónia, segunda escolha, 151 barcos, tripulados por 8 mil marinheiros e embarcando 18 mil soldados, tinham sido reunidos em Lisboa por ordem de Filipe, rei de Espanha e de Portugal.
Nesse ano de 1588, os ingleses cravavam punhais no flanco holandês de Espanha, pondo gasolina, ainda que não soubessem o que gasolina fosse ou viria a ser, na fogueira que as “províncias unidas” dos Países Baixos já traziam incendiada. Para não falar da epilepsia dos mares com que, a corsários, pernas de pau, caveiras e bandeiras negras, os ingleses deram em contaminar o honesto comércio que ligava Espanha aos territórios que, pela graça de pólvora, livro e cruz, se lhes tinham rendido como colónias.
A 28 de Maio, um a um, os barcos começaram a subir o rio em direcção à foz, virando à direita, já no oceano, apontados a norte. Durante dois dias a azáfama foi intensa e o povo viveu-a, grato e excitado. 43 barcos eram portugueses e 3 mil soldados também. Iam, invencíveis, destronar Elizabeth, a primeira Elizabeth, rainha de Inglaterra.
Já cansados da comoção de dois ininterruptos dias, os populares viram partir, quase indiferentes, o último galeão, quatro mastros viris engalanados, quarenta bocas de fogo, o dobro do que teria o mais guerreiro barco da torpe rainha inglesa. Partiam para a glória, com a certeza da vitória. Perderam.
Se tivessem ganho, não existiria Portugal e sabe Deus a que taxas de juro estaria hoje a Inglaterra a pedir resgate à Grande Ibéria.

 

O Malick roubou duas cenas à minha rica vida
o pasmoso irmão mais velho

Vi, em ante-estreia, o filme de Terrence Malick. Hei-de ir ver outra vez. Chama-se “A Árvore da Vida” e ter ou não ganho a Palma de Ouro de Cannes é o lado para que durmo melhor.
A verdade é que, contra os meus princípios (que comunguei nos bons tempos com o bem recordado João César da “Casa Amarela”), não dormi no filme. Gostei muito, mesmo muito, até do que não gostei nada. A ponto de me apetecer escrever, e escrito está há vários dias. A seu tempo, depois do próximo fim-de-semana, há-de ser prosa fúnebre, no nosso ajardinado cemitério.
Mas para este post o que interessa é ter descoberto no filme de Malick dois episódios que são meus, roubadinhos pelo Malick à minha rica vida.
De repente, no filme, surge uma carrinha de caixa aberta com dois depósitos atrás. Lê-se na carroceria: City of Waco D.D.T. Não minto, está no trailer! E exactamente como eu aqui vos contei um dia saem nuvens de fumo desses depósitos e os miúdos do bairro mergulham nesse cheiro a vitória que massacrava moscas, mosquitos e toda a espécie de inconvenientes insectos. Sei que hoje é proibido, mas o facto de Malick ter cheirado, inalado, engolido o mesmo Dicloro-Difenil-Tricloroetano em que me envenenei e inocentemente viciei, faz-me pensar que o que perco em singularidade, ganho em boa e genial companhia.
Já me chegava para gostar do filme, eis senão quando o mais velho dos três irmãos que protagonizam o filme, se mete num bosque com o maninho mais novo, de espingarda de chumbos (uma velhíssima pressão de ar) na mão. Dispara para tudo o que não mexe até desafiar o irmão que nele confia cegamente: “pões o dedo à frente do cano?” Ele põe o dedo tenrinho e o mais velho dispara sem piedade, tal e qual como, quase no fim deste post, relatei o tiro e o chumbo que me furou a mão esquerda.
Descobri, agora, numa sala de cinema, que a infância dos meus coloniais anos 60 de Luanda copiava alegremente a tristeza com que Malick retratou os anos 50 do Texas da sua infância. Poéticos ambos (ó yé!). Líricos e cómicos os meus, de apertada elegia os dele. 

Ps – quem eu sei que já escreveu seriamente sobre o filme, como sempre ele escreve, foi o PMS. Porque raio é que não replica ele aqui o que anda a tão bem escrever sobre cinema na “Sábado”?

 

Os nomes que somos

 

“What’s in a name? That which we call a rose

By any other name would smell as sweet.”

Romeo and Juliet (II, ii, 1–2)

 

Ao contrário do que nos diz o eterno Shakespeare, na sua voz de Julieta-menina, os nomes têm muito em si. Talvez não o  nome da rosa, pois a rosa cheira e é bela por ser bela e por cheirar tão bem e em tantas cores. A rosa talvez nem precise de nome, ou poderia o seu nome ser Julieta e seria igualmente bela.  Mas, para Julieta, Montague ou Capuleto não pode nunca ser igual. Ou pode ?

Somos seres de nomes. Pelos nomes descobrimos o mundo e o trazemos à nossa adâmica medida, co-criadores dos seres agora nomeados. Antes do nome era o silêncio. O silêncio do Verbo que apenas no nosso silêncio encontramos. Podemos renomear-nos, transformar-nos em segundas vidas mais ou menos literais, heterónimos de gozo ou de castigo, o anonimato que nos esconde a vergonha ou nos dá liberdade.

Não temos a placidez da rosa, que não conhece os seus espinhos. O Sem-nome está sempre um passo longe demais, demasiado perto da divindade. Conseguiríamos viver inominados? Conseguimos viver despidos de quase tudo, mas o que somos nós quando não somos o que fazemos, o que escrevemos, o que de nós mostramos? O que somos sem o nome que temos, o que nos deram ou o que para nós reinventamos ?

Podemos ter muitos nomes. Conseguiríamos não ter nenhum?

 

 

 

Biblioteca itinerante #2

O desafio foi do PN. Propôs que desfiássemos a nossa Biblioteca Itinerante. Com uma séria advertência: não queria cá literatura de viagem, queria literatura para viagem.
Com a sorna manha que é meu timbre obedeço-lhe. Mas desobedeço-lhe também ao escolher, logo para abrir, um livro que baralha qualquer GPS e para que não há bússola que nos valha. É o Dictionary of Imaginary Places assinado por Alberto Manguel e Gianni Guadalupe. Gostava, por exemplo, de viajar com as nossas quatro autoras a alguns dos prodigiosos lugares descritos com minúcia e obsessão por Manguel e Guadalupe. Estou a ver-me entrar com a Eugénia e a Teresa no “Castelo Sem Nome” que Diderot ergueu, solitário, algures na costa francesa. A assombrosa porta abre-se lenta e lemos no frontão um presságio de eternidade: “Pertenço a todos e a ninguém; antes de entrares aqui, gentil viajante, já estás aqui e aqui continuarás quando julgares sair.”
Com a Joana e a Marta, visitaria a ilha de Cyril e beberíamos gin com o capitão Kidd. Só se sabe que lá chegámos quando se vê do mar (qual?) sair um fogo do vulcão ou do céu cair densa chuva de estrelas cadentes. É tanto o fogo e a lava que só conseguimos andar guiados pelas lanternas dos únicos habitantes, crianças que vivem e morrem sem nunca envelhecer.
O meu segundo livro é The Atlas of Literature, editado por Malcolm Bradbury. A geografia pode ser a mesma, coordenadas e azimutes coincidentes, mas nem Montaigne entraria sem uma dor de alma nos cafés existencialistas de Paris, nem Sartre dormiria descansado no castelo onde pernoitava Michel Seigneur de Montaigne, Chevalier de l’Ordre du Roy et Gentil-homme ordinnaire de la Chambre. Este Atlas empurra o viajante. É um tipo de empurrão muito raro, a dois tempos: um empurrão no espaço, outro empurrão no tempo. Weimar sim, mas a dos Românticos alemães. A Londres de Shakespeare, mas logo a seguir, outro mundo, a de Dickens. E o Yorkshire selvagem das Brontë terá alguma coisa a ver, um oceano pelo meio, com a Nova Inglaterra de Emerson e Hawthorne?
Com uma risonha, luminosa epígrafe – Pour la Grande Petite Jolie Belle Beauté – Philippe Sollers começa o terceiro livro da minha Biblioteca: o Dictionnaire Amoureux de Venise. Sollers ama Veneza. Com um amor viril e seguro de si: está ali para durar e não há, do corpo de Veneza e da alma de Veneza, uma réstia que ele não visite, que ele não faça chorar de glória. Cruelmente amoroso, faz tudo isso por ordem alfabética, do A da Accademia, com o dedo direitinho logo a tocar a convulsa e materna nudez da “Tempestade” de Giorgione, ao Z de Zattere, o cais em que lua e sol se mostram juntos em perfeita simetria.
Que outros livros, ou parte deles, um conto que seja, me fazem ou fariam viajar? Dou só quatro exemplos, tão humildes de brevidade que nem chegam a ser romances. E para que teriam de ser romances se num parágrafo já inventam um mundo!
A Léah, de José Rodrigues Migués, que me obrigaria a dormir numa chambre à louer de qualquer decadente pensão de Bruxelas com cheiro a fritos e uma brasserie na esquina mais próxima.
Outra vez a Bruxelas, num quarto sobre a Gare du Nord, só por causa de Polícia, conto de Os Passos em Volta, de Herberto Helder. Desde que chovesse, chovesse sempre.
Hei-de ir a Paraíba. Gostava de ir lá, a essa extrema ponta ocidental da América, conhecer Dona Rolinha, do conto homónimo de Agostinho da Silva, essa mulher certa e perseverante no desprezo ao trabalho como forma de subsistência. Há-de estar em João Pessoa, a Dona Rolinha que uma vida inteira esperou o regresso do seu militar a que se prometera em casamento, se casamento fosse de ambos a desistência de “ganhar a vida”, voto de pobreza dos dois (quem sabe, de castidade!), e a oportunidade de ser freira sim, mas fora de um convento.
Gostava de subir o Hudson até às montanhas Kaatskills, “ramo desmembrado da grande cordilheira dos Apalaches”. Lá estaria Rip Van Winkle, rival de Dona Rolinha “na invencível aversão a toda a espécie de trabalho profícuo” e como ela sempre solícito na ajuda a um vizinho necessitado, a um viandante perdido. É ele que, portentosa criação de Washington Irving, depois de beber uma bela garrafa de genebra se vai descobrir O Homem que Dormiu Vinte Anos. Ao contrário de Ulisses, nem o seu cão o espera, nem uma impertinente Penépole tece a malha que lhe aqueça a velhice.
E se a leitura fosse como a garrafa de genebra de Rip Van Winkler e a cada livro saltássemos, num sono ou sonho, vinte anos?

Todos os nomes são falsos

Que bela ideia Eugénia este seu post.
Eu também não sei quando me comecei a chamar Manuel S. Fonseca, que evidentemente não é o meu nome verdadeiro — como Eugénia não é o seu, ou Norton o do Pedro. Todos sabem que António não pode ser Eça e haver três Vasconcelos e duas (ou talvez não)  Martas, bem mostra a total ficção que é a autoria deste cemitério. Podíamos ser Ulisses, Aquiles, Quixotes, Ofélias e Beatrices, mas seria uma forma demasiado fácil de logo nos ser detectada a pseudonimia. O gigantesco e heróico risco que corremos ao termos escolhido nomes como Teresa Conceição, Navarro, Francisco ou Vasco e haver até um original Leote e mesmo um inusitado Pistacchini (escandalosa e óbvia heteronímia), é o de poder haver uns espectros a caminhar nas ruas do mundo superior que ostentem igual graça e quererem essas ansiosas sombras mergulhar as identidades neste nosso diabético anonimato. Já imaginou, (i)mortal Eugénia, se esses seres civis e reais nos encontram e se põem a respirar dentro dos nossos nomes, convertendo-se no hálito das nossas bocas, no rubro sangue dos nossos quietos ventrículos?

ps — há mesmo quem sustente que todos os autores de um cemitério como este só podem ser um e o mesmo autor, a osteoporética fusão de muitos e diversos ossos que o tempo deixou limpos como mármore. A ser assim, é a Eugénia que me escreve neste post, ou levantou-se uma sonâmbula Joana no seu sono, acordando com estrondo o Ruy? Ou foram os dedos da Marta contra as teclas que fingiram ser Eça e os pés do Navarro a calçarem os sapatos do Vasco? A Teresa, está visto, desenha-se em PN que se fotografa em Leote num guião de PMS. Um Pistacchini nos abençoe enquanto Feijó nos descobre a matemática essência. 

A Chefe de Família

Ana de Castro Osório e Carolina Beatriz Ângelo, 28 de Maio de 1911 (foto de Joshua Benoliel)

Foi a 28 de Maio de 1911. Faz hoje 100 anos.

Carolina Beatriz Ângelo (1877−1911) dirigiu-se à Assembleia Eleitoral de Arroios, instalada no Clube Estefânia, em Lisboa, para votar nas eleições para a Assembleia Constituinte.

Semanas antes, requerera na Comissão de Recenseamento do Bairro onde residia a sua inclusão nos cadernos eleitorais, alegando preencher todas as condições especificadas no artigo 5.º do Decreto com força de Lei de 14 de Março de 1911*: tinha mais de 21 anos, sabia ler e escrever e era “chefe de família” pois, viúva há mais de um ano, provia ao seu sustento e ao da sua filha de oito anos com o seu trabalho como médica (fora a primeira mulher cirurgiã a exercer em Portugal). Perante a recusa de tal pretensão pelo Ministro do Interior, António José de Almeida, recorreu do correspondente despacho para o tribunal. Por sentença proferida a 28 de Abril, o juiz da 1ª Vara Cível de Lisboa, João Baptista de Castro, pai de Ana de Castro Osório (activista dos direitos das mulheres e presidente da Liga das Sufragistas Portuguesas), deu provimento ao pedido da médica e mandou incluí-la nos cadernos eleitorais, considerando que excluir a mulher “de ser eleitora e ter intervenção nos assuntos políticos (…) só por ser mulher (…) é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e justiça proclamadas pelo partido republicano, porquanto desde que a reclamante tem todos os predicados para ser eleitora não pode arbitrariamente ser excluída do recenseamento eleitoral, porque onde a lei não distingue não pode o julgador distinguir”.

Apoiada na autoridade desta decisão, Carolina votou nesse dia. Foi a primeira mulher a fazê-lo em Portugal – e durante largos anos a única.

O episódio teve enorme repercussão mediática e foi entusiasticamente celebrado como uma vitória nos muitos movimentos que em Portugal e por toda a Europa lutavam pelo sufrágio feminino. Mas causou também consternação e, sobretudo, embaraço às autoridades republicanas, muito pouco favoráveis ao voto das mulheres. 

Porque a verdade é que muito embora a letra do artigo 5.º do referido Decreto com força de Lei de 14 de Março de 1911, ao conferir o direito de voto a “todos os portugueses”, aparentemente não diferenciasse homens e mulheres, a intenção do legislador fora — era sabido – bem outra: conceder tal direito apenas aos primeiros. Carolina Beatriz Ângelo, que desde os tempos de estudante militava nas organizações feministas republicanas, tendo-se dedicado muito especialmente à causa do sufrágio feminino, viu nesta incongruência da lei uma oportunidade que tratou de aproveitar.

Para evitar a repetição e, quem sabe, a multiplicação de tão lamentável episódio, o novo Código Eleitoral, aprovado pela Lei de  3 de Julho de 1913, especificava com total clareza que seriam eleitores “todos os cidadãos portugueses do sexo masculino”** — explicitamente negando o voto à mulher. Ainda que fosse letrada e/ou chefe de família.

Carolina Beatriz Ângelo não viveria, contudo, para presenciar este retrocesso na causa em que tanto se empenhara: morreu, poucos meses depois, de ataque cardíaco, a 3 de Outubro de 1911. Tinha 33 anos e a sensação de “ter vivido muito em pouco tempo”***.

 

 

* Artigo 5.º do Decreto com força de Lei de 14 de Março de 1911, estabelecendo as regras a observar na eleição dos deputados à Assembleia Constituinte: “São eleitores todos os portugueses maiores de vinte e um annos á data de 1 de maio do anno corrente, residentes em território nacional, comprehendidos em qualquer das seguintes categorias: 1.º os que souberem ler e escrever; 2.º os que forem chefes de família, entendendo-se como tal aqueles que há mais de um anno, á data do primeiro dia do recenseamento, viverem em commum com qualquer ascendente, descendente, tio, irmão ou sobrinho, ou com a sua mulher, e proverem aos encargos da família.” 

** Artigo 1.º da Lei n.º 3, de 3 de Julho de 1913, estabelecendo um novo Código Eleitoral: “São eleitores de cargos legislativos e administrativos todos os cidadãos portugueses do sexo masculino, maiores de 21 anos ou que completem essa idade até o termo das operações de recenseamento, que estejam no pleno gôzo dos seus direitos civis e políticos, saibam ler e escrever português e residam no território da República Portuguesa.”  

*** Carta a Ana de Castro Osório, Julho de 1911.

A água tudo lava
a Gene Tirney de Ford

Vou meter-me na cama de Gene Tierney tentando convencê-la com as piores razões.
A preto e branco, nos anos 40, Tierney deu o corpo e a alma a “Laura” e foi a terna amante de “The Ghost and Mrs. Muir. Pensam que as mil cores 3D de “Avatar” são deslumbrantes? Vejam o preto e branco de mil cinzentos, vejam a brancura cega da fotografia daqueles filmes e falem-me, depois, de visões e deslumbramentos.

A Gene Tierney que arrasto pelos cabelos não é a desses filmes, nem é ao glamour calculado ou à complexidade psicológica de femme fatale que a quero ir raptar.
Roubo-a a “Tobacco Road, de John Ford. Contas mal feitas, tem três cenas no filme, diz uma só fala, anda descalça e mal vestida. Mas mexe-se e começam os sarilhos. Se virem como se mexe, percebem porquê.
Situo-vos. Uma família falida: os pais, a filha que é ela e um irmão louco. O cenário é uma casa a cair, árvores nuas, folhas murchas que o vento sopra, poeira que tudo invade. Minto: o cenário é a cara da miséria e a barriga da fome.

Chega o cunhado de Tierney. Queixa-se aos sogros do comportamento da outra filha com que o casaram. Ao ombro traz um saco de nabos. Para o cavernoso apetite deles, um saco de nabos é um repasto gourmet. O cunhado, o compacto Ward Bond, sabe e guarda-o como dragão desconfiado. Mas a fome inspira a Gene uma sexualidade predadora: senta-se no chão e de costas inicia um movimento de réptil na direcção de Bond e dos suculentos nabos, faiscando olhares que esclarecem as baixas intenções dela. O físico de Bond falece e os murmúrios que se lhe ouvem atestam a fraqueza da carne.
É a melhor cena de sedução duma mulher serpente. Gene rasteja pela obscena poeira, oferecendo à vítima o espectáculo das suas costas e do que, no fim delas, é o seu majestoso e redondo trono. Tudo por um saco de nabos.

O trajo de Tierney resume-se a um vestido de chita amarrotado e sujo, como ternamente suja e tisnada traz a perfeição da apetecida e macia carne das pernas. O erotismo de Ford, o de “Quiet Man cujo beijo Spielberg replicou em “E.T., costuma ter ardor romântico. Mas com Tierney, Ford foi buñueliano e tão perverso como o anarquista espanhol. Penso em “Los Olvidadose “La Joven, filmes em que a sujidade dá à pele e aos corpos a mancha de humanidade que faz do sexo o verdadeiro sal da terra.
No fim do filme, o cunhado regressa à quinta chorando a fuga da mulher. Os sogros dão-lhe em casamento Gene Tierney, a última filha. Sim, diz ela – é a única coisa que diz no filme – e corre para o mais glorioso plano desse Ford: mergulha as mãos na água e lava-se pela primeira vez, a pele a libertar-se do pó, gotas a deslizarem límpidas por um rosto que antevê a consumação da felicidade.

Não há nada que a água não lave.

Publicado no Atual do “Expresso” de 21 de Maio. Hoje, tenho um breve encontro com Hitler.

 
 

a outra Gene Tirney

 

Rotação terrestre

Ed Ruscha, “wen out for cigrets”, 1985

Se fechar os olhos consigo, com dificuldade, imaginar-vos na primeira hora da manhã, a acordarem, a cama desalinhada pelo sono, estremunhados face ao espelho da casa de banho, com um dia pela frente ainda por decidir.
Lá muito mais à frente, calculo que o Vasco já tenha acabado de almoçar em Beijing, um dia adiante de mim, à distância de três quartos de planeta.
Aqui eles deixam as luzes dos edifícios acesas toda a noite, vigilantes nesta derradeira cidade antes do imenso e negro Pacífico.
A esfera do tempo é muito difícil de conceber. Ou melhor, de representar de um modo vivido. Se fechar os olhos imagino-vos, mas não sinto o vosso tempo. Cada um prisioneiro na sua hora.
Cabeceio de sono e vou-me deitar.

Christina Seely, “Metropolis 35º 56′ N 118º 24′ W”, 2005–2009