Há muitos sítios bonitos no mundo e há sítios que, para além de belos, nos elevam. Na natureza, para sentir o elo com o sagrado, uns preferem o mar, outros a montanha, outros ainda o deserto. Mas há lugares construídos, arquitectados pela mente humana, que moldam a nossa presença neles e nos transportam, não para fora de nós, mas para o nosso interior. “Noli fora…“ dizia Agostinho, “Não vás para fora, permanece em ti mesmo”. Nem sempre é fácil. Por vezes é mesmo muito difícil. Não é de estranhar que desde que começou a pôr pedra sobre pedra o Homem se tenha dedicado a criar espaços sacros, microscósmicos espelhos de uma ordem maior, onde céu e terra se podem unir, dentro de nós.
O José Navarro de Andrade trouxe-nos a magnífica capela de Rothko. Curiosamente, estava eu, ao mesmo tempo, a pensar noutro santuário que tive a sorte de visitar. Na cidade santa entre as santas, Jerusalém, dona de uma paz que não consegue viver senão no nome, de tal maneira já lhe perdeu o hábito, surgiu em 1965 um edifício tão moderno e tão antigo quanto o país em que vive; a expressão visual, monumental, do Livro que faz a religião. Alberga uma colecção de livros encontrados em 1947 nos vestígios de uma seita perdida no tempo, tal como o reino que a albergava se perdera, judeu-errante pelo mundo, até 1947 também, quando a ONU deu terra ao seu nome: Israel.
A seita, os Essénios, praticava uma forma de judaismo ascético, comunitário, messiânico, assente no dualismo (e na batalha) entre os filhos da luz e os filhos das trevas, em ruptura com a religião oficial que consideravam corrompida, usurpada por uma casta sacerdotal sem direito a exercer o cargo, sem Templo (que era, à época, o fulcro da vida religiosa e sacrificial). Tinham inclusive adoptado um calendário próprio e praticavam ritos como a imersão diária e diz-se que o baptismo (donde viria a inspiração de João, o Baptista, ouve-se por vezes). Pouco se sabe deles ainda, embora se estime que existissem em grande número na Judeia e até na Síria e em Alexandria. Os Essénios tornaram-se importantes no século XX com a descoberta dos manuscritos do Mar Morto, nas caves da montanha sobre Qumran, um dos principais centros da seita. Aí se encontraram, em 1947 e nos anos seguintes, inúmeros escritos (ou 972, para ser precisa) com os textos da bíblia hebraíca, apócrifos e canónicos, bem como os textos próprios da comunidade. Entre todos, sobressaia o mais antigo manuscrito completo do Livro de Isaias, o profeta. O mais antigo escrito da Bíblia encontrado.
A importância histórica e religiosa deste acontecimento é tão grande que lhe foi dedicado um museu. Mas não qualquer museu… o Santuário do Livro.
Por fora, é isto. O branco e o negro. A cúpula e o monólito (sim, esse! Kubrick deve ter cá vindo antes de 2001). É, segundo os seus autores, os arquitectos Armand Bartos e Frederick Kiesler, ”O primeiro edifício ideológico dos nossos tempos, dedicado ao renascimento do homem.” Entre o Museu do Holocausto e o Santuário do Livro, podemos escolher.
Frente a frente, a luz e as trevas em confronto perpétuo. A cúpula branca acolhe-nos, regada por água, num ritual de purificação, como a imersão diária dos essénios. O monólito negro limita, separa, domina. O sol queima e faz-nos recolher na sombra. Felizmente há uma caverna à nossa espera. O Santuário é interior, subterrâneo.
Descemos e, por dentro, um corredor de penumbra leva-nos lentamente para o centro.
Aí chegados, queremos lá ficar para sempre. Nada mais há a dizer.




















Marta, lindo post, lindo passeio esse em que nos leva… sabe, há escritas que são como esses lugares que tão bem descreves: moldam a nossa presença neles e nos transportam, não para fora de nós, mas para o nosso interior. É um alento — para almas penadas doloridas — encontrar pouso aqui. Grata.
Grata sou eu pelo seu comentário, Luciana. O alento senti-o eu aqui.
Marta, que maravilha!
Sabia dos manuscritos do Mar Morto, descobertos em Qumran … e de nada mais!
Gostei muitíssimo da depurada simplicidade das linhas da cúpula e do monolito, dos contrastes e do forte simbolismo do conjunto.
E encantaram-me a ideia e as imagens do museu subterrâneo, as formas inesperadas e, sobretudo, a temperada e acolhedora penumbra que o sol abrasador e a luz intensa que dos seus textos e fotos se desprendem tanto fazem apetecer!
Mais um sítio para a minha lista!!!
Obrigada, Joana. Foi a nossa converseta pós-almoço que me fez recordar. A não perder mesmo!
Tão bela peregrinação por um espaço de interioridade e paz, descrita de modo maravilhosamente humano e virado para Deus, exige uma palavra bem simples: ADOREI !
Nem sei que diga senão: OBRIGADA!
Belíssimo, Marta. Afinal há mais matéria de interesse comum além de alguimia, Jung, Yvette K. C. e poesia…
Que bom Eugénia…Les beaux esprits-morts se rencontrent!
Obrigada.
Que sítio incrível. É claro que o Kubrik viu isto — pelo menos faria todo o sentido.
Grande descoberta, Marta.
Very impressive place, que é como quem diz: fiquei de boca aberta com o lugar. Mas o Kubrik filmou o Space Odissey em 1965, ano da construção do edifício. Acredito que não o conhecesse. Vou ver se descubro a fonte de inspiração dele.
Li muitopouco sobre os essênios e espero agora encontrar mais tempo para inteirar-me de seus temas.Mas essas cores e formas que nos trouxe me impressionaram.Talvez seja o jogo de luz e sombra, claro e escuro, que tanto aprecio no cinema e na vida. Acho que encontrarei muito mais em seus manuscritos.Obrigada por compartilhar conosco!