Espártaco
Queridos Mortos


Diz-se que nasceu na Trácia, no ano 120 a. C., mas não é certo. Diz-se ainda que serviu no exército romano, do qual terá desertado, pelo que foi depois vendido como escravo, juntamente com a sua mulher, mas também isto não se sabe com certeza. Parece, porém, que foi então comprado pelo romano Cneu Cornélio Lêntulo Batiato, que o enviou para a sua escola de gladiadores, na antiga cidade etrusca de Cápua, onde, pouco depois, durante uma rebelião, empunhando facas arrebanhadas na cozinha, fugiu, juntamente com setenta e sete gladiadores, de uma morte certa num lugar fechado para uma morte incerta em campo aberto. Talvez isto seja o que de mais certo sabemos sobre a sua vida.
Mas a vida tem muito pouco de certo. E nesse campo aberto onde gritavam, como se gritassem ainda na arena onde morriam matando para divertir os outros que, lá em cima, também gritavam, venceram os soldados enviados para os combater. Agora armados, acamparam no monte Vesúvio, dentro da cratera do adormecido vulcão, cuja força neles havia de acordar. Um primeiro exército de 3.000 soldados romanos foi derrotado pelos escravos e outras duas hostes enviadas pelo Senado foram subjugadas pelos gladiadores. A fama destes homens, então, rapidamente se espalhou, de tal maneira que cada vez mais escravos se lhes vinham juntar. Diz-se que chegaram a ser mais de 70.000, os quais, roubando e pilhando, viviam livres e insubmissos a Roma.
O seu grande número e a ausência temporária dos exércitos regulares romanos transformou-os numa ameaça. O seu líder, então, tornou-se temido. Desprezado por uns e exaltado por outros, odiado pelos primeiros e amado pelos segundos, deixámos para sempre de saber quem era. Conhecemo-lo apenas por meio daqueles que contaram a sua história, ou de uma maneira ou de outra. Já os romanos sobre ele não se entendiam. Floro, Apiano, Diodoro Sículo, Plutarco, cada um o vê à sua maneira. Não é de estranhar, por isso, que, mais tarde, os comunistas façam dele um precursor e Hollywood o cante como um herói. O mais provável, no entanto, é que ele tenha apenas querido fugir do jugo que o oprimia, procurando, para lá dos Alpes, uma terra onde pudesse viver tranquilo. Quem sabe, até, ser feliz!?
O seu exército, porém, não se pôs de acordo. Em vez de se dirigirem para a Gália, pilharam a península itálica e confirmaram a sua ameaça a Roma. Esta, reuniu então seis legiões sob as ordens de Marco Licínio Crasso, que aceitou arriscar a sua reputação numa difícil batalha contra um exército de escravos. A batalha foi travada em vários locais e manteve-se, de algum modo, incerta, até que o exército de Cneu Pompeu Magno, entretanto regressado da Espanha, onde vencera Sertório, se juntou às legiões de Crasso que, em Petélia, na Lucânia, no ano de 71 a. C., definitivamente venceram os homens liderados por Espártaco.
O gladiador e líder da revolta dos escravos morreu durante a batalha, ao lado da grande maioria dos seus homens. Os cerca de 6.000 escravos-livres que escaparam com vida foram capturados e crucificados ao longo da estrada que vai de Cápua até Roma, cidade na qual Pompeu entrou triunfalmente, anunciando o império, que estava a chegar. Espártaco, esse, ninguém sabe realmente quem foi. Lutou por si, não pelos outros, e essa foi a sua grande vitória, destinado que parecia estar a lutar pelos outros, e não por si.

Comentários a “Espártaco” (2)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Σπάρτακος! Há quanto tempo! Li o livro, no mesmo épico Verão em que devorei o Ben-Hur e o Quo Vadis, depois vi o filme em versão Kirk Douglas.

    Gostei muito, Gonçalo, de o rever (ao Σπάρτακος) neste retrato — com o desejo de liberdade e a esperança a emergir, certos, no meio de tanta incerteza que rodeia tão misteriosa figura.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Gonçalo, li cheio de medo que me estragasses o mito de matinée que foi e sempre será, para mim, o Spartacus. Li e saíu-me ileso e reforçado o meu velho herói de cinemascope — thanks. (Por acaso, já o tinha visto de fato e elegante camisa nova-iorquina e até tirei fotografias com ele na Cinemateca, num dia em que, por causa do Festival de Tróia, ele embirrou em visitar-nos).

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