Persuasion é o segundo dos meus dois estranhos melhores livros que, em resposta ao desafio lançado pelo Manuel, aqui me propus (e aqui comecei a) revelar. Publicado postumamente, em 1818, foi o sexto escrito e o último completado pela sua autora, Jane Austen (1775−1817). E calhou ser também aquele que conheci depois de todos os seus outros, já vários anos volvidos sobre as primeiras e adolescentes leituras de Pride and Prejudice, Sense and Sensibility e Emma.
São várias as razões que o tornam estranho. E também inesperado, complexo e muito tocante e belo.
Quando pela primeira vez li Persuasion de imediato lhe estranhei os contrastes com os demais, contrastes bem nítidos nos traços mais tipicamente “Jane Austen” que mos tornavam tão gostáveis: a desconcertante (to say the least) protagonista, Anne Elliot, um plot em que presente e futuro surgem inapelavelmente condicionados por eventos passados e cujo relevo o próprio título parece reforçar, a paleta de tons invulgarmente carregados, às vezes sombrios, que a autora usa ao longo de toda a narração.
Num primeiro relance, Anne Elliot define-se essencialmente pelo que não é: desenvolta e destemida como Lizzie Bennet, sensata e outspoken como Elinor Dashwood, alegre e despreocupada como Emma Woodhouse, vibrante e espontânea como Marianne Dashwood.
Esta primeira impressão de apagamento é magistralmente intensificada pela própria Miss Austen, que ao longo dos primeiros capítulos nos faz ainda saber que Anne Elliot — de novo ao contrário de todas as suas outras protagonistas — não é jovem nem bela. Com 27 anos está já bem para lá da idade casadoira (e em vias de se tornar uma solteirona, com tudo o que isso implicava de dependência familiar e de irrelevância social). Pior, se “a few years before Anne Elliot had been a very preety girl, her bloom had vanished early”, e apesar das suas “delicate features” e “mild dark eyes”, apresenta-se “faded and thin”.
Mas há mais: caso único entre as heroínas austenianas, Anne Elliot não espera viver um grande amor, menos por força destas suas particularidades - que, convenhamos, a tornam hardly eligible para casar adequadamente e menos ainda para suscitar uma qualquer romantic infatuation -, do que por uma outra e bem mais trágica razão: anos antes, a muito jovem Anne, seguindo desacertados conselhos, recusou casar com aquele que foi o amor da sua vida, mas que se apresentava, a diversos títulos, como um unsuitable match for a lady of her standing.
To make matters worse, Anne Elliot vive rodeada de gente tonta e apegada a valores crescentemente desfasados da realidade e dos novos tempos que se vivem que, com raras e amigas excepções, a depreciam e desconsideram: para o seu pai e irmãs “(she) was nobody (…) her word had no weignt, her convenience was alwaysto give way – she was just Anne”. Compreensivelmente solitária, contida e quase invisível.
Diante deste desolador panorama, não se estranharia que o devotado leitor de Jane Austen esmorecesse no seu gosto e ponderasse seriamente abandonar Persuasion ainda antes de chegar a meio. Estranhamente, porém, não é o que sucede – falo por mim e por tantos, tantos outros. Persuasion lê-se com um encantado e crescente fascínio, que nos impede de o pousar antes do fim. Muito pela sucessão de eventos a que a engenhosa Miss Austen submete a sofrida Anne Elliot — um sério reversal of fortune familiar, um inesperado reencontro que traz à superfície amargura, ressentimento e outros dolorosos vestígios de um passado muito mal-resolvido, um pretendente tão irrecusável quanto inadequado. Mas, above all, pela formidável figura que, página a página, se nos revela, sem artificiosos volte-faces ou twists. Sendo tudo aquilo que dela aqui se disse, Anne Elliot é também muito mais e muito melhor: madura e serena, intuitiva e observadora, empática e generosa, persistente nos afectos e confiante nas suas percepções e nas avaliações que faz dos outros e das situações — quase se adivinha que muito à imagem e semelhança da sua criadora, que por essa altura da sua vida decerto desenvolvera e aprendera a valorizar tais características.
Tudo isto torna Persuasion extraordinário e Anne Elliot a mais elaborada e consistente das figuras femininas saídas da pena de Jane Austen. Lembro-me de ter gostado muito quando primeiro o li. E sei que gosto mais em cada releitura, tanto mais que de há tempos para cá Persuasion encabeça o top dos meus favoritos, ex-aequo com Pride and Prejudice. Estranho? De todo. A idade, já se sabe, tem destas coisas…
PS — O passa ao outro e não ao mesmo que ainda aqui tenho para lançar vai para a EUGÉNIA, que muitos de nós can hardly wait que nos revele o mais estranho melhor livro que leu …


















Menina Jeanne,
a mais elaborada e consistente porque mais Jane vista por si mesma para determinar a visão de si mesma pelos outros que não era rapariga para pontas soltas. E já com a certeza de que o seu próprio casamento jamais se faria.
Mas a verdade verdadinha e boa é que ela teve a liberdade de experimentar a expectativa do amor de cada uma das suas heroínas e, como o disse a nossa rica Dona Agustina a propósito da experiência do espectador de viver na tela cinema, com toda a assepsia e nenhum risco.
Eugénia, este seu comentário, além do muito agrado que me trouxe, deu-me que pensar. E fez-me lembrar a mesa onde Miss Austen escreveu quase todos os seus livros: vi-a este Verão quando visitei a sua (dela) casa, transformada em museu, perto de Winchester. Para além da estupefacção inicial diante do seu minúsculo tamanho (é uma mesinha de madeira redonda, com pouco mais de dois palmos de largura …), o que mais me impressionou foi o sítio onde estava: no meio da casa, em plena sala de jantar e bem junto a uma janela enorme, que abria para o jardim e de onde se via a rua. Claramente, para além de um local de trabalho e de criação, aquele sítio era também um posto priviliegiado de observação — de onde se escutavam conversas e relatos, se assistia a cenas, se mirava tudo o que se passava com familares, amigos, vizinhos, passantes. Afinal, de onde Jane Austen vivia exactamente assim como refere, citando Agustina, a vida por interpostas pessoas: as reais, que lhe forneciam o material que lhe permitia depois, através das fictícias, tais experiências …
Que óptima escolha para segundo estranho melhor livro!!!
Já desconfiava que seria este o segundo livro por si escolhido. Não me enganei e, mesmo assim, fui muito surpreendida pela belíssima descrição que dele fez, explicando porque o considera “estranho” e, ao mesmo tempo, um dos seus favoritos.
Gosto sempre (e muito) de Jane Austen! E gostei muitíssimo do modo como, ao longo do post, foi relacionando a tão diferente das outras figuras femininas, Anne Elliot, com a própria Jane Austen!
Teresinha, fico contente por a ter surpreendido naquilo que era mesmo minha ideia surpreender!
Mas ao ler o seu comentário, não pude deixar de me lembrar que teria pouco menos que a sua idade quando pela primeira vez li — e estranhei – Persuasion. E de me alegrar, por si, a antecipar as fascinantes revelações que nos próximos anos e décadas, Miss Austen herself e Miss TTM, as well, esta com outra perspectiva e outra, vá, sabedoria, lhe têm reservadas, na releitura de qualquer um dos livros da primeira … sobretudo n deste, I daresay …
Sempre gostei muito de Persuasion.Talvez por o ter lido mais tarde nunca o estranhei. Tivesse a nossa Jane vivido mais uns anos ainda escreveria outros amores mais maduros. Boa escolha, uma bela história um pouco perdida, perante a exuberância de outras protagonistas.
Absolutamente de acordo, Marta. Sem querer de modo algum desmerecer as demais protagonistas criadas por Jane Austen – com a possível excepção de Emma, com quem sempre estive no limiar da embirração – e os enredos por ela tão ardilosamente tecidos, a Anne Elliot e Persuasion atraem-me cada vez mais pela elaborada e fascinante subtileza – da figura e da própria escrita (e de tudo o que esta sempre tem de ironia, humor, crítica social e de costumes), como das muito mais ricas e variadas matizes do olhar que lança sobre o mundo das relações familiares e afectivas e sociais, bem mais complexo. E sim, fica-se a pensar no que por lá viria, tivesse Miss Austen vivido para lá dos 41 anos …
Como suponho que sabe, Joana, não sou um austeniano. Li ‘Orgulho e Preconceito’ (traduzido), gostei, mas achei que chegava de «mulheres inglesas vistas por uma outra mulher inglesa» — o que é gradualmente redutor, até porque nunca pensei regressar.
Agora já não sei, preciso urgentemente de ver através duma mulher — quem sabe e a sua Jane me ajudará…
António, muito embora a escrita de Jane Austen seja, num primeiro relance, essencialmente feminina, porque muito centrada nas suas protagonistas, respectivas emoções e percepções e porque a narradora mais ou menos omnisciente é essencialmente mulher, saiba que, entre nós, como, sobretudo, lá por fora, são vários os homens que se incluem entre os que mais cabalmente compreenderam e mais profundamente escreveram sobre a sua obra.
Se está deveras decidido a regressar a Jane Austen e se me permite a sugestão, comece por este Persuasion – Persuasão: por todas as razões que tentei explicar no meu texto, e também porque tem muitas e curiosas alusões à Royal Navy – os principais protagonistas masculinos são oficiais (como o eram, de resto, dois irmãos de Jane Austen, um dos quais combateu em Trafalgar) – à vida a bordo e à camaradagem entre homens do mar, mas também à poesia que então se lia e até a Lisboa, ponto obrgatório de passagem dos ships from Her Majesty’s fleet, à data em que é suposto passar-se a acção (1814) …
Sim, depois da sua descrição seria por este que eu reentraria. Sabe se há alguma tradução boa?… É que já não leio em inglês há muitos anos (um livro inteiro, claro), e sei que se o fizesse agora passava a vida no quarto-de-banho (perdão, no dicionário, a lavar palavtas…). Só leio aceitavelmente bem em francês ou espanhol…
1955. Porto: Liv. Civilização.
1996. Mem-Martins: Europa-América.
1997. Lisboa: Presença.
Take a pick.
Cusca