Lalla c.1320 –c.1370
Foi paixão à primeira vista. Depois reli-a nas poucas línguas que temos em comum, traduzi-a, estudei-a. Nunca a compreendi realmente, mas continuo a tentar.
Dela conhecemos cerca de 140 poemas (vakhs) autênticos (talvez um pouco mais, consoante os autores), cânticos místicos entoados para os discípulos e que estes foram devotamente registando. Lalla pertence a um tempo passado, a uma Caxemira de paz, onde loucos de vários deuses, poetas e profetas celebravam a doçura das religiões tolerantes. Lalla é a santa de Caxemira, reclamada como sua por hindus e muçulmanos. Mas Lalla não se prendeu com as religiões do mundo. A sua devoção é de outra ordem. É de uma poesia inquieta e incandescente.
(Vakh 73)
Shiva, Krishna, Buda,
Ou Brahma, nascido do lótus,
Qualquer que seja o seu nome,
Que Ele me liberte da doença do mundo!
Quer seja Ele, ou Ele, ou Ele.
Lalla, Lad Ded, ou Lalleshwari, como também é conhecida, viveu entre c.1320 e c. 1370 d.C., em Caxemira. Nascida numa familia brâmane, terá provavelmente recebido uma boa educação em casa de seus pais, sendo evidente o seu conhecimento de diversas disciplinas espirituais. Depois de alguns anos de um casamento infeliz, Lalla dedica-se à itinerância, à procura incessante de Deus, que ela conhece sobretudo como Shiva.
Como é normal em relação à vida de qualquer santa personagem, a sua vida está envolta em mito e mistério. A informação mais segura sobre Lalla vem de Lalla, dos seus cânticos. Eles são manifestações da voz interior, parecem espontâneos e ocasionais, mas estudados e organizados permitem que se descubra neles cada pedra e cada passo de uma caminhada espiritual muito profunda.
Ela começa titubeante, insegura:
(Vakh 1)
Sou como a água numa taça de argila que não foi cozida -
Espalho-me e perco-me.
Quando atingirei a minha morada?
Depois, como outros grandes místicos, percebe que não basta palmilhar as ruas pois é dentro de si que tem de mergulhar :
(Vakh 21)
O guru deu-me um só ensinamento:
“Inverte a tua busca,
Não dirijas mais o teu olhar para o exterior
E fixa-o no Eu interior.”
Levando este ensinamento no coração,
Nua, comecei a vaguear.
Lalla só fala do que sabe por experiência própria, do que é sua prática. Pelo yoga, pelo tantra da mão esquerda, de ritos mais ou menos esotéricos, mais ou menos orgiásticos, quebrando todos os limites, todos os tabus, até mesmo o da ingestão de carne humana, ela vai queimando o ser que ela é ou que julga ser, até se dar o verdadeiro Encontro:
(Vahk 103)
Atravessei sozinha a vastidão do Vácuo,
Deixando para trás razão e sentido,
Tornei-me confidente do meu secreto Eu;
E, de repente, inesperadamente,
Do lodo, o lótus floriu para mim.
O pequeno eu de Lalla reconhece-se como o Eu universal.
(Vakh 129)
Senhor, eu não sabia quem eu era,
Nem Tu, o Supremo Deus de tudo.
Só conhecia este meu corpo.
Não sabia da relação entre nós dois,
Que Tu és eu e eu sou Tu e que ambos somos um, eu não sabia.
Perguntar: Quem és Tu? Quem sou eu?
É agora a grande dúvida.
Esta Verdade que alcançou e que lhe permite ver a Realidade sem dualidade, a consciência do Transcendente e Imanente com um só, é uma Realidade para a qual não chegam as palavras e sobra a poesia :
(Vakh 134)
Aqui não há palavras ou pensamento,
Não há não-Transcendente ou Transcendente aqui.
Votos de silêncio e mudras místicas
Não vos abrirão as portas.
Nem Shiva nem Shakti aí residem.
O Algo que permanece é a Verdadde
Para conhecer e alcançar.
(Vakh 135)
Não há nem tu nem eu,
Não há postura, nada a contemplar,
Tudo foi esquecido, até mesmo o Criador […]
O cântico final de Lalla é o meu predilecto, revelando-a senhora de uma fé onde nada se perde e tudo se aproveita e se transforma, onde se encontra Deus sem fugir do mundo, onde espírito e matéria são uma mesma realidade, uma mesma voz, uma mesma dança, da qual Shiva é, afinal, o Senhor, pois é dançando que ele cria o mundo… e o destrói outra vez.
(Vakh 138)
Todo e qualquer trabalho meu tornou-se adoração a Deus,
Qualquer palavra minha um mantra,
Toda a experiência ou sensação deste meu corpo tornou-se o tantra do Divino Shiva,
Iluminando o meu caminho para Ele.


















Querida Marta,
que surpreendente e fascinante figura. E que bem no-la apresentou, com fundo sentimento e belíssima poesia.
Gostei muitíssimo de tudo. Em especial do primeiro Vakh — fiquei a pensar como é feliz a imagem da taça de argila não cozida que tudo deixa escapar e perder do que por ela passa — e do sereno último, tão sabiamente lido por si.
Mais uma campa para revisitar amiúde. Que sorte a minha.
Muito agradeço, Joana. Ainda bem que gostou e que vai voltar de vez e quando.
e que sorte a minha este cemitério ser tão peculiar e diverso nos gostos
não conhecia
gostei imenso de conhecer
e que bem apresentado foi
obrigada Marta
Quase ninguém a conhece Rita, tirando a nossa Eugénia e mais meia-dúzia. Obrigada pelo elogio e por ter gostado.
Marta, gostei muitíssimo que tivesse trazido a sua Lalla, e mais que a trouxesse em construção, nesse caminho-progresso em direcção ao que sempre lá esteve e finalmente se faz visível.
Creio que essa é a diferença essencial entre Lalla e Mirabai: a uma coube o desvelamento pela busca, a outra pela revelação.
Obrigada Eugénia! Esta morta já estava guardada há uns tempos à espera de vez. Também gosto muito de poder acompanhar a construção de Lalla nos cânticos, organização que se deve a Jayalal Kaul, o grande estudioso e compilador da sua obra (com a grande vantagem de ser acessível em inglês).
Essa diferença que muito bem nota entre Mirabai e Lalla deve-se à diferença do culto shivaita (e ainda mais acentuado no shivaismo de Caxemira) e o culto vishnuita, sendo o primeiro baseado na gnose o segundo na devoção .
Lalla, muito gosto em conhecê-la. Mas, a bem dizer, acho que já vi a sua cara e, quando fecho os olhos, tenho a sensação de já conhecer a sua voz. É a cara de Santa Teresa se a voz for a do terrível e divino Marquês. É que só os dois juntos é que, sem fugir do mundo, são, como a Lalla, “consciência do Transcendente e Imanente com um só”.
Thanks Marta.
Thanks Manuel. A Lalla está muito bem acompanhada e decerto gostaria de te conhecer também… mas tens razão, concerteza já se encontrarem algures.
Marta, deliciosa esta figura que desconhecia. E que inspiração tão difícil de acompanhar. Obrigada pela revelação.
Olá Mafalda, obrigada pela visita, pelo comentário e sobretudo por te deliciares com a Lalla. Já somos mais.
Marta: nunca tinha ouvido uma referencia sequer à sua Lala. Mas gostei muito que a tivesse desenterrado. Este cemitério também é isto: no fim do nosso mundo não sobrará um único morto desconhecido!