The Screwtape Letters é o primeiro dos meus dois estranhos melhores livros que, em resposta ao desafio lançado pelo Manuel, aqui me propus revelar. Publicado em fascículos semanais no The Guardian, entre Maio e Novembro de 1941, foi editado em livro no ano seguinte. O seu autor, o irlandês C. S. Lewis (1898−1963) foi investigador e professor de literatura medieval inglesa em Oxford, crítico literário e escritor. Nascido e educado numa família pertencente à Church of Ireland, tornou-se ateu na adolescência e converteu-se à Church of England em 1931, muito graças aos esforços do seu colega e amigo, o católico J. R. R. Tolkien — a quem é dedicado este livro que vos trago.
São várias as razões que o tornam estranho. E também surpreendente, corrosivo e muito, muito divertido.
The Screwtape Letters é-nos apresentado como um exorcismo. O seu prefácio adverte que os demónios existem e que entre os maiores erros em que com frequência incorre a humanidade, para seu (deles) gozo e vantagem estão o descrer na respectiva existência e o subestimar-lhes a capacidade, reduzindo-os a estereótipos absurdos e evidentemente falsos. Ora, nada mais perigoso para os incautos humanos – que, lendo este livro, ficarão a saber como é que os demónios os vêm e conhecem e como tramam e conspiram para os desgraçar, tirando partido da sua unawareness, que os deixa desprevenidos e da sua natureza, que os torna particularmente receptivos a todo o tipo de tentação.
Enquanto exorcismo, The Screwtape Letters é tão atípico quanto o são os meios que utiliza: em vez de benzeduras, ladainhas, cruzes, imposições de mãos e afins, o riso e o ridículo, suportados por um inteligente e impiedoso sentido de humor. A eficácia de uma tal opção, essa é garantida, logo de entrada, por duas portentosas figuras da dividida cristandade, que convergem quanto a este ponto: Lutero e Tomás More themselves, a afirmar, respectivamente, que “the best way to drive out the devil, if he will not yield to texts of Scripture, is to jeer and flout him, for he cannot bear scorn” e que “the devil … the prowde spirite … cannot endure to be mocked”.
Sucede, porém, que uma análise mais atenta de The Screwtape Letters nos revela que, apesar de os seus principais protagonistas serem demónios, de nos dar um full e delirante insight de como estes congeminam, actuam e se (des)tratam uns aos outros, nada nele é como acabo de dizer (ou apenas isso): nos dois anteriores parágrafos, como no começo do livro, do que se trata é essencialmente de atrair e prender o leitor…
The Screwtape Letters é um espelho. Um daqueles espelhos de feira que nos devolve uma imagem grotesca e cómica, mas na qual, ai de nós, nos revemos … Qualquer um que, ao lê-lo, solte uma boa gargalhada – e muitas vezes, garanto, isso sucederá — é de si mesmo que ri. Porque The Screwtape Letters é uma crítica tremendamente certeira à natureza humana em geral e aos cristãos em particular. Quanto a estes e ao modo como vivem a sua fé, nada escapa: da espiritualidade estéril que os desliga da realidade e torna insensíveis aos que os rodeiam e às suas necessidades à experiência meramente intelectual das virtudes, sem qualquer reflexo na prática, passando pela caridade exercida de forma voluntarista e massacrante para os seus destinatários ao orgulho na própria religiosidade e virtude. Através de um percurso muito, muito retorcido sobre a tentação, o pecado e sobre a forma gradual, imperceptível e insidiosa como estes podem conduzir o mais comum dos mortais, através da mais banal das existências e sem necessidade de feitos espectacularmente atrozes, à condenação e ao inferno, The Screwtape Letters mostra afinal que, não desfazendo na competência do demónio tentador que a cada um nos saia em sorte, qualquer humano tem em si all that it takes para inapelavelmente se desgraçar — e sem disso sequer dar conta, tão seguro está da sua rectidão de vida. Estranho? Vai-se a ver e se calhar não …
Quanto ao conteúdo do livro e numa síntese breve e praticamente spoiler-free, The Screwtape Letters é uma série de 31 cartas dirigidas, como o próprio título o indicia, por Screwtape, um demónio velho, astuto e muito vivido, ao seu sobrinho, o jovem, inexperiente e impetuoso Wormwood, a iniciar uma carreira como tentador de humanos (aos quais deve incutir, se necessário, a descrença e fazer cometer pecados de toda a ordem, de modo a assegurar a sua perdição). Nas suas cartas, escritas em resposta às que recebe de Wormwood, Screwtape congratula-se com os progressos que este lhe relata e responde às suas questões. As mais das vezes, contudo, exaspera-se e repreende-o pela sua insensatez e incompetência e tenta transmitir-lhe alguma da sua sabedoria, dissertando sobre Deus, o homem, a oração, a ciência, a idolatria, a guerra, os pecados, a virtude e a tentação. É através destas cartas que vamos também conhecendo the patient, o homem que Wormwood tem de tentar: um recém-convertido ao cristianismo, que se dá com companhias mundanas, se apaixona por uma rapariga muito devota e virtuosa, se angustia perante a perspectiva de ser mobilizado para a guerra e teme os ataques aéreos que na sua região se multiplicam…
Screwtape e Wormwood vivem num mundo ao contrário, no qual The Enemy (por vezes referido as Our Oppressor) é Deus e Our Father Below o Diabo himself, São Paulo é referido como that pestilent fellow Paul e a organização administrativa infernal tem o nome de Lowerarchy. São deliciosamente desconcertantes as considerações de Screwtape sobre, entre outros relevantes assuntos, that discreditable episode known as the Incarnation (oh, that abominable advantage of the Enemy!), those disgusting little human vermins, those amphibians, half spirit and half animal ou sobre os desires of the flesh e a bebida como caminhos de perdição: never forget that when we are dealing with any pleasure in its healthy and normal and satisfying form we are, in a sense, on the Enemy’s ground (…) for he made the pleasures, all we can do is to encourage the humans to take them at times, or in ways, or in degrees in which He has forbidden…
A concluir, e para ter a certeza de que ficam completamente rendidos, deixo-vos com mais duas pérolas do meu e espero que por esta altura já vosso affectionate uncle Screwtape:
To be greatly and effectively wicked a man needs some virtue. What would Attila have been without his courage, or Shylock without self-denial as regards the flesh?
It does not matter how small the sins are provided that their cumulative effect is to edge the man away from the Light and out into the Nothing. Murder is no better than cards if cards can do the trick. Indeed the safest road to Hell is the gradual one — the gentle slope, soft underfoot, without sudden turnings, without milestones, without signposts.
PS — O primeiro dos meus passa ao outro e não ao mesmo vai para o GONÇALO, que muito gostaria que nos falasse do mais estranho melhor livro que leu …


















Valeu bem a pena esperar!!!
Que ideia gira a de “virar ao contrário” e ver o Mundo da perspectiva dos demónios! E que formativo pode ser nestes tempos de requalificação profissional já que, não vá o Diabo tecê-las, de um dia para o outro podemos ver-nos obrigados a enveredar por profissões menos, vá, tradicionais… Um autêntico manual!
Gostei muito! Bela escolha!
Teresinha, tanto entusiasmo e tamanha proclamação de polivalência deixam-me deveras inquieta!
Perante uma tal predisposição para se passar para o outro lado na primeira oportunidade, o Wormwood não só não precisaria dos conselhos do tio Screwtape para a desgraçar como, em bom rigor, não precisaria mesmo de fazer o que quer que fosse … a não ser preocupar-se seriamente com a forte probabilidade de vir a ser dispensado e substituído por uma diaba, tão terrivelmente competente quanto aparentemente inofensiva …
Magnífico! Onde é que se adquire uma pérola destas?
Ps: não achei assim tão estranha assim-assim… Espero que se redima com o segundo.
Áh!…
António, fico mesmo contente que tenha gostado!
Tenho também uma versão portuguesa das cartas … vou ver se a descubro aqui no meio da confusão! Até lá, espreite o link que a nossa Luciana deixou aqui em baixo para uma tradução com sotaque transatlântico …
E escusa de se armar em impliquento, com Ahs e assim-assims e bolds! Já devia saber que sou uma esquisitinha com os livros: se os acho estranhões não gosto, se gosto não os acho estranhões … prepare-se, pois, para mais um … estranhinho, mas muitíssimo emocionante e lindamente desvendado, claro!
Tá!
Eu pretendia dormir hoje. Juro que sim. Afinal tenho um nada estranho dia amanhã, com reuniões não-estranhas, aulas não-estranhas, livros nadica estranhos…Mas, devido à minha felina curiosidade e estas letras quase rubras no post, vou passar a noite olhando no espelho:
http://pt.scribd.com/doc/831894/C-S-Lewis-Cartas-do-Inferno-completas-31-cartas
Pode colocar na sua conta.
Luciana! Cuidado!!!
Uma das tentações vivamente sugeridas pelo sabido Screwtape ao desastrado sobrinho é justamente levar os humanos a não fazerem nada do que têm para fazer, distraindo-os primeiro com coisas agradáveis e depois, numa fase mais avançada, com coisas completamente desinteressantes, inúteis e irrelevantes, nas quais gastam o seu tempo e energia …
Que simpática e generosa ideia a sua, de deixar o link: a tradução portuguesa editada aqui, com o título Vorazmente Teu não é fácil de encontrar, temo bem que esteja esgotada ….
Acabei de ler o post, agora já deste lado do Atlântico e dou risada sozinha…acho que estou perdida, pois andei distraindo-me muito com coisas agradáveis. Amanhã me penitencio e volto ao trabalho…rs.s..
Oh my, oh my…por que razão não estarei eu surpreendida?
É também dos meus livros preferidos, nesta categoria de “melhor-estranho”. Tenho-o em português, o que certamente implicará uma perda no diabolismo das expressões.
Nevertheless, acho particularmente actual esta passagem: “O mais importante é impedi-lo de fazer seja o que for. Na medida em que não o converta em acção, pouco importa o que pense sobre este seu novo arrependimento.(…) Deixa que faça tudo, menos agir. Por mais piedade que exista na sua imaginação e afectos, nenhum dano poderá causar-nos se a mantivermos afastada da sua vontade. (…) Quanto mais vezes ele sentir sem agir, tanto menos virá alguma vez a ser capaz de actuar e, a longo prazo, será tanto menos capaz de sentir”.
Tenho o forte pressentimento que este “mundo ao contrário” — como dizes– é bem mais real do que gostaríamos.
Anita, you wicked woman!
Queres crer que essa foi uma das várias passagens que seleccionei com um lindo post-it rosa na re-re-re-leitura que por estes dias fiz do wicked book … e que tive de deixar de fora, para que o post não ficasse tão eterno como a condenação a que conduzem as conspirações dos engenhosos Screwtape e Wormwood… Se quiseres aventurar-te no original inglês, sabes onde o achar …
E é claro que o mundo às avessas em que vivem estas delirantes figuras tem muito a ver com o nosso: é isso que faz o livro tão absolutamente divertido … como, de resto, aquele David Lodge tão da nossa predilecção e que por um triz não veio também aqui parar …. ;)
…também pensei na possibilidade desse David Lodge ;)
ah !!!! a ler e quickly …
Run for it , Rita, it’s a hell of a lot of fun!!!
Bem trazido, Jeanne: um livro para se ficar curioso dele.
Eugénia, fico muito contente, bem sabe, que tenha gostado e ficado curiosa …
Speaking of which, a Marta e eu – e julgo não sermos só nós — também estamos, super … o que vale é que ainda tenho um passa-ao-outro-e-não-ao-mesmo para lançar, junto com o outro estranho livrinho …
Boa escolha Se não pela estranheza, certamente pela legião de fãs que conquistou, euzinha entre elas. Vou já tratar de ler.
Marta, faz lindamente: garanto que é muitíssimo mais retorcido e divertido do que tudo o que possa resultar deste meu texto … o que me diverti (e desgracei) a relê-lo por estes dias para sobre ele escrevinhar …
Gosto, gosto!
Agora, hesito é nos excertos de que mais gosto:
(1) “It is funny how mortals always picture us as putting things into their minds: in reality our best work is done by keeping things out.“
(2) “Never forget that when we are dealing with any pleasure in its healthy and normal and satisfying form, we are, in a sense, on the Enemy’s ground.“
(3) “Murder is no better than cards if cards can do the trick.“
Quanto mais leio, mais hesito… mas o primeiro é mesmo bom… “to Hell with it!“
Cusca
P.S.: Linda cor, castanho esturradinho…