Ao desafio da Marta, decidi, tal como o fez a Joana Vasconcelos (somos muito competitivos nós os dois), apresentar dois livros que para mim foram de alguma forma estranhos. Aqui estão ambos, acompanhados de sucinta nota.
Porque o li todo às escondidas. Antes do tempo. Percevejos e sífilis. Sombrios quartos de hotel e fome de tudo. Mulheres com as entranhas em chamas e homens pálidos com problemas intestinais. Uma Paris bafienta, de gente mal lavada, expatriados falidos e artistas sem alma. Tudo regado com a inflamável e sardónica gasolina de Miller que sem que eu percebesse porquê, conseguia apesar de tudo celebrar a essencial condição humana de estarmos vivos.
Porque ainda hoje estou para perceber se gostei ou não, se valeu o dinheiro que paguei por ele e se é literatura ou apenas um vómito pretensioso. No entanto passei quatro dias agarrado a ele. Aprendi de cor todas as hierarquias do exército Nazi e das SS. Mergulhei depois da sua leitura e durante semanas a fio, na história das Einsatzkommandos e da campanha de Estalinegrado. Interroguei-me a fundo que carreira teria eu feito nas fileiras do partido Nazi e das SS, se tivesse sido apanhado na geração que tinha 15 anos em 1930 na Alemanha. Li uma parte do livro numa viagem de avião. Ao meu lado, um senhor com uma certa idade perguntou-me se estava a gostar. Disse-me depois que tinha lido duas vezes de seguida e que tinha odiado ambas. Penso que se preparava para ler uma terceira.
Agora passa ao outro e não ao mesmo, eu passo sempre ao mesmo, ora conte-nos lá, Sr. Pedro Marta Santos que estranhezas tem apoidas sobre o bordo do seu bidé.



















Vasco,
Escolhemos ambos dois livros, eu escrevi dois textos (antecedidos de um meio post a comunicar ao mundo tal decisão) e tu só um, mas estes teus livros são efectivamente bem mais estranhos do que os meus … tudo aponta, pois, para que estejamos empatados, situação que normalmente muito me desagrada (embora disfarce) mas por ser contigo abro uma excepção … que achas? (refiro-me não ao indiscutível empate, mas ao meu espectacular fair-play)
Impressionou-me tudo o que contas sobre o segundo livro – que em absoluto desconhecia – do conteúdo aos teus mixed feelings e ao desagrado reincidente do teu companheiro de viagem.
E fiquei deveras curiosa: será que depois disto estás também prestes a relê-lo?
O meu Trópico foi o de Capricónio. Exaltante. Devo-lhe, se assim se pode dizer, uma sexualidade desavergonhada e bem disposta. Sim, é preciso gemer, mas de vez em quando, mesmo à tensão metafísica diga-se, uma boa gargalhada nunca fez mal a ninguém, em particular se forem dois. Já a três…
Que prazer dar com estas escolhas, Vasco, fico a pensar que podiam ser minhas — mesmo que eu esteja a ler estes posts do fim para o principio e ainda me faltem muitos.
Os trópicos do Miller lidos à socapa, pois.
“Les bienveillantes”, tenho as mesmas duvidas. Mas não reli, que o que não tenho é saúde para aquilo.
Conseguiste ler les bienveillantes em 4 dias? É Obra. Demorei quase um mês e perceu-me despachado (e saltei sem remorso por cima do inefável sonho no final de Estalinegrado). Pois tenho a dizer-te que foi um dos livros mais perturbantes com que dei nos últimos tempos. Precisamente pela pergunta que fazes e eu também me fiz: pressionados pela eficácia, pelos objetivos, pelo volume resumido em folhas de excel, pelos capex, pelo ebitda, pelo arpu, não estaremos a ficar com um atitude perante o mundo igual à do major Aue (não era asim que ele se chamava)? Isto tem pano para mangas de uma conversa interminável. Não me atrevi a relê-lo, até porque guardarei para sempre a imagem dos piolhos a abandonarem em massa os cadáveres empilhados no gelo.
Zé, está combinado um jantar a dois. Ou devido à matéria ser indigesta, talvez uns copos até às tantas da manhâ depois dos outros mortos se terem já retirado para as suas campas…
PS: Confesso que se calhar foram 7 dias. Mas a coisa foi toda para dentro em menos de uma semana mal dormida.
Li os dois Trópicos e concordo muito com a tua conclusão de que Miller «conseguia apesar de tudo celebrar a essencial condição humana de estarmos vivos.» Estou a ler uma coisa relativamente paralela, Justine de Durrel, e reconheço já que este é bem melhor que Miller. O segundo desconheço, mas fiquei curiosos pela aversão que parece suscitar.
Grande António, é preciso coragem para o quarteto.
É sim, Zé, mas o homem sabe do que fala (e fala muito bem, gosto muito do som dele, do desapego à posteriori, o eco da memória). Personagens fortes, mesmo que fracos, Alexandria que se cola à pele e à alma no meio da tempestade ou da bruma seca. Estou a gostar muito.
Excelentes escolhas, Vasco. Estranhos livros sem dúvida! O Miller já lá vai muito tempo e lembro-me de favorecer a Anaïs…a celebração sempre parecia mais limpinha. Para “Les Bienveillantes” ainda não tive coragem…não sei se a sua descrição e os restantes comentários me incentivam mais ou não…que livro tão desconcertante.
vasco, boas escolhas para muito bons “breves comentários”. essas suas perguntas, sobre que lugar na hierarquia, ss, partido nazi, ser alvejado pela propaganda aos quinze anos, etc. também me faço, volta e meia.