Antônio Bandeira, Football in Hyde Park, 1964
Quando o Time começou a série invicta, quem poderia prever a catástrofe?
O estatístico, o jornalista, o banqueiro, o pai-de-santo? E as vitórias se foram acumulando como grãos caindo na mão-única da ampulheta. Goleadas rompantes. Humilhações aos cachos infligidas aos adversários. Posses de bola que beiravam os noventa por cento. Gols de uma plasticidade inenarrável: bicicletas, chaleiras, lambretas, chapéus, coberturas, vaselinas. Para não falar nos olímpicos, de placa, –laços, de letra, de cabeça, de morte súbita, de falta, de voleio.
E o Time não empatava mais. Vencia. Com folga. Era aterrador. Um festival de sutilezas ao pé destinadas. Primeiros toques. Embaixadas. Lençóis. Linhas-de-passe. Folhas secas. Tabelas. Trivelas. Festivais de overlapping. E mais chapas, ladinhos, peitos de pé, calcanhares, três dedos, de arrodeios, elásticos. Prolapsos. Bicos, se necessários. E, sim, curvas para dentro e fora. E, se não bastasse, os desarmes mais precisos, sem falta, na bola. As antecipações decisivas. Os lançamentos de timings jazzísticos. Avances sincronizados pela polirritimia dos sambas. Jogar sem a bola. Triangulações. Pontos futuros. Uma geometria ensinada a partir do corpo. A ginga venenosa, de entortar a dorsal do goleiro adversário antes de bater no contrapé. Ou então, as mãos trocadas mais proezas que um par de luvas já envolveu a espanar a pelota a escanteio, nas raras, avulsíssimas vezes, em que o goleiro do Time precisava mover-se.
A saber, tudo na conta, cônscia, de que futebol é antes sonho. Antecipar movimentos tornando-os imprevisíveis. No fim, é a mesma tarefa do poeta, apenasmente feita pelo corpo. Grafada, no fino ar, pelo corpo. Ou melhor, por um grupo de corpos. As vitórias do Time, longe de calcadas num pragmático defensivismo, eram compostas do somatório dessas antecipações do mover-se. Semi-instintivas como fossem. Como fossem frágeis bem-te-vis que desafiam altaneiros gaviões. E os logram em pura antecipação de moveres no vôo, ainda que sob o risco da própria vida. Alguns chegam a bicar o cocuruto dos gaviões. Porém uma hora algo desfunciona. Sai dos guizos. Todas essas manobras, extremamente ao risco, são belas. Até que… Um dia é da caça. Ainda que, no caso, a caça seja o predador (o gavião), enredado pela destreza do predado (bem-te-vi). Qual o ciclo disso ninguém sabe. Sabe-se, no entanto, que farra de nenhum bando de bem-te-vis prevalece para sempre. E, mais cedo ou mais tarde, topa num até e num que…
Sim, Senhoras e Senhores, de pé, tirem os chapéus, reabotoem por um pouco os casacos, os colarinhos; reapertem o nó das gravatas – refaçam o make-up, meninas, os penteados, por favor! (vai aqui, neste por favor, uma inflexão castelhana) – ante essas duas partículas unidas para um caráter temporal… Na vida, como no futebol – ainda que na TV – elas a tudo põem termo. Tudo. Desde acordos ortográficos à vida mesma. Não poucas soluções verticais, sim, acabam na mais ignominiosa horizontalidade de um até que. Não são ambas partículas as que assomam cintilantes na célebre fórmula das núpcias? Assim à imagem da vida e do casamento, mesmo a mais vibrante, inquebrantável sequência de glórias, jamais – never ever – vista no universo dos relvados termina em um modesto até, em um singelo quê… [PLACE COMERCIAL HERE].
E todavia, eis a questão. A própria questão, no caso do Time. A carnadura do argumento. Medula. O Time convertera-se em pancada profunda no atequeísmo. O Time parecia imune às partículas, como se alguém houvesse inoculado em seu espírito uma vacina anti-derrota. Ou seja, até que… bulhufas. Até que… necas de pitibiribas. Zeros à direita e à esquerda — dependendo de se o Time jogava de visitante, ou mandava os jogos. A independer de estar em casa ou viajar, o até e o quê tardavam como nunca. Pareciam ter perdido a usual serventia. E se haver desmontado séries estatísticas. Eis a questão. Séria questão. E era só azeite vovozinha e selváticos gritos de gol. E nada do atequê chegar. Tão só essa verve. Essa fúria grande e sonorosa, para lembrar do épico e do poeta. Nenhuma circunstância periclitava. Reponham os chapéus, tornem aos assentos e à soda limonada, Senhoras, Senhores. Desculpem-nos a digressão.
Todos da presciência passaram à pós-certeza: aquele Time não perdia nem perderia mais. Jamais. Nunca mais. De jeito nenhum. Nevermore. Nem pelos figos da figueira que o passarinho bicou. Ainda que os corvos aprendessem, como papagaios, a contar histórias da Moura Torta. Ou a dizer: “dá-o pé-louro”. Ou a chilrear como rouxinóis ou corrupiões. Nem que chovesse canivetes. As galinhas pusessem triângulos escalenos. Ou o nome Sócrates não mais designasse o pai da filosofia, um talentosíssimo meia meio boêmio de Ribeirão Preto e um político – parece, questionado – em certa república europeia. Por qualquer acidente, tsumami, acaso ou mau presságio, aquele Time não perdia. E passar bem.
Preocupados, os cartolas da Federação reuniram-se. À primeira questão – Quanto? – outras em corolário seguiram: E agora? Evasão de público? O rúgbi prospera? Até a porrinha, o curling, a luta greco-romana e o hóquei sobre patins já fazem mais adeptos? O quê? No Algarve o cricket é já mais popular? Em Trás-os-Montes? Quem diria, no Sertão até? E quanto ao desinteresse dos patrocinadores? Que falar do receio dos grandes clubes, temerosos de goleadas desmoralizantes? E se a Federação concedesse ao Time o status vitalício de hors concours?
–Uhm, noch nein. Seria exagerar um pouco – disse Joseph – Mas, então, Scheiße, que fazer? O time não só não perde: já não toma gols!
Consultaram executivos estadunidenses, gurus nepaleses, filósofos franceses, estadistas britânicos, tenistas australianos, mascates libaneses, banqueiros suíços, mafiosos, pais-de-santo brasileiros, generais alemães, primeiros-ministros portugueses, magnatas russos – verdade que essas sete últimas classes na surdina consultaram. E Nada.
Um filósofo francês teve, afinal, uma ideia: assegurou aos cartolas que a solução poderia ser dada por Miss Venezuela. Porém, na prática, a bela – que por mera, meríssma coincidência, era também loira – evaporou com a teoria. Coisas da globalização. E das teorias do Caos. Aí, um caudilho latino-americano resolveu intervir por conta e risco. Mas o Rei de Espanha retrucou:
–¿Por qué no te callas?
Ah! Não só nada. A coisa parecia sem jeito. Nem mesmo promessas a Santo Expedito! A diferença era tanta que os atletas do Time começaram a jogar com dez por alvitre próprio. Depois baixariam para nove, é verdade. Os que não participavam da partida, entediados, entretiam-se jogando gamão, numa mesa à lateral do gramado. Fumavam Havanas. Às vezes, dizem, mandavam os gandulas atirar, por brinde, garrafas de champanha à torcida. Na sequência, começaram a portar uma saúna desmontável e meia-dúzia de massagistas mais anatômicas do que chassis da Fórmula-1. E combinando uma piscina portátil aos sistemas de irrigação dos relvados começaram a atrair mais atenção e fotógrafos que o próprio jogo em si. Segundo as más línguas, o craque do time sofria de gota. Havia um inexcedível grau de aristocracia naquela equipe.
E, se é assim, que dizer da última partida, um 7×0 aplastador? E, não bastasse, em um dos tentos, Athekhevisky, o grande líbero, a glória maior dos adeptos adversários, dera com os fundilhos na grama, driblado que fora, magistralmente. E não pelo craque do Time, mas pelo humilde segundo reserva do volante de contenção. Verdade, toda essa pirotecnia esteve mais para vitória de Pirro. Tantos malabares para um estádio quase às moscas, pois a própria torcida já desistira do Time faz alguma temporada. Perdera a graça. Ninguém mais os seguia, nem pela TV. Houve ameaças. A Al-Qaeda tentou sumir com eles. Falam que, por outro hemisfério, a CIA.
Por então, formaram-se seleções para bater o Time. A todo custo e várias. Nacionais, multinacionais, transcontinentais, thais, neanderthais, unilaterais, multipolares, estruturalistas, pós-modernas, pós-contemporâneas, LGBT’s, virtuais, bipolares, desglobalizadas, opusdeisinas, multiculturais, suplementares, indecidíveis, deleuzianas, mourinhas, legionárias, à tasca, totais, cisalpinas, ultramontanas, jacobinas, desconstruídas, luizinas, filipinas, escolásticas… Tss. Tss. Tss. Nada. Nada. Nada. O Time as trinchava, todas. As trucidava. Enchurascava-as sem piedade nem dó. As comia como bolinhos de bacalhau. As refogava em microondas. Formaram-se, assim, meta-seleções… para meta-derrotas. Era um ultraje futebolístico. E todas levavam olés históricos. Chocolates colossais. Sovas desmoralizantes. Verdadeiros nocautes.
De tudo se tentou. Juízes devida e regiamente subornados. Propostas indecentes a jogadores mais venais – a embolsar, verdade, muito mais que trinta dinheiros. A cada temporada, trocavam os modos de disputa dos diversos campeonatos, copas, torneios. Fórmulas as mais esdrúxulas. Calendários alterados sem aviso prévio. Adversários sorteados cinco minutos antes do apito inicial. As investidas de compras eram cifras de zeros infindos em euros, dólares, libras, coroas, yuans, rúpias, conchas, reais.
Certa feita, marcaram um amistoso em Nuuk, na Groenlândia e, em menos de 48hs, outro em São Tomé. Mas o Time fez picadinho do esperado choque térmico. Nada. O jetleg para o beleléu foi. O Time parecia escarnecer de tudo. De todo mundo. Em toda parte. Botar no bolso os fusos horários, as latitudes, como se guarda, no jeans, um envelope com tabletes de menta.
Tudo somado desistir era o por dever. Num Ato de desespero, Joseph e seus compinchas, optaram pelo sequestro. E despacharam todo o Time e comissão técnica para uma estação orbital depois de pagar os olhos da cara aos Estados Unidos, à Rússia e à China. À China? Sim, o chineses, desejosos de aprenderem a jogar a fina arte do futebol, tomaram para si os encargos de nutrir, vestir e dar um soldo mínimo – mínimo, de facto, custo & benefício – aos integrantes do Time em órbita. Foram despachados do Cabo Canaveral, certo Sábado de Aleluia às 16hs, horário local; o planeta, congraçando-se, via-satélite; estourando champanhas, aliviado.
Podia voltar-se ao futebol.
[PAUSA PRÉ-EPÍLOGO]
* * *

















Agora compreendi os fogos de artifício que escutei aqui perto de casa na tarde de ontem.E eu achando que era por causa da vitória do Santos, Santa Inocência!
Ruy, adorei essa sua escrita convulsiva!!! Por favor, não pare, não suma.
Na verdade eu ia escrever compulsiva e saiu convulsiva, ato falho provavelmente…Freud acho que explica :o)
num faz mal. eu ia escrever “sofria de gota”. e saiu “sofria gota”. mas foi má digitação, mesmo. e esta, será que freud precisa explicar? :)
o santos, turmalina, está com um timaço. dá gosto ver o santos. eu vi santos 1×0 ponte preta, ontem à noite.
um bom domingo de páscoa aí na baixada!
Ruy, eu fico encantada com o Santos. O Ganso é um artista (até escrevi sobre ele). Mas fico preocupada com o efeito Muricy, você não?
em parte, lu. mas tomara que a preocupação com times bem equilibrados na defesa, marca registrada do muricy, faça bem ao santos, né? porque o santos não vai deixar de ir pra cima com a qualidade dos atacantes que tem. a defesa, no entanto, andava bem meia boca… [outro destaque desta semana foi o brioso horizonte empatar com o flamengo. e lá, no rio. hehehe! seria só manteiga da terra no pão se o horizonte eliminar o fla. rá!!].
Sabe, eu tinha pavor de ver aquele São Paulo do Muricy jogar (ou não jogar, pra ser mais precisa). Fico aqui torcendo que a irreverência e a beleza ainda tenham lugar no jogo. Quanto ao outro tópico da conversa não me faça essa malvadeza, veja como sinto: http://migre.me/4kLfC
putz! legal sua declaração de amor ao fla!!! hehe, foi mal! nada contra o fla. num gosto é do luxa. já deu. o são paulo do muricy era pavoroso. um dos piores campeões brasileiros. aqueles times de 1×0, 2×1, 1×1. um horror. muricy às vezes pode ser mais pragmático do que o mourinho.
Qual seu time? Ou você é dos sortudos que aprecia a arte sem paixões clubísticas? Sabe, eu também não gosto tanto do Luxa, mas, confesso, ando ranzinza com técnicos. Posso ressuscitar o Carlinhos?
meu time? segredo. //carlinhos? será? a hora é de renovar, não? // vi times espetaculares, luciana: o inter de falcão; o atlético mineiro de cerezo, éder e reinaldo; p flamengo de zico (uma verdadeira seleção!); o são paulo de telê, aí por 91–92, grande treinador! palmeiras de djalminha, rivaldo, alex e roberto carlos; santos dos meninos da vila e, depois, o de diego e robinho. este ano o cruzeiro, o santos e, talvez, o são paulo (se o carpeggiani sair) estão prometendo. esse garoto do são paulo, lucas rodrigues é fora de série. gosto de ver bom futebol. agora, claro, torço, com carinho, paixão, pelo meu time. haha. tenho um fraco também por mesas redondas. e assisto quando posso. especialmente as da espn brasil. gosto dos comentários do paulo vinícius coelho, uma memória fabulosa (e é neto de portugueses, o avô dele era sportinguista), do joão carlos albuquerque, do antero greco — são bem-humorados, perspicazes. o tostão escreve bacana sobre futebol.
Puxa, eu não saía de casa no domingo a noite pra assistir o Cartão Verde. Adoro mesas redondas. Assisto Troca de Passes, porque não tenho mais ESPN (corte de gastos, fiquei só com Sportv). O PVC é, pra mim, lugar de contradição. Admiro demais sua memória e posicionamentos isentos, mas fico sentindo falta da paixão e da magia do comentário (estilo Armando Nogueira e Nelson Rodrigues). Eu não vi muitos destes times (vi o São Paulo do Telê, que maravilha e igualmente encantador foi ver os Santos de Diego e Ganso) mas revejo sempre que posso. Assisti toda a Copa de 70 em jogos reprisados na ESPN. Integralmente. Foi muito bom. Quanto ao Carlinhos e um desejo nostálgico, assumo. Queria alguém que soubesse fazer o time jogar com carinho pela bola.
E, agora, nesse momento, sei lá, eu devia ter dois corações, cobrança de penâltis por mais irrelevante que seja, maltrata…
Caríssimo Ruy,
Não vou dizer que o Falcão e o Cerezo não eram bons de bola. Mas caíram ante o meu Benfica. Era Roma e o ano era 1983.
pedro, prezado,
não vou dizer que o benfica não é um grande clube, mas com eusébio& cia. caiu diante do santos. detalhe, na luz. placar? 2×5. 1962. eu nem era nascido. você já?
Não estou na baixada, estou na casa do time adversário..rs.s..
rss vc está em campinas, então? agora entendi: os fogos de artifício foram para subida do guarani à primeira divisão do campeonato paulista.
Acho que sim…na verdade não sei…porque vivo aqui, mas na verdade sou paulistana da gema :o)
Foi difícil chegar ao fim do texto. Explico: quem é apaixonado por futebol como eu tem vontade de ficar para sempre no terceiro parágrafo: “uma geometria ensinada a partir do corpo” que delícia de expressão! Mas ainda bem que fui forte e segui para logo adiante engasgar-me de rir com necas de pitibiribas e me comover com as lembranças das histórias da Moura Torta. Não sei bem, mas o texto saiu abrindo gavetas e espanando teias de aranhas de belas emoções por aqui.
que bom, luciana! saudade de uma palavra sua. drop a line, now and then. e boa páscoa!
Boa Páscoa, Ruy! Devo confessar que seu texto me fez vasculhar as pilhas de livros atrás da Sombra das Chuteiras Imortais do Nelson.
PS. I always write, not always well. Sustentar todos aqueles blogs é pouco?
PS2. Cada momento um encanto que tinha passado desapercebido: o “azeite vovozinha”! E “os figos da figueira”!
na mosca. escrevi com a lembrança em nélson. aquelas hipérboles magníficas de ´à sombra das chuteiras’…
maravilha…
maravilha… contar com sua leitura.
Muito bom, Ruy, por momentos pensei que tinha acontecido algo no mundo que me escapara em absoluto. No fim disse um “Ufa!” consolado. Por cá isto também está muito engraçado, mas a maioria (ainda que teórica) desaprova, parece-me…
eça, a maioria teórica (e vermelha) ainda está catando as penas pelas ladeiras da alfama… perplexa. como na sua nano-story. tiram o Domingo de Páscoa para comer silêncio. Às vezes, é prudente.
Ena!, já estou a ver uns quantos que conheço, de cócoras, Alfama fora — noite dentro — deglutindo em silêncio… Que poético! Obrigado pela inspiração, Ruy — que essa por aqui anda relapsa…
Não era. Por isso não conta.
Para um sportinguista como eu (e como Zico) este texto é um insulto. Valha o prazer que me deu.
sei o que é ser sportinguista — com só uns poucos ajustes. que bom que gostou, josé.