
Consta que os costumes começavam a descambar. Foi no ano em que morreu Estaline, já Salazar mandava há 21 anos e mandaria mais 15. A Câmara Municipal de Lisboa, atendendo aos relatórios que chegavam dos jardins, parques e outras áreas arborizadas, publicou uma portaria que regulava certos comportamentos com exemplar rigor punitivo. Os parzinhos devassos e prevaricadores ficaram a saber que exaltações que extravasassem ficavam sujeitas às seguintes multas:
“… estabelece-se e determina-se que o art.º tenha o cumprimento seguinte:
1.º – Mão na mão (2$50);
2.º – Mão naquilo (15$00);
3.º – Aquilo na mão (30$00);
4.º – Aquilo naquilo (50$00);
5.º – Aquilo atrás daquilo (100$00).
Parágrafo único – Com a língua naquilo 150$00 de multa, preso e fotografado.”
Aquilo e naquilo são nomes lindos para o que costuma ter nomes feios. Mas serão os mais lindos que aquilo e naquilo podem ter?
Abro aqui uma digressão linguística para que convido autores e leitores deste cemitério. Aquilo e naquilo roçam o sublime (em particular, dirão, quando aquilo roça naquilo), mas a língua, a camoniana língua, tem uma fortuna, amor ardente, de inventividade ilimitada. Que outros, inefáveis nomes, designam, poéticos, simbólicos ou com desmedida precisão, aquilo e naquilo?
Não me furto ao desafio e ofereço uma lista de 6 nomes para cada um dos subversivos alvos da portaria de 1953.
Aquilo
Abre-alas
Alavanca de Arquimedes
Alegria das Meninas
Enforcado
Mandar o Bernardo às Compras
Palhaço
Naquilo
Abafador de Microfone
Adestradora de Piriquito
Dalila do Meu Sansão
Peregrina
Ronhónhó
Sem Ela Eu Não Vivo
Tenho a certeza de que há mais sugestivas e imaginativas contribuições. Exige-se, bem entendido, rigor académico.

















Senhores Leitores do ETGM, Senhores Autores do ETGM,
manda o Manuel S. Fonseca dizer — e eu, ó de mim, cumpro, sou bem mandada, passo a citar: à imensa dívida que contraí desde a mais tenra idade, mais à que não me maçava de ter contraído, e agradecendo pelo pensamento estar livre de multa em táxis de Nova Orleãs e em outros veículos e cidades, digo isto e só isto porque tenho o rating pelas ruas da amargura e digo-o alto e bom som.
Com estima,
EV
Não foi a Eugénia que estudou com o Chomsky? Então está à espera de quê para dizer nomes?!
(Parece-me aliás muito pouco ou nada chomskiano estar a chamar a polícia: ou já não é a língua que nos fala em vez de sermos nós a falar a língua?!)
Moi? Má aluna a vida inteira… uma vergonha. E que não tivesse sido: então lá dava confiança a gente que me entrava logo pela estrutura profunda das minhas intimidades pensadas adentro para pôr tudo a limpo nas superficialidades ditas afora?! Uns transformacionários do piorio. Xô, perdão, Chomsky, vade retro!
Ps: vou rezar por si e dormir. Boa noite.
Eu rezo consigo, Eugénia! Uma oração conjunta é muito mais eficaz e certamente necessária para tamanha vileza. Já saber se é a língua que nos fala ou o que nós fazemos à dita não me preocupa nada: perante a perspectiva da multa, prisão e fotografia o melhor é ficar caladinho.
Agradeço as orações, mas por favor não rezem ao Chomsky!!! E, vá lá, não me digam que não vos sai, Eugénia e Marta, uma ladainha de lindos nomes…
Os Trabalhadores do Comércio pedem que lhe transmita que estão fartos do refrão, de chamar a polícia, de gritar que você, Manuel Fonseca, não paga as multas em dívida que supra apontou, e pediram-me que tomasse providências.
Já que pretendia académicos, trago-lhe os Aquilos e os Naquilos, e mesmo o Parágrafo Único, conforme o disseram Drummond, Sena, Mourão Ferreira e Segovia — Segovia é praticamente português via Ramos Rosa ou, olhe, por um iberismo linguístico ultramarino. E a recolha em três ou quatro poemas bastou! Poder-se-ia dizer, ó injustiça, que estes senhores tinham o pensamento poético cheio Daquilos.
Aquilo
Centro do centro
Doce inferno vegetal
Triângulo sagrado
Corredor dos dias
Raiz de minha vida
Braseiro radiante
Vereda estreita
E temos o caso 4º, para 50$ de multa, portanto Aquilo Naquilo: abismos lexicais. Do Paragráfo Único, amplamente tratado em Drummond e Mourão Ferreira, a escolha era tanta que trouxe só o neologismo: boquilíngua. Verifica-se que quanto aos seus [deles] próprios poéticos Naquilos, impera menos imaginação e interesse e isso reverte quantitativamente. Ora confirme.
Naquilo
Fruto em fogo
Talo rígido
Membro
Hirsuta Lira
Ps: à então CML terá escapado a dúlcida paragem.
Não é por nada mas acho que chama aquilo ao que é naquilo e naquilo ao que é aquilo. Por outro lado, tenho para mim que doce inferno vegetal é, sem dúvida, um dos naquilo a que chama aquilo, mas já vereda estreita, no aparente aperto, nem é aquilo, nem naquilo, apenas, e posteriormente, daquilo.
Adorei a dúlcida paragem.
O expert não sou eu, é você, Mário Viegas do Táxi, perdão, Manuel S. Fonseca, seu mal agradecido da trabalheira que me deu. Já não lhe falo mais hoje. É para que saiba!
Ps: nem o chapéu sabemos de quem o salva!
Escusa de se zangar e estar já a bater com os pés no chão. A sua recolha dos lindos nomes para o que é, quase sempre, de tão feios nomes é elevada e poética. Hirsuta lira para animar a primaver e outono, braseiro ardente que se abre no verão e aquece qualquer inverno, são os dois mais bem caçados.
Vá, ponha lá o chapéu.
Não escuso, não, seu mau! Assim nem pude corrigir: trocar os aquilos pelos naquilos e apanhei uma vergonhaça horrível por sua grande culpa. Fique com chapéu todo para si! Vai ver: o que é seu está guardado para si!
O que tem graça é um genuíno descuido. Fica-lhe bem e ninguém acredita que não tenha sido de propósito. Mas faz mal não pôr o chapéu — o Dino, que sempre há-de ser um puto italiano reguila, gostaria.
Vá lá cima, se for um rapaz como deve de ser, a ver o chapéu, sua Fera!, a ver o que faço com falinhas mansas…
Manuel,
Li atentamente, como sempre o faço, as condições e termos de mais este seu estimulante desafio. Sucede que por razões que se prendem com o limitadíssimo âmbito que decidiu imprimir ao mesmo, circunscrevendo os contributos à “camoniana língua”, me vejo em sérias dificuldades para nele participar.
É que por mais que me esforce, só me ocorrem nomes em estrangeiro. Ora veja: http://www.youtube.com/watch?v=fvhBt_XvHNY
In English or whatever está a ver como os nomes são importantes?
Não tem sido dada a devida importância ao nominalismo. E depois queixem-se, caros autores do ETGM, que vem aí o FMI e já não há resgate para aquilo, muito menos naquilo.
Princess Sophia
ah ah ah
Manuel que post tão divertido
aqui-lo
naqui-lo
lo lo
também me parece desastroso
lu lu
pior ainda
Lóló e Lulu? Tende misericórdia de nós!!!
Parece que vim dar ao Parque de Monsanto e não foi para ver o Circuito.
Ao Parque de Monsanto em 1953. A precisão histórica não é negligenciável em casos que tais.
Versões únicas segundo a igreja mais ortodoxa:
aquilo — Sardanápulo
naquilo — Boca do Inferno
Bem nomeados, António
Sabia que ias gostar…