A infância é um lugar estranho

Estou muito atrasada, bem sei, mas o encargo que o Manuel me entregou – e eu aceitei – levou-me por caminhos que já não palmilhava há muito. “O mais estranho melhor livro” disse ele.

O que é estranheza?  Parece ser a qualidade do que nos é, de alguma forma, alheio. O que contrasta connosco e que, no entanto, conseguimos reconhecer, aceitar… ou pelo menos enquadrar no nosso mundo. Damos-lhe este nome “estranho”, como diríamos “outro”, algo cuja existência é ser pária na nossa realidade, mas que, pelo facto de ter nome, se torna subitamente compreensível.

A medida dessa estranheza é a nossa “normalidade” (por vezes uma “muito própria” normalidade).  Será que lemos assim tantos livros que nos são estranhos?  Julgo que terei desistido da maioria dos que me chegaram às mãos e não se enquadravam em mim. Não me lembro, não terão deixado rasto na memória que seja facilmente recuperável.

Fui procurar nas estantes… sem grande resultado.  Os estranhos não eram bons e os bons não eram estranhos. Sendo uma pessoa de diversos interesses suponho que algumas coisas que li e me são familiares sejam sem-sentido para outros. Mas não quero usar a régua de uma normalidade que não é a minha.

Por isso, sem mais demoras – e com um longo suspiro, dada a estranheza da escolha da qual tudo me afasta: a idade, a ideologia política, as opções éticas e até estéticas, a visão do mundo e, em particular, das mulheres no mundo – aqui vai o mais estranho melhor livro que já li… são vários aliás.

 

A capa do 1º número

Para quem não sabe, isto era a revista da Mocidade Portuguesa Feminina, que a minha avó coleccionou, do 1º número da “Lusitas” ao último número da “Fagulha” (em 1 de Abril de 1974).

O último número

A minha avó coleccionou e encadernou (em livros de 8 cm de lombada), a minha mãe guardou e, como andavam lá por casa e acabei por ler – muito fora de tempo, já depois do 25 de Abril … que esta última capa me parece, aliás, prenunciar.

Li muito, várias vezes e com muito prazer. Como as séries que vemos na Fox, não precisava de esperar pela semana seguinte, ia devorando em avalanche, tão sôfrega que nem reparava no que me era estranho, nas pequenas historietas pias e catequéticas, na versão sacrificial da vida, na noção de um Portugal intercontinental que eu já não conhecia, na moral e bons costumes que a revista anunciava às futuras mulheres portuguesas.  O que era estranho, estranhava. Não ligava –ponto.

Para além disso tudo, havia as histórias. E que histórias!

Cada revista trazia umas tantas que se prolongavam por vários números. Outras, ainda que com os mesmos personagens, contavam episódios separados todas as semanas. E, não consigo dizê-lo de outra forma, a maioria delas enfeitiçou-me. Havia histórias de mistério, histórias de terras distantes, de mundos imaginários, havia histórias da nossa história, histórias de vidas comuns e incomuns, histórias de colégios internos, de meninas rabinas e endiabradas, de meninas boazinhas e modelares, aventuras, exotismo, animais falantes, princesas, fadas, duendes, sereias e crianças que passavam férias sozinhas em velhos casarões cheios de segredos.

Em todas as histórias (descontando uma ou outra excepção) era uma menina ou uma mulher a personagem principal e não estava à espera de príncipes encantados. E isso fazia toda a diferença.

Não consigo explicar o efeito encantatório sem mostrar as imagens e vou, por isso, abusar e mostrar muitas. Imaginem-se uma menina de 8 ou 9 anos com estes desenhos à frente! Como não ficar totalmente rendida?

História da 3 princesas irmãs: Mimosa, Orquídea e Glícinia

 

O Laçarote bem comportado engana, ela é imparável no disparate.

Algum dos meninos sabe quem é esta Sofia?

A aventura perfeita

Amizade e mistério

Ler isto no Portugal pós-revolucionário era muito estranho, mas era “do melhor”.

E para terminar, passando a “bola” a outros e não ao mesmo, peço à Joana e ao Vasco que se revelem, contando-nos os seus “mais estranhos melhores livros”.

 

 

 

Comentários a “A infância é um lugar estranho” (22)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Sophia?
    Lembro-me perfeitamente da Fagulha e de Laçarote e Pantalonas — não que fosse leitor (aos 9 eu gostava era de caçar!) mas lembro-me de as ver, talvez das minhas irmãs.
    Excelente escolha, eu tenho um conflito semelhante ao seu: o que é afinal um livro estranho?…
    Vou ver se descubro…

    • Marta Costa Reis diz:

      Foi um cálculo de improbabilidades, se isso ajuda alguma coisa…
      O livro do Manuel, por exemplo, julgo que não lhe disse isso, larguei-o a meio. Não é fácil termos um livro estranho como nosso.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ó campeoníssimo António, menos desculpas e mais trabalho, venha de lá esse livro e o desafio que essa “culturinha” da queixa me parece pouco grega e muito socrática. A Marta já venceu o desafio, mais nada.

      • Joana Vasconcelos diz:

        Apoiado!

        António, como é? Já se esqueceu que tem um desafio — literário, não de bola, claro — em atraso?
        Ora deixe-se lá de posts estranhos ilustrados com fotos ainda mais estranhas e andor escrevinhar um lindo texto sobre um estranho melhor livro …

        PS — Manuel, tem de ser só um livro? Podem ser mais? Tipo lista? É que estou um bocado indecisa …

        • Manuel S. Fonseca diz:

          Joana, como é que, campeã da liberdade num cemitério de liberdade, se atreve a perguntar. O que a Jona fizer estará bem feito, ponto final.

  2. Margarida Caldeira diz:

    Obrigada pelas recordações, boas?,estranhas? não sei definir. Sei que foram momentos da minha infância em que tudo aquilo parecia verdadeiro. Era assim que eramos “condicionadas”. Só muitos mais tarde algumas de nós percebemos que aquele não era necessariamente o destino das mulheres em Portugal.
    Era uma revista feita essencialmente por mulheres, desde os editoriais, às histórias, aos desenhos. Penso ser caso único na imprensa em Portugal.Era um Portugal arrumadinho, limpinho e probrezinho, mas.… muito felizinho! Agora continuamos pobrezinhos, mas muito tristes.

    • Marta Costa Reis diz:

      Felizmente o condicionamento não pegou em mim, só a magia das histórias. E acho realmente que havia ali um inusitado feminismo.

  3. {anita} diz:

    essa Sofia é a Condessa de Ségur! Que horror, os “mais estranhos, melhores livros” que li devem ter sido os dela. que coisas incrivelmente perversas essa senhora escrevia…

    • Marta Costa Reis diz:

      É a Condessa de Ségur claro! … mas a pergunta era para os meninos :) Os livros dela também seriam uma óptima escolha nessa categoria, sem dúvida.

  4. … ai a cabeça a andar à roda com tantas ‘menemórias’, imagens , livros …
    acho que vou beber um copo de água
    :-)

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Surpreendente escolha, Marta, a da sua estranheza que gostei de conhecer, ler e ver.

    • Marta Costa Reis diz:

      Estou ansiosa por conhecer a sua Eugénia, mas apontei para a Joana que já tinha reclamado do atraso. E a dificuldade que foi escolher as fotos? E resistir a começar a ler as histórias todas outras vez ? É um estranho desafio, este!

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Valeu a pena cada fotografia, Marta, para quem, como eu, jamais tinha visto tal. E cada linha que escreveu fora da facilidade da leitura canónica desses tempos vistos a partir de depois.

        • Joana Vasconcelos diz:

          Eugénia, needless to say, prepare-se: estou em crer que you’re soooooo next …

          • Eugénia de Vasconcellos diz:

            Não me desgrace, Jeanne, estou um tudo nadinha atasqué… Além disso, mesmo agora me falaram o Diogo Elliot e o Pêéne a dizer que ninguém lhes liga meia pevide. Queixinhas, só queixinhas: olhe, umas flores!

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Marta, com Laçarotes e Pantalonas destas qualquer rapaz que se preze quererá ser Pantaleão.
    Devo confessar que nos anos 60 me caiu nas mão uma agenda anual — cheíssima de conselhos — da Mocidade Portuguesa Feminina. A bem dizer foi a única lição válida que devo ter tido sobre o famoso, dizem que eterno e então percebi nada etéreo, feminino.
    ps — e não leste até ao fim o terrível Michelet?

  7. Joana Vasconcelos diz:

    Marta, valeu a pena reclamar! Que extraordinária estranha escolha!
    Desconhecia por completo: a minha Mãe e os irmãos foram educados por uma avó — professora, feminista, muito à frente e muito avessa a toda a doutrina que impregnava tais publicações, bem como os romances ditos “cor-de-rosa” ou apenas da chamada Biblioteca das Raparigas. Lá em casa não entravam, pois, tais leituras. Tudo o que me chegou era dos meus tios e apesar de “para rapaz”, nada mau: o fabuloso Cavaleiro Andante — foi lá que pela primeira vez li o Beau Geste de que falei ontem no post da Eugénia a propósito de funerais vikings … — e depois os Salgaris, os Dumas, os Walter Scotts, o Stevenson e por aí fora. Na parte dos livros, tão grave lacuna resolveu-se pelo melhor anos depois: o meu colégio fora um internato feminino e tinha uma biblioteca bem recheada de edificantes obras. Foi um festim: devorei-os todinhos, com destaque para as Brigittes, Romance de Isabel e por aí fora. Quanto a publicações periódicas só agora vejo o que lamentavelmente me escapou … Mas que coisa.

  8. cusca.zombies diz:

    E quase tudo traduzido (e quantas vezes em tradução encoberta, plágio descarado, o que não abona nada em favor do nosso pequeno mundo editorial). E quase tudo estranho, no tempo, por vezes no espaço e nas referências culturais. E nós em que ficamos, e em que ficámos: traduzidos também… estranho, estranho.
    Cusca

    • Marta Costa Reis diz:

      Olá Cusca,
      a sério que era tudo traduzido e plagiado? Não fazia ideia, mas em nada me espanta, pelo contrário, antes explica as incongruências de algumas destas histórias apareceram naquela revista.

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