
A felicidade é um lugar estranho. Consegue ser peste, ser ódio, ser abismo e ser caverna. A felicidade consegue carcomer e fazer-se dor infinita. A felicidade é traição e sabe fazer-se cancro.
Não me interpretem mal. Estão todos felizes, sim senhor. Luminosamente felizes. A tela não me deixa mentir e eu lembro-me tão bem. Afinal de contas, pintei cada um e pintei todos. Pintei cada cabelo, cada ruga, cada sombra, cada raio de luz. Pintei-os de amor, de genuína admiração, de ternura infinita, de amizade sinceríssima. De certa forma pintei-me também a mim. De onde estão sentados não podem ver-me, escondido pelo cavalete, do outro lado do espelho. Mas naquela tarde de Setembro, pintada a tinta de luz, eu era também, posso jurar-vos, embriagadamente feliz. Só eu sabia, só nós sabíamos que festejávamos um filho que haveria de ser. Felicidade por vir, azulíssima, calada a dois, impossível de esconder. Como se do canto da mesa a todos falasse o seu sorriso de uma doçura tão sua. Como se me denunciassem as pinceladas ágeis, seguras, precisas, elegantes. Como se me denunciasse o vôo branco das mangas da minha camisa.
A felicidade é um lugar estranho. Consegue ser peste, ser ódio, ser abismo e ser caverna. A minha nunca verdadeiramente foi. O filho nunca chegou a sê-lo e ela deixou de existir. A tela, assombrada e assombrosa, carcome cada pedaço da alma macerada a que chamo Eu.
PS: Março é quando o homem quiser.

















Jà sabe, Pedro, Março sim, é quando um homem quiser. Um filho é que nem sempre. Triste de boa a sua história.
A dor deste seu protagonista, Pedro, é daquelas que nem o tempo atenua: cresce à medida que este passa, como cresceriam o filho e todas as felicidades que não chegaram a ser. Uma dor que esta luminosa tela mais não faz que agravar.
Veja lá se com jeitinho o convence a queimá-la.
Com toda a claridade se vê o tanto espaço que ocupa o que afinal nunca lá esteve. Gostei muito.
Dureza, mas da boa. Fiquei com a ideia que sabia dela, tipo déjà-vu, mas na verdade apenas sabia intimamente que esta podia muito bem ser uma história real. Uma coisa assim sempre foi o meu único pavor lento.
e no vôo branco
me deixei ficar
Um tanto amargo desabafo que de tão bem colocado fica doce…
Há textos que são como a felicidade, conseguem “ser peste, ser ódio, ser abismo e ser caverna”. Evitei esta caixa de comentários o quanto pude. Esgueirei-me. Tentei esquecer. E quanto mais lembrava de esquecer, menos liberta. Gostei muito do tanto de angústia que me causou, caro peixe, digo, Pedro.
quando leio o que escreve fico com uma tristeza (de ver o que fizeram nas costa da maioria dos cidadaos de Portugal apos a democracia) e saber que tanta gente capaz poderia alterar este estado de coisas .Como sera que consigo convencer pessoas como P.N. a colaborar no fim dos oportunismos que blindaram a possivel correcao dos desmandos?