Arquivo | Abril de 2011


O Equilibrista



Amanhã eu vou ao circo com meu amor. Que medo não tenho de ver o funâmbulo lá, próximo aos vértices da lona, sem rede embaixo para ampará-lo. Posso vê-lo: um pé, depois o outro no bambo do fio. A derme ressumando. O brilho da maquiagem. E o fio vibrando após o espasmo, trêmulo, até lastrar-se, sulcando-lhe a sapatilha. As amigas me contaram, entre risadinhas. A malha. Seus músculos. Ainda assim, na hora H, devo apertar a mão de meu amor. E mesmo sabendo como vou reagir, acho que nosso dinheiro será de todo bem gasto. Poderia ser mais. Explico. Não que deseje que o funâmbulo caia. E, contudo, se deve tomar a sério a possibilidade da queda. Ela faz parte do jogo. E se ele caísse, os bilhetes decerto valeriam mais. Pois acrobatas não despencam do fio a cada meia-hora. Essa possibilidade me enche de confiança. A vida fica mais plena com ela. Sinto até ganas de engravidar. De voar. Tomar um milk-shake cheio de condenadas calorias. De tatuar um tatu – não um isópode qualquer. Um armadilho de cartoon. Mas um tatu clássico, digamos, na linha dos jacarés estilizados no logotipo de antigas latas de querosene, que hoje ninguém mais usa – perto do umbigo. Vontade de voar, sim, mas com um cartão de milhagens bem à mão. De equilibrar-me numa linha imaginária entre o foi e o será sem ser o é. E sublinho, com um reforço no imaginário da linha, a segurança que meu amor me dá, porque ele parece ter saído da casa dos Brothers. Sobrevivido a paredões. Também porque com ele tudo avessa tratos de polé. Tenho um pouco de receio do escuro. Por isso durmo com a TV ligada, quando ele não está. Temo ruídos desconhecidos. E jamais li  A Paixão Segundo G.H., porque não suporto baratas, ainda que literárias. Morro de medo dos riscos desnecessários. Não se deve dar sopa ao azar. Como diz o ditado chinês: “desconhecidas eram duas almas, que agiam e pensavam iguais”. Correr riscos sobre finas superfícies não é boa coisa. A não ser que a gente apenas expecte. A não ser que, como o funâmbulo, se trabalhe na corredoria de riscos. A não ser que, por ofício, se corra riscos para riscar do mapa dos outros a possibilidade de riscos. A não ser que o ofício corra na 4ª vara, onde dizem, a desembargadora prima pela agilidade e encara peixes graúdos. A não ser que se arrisque levar jabs de todo lado por expor-se em demasia. E expor-se, de certo modo (ou será do modo certo?), é sempre expor os demais. Tirar véus. Equilibrar-se acima dos receios, dos constrangimentos. Censuras.

E, no entanto, quantas noites de insônia não me sento à escrivaninha. Desalinhada. Cheia de desejos e intraduções. Vontade de largar-me pelo mundo sem fator RH definido, lenço ou devidos documentos. Vontade de deitar com amigas. De afagá-las… Vontades de dizer o que nem eu mesma sei. E há lápis. E há papel. E há riscos, em esboço, na minha cachola. Mas não risco sobre eles. Tudo segue em branco. Limpo. Pristino. Despalimpsestado. Vedado em herméticas. Cadernos em branco. Verdade que, como decoração, stationery, têm lá seu valor.

Escrever é pouco mais que equilibrar riscos numa linha. E, assim, ressalvo que lá, bem acima, no pavimento anterior do sonho, o funâmbulo contará para sempre com meu amor. Porém sonhos envelhecem rápido. E logo a manhã rompe. Está chovendo. E se põe as galochas para ir ao trabalho. Ah, essa pressa. Ainda mais terrível quando se está naqueles dias… E, ao mais, o que é a escrita hoje, senão a garantia de se não estorvar a decoração, o stationery, de sobre a mesa?

 

[NOTA — a foto não possui a indicação do crédito de autoria. E foi recolhida no Flickr. É de 2007]

* * *

O Presente

Arte dos índios Kuna [Panamá]

 

Vou te dar de presente um labirinto. O condomínio é barato. As paredes, de ardósia. O calor das tardes refrata nas paredes. E as imagens que se vê mais parecem miragens. É um labirinto, mas tem esse contorno de oásis. Um pouco de calor. Azulejos. E, porém, quão amenas nascem as manhãs! E os pátios alpendrados sucedem-se, cercando fontes. Lá, mais acima, nos minaretes, o crescente deita sombra na areia. As salamandras imóveis ao sol. No mais, os impostos são módicos. Há espelhos d’água, tamareiras. A areia das dunas, tão alva. Nos primeiros tempos, às quartas-feiras, apurando o ouvido, percebe-se, ao longe, uma grande festa. E a música estala. É meio como quando logo após o clique do mouse abrir várias janelas, um jingle troar inadvertido; e o susto devolver a medida do absorto. E, erguendo a vista, Princesa, pode-se admirar o artifício dos fogos riscando a noite, feito mísseis teleguiados. Voam até um zênite bem suspenso lá acima. Parecem passar ao largo de Cástor e Pólux. E, então, minguantes, riscam o céu de volta, e dissipam-se contra a planície. E logo ouve-se no piscar luminoso a solidão dos zangões não tripulados. E de novo os fogos. Mas isso é tudo. Essas festas extinguem-se rápido. E há alguns inconvenientes. Por exemplo, na gramática do labirinto, depois de algumas semanas, não existe o verbo ser.

 

* * *

Bogart foi mais rápido

uma noite depois das filmagens, mas antes de acontecer o que tinha de acontecer…

Todos fomos inocentes um dia. Mesmo Marlon Brando, apesar da biografia infame que o mete em mil camas. Podia até recordar o caso da actriz que Oscar Levant imortalizou com a doçura desta frase: “Conheci Doris Day antes dela se tornar virgem.”

Hoje, não acreditamos em nada. Só temos olhos e um resto de crença para a desgraça: o que pode ser pior vai ser pior. Nisso acreditamos. Esquecemos que já tivemos natais de Menino Jesus e fulgurantes noites de amor à primeira vista. Como diria François Villon, poeta inteiro e meio assassino, “Mais où sont les neiges d’antan!” Traduzo: já não há inocência, nem mesmo em francês.

No cinema, juram-me que é pior. De Orson Welles a David Lynch, ou agora, de “Inception” a “Black Swan”, é um mundo cão: artifício, cinismo e humor negro. Será? Desminto e desminto-me. No cinema, a inocência vê-se.

Eu vi-a numa miúda insolente que partiu ao meio o duro Humphrey Bogart, com olhares oblíquos, respostas velozes e a promessa de vir a correr se ele aprendesse a assobiar. A miúda, descobriu-a o realizador Howard Hawks e ela não tinha sequer 20 anos. Hawks tinha quase 50 e as melhores e as piores intenções. Dormir com ela conta para qualquer das duas hipóteses. Ela era Lauren Bacall.

Bogart, 45 anos, foi mais rápido. Mal a viu, Bogart cercou-a sabendo já que, no fim, seria ele a render-se. O filme chama-se “To Have and Have Not”, uma adaptação de Hemingway em que colaborou Faulkner. É um dos mais felizes encontros de amantes da história do cinema. Atrevo-me: de todas as histórias que em histórias já se contaram. Em cada imagem do filme, nos olhares de Bacall e Bogart, nos gestos, na voz, a história do filme é a história deles. O pano de fundo é uma intriga da II Guerra que mal disfarça a forma como um ao outro se provam e saboreiam. Tudo o que vemos no filme foi verdade na vida: atacaram-se com uma insolente apaixonada gentileza.

Uma noite, durante as filmagens, Bogart telefonou a Bacall. Eram 3 da manhã e estava à espera dela numa rua de Los Angeles, na esquina do Beverly Wilshire Hotel. Juntou os lábios, soprou e saiu-lhe um assobio. Bacall tinha vindo de Nova Iorque com a mãe. A mãe opôs-se, braços em cruz, mas o assobio foi irresistível.

Hawks conta que Bacall era virgem. Nessa noite, talvez na seguinte, deixou de ser. Não perdeu nada. Não me lembro de nenhum filme em que, cena a cena, o rosto de uma mulher tanto ganhe em alegria, confiança, entrega e soberania. E a voz rouca a deixar Bogart a seus pés, no filme e para o resto da vida. Até que o whisky, uma tonelada de cigarros e um cancro na garganta, matando um, os separou aos dois. Pouco importa, há um filme que guarda para a eternidade a inocência dos dois.

Não voltou a acontecer? Por acaso voltou. Conto outro dia.

Publicado no “Expresso” de 22/4. Depois de amanhã, no “Expresso” de sábado, prometo dançar.
E não julguem que danço sozinho.

O abismo ético

 

Ansel Adams

Ansel Adams

Melhor do que eu, muitos leitores estarão lembrados das bandeiras negras que em 1983 se ergueram, um pouco por todo o país, para sinalizar a fome. Tal como hoje, Portugal vivia tempos muitíssimo difíceis. Tal como hoje, o país recorrera, em desespero, à ajuda do FMI. Tal como hoje, o pior estava para vir. Mas as coincidências acabam aqui. Em 1983 o valor global da ajuda que o Fundo disponibilizou chegou ao montante (então) extraordinário de 650 milhões de dólares. Em 2011 estamos a discutir um resgate que pode chegar aos 100 mil milhões de euros!Infelizmente, espantosamente, o diabo nem são os números. Permitam-me uma inconfidência (devidamente autorizada) e já perceberão ao que venho. Estávamos, repito, em 1983. O Ministro das Finanças e do Plano era Ernâni Lopes. António de Almeida era o seu Secretário de Estado do Tesouro. Os dois homens tinham viajado até Washington para uma reunião com o FMI. O regresso a Lisboa implicava uma escala e uma pernoita em Nova Iorque. Ao chegar ao Hotel, o Ministro, seguramente com o ar grave, pausado e sério que punha nessas ocasiões, disse ao seu Secretário de Estado: «António, o momento é de austeridade. Mandei reservar um único quarto para os dois». O susto terá sido muito mas a verdade é que lá ficaram, cada qual na sua caminha bem entendido, a zelar durante o sono pelas depauperadas finanças pátrias.

Mas desenganem-se se julgam que a história acaba aqui. António de Almeida, mal refeito de uma noite espartana, ainda terá sonhado com um merecidíssimo passeio pela 5ª Avenida. Afinal de contas o avião de regresso a Lisboa estava marcado para o final da tarde e não havia reuniões agendadas durante todo o dia. Pura ilusão. O check-out fez-se, pontualmente, ao meio-dia. «Os tempos são de austeridade e a partir dessa hora cobram uma sobretaxa». Bem dito e melhor feito: o resto da tarde foi passado a trabalhar no banco de trás do automóvel que haveria de levar Ministro e Secretário de Estado ao Aeroporto. Devem ter comido umas sandes. Mas este gastronómico pormenor, em verdade vos digo, já sou eu que o invento.

Percebem onde quero chegar? Não julguem que é ao populismo basista que apelo. Não julguem que me vou aqui pôr a reclamar impensáveis sacrifícios nocturnos ao Dr. Teixeira dos Santos. Nem ao futuro Ministro das Finanças de Passos Coelho. Eu próprio, para ser sério, provavelmente não os faria. Mas isso não impede a minha inominável angústia. O facto é que é que, episódios como este, tornam ainda mais esmagadora a consciencialização do real abismo que separa as crises de 1983 e de 2011. O diabo, repito, nem são os números. O diabo são os líderes que vamos eleger para tratar deles. O diabo são os quadros mentais em que se movimentam. O diabo são os valores que os animam e que, colectivamente, vimos caucionando. O diabo é a falência ética em que estamos mergulhados. Nos mundos politico, económico e empresarial. É por aí, não tenham dúvidas, que a crise começou. É por aí que teremos, mais cedo que tarde, de começar a tratar o problema.

PS: “Economia, Moral e Politica” é o título do último livro de Vítor Bento. E imprescindível é dizer pouco.

Publicado na Visão em 28.4.2011

 
Adoro quando a Mariana fala

 

 

Adoro quando a Mariana fala. E quando se põe expansiva, fica uma poçinha – muito pouco – de saliva no lábio inferior. Um rosa difuso cobre-lhe o rosto branco se ela se envergonha um tanto do que diz. Eu não ligo. Às vezes desligo do sentido das palavras. Só tenho ouvidos para a inflexão doce de sua voz. Tantas coisas acompanham essa voz. E quando sorri abrem-se as covinhas nas maçãs do rosto. E há o sinal acima do sobrelábio esquerdo, que, suponho, muito antes de saber de Wittgenstein, descobriu por si que era um tremendo argumento no espaço. O sorriso é o fecho de sua voz. E será que há voz que eu mais goste de ouvir? Ela ressoa em meu crânio. E eu pouco faço ideia de como ela ressoa fora dele.

 

Não é a mesma coisa. Mesmo quando a escuto gravada.

 

* * *

A Reafinação da Arte de Chutar Tampinhas & Outras Rotundas Superfícies

 

 

α. SOBRE MÚSICA POPULAR, FUTEBOL, LITERATURA E, INCLUSIVE, O BENFICA

Quem o viu jogar dizia que estava entre os mais elegantes meias já nascidos no lado de cá da galáxia. Que tinha DNA de bola, quem duvida? O pai era Domingos da Guia, um zagueiro tão classudo, que os aguerridos uruguaios – jogou por alguns anos em Montevidéu – chamavam-no de Don Domingos.

Domingos da Guia chegou a seleção brasileira. E não só chegou. Fez escola. Aí pelos idos de 30 e 40. Seu apodo a tudo esclarece: “o Divino Mestre”. A irreverência do apodo deve ter atraído o protesto de um algum protonotário apostólico mais exaltado.

Talvez ele não fosse tão afoito. Tampouco temperamental como o célebre Luís Pereira, aquele que, em desespero, saiu driblando meio carrossel holandês, em 74, numa semifinal em que o time de Cruyff bateu um Brasil deslustrado, excessivamente cauteloso e falto de imaginação. E Luís desferiu botinadas indesculpáveis em alguns dos homens de laranja. Neeskens quase foi partido ao meio. Luís acabou expulso. Saiu de campo xingando a torcida neerlandesa. Aos gritos. Se Luís era técnico – um dos mais habilidosos zagueiros centrais a pisar num estádio – faltava cabeça, o zen-budismo de Don Domingos. Também companheiros de seleção à altura, é verdade.

Ter a cabeça no lugar, também tem a ver com estar no lugar certo. Pois quantos tiranos não foram mais crueis que Luís XVI e ainda assim não a perderam? Posicionar-se não à revelia no tempo, porém conscientemente no espaço é a Lei da Gravidade para zagueiros. E eles devem esforçar-se para, pelo menos dentro das quatro linhas, não convertê-la na Lei da Gravidez.

Defesas como Domingos da Guia e Luís Pereira são arquétipos. Mitos do futebol. Quem comparar a eles? Baresi? O injustiçado Luizinho? Maldini? Lúcio? Tiago Silva? David Luiz? Se este último fosse menos afobado, talvez. Mas para ele há ainda muita peleja por diante. E ainda: se porventura possuísse metade da técnica no manejo da pelota que possuíam da Guia e Pereira. E se David Luiz não tratar de corrigir pequenos vícios, arrebatamentos, impulsos, melhor acerto no tempo de bola, não obterá o posto de sucessor de Lúcio como zagueiro central da Seleção Brasileira.

Mas isso outros quinhentos são. É posto apenas de propósito, para relativizar certos dogmas benfiquistas. Sem que se espere retaliações de tão generosos partidários. Nosso mote passa mesmo é pelo Divino Mestre. Ele teve um filho, como dissemos, que também foi jogador. E que jogador! Sua noção de espaço, não só perfeita, como também o estilo, o ritmo de ocupá-lo, o modo de colonizá-lo. Abismava quem o seguia. E todos que o seguiam, por onde ele não era bem recebido, batiam o pó das sandálias. Convenhamos, se era filho do Divino Mestre, algo messiânico, sebastianista, portava na ponta das chuteiras. Seu cognome, sintética abreviação do paterno, era pura e simplesmente: “o Divino”.

Porém tanta perícia na arte de decifrar o espaço, dividir as águas debaixo das de cima, domar o tempo, deu-se na época errada. Ao menos em termos de seleção e Brasil. Pois quanto a clubes, a despeito de haver começado no modesto Bangu, Ademir da Guia simplesmente comandou, por dez anos, um dos mais célebres esquadrões a pisar um relvado: a Academia.

A Academia era como se chamava a equipe do Palmeiras aí pelo fim dos 60 aos primeiros anos da década seguinte, quando foram bicampeões brasileiros, 72–73. Alguma referência à Grécia Antiga havia de ter para brindar o classicismo daquele futebol. E Ademir da Guia era Platão – uma vez que Sócrates jogou no Corinthians, como todos sabem. Tive um time de futebol de botão que trazia estampado a efígie dos craques desse onze legendário. E, glória à altura, o adversário desse time – nos imaginários relvados, tribunas de sala-de-estar e assoalhados à enceradeira que confinavam com pés de mesinhas de centro – era ninguém menos que o Santos de Pelé. A blasfêmia é a de que havia os que preferiam vê-lo jogar à Sua Majestade. A elegância era seu sinal.

 

β. O VERDADEIRO INGLÊS, O ÚNICO INGLÊS, É O BRASILEIRO

No campo das letras, por outro lado, tivemos craques à altura. Nem todos, no entanto, farejaram o futebol a contento. O lacônico Graciliano Ramos, autor do primoroso Infância, chegou mesmo a prognosticar que o futebol não vingaria no Brasil. Soubesse ele no que isso ia dar, e o rascunho de sua crônica teria sido queimado no cinzeiro mais à mão. Basta dizer que, só uns poucos anos depois, seu amigo, Lins do Rego, virou flamenguista, tendencioso, quase pérfido. Chegou a dirigente do clube. Ary Barroso, o compositor de “Aquarela do Brasil”, amigo de Lins do Rego, foi locutor esportivo. Era tão malevolamente pró-Flamengo, que além de não tocar sua célebre gaitinha quando dos gols adversários, dava-se ao desplante, com frequência, de sequer narrá-los. Mudando o assunto da locução do jogo para amenidades, a vencedora do concurso de Rainha do Rádio, o que estava em cartaz nos cinemas, o aumento no preço das maçãs.

As crônicas de Nelson Rodrigues, reunidas sob a proustiana (e zombeteira) rubrica de À Sombra das Chuteiras Imortais, são uma delícia. Um dos livros-chave para entender a estreita conjunção entre música popular (de altíssima qualidade), literatura, rádio, futebol e a auto-estima nacional numa era em que a TV ainda engatinhava. À Sombra das Chuteiras… são um canteiro de bem regadas hipérboles, a medrar sobre os relvados em flor. Muito se deve a Nelson. Expressões emblemáticas, como a seleção de futebol ser “a pátria de chuteiras”. No fundo, isso é engraçado. Mas é impressionante o quanto traduz, em antecipação. Quando a França foi campeã, em 98, não sei se no Le Monde ou no Le Figaro, ao se descrever o cortejo da vitória, em Paris, em carro aberto, multidão nas ruas, bandeirinhas tricolores, foi também dito que os jogadores foram recebidos a la brésilienne. A França queria ser o Brasil. Nem que só uma vezinha. Advinha-se, quase, o dedo de Nelson nisso tudo. Ou de um de seus personagens mais hilários: “o Sobrenatural de Almeida”.

Sua teoria pantagruélica, carnavalesca,  é a de que ao ganhar seu primeiro mundial, na Suécia, em 1958, o Brasil exorcizou de vez o que ele chama de crônico “complexo de vira-latas”. O trecho em que disserta sobre o impacto dessa primeira conquista sabe a um auto-humor otimista, delirante, ufanista, exagerado como sempre. Mas ufanista à brasileira. Sem apelar para um belicismo real, para além daquele que o futebol idealmente convoca. No fundo, é uma tentativa engraçadíssima de enxotar velhos fantasmas. Inclusive futebolísticos. Caso da traumática derrota para o Uruguai, em casa, na final de 1950. E nessa brincadeira, sim, há vernizes de verdade. O texto tem feito rir gerações de leitores, ainda que em algum trecho, esteja crivado de um humor de feição um tanto politicamente incorreto para os diascorrentes, isso, todavia, não o torna menos divertido:


Vejam como tudo mudou. A vitória passará a influir em todas as nossas relações com o mundo. Eu pergunto: – que éramos nós? Uns humildes. O brasileiro fazia-me lembrar aquele personagem de Dickens que vivia batendo no peito: — ‘Eu sou humilde! Eu sou o sujeito mais humilde do mundo!’. Vivia desfraldando essa humildade e a esfregando na cara de todo mundo. E, se alguém punha em dúvida a sua humildade, eis o Fulano esbravejante e querendo partir caras. Assim era o brasileiro. Servil com a namorada, com a mulher, com os credores. Mal comparando, um São Francisco de Assis, de camisola e alpercatas. […] Mas vem a deslumbrante vitória do escrete e o brasileiro já trata a namorada, a mulher, os credores de outra maneira; reage diante do mundo com um potente, um irresistível élan vital. E vou mais além: — diziam de nós que éramos a flor de três raças tristes. A partir do título mundial, começamos a achar que a nossa tristeza é uma piada fracassada. Afirmava-se também que éramos feios. Mentira! Ou, pelo menos, o triunfo embelezou-nos. Na pior das hipóteses, somos uns ex-buchos. […] E o escrete vem e dá um banho de bola, um show de futebol, um baile imortal na Suécia. Como se isso não bastasse, ainda se permite o luxo de vencer de goleada a última peleja [5 X 2]. Foi uma lavagem total. […] Outra característica da jornada: – o brasileiro sempre se achou um cafajeste irremediável e invejava o inglês. Hoje, com a nossa impecabilíssima linha disciplinar no Mundial, verificamos o seguinte: – o verdadeiro inglês, o único inglês, é o brasileiro.

 

Nelson era tricolor. Fluminense. Pó de arroz, como se diz. O clube de futebol mais elitista do Rio. O mesmo que, no começo do século passado, ao perceber que os demais estavam a ganhar tudo e mais um pouco de campeonatos e copas, com negros e mestiços em suas hostes, exigia dos seus primeiros recrutados negros, que maquiassem o rosto com pó de arroz. Assim reza a lenda. Assim grudou-se a alcunha. E ao que tudo indica, a lenda está rente à realidade, pois, no início, o futebol no Brasil era esporte de elite, as grandes massas – que naturalmente, além de filhos e netos de ex-escravos, incluíam os brancos pobres (e entre estes muitos imigrantes italianos, alemães, portugueses, japoneses, libaneses, judeus, poloneses…) – preferiam, então, as regatas e as corridas de cavalo. Isso de “pó-de-arroz”, no entanto, não impediu que tricolores famosos fossem dirigentes comunistas ou gente de esquerda. Como Chico Buarque, para selar a questão sem maniqueizá-la.

Como se sabe, o primeiro clube do Rio – Roma do futebol brasileiro em seu nascedouro – a aceitar negros, foi o Vasco da Gama, precisamente o time da colônia portuguesa. Este ano de 2011, em comemoração ao fato, o Vasco, que em sua camisa negra traz uma faixa branca descendo em diagonal do ombro esquerdo à cintura aliás, desenho copiado ao River Plate argentino joga todo de preto. É estranhíssimo. Não parece o Vasco. A prática tem gerado protesto. Inclusive de vascaínos negros, que preferiam outras formas de homenagem a ter de alterar o intocável manto do clube. E não é isto lindo?

Porém, uma vez mais fomos bater longe e temos de voltar. Guimarães Rosa, se gostava de futebol, não gostava muito. Muito antes dele, quem parecia entender do riscado era o paulistano [Antônio de] Alcântara Machado, que apesar do nome português foi o maior cronista das vicissitudes e prazeres dos imigrantes italianos nas primeiras décadas do século passado. Mas mesmo neste o futebol ainda é apenas episódio. Drummond parecia gostar. Um pouco. E, antes dele, Manuel Bandeira também não muito. Ambos escreveram sobre futebol. Mas sem a gana com que falaram de pedras no meio do caminho ou de exílios em Pasárgada. Ambos produziram, como em contrário não podia ser, textos finamente escritos, embora neles não se sinta o pulso do torcedor. O coração batendo a mil. A verve do aficionado.

Poemas e crônicas de circunstância. Como esporadicamente – porque afinal ser esporádico, não ter muito sistema era o seu sistema – se pode perceber em Vinícius de Moraes. Mas, sobretudo, se pode perceber nas letras de samba de um filho de imigrantes portugueses, Noel Rosa – que, para quem sabe de samba, viveu intensamente a década de 30. Foi simplesmente a quem Chico Buarque tomou como modelo. E, entre outras, gravou do mestre, a belíssima “Filosofia”: “O mundo me condena/ E ninguém tem pena,/ Falando sempre mal do meu nome,/ Deixando de saber/ Se eu vou morrer de sede/ Ou se eu vou morrer de fome.// Mas, a filosofia hoje me auxilia/ a viver indiferente assim […].

Noel era um boêmio. Seu nome está para o bairro carioca de Vila Isabel, assim como o de Pessoa para o Chiado. Abandonou o curso de Medicina e morreu aos 26 anos, genial e tuberculoso, depois de haver revolucionado a música brasileira. Este, sim, já escrevia com todas as letras sobre futebol. Emblemáticas letras de música marcadas por um coloquialismo estilizado, tão fino que macaqueado por alguns poetas modernistas menos aquilatados. Eis o começo de sua “Conversa de Botequim”, que é de 1935: “Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa/ Uma boa média que não seja requentada,/ Um pão bem quente com manteiga à beça,/ Um guardanapo e um copo d’água bem gelada./ Feche a porta da direita com muito cuidado,/ Que não estou disposto a ficar exposto ao sol,/ Vá perguntar ao seu freguês do lado/ Qual foi o resultado do futebol […]”.

Ah, o resultado do futebol. O resultado do futebol foi uma nação de fanáticos. Mas foi bem esse o caminho do nobre esporte bretão por aqui. Primeiro conquistou o rádio e a canção popular, antes de poder ser assunto da prosa e da poesia. Da grande poesia impressa, e seus balangandãs. A televisão chegaria à reboque, em 1950.

Houve também uma fartura de cronistas. Nem todos talentosos. Mas alguns exponenciais. Quase sempre não especializados. Cito, muito na linha de Noel, embora não compositor, mas também filho de imigrantes lusos, nascido em São Paulo – depois atraído ao Rio – um nome injustiçado: João Antônio Ferreira Filho (1937−1996). Mais conhecido como João Antonio. Ele era alguém que escrevia contos e crônicas. E o futebol aparecia em suas crônicas por tabela. Embora parecesse estar sempre ali, ainda quando não. É possível lembrar de textos seus que podem figurar em uma antologia da crônica brasileira moderna, como “A Afinação da Arte de Chutar Tampinhas”. Em tempo, nomes como João Antônio – hoje, quase esquecido – foram importantíssimos por despertar na garotada dos anos 70 e 80 o gosto pela leitura. A leitura das coisas cotidianas, que, em suas crônicas, assomavam transfiguradas por esse esmalte de beleza chamado estilo.

 

γ. DA LESMA, DA CÂMARA LENTA, DO HOMEM DENTRO DO PESADELO

João Cabral de Melo Neto talvez haja sido o poeta que, de fato, mais conhecia de futebol. Mesmo que tenha escrito pouco acerca. Dizem alguns que ele chegou a praticar semi-profissionalmente. No América do Recife, que hoje já não existe. Podemos ilustrar esse conhecer de causa cabralino com dois poemas curtos.

O primeiro é uma ode – ou mais precisamente uma anti-ode à Cabral – dedicada à elegância de Ademir da Guia, o Divino. O maestro que alterava o andamento de uma partida de acordo com a tensão que ela demandava. Geralmente cadenciando-a, domando-a. Pois o apressado come cru. Elegância e pressa dificilmente se coadunam. O estilo de Ademir da Guia era pleno de perorações, desvios, longa anacefaleose, até chegarem os epílogos. Havia uma inimitável sabedoria nessa especiosa lentidão que, paradoxalmente, podia abreviar espaços com um simples toque em profundidade, à esquerda, para achar, por breve brecha, como um raio, o ponta-de-lança próximo à linha da pequena área. E aí a rede estufava:

 

ADEMIR DA GUIA

 

Ademir impõe com seu jogo

o ritmo do chumbo (e o peso),

da lesma, da câmara lenta,

do homem dentro do pesadelo.

 

Ritmo líquido se infiltrando

no adversário, grosso, de dentro,

impondo-lhe o que ele deseja,

mandando nele, apodrecendo-o.

 

Ritmo morno, de andar na areia,

de água doente de alagados,

entorpecendo e então atando

o mais irrequieto adversário.

 

João Cabral de Melo Neto

 

Que o poema fique, também, como marco de amizade. De desagravo. Aos benfiquistas. Por peraltices passadas. Em futebol, como na vida, a mágoa é má conselheira. E o que seria do futebol sem rivalidades que só no futebol, entre amigos, na amplidão dos estádios ou na exiguidade dos botecos, que os esticam – ainda quando virtuais – devem ser cultivadas?

Há, então, o outro poema. Este mais circunstancial. Mas que é inevitável juntar à postagem. Porque quando se pergunta: por que se joga futebol? Uma das respostas possíveis seria: joga-se futebol por causa das mulheres. Para poder conquistá-las? Galanteá-las? Impressioná-las? Presenteá-las? Esquecê-las? Distraí-las? Sublimá-las? Barganhar um tempinho sem ter de discutir ou “trabalhar” a relação? Vá saber. Afinal, o que mais se aproxima dos torneios medievais?

Não é uma tese muito convincente. Mas ao menos é uma tese.

Isso está dito porque, no íntimo, o que se quer driblar, aqui, é a complexa relação das mulheres com o futebol. E ter de discorrer sobre assunto tão mais intrincado. Misterioso. Faltaria espaço. Mas quem sabe uma sugestão engenhosa, na qual se capta a idiossincrática personalidade de uma escritora, possa vazar, poema abaixo, alguma sugestão. Uma pista. Trata-se de um outro poema de circunstância, também de João Cabral, como predito. Nos versos, ele discorre sobre uma das obsessões de Clarice Lispector.

Possivelmente não seja a peça mais adequada para fechar um argumento. Mas ao menos guarda alguma coerência quando se pensa no nome deste blogue.

 

 

CONTAM DE CLARICE LISPECTOR

 

 

Um dia, Clarice Lispector

intercambiava com amigos

dez mil anedotas de morte,

e do que tem de sério e circo.

 

Nisso, chegam outros amigos,

vindos do último futebol,

comentando o jogo, recontando-o,

refazendo-o de gol a gol.

 

Quando o futebol esmorece,

abre a boca um silêncio enorme

e ouve-se a voz de Clarice:

Vamos voltar a falar de morte?

 

 

João Cabral de Melo Neto

 

* * *

35

Faz hoje 35 anos que entrou em vigor. A data, simbólica, fora aprovada junto com o seu texto, dias antes, a 2 de Abril de 1976, em sessão solene da Assembleia da República.

Os nossos caminhos cruzaram-se fugazmente nos tempos do liceu (e de umas soporíferas Noções de Administração Pública), mas só mais tarde fomos formalmente apresentadas, vai para 25 anos, na cadeira de Direito Constitucional, corria o ano lectivo de 1986/1987.  

Visto a esta distância, o nosso não foi um caso de amor à primeira vista. Nem sequer de grande empatia. Achei-a desmedida no tamanho, excessiva na regulamentação, incompreensível e até incómoda, aqui e além – apesar de a revisão de 1982 lhe ter já reduzido o número de artigos e, de caminho, despachado o Conselho da Revolução para a “parte histórica” da matéria, junto dos pactos MFA-partidos e das Constituições desde 1822. Desesperei com a imensidão da reserva absoluta e relativa de competência legislativa da Assembleia da República, a aridez do elenco dos actos normativos, a vexata quaestio do valor jurídico a atribuir ao seu preâmbulo e as nuances do princípio do não retrocesso social. E estranhei, to say the least, a expressa proclamação do carácter irreversível das nacionalizações pós-25 de Abril e de que íamos todos rumo ao socialismo, a proibição do número nacional único e a imposição do método de Hondt na eleição dos deputados. Ainda assim — e por via da minha bússola que, já então, de tudo me apontava o bright side -, fascinou-me a impossibilidade de auto-mutilação e/ou auto-destruição ínsita nos limites materiais inatingíveis através da sua própria revisão e agradaram-me (como não?) o elenco e o regime dos direitos fundamentais. Gostei da sua abrangência e abertura e, sobretudo, da limpidez e da lisura de intenções dos constituintes — que para sempre baniram as infames cláusulas de excepção que no articulado da Constituição de 1933 permitiam restringir severamente tais direitos, em nome do bem comum ou, no caso das mulheres, em nome da sua natureza e do bem da família. E simpatizei de imediato com o princípio da igualdade — da latitude da fórmula adoptada ao auspicioso 13 do artigo que ainda hoje o acolhe.    

Valha a verdade que a moderação do meu inicial entusiasmo pela nossa Lei Fundamental se deveu menos à própria e suas particularidades que ao facto de, por essa altura, mon coeur être bien ailleurs: no segundo ano de um curso que escolhera porque dava “para fazer montes de coisas” (todas fora do mundo jurídico) acabara de me encantar com o Direito Civil, o primeiro e mais duradouro dos meus amores jurídicos. E foi pela mão deste, em especial dos seus ramos de Família e de Sucessões, que redescobri e ganhei respeito e afecto à Constituição, ao estudar as suas decisivas repercussões no jurássico (mesmo para os padrões da época) articulado do Código Civil de 1966 — suprimindo o poder marital, o direito do marido de dirigir os assuntos da família, a diferenciação entre filhos legítimos e ilegítimos e outras iníquas e injustificadas opções. Seguir-se-iam igualmente gratificantes (re)descobertas em matéria de Direito Penal e de Direito Processual Penal. Mas o melhor estava ainda para vir. Foi com o “meu” Direito do Trabalho que, ao longo de já quase duas décadas aprendi, primeiro a viver com, mais tarde a respeitar e a apreciar, a presença marcante e fortemente garantística da Constituição em todas as vertentes das relações laborais. Um percurso nada fácil, porque nem sempre linear ou isento de sobressaltos – basta recordar a controvérsia que sempre rodeia a aprovação e/ou a alteração de qualquer diploma nesta área, com destaque para o “pacote laboral” de 1989, o Código do Trabalho de 2003 ou a sua recente revisão de 2009. Mas um percurso inquestionavelmente estimulante e gratificante – e, porque não dizê-lo, tranquilizante. Porque a verdade é que me tranquiliza saber que a Constituição garante e subtrai à lei ordinária (leia-se aos sucessivos governos e maiorias) e à conjuntura, seja ela qual fôr, a proibição de despedimento sem justa causa (i.e., sem uma motivação suficiente e socialmente adequada), a existência de um salário mínimo, a igualdade em matéria retributiva (“a trabalho igual, salário igual”), as férias, o direito à greve e a contratação colectiva — mas que o faz sem de modo algum os absolutizar, antes os fazendo coexistir e articularem-se com os princípios da liberdade de empresa e da livre iniciativa económica privada. Muito por tudo isto, e ao fim deste tempo todo, pode dizer-se que somos hoje boas amigas.

Faz hoje trinta e cinco anos a nossa Constituição. E se as sete revisões a que o seu texto foi submetido lhe suavizaram a linguagem, alteraram normas e reviram opções, preservaram, contudo, o essencial do seu projecto de sociedade “livre, justa e solidária” — um projecto ambicioso e idealista, imbuído de um profundo, radical e empenhado optimismo e feito de consensos e de compromissos. Tão necessário há 35 anos, como nos tempos duros e exigentes que agora vivemos.  

Mitos Democráticos para celebrar Abril

 

Sei bem, e não me canso de repeti-lo, que neste blog não se fala de política. Mas proponho, a medo, uma ligeira precisão: entre estas campas não se discutem politiquices. Estou certo que nem o MSF (que aqui no cemitério faz as vezes de anjo da guarda, primeiro censor e grande animador) discordará da ideia de que podemos debater — entre os poemas da Eugénia, um Caravaggio e um ou outro Raio X — Platão, Aristóteles, Maquiavel, Locke, ou Montesquieu.

Justificado que estou, ou que julgo estar, digo-vos ao que venho. O Economist desta semana (o melhor “newspaper” do planeta) inclui um fantástico “special report” sobre a Democracia na Califórnia. Um peça de ciência política aplicada que, sendo verdadeiramente antológica, seria quase impublicável num país com os tiques de novo-riquismo democrático como o nosso. A leitura – que vivamente recomendo – suscitou-me algumas reflexões avulsas sobre as limitações e os paradoxos da Democracia. Proponho-as em jeito de celebração, politicamente incorrecta mas nem por isso menos empenhada, do 25 de Abril.

1 – A Democracia está, por razões históricas absolutamente compreensíveis, sacralizada em Portugal. Quase 40 anos depois de Abril, a ditadura do «politicamente correcto» estigmatiza todos quantos não vejam na democracia o sistema perfeito e no sistema de maiorias a máxima referência moral. Fora do consenso do «politicamente correcto» estão ainda, 40 anos depois da revolução, todos os que ousam reconhecer-lhe os limites e que desconfiam da razão pura das maiorias. Fora do arco do pensamento aceitável continuam todos os que ousam assumir a escolha democrática, não em nome da sua infalibilidade intrínseca, mas em nome da ausência absoluta de alternativas politicamente aceitáveis. A Democracia, digo eu, é um processo, não é um fim. Como tal pode ser criticado e é susceptível de ser melhorado.

2 – Heresia das heresias. Tenho para mim como cristalinamente óbvio que o povo pode errar, fazer escolhas perniciosas e em consequência delas prejudicar, objectivamente, o bem comum. A legitimidade da democracia não se baseia, nunca se baseou, no mito  da sua infalibilidade. Dando de barato que existe um padrão objectivo para medi-los (é toda outra discussão e não quero nadar para fora de pé), é justo afirmar-se que existirão muitas razões para explicar estes “erros democráticos”. Mas julgo que é não menos pacífico afirmar que uma dessas razões é inerente ao próprio processo democrático: a Democracia não se dá necessariamente bem com a Verdade. O paradoxo ficou muito bem ilustrado com as aventuras e desventuras de Manuela Ferreira Leite à frente dos destinos do PSD. Ninguém ganha eleições a dizer a verdade. Sobretudo quando a verdade é sinónimo de sacrifícios tão inevitáveis quanto violentos.

3 — A ideia democrática e a ideia liberal respondem a duas perguntas políticas diferentes que não ganham em ser confundidas. A primeira responde à pergunta: «quem deve exercer o poder político?» A segunda responde à questão: «quais são os limites do poder político?» À primeira interrogação a teoria democrática responde: um governo eleito por uma maioria de cidadãos. À segunda, a teoria liberal responde: os cidadãos têm direitos prévios à constituição da colectividade política e são precisamente esses direitos inalienáveis que marcam os limites da actuação legítima do Estado (outra e mais complexa questão é a de saber quais são, em concreto, esses limites, i.e. onde acaba a esfera de inviolabilidade que protege cada cidadão; não é este o momento de abordá-la). Assim sendo, numa sociedade de matriz democrático-liberal como são a generalidade das sociedades do mundo Ocidental, a acção política tem de respeitar este duplo critério de legitimidade. Para que uma proposta política seja legítima não basta que tenha o apoio da maioria dos cidadãos ou que emane de um governo eleito de acordo com as regras democráticas. Precisa também passar pelo crivo da legitimidade liberal. Ora convenhamos que não é difícil sustentar (ainda que por vezes sem sucesso) que, por exemplo, o estabelecimento da pena de morte ou a instauração de medidas discriminatórias de base racista, não passam, nem de perto nem de longe, o teste da legitimidade liberal. E que são portanto propostas políticas intrinsecamente ilegítimas ainda que eventualmente emanem de um governo eleito por uma maioria de cidadãos.

4 —  Mais Democracia não significa melhor Democracia. Triste mito. Santa ignorância. Não é por acaso que os «founding fathers» americanos (que, goste-se ou não, são os pais fundadores de todas as modernas democracias liberais) rejeitaram explicitamente esta interpretação populista do ideal democrático. Muito melhor do que a maioria dos líderes de hoje, sabiam – para citar uma expressão feliz de Bruce Ackerman e James Fishkin – que os referendos são um «método indigno para uma democracia moderna». Muito melhor do que os modernos arautos do «directismo» de pacotilha, sabiam entender a importância de casar o valor da igualdade política (em que se baseia a democracia) com as virtudes da reflexão, da ponderação, da deliberação, da negociação e da construção de consensos (em que se baseiam os regimes representativos) sem as quais não haverá nunca, como é penosamente óbvio, edifício democrático que resista. Acontece que o «directismo» é um mito conveniente, alimentado pelo discurso politicamente correcto em voga e sobretudo pela tibieza de muitos dos nossos eleitos que, tendo toda a legitimidade democrática para decidir, se demitem de fazê-lo, e se escondem por detrás da farsa e da miragem referendárias. Acontece que é preciso coragem política para assumir que nas democracias representativas modernas o povo escolhe quem deve decidir e não tem necessariamente de participar no «problem solving» concreto. E coragem política não é propriamente uma característica definidora da maioria dos líderes de hoje. Na Europa como, pelos vistos, na Califórnia.

5 – Finalmente, porque a conversa vai longa, outro mito tão persistente quanto pernicioso dos nossos tempos é a ideia que a Democracia está suficientemente consolidada nos países ocidentais para que exista um real perigo do seu retrocesso. Em Portugal este mito é sofisticado com a ideia conveniente de que «a Europa não permitiria que o país regressasse aos tempos da outra senhora». Ora não há nada mais perigoso para a Democracia do que a ideia de que não é preciso zelar por ela todos os dias (e zelar é também criticar). E se é verdade que é difícil imaginar na Europa do século XXI, uma intentona militar liderada por um general de óculos escuros e bigode farfalhudo, já não será tão descabido discorrer sobre os perigos que o populismo e os excessos de «directismo» democrático podem representar para os regimes demo-liberais modernos. Não havia para aí um filósofo velhinho que falava da sucessão cíclica das formas de governo?

 

Viva a liberdade!
Goya, “Los fuzilamentos del 3 de mayo”, 1818

Não houve pintor mais nervoso que Goya. Coube-lhe viver uma época assaz turbulenta e tudo nele foi urgência em capturar os factos para que ficassem. Há de tudo na pintura de Goya: documentarismo (“Los desastres de la guerra”), retrato cortesão (“A família de Carlos IV”) e militância, mas em nenhum momento mostrou complacência nem deixou de expressar a sua visão naquilo que olhava.
No dia 2 de Maio de 1808 os mamelucos atacaram nas Puertas del Sol o povo que se manifestava contra o usurpador José Bonaparte; no dia seguinte os principais cabecilhas da sublevação foram sumariamente fuzilados pelos franceses. Ambos os assuntos foram pintados por Goya, mas a execução tornou-se um ícone da luta pela liberdade.
À primeira impressão intimida o tamanho da tela e à primeira vista impressiona a velocidade com que ela foi feito, sem detalhe realista e reduzindo a esboço tudo o que não seja os rostos dos fuzilados. E nestes se estampa a mistura de pavor e determinação que devem ter as caras dos que vão morrer injustiçados. O alvoroço é iluminado por uma lanterna, a mesma que Picasso recuperou para o seu “Guernica”.

Manet, “Execução do Imperador Maximiliano”, 1867

A pintura de Manet parece plácida, além de parisiense. Nos seus quadros os rostos são de uma invariável impassibilidade; podemos ver melancolia na barwoman dos Follies Bergère, submissão nos olhos de Olympia ou altivez nos do modelo de “Déjeuner sur l’herbe”, mas se nos chegarmos perto, aquilo que Manet nos oferece são almas imperturbáveis.
O mau estar que se desprende da “Execução de Maximiliano” vem dessa ausência de emoção, em total contraste com o momento goyesco.
Manet pintou o quadro no seguimento do diálogo que vinha mantendo com Goya desde a sua “Olympia”, na qual replicava a insolência quer da “Maja desnuda”, quer da “Odalisca” - mulheres que não se furtam a defrontar-nos com a sua nudez. Pintou-o ainda por convicção política, para verberar em público a estúpida aventura de Napoleão III ao instalar Maximiliano de Habsburgo como imperador do México, um desígnio cujo final funesto foi o que se vê.
Às mãos de Manet o fuzilamento é descrito mais do que vivido. Para tal efeito subverte por completo o propósito de Goya: agora são os emotivos que estão em esboço, os generais e o pouco povo que assiste à cena, aparentemente mais preocupado com o estrondo do fogo do que com a execução dos ilustres. O lívido Maximiliano fica hirto e um soldado engatilha calmamente a espingarda de costas para a cena - tudo decorre as a matter of fact.

Yue Minjun, “Execution”, 1995

Todos os quadros de Yue Minjin são composições a partir de figuras que mostram uma boca escancarada num riso entre o escárnio e o medo (“estou a rir mas é nervos!” como dizia uma tia minha). Essas figuras são multiplicações da mesma imagem: o retrato do próprio pintor.
Há quem designe o estilo de Yue Minjin como “realismo cínico” e na verdade tudo isto é muito inquietante.
A “Execução” é, até hoje, a obra culminante de Yue Minjin. O muro que em Monet dir-se-ia separar o acontecimento político da vida quotidiana, é agora claramente o muro da Cidade Imperial no centro de Pequim; ou seja, a cena decorre na praça de Tiananmen. Isto torna as gargalhadas sinistras e a brincadeira abjeta. Mas o segundo grau revela-se de imediato: o que temos é uma violenta irrisão do sossego com que o mundo esqueceu o massacre de Tiananmen. Trazer os acontecimentos de novo a lume deste modo, com uns envergonhados por estarem em cuecas e outros a fingir que dão tiros, enquanto um dele se vira para nós, já não para carregar o fuzil, mas para nos desafiar com a sua medonha gargalhada, afronta e incendeia a nossa memória e, mesmo, a nossa passividade.

Mais filme, mais vida.

Eu também gosto.

 

Kafka Polaroid

Jan Banning calcorreou 5 continentes para fazer uma história da burocracia em imagens. As fotografias são todas de formato quadrado, foram captadas exactamente da mesma posição e as secretárias dos burocratas são obsessivamente horizontais. Nenhuma das visitas foi anunciada impedindo assim que os gabinetes fossem arrumados ou preparados. O conjunto, em todo o seu patético esplendor, é uma retrato cruel do poder absurdo do Estado. Kafka teria fotografado assim.

Russia 2004. Jan Banning.

Russia 2004. Jan Banning.

India 2003. Jan Banning.

India 2003. Jan Banning.

Bolivia 2005. Jan Banning.

Liberia 2006. Jan Banning.

Yemen 2006. Jan Banning.

Até Que F.C.

Antônio Bandeira, Football in Hyde Park, 1964

 

 

Quando o Time começou a série invicta, quem poderia prever a catástrofe?

O estatístico, o jornalista, o banqueiro, o pai-de-santo? E as vitórias se foram acumulando como grãos caindo na mão-única da ampulheta. Goleadas rompantes. Humilhações aos cachos infligidas aos adversários. Posses de bola que beiravam os noventa por cento. Gols de uma plasticidade inenarrável: bicicletas, chaleiras, lambretas, chapéus, coberturas, vaselinas. Para não falar nos olímpicos, de placa, –laços, de letra, de cabeça, de morte súbita, de falta, de voleio.

E o Time não empatava mais. Vencia. Com folga. Era aterrador. Um festival de sutilezas ao pé destinadas. Primeiros toques. Embaixadas. Lençóis. Linhas-de-passe. Folhas secas. Tabelas. Trivelas. Festivais de overlapping. E mais chapas, ladinhos, peitos de pé, calcanhares, três dedos, de arrodeios, elásticos. Prolapsos. Bicos, se necessários. E, sim, curvas para dentro e fora. E, se não bastasse, os desarmes mais precisos, sem falta, na bola. As antecipações decisivas. Os lançamentos de timings jazzísticos. Avances sincronizados pela polirritimia dos sambas. Jogar sem a bola. Triangulações. Pontos futuros. Uma geometria ensinada a partir do corpo. A ginga venenosa, de entortar a dorsal do goleiro adversário antes de bater no contrapé. Ou então, as mãos trocadas mais proezas que um par de luvas já envolveu a espanar a pelota a escanteio, nas raras, avulsíssimas vezes, em que o goleiro do Time precisava mover-se.

A saber, tudo na conta, cônscia, de que futebol é antes sonho. Antecipar movimentos tornando-os imprevisíveis. No fim, é a mesma tarefa do poeta, apenasmente feita pelo corpo. Grafada, no fino ar, pelo corpo. Ou melhor, por um grupo de corpos. As vitórias do Time, longe de calcadas num pragmático defensivismo, eram compostas do somatório dessas antecipações do mover-se. Semi-instintivas como fossem. Como fossem frágeis bem-te-vis que desafiam altaneiros gaviões. E os logram em pura antecipação de moveres no vôo, ainda que sob o risco da própria vida. Alguns chegam a bicar o cocuruto dos gaviões. Porém uma hora algo desfunciona. Sai dos guizos. Todas essas manobras, extremamente ao risco, são belas. Até que… Um dia é da caça. Ainda que, no caso, a caça seja o predador (o gavião), enredado pela destreza do predado (bem-te-vi). Qual o ciclo disso ninguém sabe. Sabe-se, no entanto, que farra de nenhum bando de bem-te-vis prevalece para sempre. E, mais cedo ou mais tarde, topa num até e num que

Sim, Senhoras e Senhores, de pé, tirem os chapéus, reabotoem por um pouco os casacos, os colarinhos; reapertem o nó das gravatas – refaçam o make-up, meninas, os penteados, por favor! (vai aqui, neste por favor, uma inflexão castelhana) – ante essas duas partículas unidas para um caráter temporal… Na vida, como no futebol – ainda que na TV – elas a tudo põem termo. Tudo. Desde acordos ortográficos à vida mesma. Não poucas soluções verticais, sim, acabam na mais ignominiosa horizontalidade de um até que. Não são ambas partículas as que assomam cintilantes na célebre fórmula das núpcias? Assim à imagem da vida e do casamento, mesmo a mais vibrante, inquebrantável sequência de glórias, jamais – never ever – vista no universo dos relvados termina em um modesto até, em um singelo quê… [PLACE COMERCIAL HERE].

E todavia, eis a questão. A própria questão, no caso do Time. A carnadura do argumento. Medula. O Time convertera-se em pancada profunda no atequeísmo. O Time parecia imune às partículas, como se alguém houvesse inoculado em seu espírito uma vacina anti-derrota. Ou seja, até que… bulhufas. Até que… necas de pitibiribas. Zeros à direita e à esquerda — dependendo de se o Time jogava de visitante, ou mandava os jogos. A independer de estar em casa ou viajar, o até e o quê tardavam como nunca. Pareciam ter perdido a usual serventia. E se haver desmontado séries estatísticas. Eis a questão. Séria questão. E era só azeite vovozinha e selváticos gritos de gol. E nada do atequê chegar. Tão só essa verve. Essa fúria grande e sonorosa, para lembrar do épico e do poeta. Nenhuma circunstância periclitava. Reponham os chapéus, tornem aos assentos e à soda limonada, Senhoras, Senhores. Desculpem-nos a digressão.

Todos da presciência passaram à pós-certeza: aquele Time não perdia nem perderia mais. Jamais. Nunca mais. De jeito nenhum. Nevermore. Nem pelos figos da figueira que o passarinho bicou. Ainda que os corvos aprendessem, como papagaios, a contar histórias da Moura Torta. Ou a dizer: “dá-o pé-louro”. Ou a chilrear como rouxinóis ou corrupiões. Nem que chovesse canivetes. As galinhas pusessem triângulos escalenos. Ou o nome Sócrates não mais designasse o pai da filosofia, um talentosíssimo meia meio boêmio de Ribeirão Preto e um político – parece, questionado – em certa república europeia. Por qualquer acidente, tsumami, acaso ou mau presságio, aquele Time não perdia. E passar bem.

Preocupados, os cartolas da Federação reuniram-se. À primeira questão – Quanto? – outras em corolário seguiram: E agora? Evasão de público? O rúgbi prospera? Até a porrinha, o curling, a luta greco-romana e o hóquei sobre patins já fazem mais adeptos? O quê? No Algarve o cricket é já mais popular? Em Trás-os-Montes? Quem diria, no Sertão até? E quanto ao desinteresse dos patrocinadores? Que falar do receio dos grandes clubes, temerosos de goleadas desmoralizantes? E se a Federação concedesse ao Time o status vitalício de hors concours?

Uhm, noch nein. Seria exagerar um pouco – disse Joseph – Mas, então, Scheiße, que fazer? O time não só não perde: já não toma gols!

Consultaram executivos estadunidenses, gurus nepaleses, filósofos franceses, estadistas britânicos, tenistas australianos, mascates libaneses, banqueiros suíços, mafiosos, pais-de-santo brasileiros, generais alemães, primeiros-ministros portugueses, magnatas russos – verdade que essas sete últimas classes na surdina consultaram. E Nada.

Um filósofo francês teve, afinal, uma ideia: assegurou aos cartolas que a solução poderia ser dada por Miss Venezuela. Porém, na prática, a bela – que por mera, meríssma coincidência, era também loira – evaporou com a teoria. Coisas da globalização. E das teorias do Caos. Aí, um caudilho latino-americano resolveu intervir por conta e risco. Mas o Rei de Espanha retrucou:

¿Por qué no te callas?

Ah! Não só nada. A coisa parecia sem jeito. Nem mesmo promessas a Santo Expedito! A diferença era tanta que os atletas do Time começaram a jogar com dez por alvitre próprio. Depois baixariam para nove, é verdade. Os que não participavam da partida, entediados, entretiam-se jogando gamão, numa mesa à lateral do gramado. Fumavam Havanas. Às vezes, dizem, mandavam os gandulas atirar, por brinde, garrafas de champanha à torcida. Na sequência, começaram a portar uma saúna desmontável e meia-dúzia de massagistas mais anatômicas do que chassis da Fórmula-1. E combinando uma piscina portátil aos sistemas de irrigação dos relvados começaram a atrair mais atenção e fotógrafos que o próprio jogo em si. Segundo as más línguas, o craque do time sofria de gota. Havia um inexcedível grau de aristocracia naquela equipe.

E, se é assim, que dizer da última partida, um 7×0 aplastador? E, não bastasse, em um dos tentos, Athekhevisky, o grande líbero, a glória maior dos adeptos adversários, dera com os fundilhos na grama, driblado que fora, magistralmente. E não pelo craque do Time, mas pelo humilde segundo reserva do volante de contenção. Verdade, toda essa pirotecnia esteve mais para vitória de Pirro. Tantos malabares para um estádio quase às moscas, pois a própria torcida já desistira do Time faz alguma temporada. Perdera a graça. Ninguém mais os seguia, nem pela TV. Houve ameaças. A Al-Qaeda tentou sumir com eles. Falam que, por outro hemisfério, a CIA.

Por então, formaram-se seleções para bater o Time. A todo custo e várias. Nacionais, multinacionais, transcontinentais, thais, neanderthais, unilaterais, multipolares, estruturalistas, pós-modernas, pós-contemporâneas, LGBT’s, virtuais, bipolares, desglobalizadas, opusdeisinas, multiculturais, suplementares, indecidíveis, deleuzianas, mourinhas, legionárias, à tasca, totais, cisalpinas, ultramontanas, jacobinas, desconstruídas, luizinas, filipinas, escolásticas… Tss. Tss. Tss. Nada. Nada. Nada. O Time as trinchava, todas. As trucidava. Enchurascava-as sem piedade nem dó. As comia como bolinhos de bacalhau. As refogava em microondas. Formaram-se, assim, meta-seleções… para meta-derrotas. Era um ultraje futebolístico. E todas levavam olés históricos. Chocolates colossais. Sovas desmoralizantes. Verdadeiros nocautes.

De tudo se tentou. Juízes devida e regiamente subornados. Propostas indecentes a jogadores mais venais – a embolsar, verdade, muito mais que trinta dinheiros. A cada temporada, trocavam os modos de disputa dos diversos campeonatos, copas, torneios. Fórmulas as mais esdrúxulas. Calendários alterados sem aviso prévio. Adversários sorteados cinco minutos antes do apito inicial. As investidas de compras eram cifras de zeros infindos em euros, dólares, libras, coroas, yuans, rúpias, conchas, reais.

Certa feita, marcaram um amistoso em Nuuk, na Groenlândia e, em menos de 48hs, outro em São Tomé. Mas o Time fez picadinho do esperado choque térmico. Nada. O jetleg para o beleléu foi. O Time parecia escarnecer de tudo. De todo mundo. Em toda parte. Botar no bolso os fusos horários, as latitudes, como se guarda, no jeans, um envelope com tabletes de menta.

Tudo somado desistir era o por dever. Num Ato de desespero, Joseph e seus compinchas, optaram pelo sequestro. E despacharam todo o Time e comissão técnica para uma estação orbital depois de pagar os olhos da cara aos Estados Unidos, à Rússia e à China. À China? Sim, o chineses, desejosos de aprenderem a jogar a fina arte do futebol, tomaram para si os encargos de nutrir, vestir e dar um soldo mínimo – mínimo, de facto, custo & benefício – aos integrantes do Time em órbita. Foram despachados do Cabo Canaveral, certo Sábado de Aleluia às 16hs, horário local; o planeta, congraçando-se, via-satélite; estourando champanhas, aliviado.

Podia voltar-se ao futebol.

 

 

[PAUSA PRÉ-EPÍLOGO]

 

 

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