α. SOBRE MÚSICA POPULAR, FUTEBOL, LITERATURA E, INCLUSIVE, O BENFICA
Quem o viu jogar dizia que estava entre os mais elegantes meias já nascidos no lado de cá da galáxia. Que tinha DNA de bola, quem duvida? O pai era Domingos da Guia, um zagueiro tão classudo, que os aguerridos uruguaios – jogou por alguns anos em Montevidéu – chamavam-no de Don Domingos.
Domingos da Guia chegou a seleção brasileira. E não só chegou. Fez escola. Aí pelos idos de 30 e 40. Seu apodo a tudo esclarece: “o Divino Mestre”. A irreverência do apodo deve ter atraído o protesto de um algum protonotário apostólico mais exaltado.
Talvez ele não fosse tão afoito. Tampouco temperamental como o célebre Luís Pereira, aquele que, em desespero, saiu driblando meio carrossel holandês, em 74, numa semifinal em que o time de Cruyff bateu um Brasil deslustrado, excessivamente cauteloso e falto de imaginação. E Luís desferiu botinadas indesculpáveis em alguns dos homens de laranja. Neeskens quase foi partido ao meio. Luís acabou expulso. Saiu de campo xingando a torcida neerlandesa. Aos gritos. Se Luís era técnico – um dos mais habilidosos zagueiros centrais a pisar num estádio – faltava cabeça, o zen-budismo de Don Domingos. Também companheiros de seleção à altura, é verdade.
Ter a cabeça no lugar, também tem a ver com estar no lugar certo. Pois quantos tiranos não foram mais crueis que Luís XVI e ainda assim não a perderam? Posicionar-se não à revelia no tempo, porém conscientemente no espaço é a Lei da Gravidade para zagueiros. E eles devem esforçar-se para, pelo menos dentro das quatro linhas, não convertê-la na Lei da Gravidez.
Defesas como Domingos da Guia e Luís Pereira são arquétipos. Mitos do futebol. Quem comparar a eles? Baresi? O injustiçado Luizinho? Maldini? Lúcio? Tiago Silva? David Luiz? Se este último fosse menos afobado, talvez. Mas para ele há ainda muita peleja por diante. E ainda: se porventura possuísse metade da técnica no manejo da pelota que possuíam da Guia e Pereira. E se David Luiz não tratar de corrigir pequenos vícios, arrebatamentos, impulsos, melhor acerto no tempo de bola, não obterá o posto de sucessor de Lúcio como zagueiro central da Seleção Brasileira.
Mas isso outros quinhentos são. É posto apenas de propósito, para relativizar certos dogmas benfiquistas. Sem que se espere retaliações de tão generosos partidários. Nosso mote passa mesmo é pelo Divino Mestre. Ele teve um filho, como dissemos, que também foi jogador. E que jogador! Sua noção de espaço, não só perfeita, como também o estilo, o ritmo de ocupá-lo, o modo de colonizá-lo. Abismava quem o seguia. E todos que o seguiam, por onde ele não era bem recebido, batiam o pó das sandálias. Convenhamos, se era filho do Divino Mestre, algo messiânico, sebastianista, portava na ponta das chuteiras. Seu cognome, sintética abreviação do paterno, era pura e simplesmente: “o Divino”.
Porém tanta perícia na arte de decifrar o espaço, dividir as águas debaixo das de cima, domar o tempo, deu-se na época errada. Ao menos em termos de seleção e Brasil. Pois quanto a clubes, a despeito de haver começado no modesto Bangu, Ademir da Guia simplesmente comandou, por dez anos, um dos mais célebres esquadrões a pisar um relvado: a Academia.
A Academia era como se chamava a equipe do Palmeiras aí pelo fim dos 60 aos primeiros anos da década seguinte, quando foram bicampeões brasileiros, 72–73. Alguma referência à Grécia Antiga havia de ter para brindar o classicismo daquele futebol. E Ademir da Guia era Platão – uma vez que Sócrates jogou no Corinthians, como todos sabem. Tive um time de futebol de botão que trazia estampado a efígie dos craques desse onze legendário. E, glória à altura, o adversário desse time – nos imaginários relvados, tribunas de sala-de-estar e assoalhados à enceradeira que confinavam com pés de mesinhas de centro – era ninguém menos que o Santos de Pelé. A blasfêmia é a de que havia os que preferiam vê-lo jogar à Sua Majestade. A elegância era seu sinal.
β. O VERDADEIRO INGLÊS, O ÚNICO INGLÊS, É O BRASILEIRO
No campo das letras, por outro lado, tivemos craques à altura. Nem todos, no entanto, farejaram o futebol a contento. O lacônico Graciliano Ramos, autor do primoroso Infância, chegou mesmo a prognosticar que o futebol não vingaria no Brasil. Soubesse ele no que isso ia dar, e o rascunho de sua crônica teria sido queimado no cinzeiro mais à mão. Basta dizer que, só uns poucos anos depois, seu amigo, Lins do Rego, virou flamenguista, tendencioso, quase pérfido. Chegou a dirigente do clube. Ary Barroso, o compositor de “Aquarela do Brasil”, amigo de Lins do Rego, foi locutor esportivo. Era tão malevolamente pró-Flamengo, que além de não tocar sua célebre gaitinha quando dos gols adversários, dava-se ao desplante, com frequência, de sequer narrá-los. Mudando o assunto da locução do jogo para amenidades, a vencedora do concurso de Rainha do Rádio, o que estava em cartaz nos cinemas, o aumento no preço das maçãs.
As crônicas de Nelson Rodrigues, reunidas sob a proustiana (e zombeteira) rubrica de À Sombra das Chuteiras Imortais, são uma delícia. Um dos livros-chave para entender a estreita conjunção entre música popular (de altíssima qualidade), literatura, rádio, futebol e a auto-estima nacional numa era em que a TV ainda engatinhava. À Sombra das Chuteiras… são um canteiro de bem regadas hipérboles, a medrar sobre os relvados em flor. Muito se deve a Nelson. Expressões emblemáticas, como a seleção de futebol ser “a pátria de chuteiras”. No fundo, isso é engraçado. Mas é impressionante o quanto traduz, em antecipação. Quando a França foi campeã, em 98, não sei se no Le Monde ou no Le Figaro, ao se descrever o cortejo da vitória, em Paris, em carro aberto, multidão nas ruas, bandeirinhas tricolores, foi também dito que os jogadores foram recebidos a la brésilienne. A França queria ser o Brasil. Nem que só uma vezinha. Advinha-se, quase, o dedo de Nelson nisso tudo. Ou de um de seus personagens mais hilários: “o Sobrenatural de Almeida”.
Sua teoria pantagruélica, carnavalesca, é a de que ao ganhar seu primeiro mundial, na Suécia, em 1958, o Brasil exorcizou de vez o que ele chama de crônico “complexo de vira-latas”. O trecho em que disserta sobre o impacto dessa primeira conquista sabe a um auto-humor otimista, delirante, ufanista, exagerado como sempre. Mas ufanista à brasileira. Sem apelar para um belicismo real, para além daquele que o futebol idealmente convoca. No fundo, é uma tentativa engraçadíssima de enxotar velhos fantasmas. Inclusive futebolísticos. Caso da traumática derrota para o Uruguai, em casa, na final de 1950. E nessa brincadeira, sim, há vernizes de verdade. O texto tem feito rir gerações de leitores, ainda que em algum trecho, esteja crivado de um humor de feição um tanto politicamente incorreto para os diascorrentes, isso, todavia, não o torna menos divertido:
Vejam como tudo mudou. A vitória passará a influir em todas as nossas relações com o mundo. Eu pergunto: – que éramos nós? Uns humildes. O brasileiro fazia-me lembrar aquele personagem de Dickens que vivia batendo no peito: — ‘Eu sou humilde! Eu sou o sujeito mais humilde do mundo!’. Vivia desfraldando essa humildade e a esfregando na cara de todo mundo. E, se alguém punha em dúvida a sua humildade, eis o Fulano esbravejante e querendo partir caras. Assim era o brasileiro. Servil com a namorada, com a mulher, com os credores. Mal comparando, um São Francisco de Assis, de camisola e alpercatas. […] Mas vem a deslumbrante vitória do escrete e o brasileiro já trata a namorada, a mulher, os credores de outra maneira; reage diante do mundo com um potente, um irresistível élan vital. E vou mais além: — diziam de nós que éramos a flor de três raças tristes. A partir do título mundial, começamos a achar que a nossa tristeza é uma piada fracassada. Afirmava-se também que éramos feios. Mentira! Ou, pelo menos, o triunfo embelezou-nos. Na pior das hipóteses, somos uns ex-buchos. […] E o escrete vem e dá um banho de bola, um show de futebol, um baile imortal na Suécia. Como se isso não bastasse, ainda se permite o luxo de vencer de goleada a última peleja [5 X 2]. Foi uma lavagem total. […] Outra característica da jornada: – o brasileiro sempre se achou um cafajeste irremediável e invejava o inglês. Hoje, com a nossa impecabilíssima linha disciplinar no Mundial, verificamos o seguinte: – o verdadeiro inglês, o único inglês, é o brasileiro.
Nelson era tricolor. Fluminense. Pó de arroz, como se diz. O clube de futebol mais elitista do Rio. O mesmo que, no começo do século passado, ao perceber que os demais estavam a ganhar tudo e mais um pouco de campeonatos e copas, com negros e mestiços em suas hostes, exigia dos seus primeiros recrutados negros, que maquiassem o rosto com pó de arroz. Assim reza a lenda. Assim grudou-se a alcunha. E ao que tudo indica, a lenda está rente à realidade, pois, no início, o futebol no Brasil era esporte de elite, as grandes massas – que naturalmente, além de filhos e netos de ex-escravos, incluíam os brancos pobres (e entre estes muitos imigrantes italianos, alemães, portugueses, japoneses, libaneses, judeus, poloneses…) – preferiam, então, as regatas e as corridas de cavalo. Isso de “pó-de-arroz”, no entanto, não impediu que tricolores famosos fossem dirigentes comunistas ou gente de esquerda. Como Chico Buarque, para selar a questão sem maniqueizá-la.
Como se sabe, o primeiro clube do Rio – Roma do futebol brasileiro em seu nascedouro – a aceitar negros, foi o Vasco da Gama, precisamente o time da colônia portuguesa. Este ano de 2011, em comemoração ao fato, o Vasco, que em sua camisa negra traz uma faixa branca descendo em diagonal do ombro esquerdo à cintura – aliás, desenho copiado ao River Plate argentino – joga todo de preto. É estranhíssimo. Não parece o Vasco. A prática tem gerado protesto. Inclusive de vascaínos negros, que preferiam outras formas de homenagem a ter de alterar o intocável manto do clube. E não é isto lindo?
Porém, uma vez mais fomos bater longe e temos de voltar. Guimarães Rosa, se gostava de futebol, não gostava muito. Muito antes dele, quem parecia entender do riscado era o paulistano [Antônio de] Alcântara Machado, que apesar do nome português foi o maior cronista das vicissitudes e prazeres dos imigrantes italianos nas primeiras décadas do século passado. Mas mesmo neste o futebol ainda é apenas episódio. Drummond parecia gostar. Um pouco. E, antes dele, Manuel Bandeira também não muito. Ambos escreveram sobre futebol. Mas sem a gana com que falaram de pedras no meio do caminho ou de exílios em Pasárgada. Ambos produziram, como em contrário não podia ser, textos finamente escritos, embora neles não se sinta o pulso do torcedor. O coração batendo a mil. A verve do aficionado.
Poemas e crônicas de circunstância. Como esporadicamente – porque afinal ser esporádico, não ter muito sistema era o seu sistema – se pode perceber em Vinícius de Moraes. Mas, sobretudo, se pode perceber nas letras de samba de um filho de imigrantes portugueses, Noel Rosa – que, para quem sabe de samba, viveu intensamente a década de 30. Foi simplesmente a quem Chico Buarque tomou como modelo. E, entre outras, gravou do mestre, a belíssima “Filosofia”: “O mundo me condena/ E ninguém tem pena,/ Falando sempre mal do meu nome,/ Deixando de saber/ Se eu vou morrer de sede/ Ou se eu vou morrer de fome.// Mas, a filosofia hoje me auxilia/ a viver indiferente assim […].
Noel era um boêmio. Seu nome está para o bairro carioca de Vila Isabel, assim como o de Pessoa para o Chiado. Abandonou o curso de Medicina e morreu aos 26 anos, genial e tuberculoso, depois de haver revolucionado a música brasileira. Este, sim, já escrevia com todas as letras sobre futebol. Emblemáticas letras de música marcadas por um coloquialismo estilizado, tão fino que macaqueado por alguns poetas modernistas menos aquilatados. Eis o começo de sua “Conversa de Botequim”, que é de 1935: “Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa/ Uma boa média que não seja requentada,/ Um pão bem quente com manteiga à beça,/ Um guardanapo e um copo d’água bem gelada./ Feche a porta da direita com muito cuidado,/ Que não estou disposto a ficar exposto ao sol,/ Vá perguntar ao seu freguês do lado/ Qual foi o resultado do futebol […]”.
Ah, o resultado do futebol. O resultado do futebol foi uma nação de fanáticos. Mas foi bem esse o caminho do nobre esporte bretão por aqui. Primeiro conquistou o rádio e a canção popular, antes de poder ser assunto da prosa e da poesia. Da grande poesia impressa, e seus balangandãs. A televisão chegaria à reboque, em 1950.
Houve também uma fartura de cronistas. Nem todos talentosos. Mas alguns exponenciais. Quase sempre não especializados. Cito, muito na linha de Noel, embora não compositor, mas também filho de imigrantes lusos, nascido em São Paulo – depois atraído ao Rio – um nome injustiçado: João Antônio Ferreira Filho (1937−1996). Mais conhecido como João Antonio. Ele era alguém que escrevia contos e crônicas. E o futebol aparecia em suas crônicas por tabela. Embora parecesse estar sempre ali, ainda quando não. É possível lembrar de textos seus que podem figurar em uma antologia da crônica brasileira moderna, como “A Afinação da Arte de Chutar Tampinhas”. Em tempo, nomes como João Antônio – hoje, quase esquecido – foram importantíssimos por despertar na garotada dos anos 70 e 80 o gosto pela leitura. A leitura das coisas cotidianas, que, em suas crônicas, assomavam transfiguradas por esse esmalte de beleza chamado estilo.
γ. DA LESMA, DA CÂMARA LENTA, DO HOMEM DENTRO DO PESADELO
João Cabral de Melo Neto talvez haja sido o poeta que, de fato, mais conhecia de futebol. Mesmo que tenha escrito pouco acerca. Dizem alguns que ele chegou a praticar semi-profissionalmente. No América do Recife, que hoje já não existe. Podemos ilustrar esse conhecer de causa cabralino com dois poemas curtos.
O primeiro é uma ode – ou mais precisamente uma anti-ode à Cabral – dedicada à elegância de Ademir da Guia, o Divino. O maestro que alterava o andamento de uma partida de acordo com a tensão que ela demandava. Geralmente cadenciando-a, domando-a. Pois o apressado come cru. Elegância e pressa dificilmente se coadunam. O estilo de Ademir da Guia era pleno de perorações, desvios, longa anacefaleose, até chegarem os epílogos. Havia uma inimitável sabedoria nessa especiosa lentidão que, paradoxalmente, podia abreviar espaços com um simples toque em profundidade, à esquerda, para achar, por breve brecha, como um raio, o ponta-de-lança próximo à linha da pequena área. E aí a rede estufava:
ADEMIR DA GUIA
Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.
Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o.
Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.
João Cabral de Melo Neto
Que o poema fique, também, como marco de amizade. De desagravo. Aos benfiquistas. Por peraltices passadas. Em futebol, como na vida, a mágoa é má conselheira. E o que seria do futebol sem rivalidades que só no futebol, entre amigos, na amplidão dos estádios ou na exiguidade dos botecos, que os esticam – ainda quando virtuais – devem ser cultivadas?
Há, então, o outro poema. Este mais circunstancial. Mas que é inevitável juntar à postagem. Porque quando se pergunta: por que se joga futebol? Uma das respostas possíveis seria: joga-se futebol por causa das mulheres. Para poder conquistá-las? Galanteá-las? Impressioná-las? Presenteá-las? Esquecê-las? Distraí-las? Sublimá-las? Barganhar um tempinho sem ter de discutir ou “trabalhar” a relação? Vá saber. Afinal, o que mais se aproxima dos torneios medievais?
Não é uma tese muito convincente. Mas ao menos é uma tese.
Isso está dito porque, no íntimo, o que se quer driblar, aqui, é a complexa relação das mulheres com o futebol. E ter de discorrer sobre assunto tão mais intrincado. Misterioso. Faltaria espaço. Mas quem sabe uma sugestão engenhosa, na qual se capta a idiossincrática personalidade de uma escritora, possa vazar, poema abaixo, alguma sugestão. Uma pista. Trata-se de um outro poema de circunstância, também de João Cabral, como predito. Nos versos, ele discorre sobre uma das obsessões de Clarice Lispector.
Possivelmente não seja a peça mais adequada para fechar um argumento. Mas ao menos guarda alguma coerência quando se pensa no nome deste blogue.
CONTAM DE CLARICE LISPECTOR
Um dia, Clarice Lispector
intercambiava com amigos
dez mil anedotas de morte,
e do que tem de sério e circo.
Nisso, chegam outros amigos,
vindos do último futebol,
comentando o jogo, recontando-o,
refazendo-o de gol a gol.
Quando o futebol esmorece,
abre a boca um silêncio enorme
e ouve-se a voz de Clarice:
Vamos voltar a falar de morte?
João Cabral de Melo Neto
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