A Rainha da Matamba

Há cerca de duas semanas tive uma sorte incrível.
Numa vaga vistoria ao catálogo de novos títulos da Loja do Cão Preto dei de caras com este livro que, para mim, tem um significado especial: trata-se da história aceitavelmente verídica de Ginga N’Gola M’Bandi, a célebre Rainha de Matamba de quem há tempos aqui falei a partir do livro Seara dos Tempos, escrito e editado em 1967 pelo meu Pai e de onde provêm estes desenhos a tinta-da-China de Neves e Sousa.
Este Jinga, rainha de Matamba, da autoria de João Maria Cerqueira d’Azevedo, foi publicado em 1949 sob a forma de comemoração do tricentenário da restauração de Angola como possessão da coroa portuguesa — já que a sua acção cobre quase por inteiro os reinados Filipinos. O autor socorre-se das memórias do missionário italiano Cavazzi, um capuchinho que conheceu e até assistiu a alguns dos factos aqui relatados, de entre outras publicações de carácter mais oficial — como é o caso da História Geral das Guerras Angolanas, de António de Oliveira Cardonega, e dos Apontamentos sobre a ocupação e início do estabelecimento dos portugueses no Congo, Angola e Benguela, de Alfredo Albuquerque Felner.
Independentemente dos créditos, este é um bom livro — podendo ser considerado livremente como uma monografia com uma data de gente a mexer lá dentro, pois inclui no seu tecido alguma dramatização romanceada pelo autor.
E que gente há lá dentro! Gente que se mata e se canibaliza em rituais tremendos adoptados da cultura jaga (ou imbangala?) que impregnava (os missionários diriam que infectava) o grosso das aguerridas hostes gentias e seus régulos, séculos e macotas.
(Os jaga são normalmente conotados com tribos de guerreiros nómadas de possível origem na Somália, que começaram a assolar a África sub-sahariana a partir dos finais do século XV; são os seus incríveis rituais de carnagem e canibalismo que Joseph Conrad parece reflectir no seu Heart of Darkness — o que faz todo o sentido pois os jaga vieram do centro-leste para a costa da África Ocidental, Congo incluído).
Mas de quem este livro fala particularmente, e bem, é de Ginga N’Gola M’Bandi e da sua incrível história de mulher poderosa e sabedora: filha de N’Gola M’Bandi, rei do Dongo, Ginga (ou Jinga, no grafismo de Cerqueira d’Azevedo) podia ser uma Borgia — não fosse a falha de com ela não ter existido incesto (pelo menos tanto quanto se sabe).
O que mais se sabe é que ninguém brincava com ela, portugueses incluídos: fez-se baptizar com o nome da sua madrinha, D. Ana de Sousa, mulher do capitão-general D. João de Sousa, apenas para atrair para a sua esfera de influência o irmão usurpador e assassino do seu filho (herdeiro natural do reino do Dongo, pois em África quem sucede ao rei é o filho da sua filha porque essa é a única garantia perfeita de que o jovem príncipe tem de facto sangue real…), enganou os portugueses e tudo fez por juntar ao seu auto-proclamado reino de Matamba o do Dongo (e tudo o que viesse de arrasto).
Na verdade, Ginga queria ser rainha de Angola — e de certa forma foi-o.
Mas eu ainda só vou a meio, e é por isso que meto aqui esta matrioska que contém um naco razoável da sua admirável pose.


A embaixada de Jinga M’Bandi a Luanda (1622)

Uma rajada de ar salino entrou pela janela aberta do lado do sul e refrescou-lhe as faces, incutindo-lhe ânimo e coragem.
Tudo isto se passou mais de-pressa do que é possível descrever. Com passo seguro e de cabeça erguida, levando nos lábios o mais belo dos seus sorrisos, aquele que prodigalizava aos amantes para os dominar e fazê-los escravos da sua vontade, aproximou-se de D. João, refastelado em sumptuosa estadela, pronto a recebê-la com a gentileza dos cortezãos acostumados a lidarem com gente de algo, em sumptuosos paços de reis.
– Moiô! … – exclama a princesa batendo ao de leve as palmas das mãos.
– Cumprimenta-te e deseja-te bons dias – esclarece o língua negro encarregado de manter a conversa entre as altas partes contratantes, postas frente a frente e que não se compreenderiam sem ele.
Agradeceu, em seguida, o capitão-general e governador, o sacrifício da princesa em se deslocar, de tão longe, com o fim de unir as boas relações entre os europeus e seu irmão, o poderoso N’Gola M’Bandi.
Emquanto o intérprete se ocupava da tradução, Jinga reparou na falta de uma cadeira para se sentar e que, no chão, em frente ao capitão-general e sobre uma rica alcatifa, estavam duas almofadas que, sem dúvida, ali deveriam ter sido postas para si. Sorriu-se com uma intenção bastante discreta, e, agradecendo as palavras amigas com que acabava de ser recebida, relanceou, após isso, um olhar significativo para uma das suas camareiras. Esta, percebendo, acorreu pressurosa e, colocando-se por detrás dela, ajoelhou e pôs-se de bruços, oferecendo o dorso, como assento, à sua nobre senhora e ama.
Todos os presentes ficaram surpreendidos perante o acto de humilde submissão da negra, bem como do hábil e aprumado gesto de revolta de Jinga contra o que considerava um vexame se se sentasse nas almofadas que, bem perto de D. João, se encontravam.
O orgulhoso fidalgo sentiu-se ferido no seu amor próprio e muito grato lhe seria pôr fora dos seus aposentos, a insolente gentia, porém, os interesses da coroa e os dos portugueses, obrigam-no a aceitar, com dissimulada indiferença, o correctivo da irreverente embaixatriz que, entre os seus, usava o título pomposo de rainha de Matamba.

Quando acabar de ler e se gostar muito pode ser que volte ao tema.

Comentários a “A Rainha da Matamba” (26)

  1. gb diz:

    Senhor Queiroz,

    Volte ao tema, sim. A este ou a outro onde haja gente a mexer lá dentro, de preferência gente lá da terra. Que seja do Reino da Matamba, do Reino N´Dongo ou do Reino da Mutamba, com os seus maximbombos azuis, onde, logo ali na rua ao lado, havia cenas explícitas de perfeito “canibalismo”, na Charcuterie Française, onde maravilhosos e inesquecíveis rissóis de camarão eram devorados sem dó nem piedade (os melhores do mundo, diga-se …). Se quiser pode também falar do Reino dos Musseques, que começava assim que o asfalto terminava. Gostei muito da sua Rainha Ginga.
    Muito obrigada.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    África nunca se esgota, gb, para pessoas como eu ou você.
    Sabe que no 1º dia que cheguei a Luanda o primeiro sítio onde parei com o meu irmão para beber uma Cuca foi na Mutamba?…
    Grande terra!
    Um abraço amigo.

  3. teresa conceição diz:

    Que belo achado, António!
    E sábia rainha.
    Está a ver como ela, para as coisas importantes, não precisava do língua negro tradutor para nada?

  4. António Eça de Queiroz diz:

    É verdade, não precisava mesmo do língua. Essa era mais uma das manhas delas porque compreendia perfeitamente e até falava algum português. Teresa, você nem imagina o bicho perigoso que ela foi.
    Conto mais quando acabar.

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Já tinha lido esta tarde, mas de corrida. Agora com calma: mais! Ou ainda não acabou?

    Ps: que lindo livro, António. Ou melhor: lindos livros.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Ainda não li tudo, Eugénia, sempre são 300 pag. de letra miúda…
      Mas já sei mais coisas tremendas!
      ps( o que não é nada difícil porque tudo ali é tremendo)

  6. Rita diz:

    Caro António,
    Não sei se na continuação da leitura do “naco” que reproduz está a conclusão da história que ouvi contada a um grande amigo já falecido por quem tive conhecimento dos textos de Frei João Cavazzi. Segundo ele, no final da audiência com D. João a rainha Ginga abandonou a sala com a sua comitiva sem dar ordem à escrava para que abandonasse a posição de involuntária cadeira. Ao ser-lhe chamada a atenção para tal facto, respondeu a rainha alto e bom som que não tinha o hábito de levar consigo as cadeiras onde se sentava…
    Sabe por acaso por onde andam os escritos de Cavazzi? A última vez que vi um exemplar estava exposto numa montra do Palácio Foz, há já uns 20 anos. Procurei saber se em Angola alguém teria conseguido preservar um dos poucos restantes, mas nada encontrei. Sei que na bagagem da comitiva do penúltimo Governador-Geral de Angola, Gen Silvino Silvério Marques, estaria um embalado mas não estou certa se não foi afogado no porto de Luanda como boa parte da carga dessa comitiva e de tantos outros no precipitado regresso a Portugal.
    Continue com as “estórias”, é um prazer lê-las!

    • António Eça de Queiroz diz:

      É verdade, Rita, a Jinga deixou a «mobília« na sala de quatro no acto.
      Quanto a escritos do Cavazzi é possível que haja alguma coisa na Torre do Tombo — tenho ideia que o meu Pai os consultou, até porque a história por ele contada (um resumo, naturalmente) é semelhante a esta.
      Ainda bem que gostou.

  7. Turmalina diz:

    Tenho conhecido através deste cemitério histórias da África, mais especificamente de Luanda ou ainda Angola. E que universo mais rico é este que me enche os olhos.
    Fale mais, Benedito!!!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Minas-Novas! Olá! Ainda bem que gostou.
      Vou falar, mas só quando tiver mais coisas engraçadas para contar.
      Para já só tenho canibalices e algumas guloseimas sexuais…

  8. Manuel S. Fonseca diz:

    Estou roxo de ciúmes a olhar para essa capa. Que livro lindo e bom. Não sou especialista da coisa, mas vejo nos traços da rainha Jinga alguns traços genéricos dos angolanos: uma elevada consciência de si mesmos; uma altivez de maneiras que reivindicam a aristocracia;o direito à violência contra o inimigo; a argúcia diplomática. É um grande povo.

  9. António Eça de Queiroz diz:

    Estás a dizer o que eu pensei quando o comecei a ler: eu já vi gente mais ou menos assim!
    Tens toda a razão.

  10. Rita Moutinho diz:

    Olá António– hoje é a minha vez de dizer que esta históris da rainha Ginga tambem faz parte da minha vida. Os meus 4 avós foram “africanistas” apesar de nascidos em Portugal. O meu Pai nasceu em Benguela em 1925 e foi um dos primeiros bebes portugueses a sobreviver. Cresci a ouvir historias de caçadores em Moçambique e Angola, de aventureiros que sofriam ataques dos seus ferozes inimigos, deixando-lhes víboras no quarto à noite… ( a ferocidade do animais não se igualava à destes homens!) Esta história da rainha Ginga, no encontro com o governador português, era uma das nossas preferidas e era várias vezes contada pela minha incansável e queridíssima Avó materna. Para mostrar a sua altivez e superioridade face ao representante de Portugal, a Rainha Ginga sentava-se nas costas duma pequena escrava. Nós gelávamos com os pormenores que a Avó acrescentava em cada nova narrativa. Sempre me impressionou pela negativa esta atitude! O pormenor do canibalismo acompanha esta total falta de respeito pelas pessoas. A escravatura foi a maior nódoa da história dos europeus em Africa e não tem desculpa mas não é por acaso que os escravos eram africanos e não asiáticos. A própria cultura africana aceitava esta realidade como natural. Felizmente o representante de Portugal não fez nenhum número de arrogância para impressionar a angolana ( nem montou uma tenda como o nosso PM Socrates ao Sr Kadhafi). A história deixa-nos o relato de cada um e fico cheia de vontade de ler o livro mas a Senhora era muito pouco …educada. Por falar na Lucrécia Bórgia que mencionou, sabe que ela com a idade transformou-se numa mulher bondosa? Será que a Rainha Ginga tambem? Espero que sim. Gosto de happy ends e …A idade faz milagres e dá imensa sabedoria.

  11. António Eça de Queiroz diz:

    Então eu acrescento outra: sabe que nas tribos jaga os bebés masculinos eram quase sempre mortos à nascença? Jinga fez isso na Matamba, e depois apanhava guerreiros que escravizava como combatentes pela causa dela. É claro que isso não acontecia com as classes nobres.
    Este meu livro tem cenas verdadeiramente horripilantes. Nesta fase ela vai casar com o soba jaga Casa Congola, seu inimigo figadal e protector do filho de N’Gola M’Bandi (que ela mesma envenenou), supostamente futuro rei do Dongo.
    (digo supostamente porque tenho quase a certeza que o infeliz não sobreviveu à tia…)

  12. Joana Vasconcelos diz:

    António, foi mesmo uma sorte, sua e nossa.
    Que bonita que é a capa do seu livro.
    Extraordinária figura, a Rainha Ginga. Também eu cresci a ouvir o meu Avô contar algumas das fantásticas histórias que teria protagonizado
    Acabe lá depressa o livro, para nos vir contar mais — num registo edificante e construtivo, já se sabe, não pense em vir para aqui desfilar horripilâncias e esmiuçar outros salaciosos detalhes da vida da senhora!

  13. António Eça de Queiroz diz:

    Ainda bem que gosta, Joana, mas parece-me que não vou poder ser absolutamente amável com o seu pedido. A razão é simples: «salaciosos detalhes» neste caso é um elogio, porque ela era uma cabra devassa (numa pose de louva-a-deus, se bem me faço entender) e perigosíssima para todos os que a rodeavam.
    Agora que era muito inteligente disso não há dúvidas.

  14. Gabriel diz:

    Atualmente faço Pós-Graduação em Cultura Afro-Brasileira, e um trabalho que estou fazendo, é justamente sobre a Rainha Jinga (ou N’zinga), e o professor sugeriu esse livro como material de apoio para tal pesquisa. Acredito que seja quase impossível conseguir esse livro, e o prazo p/ entrega da pesquisa é curto, mas vou acompanhar ansiosamente cada comentário novo do livro.

  15. António Eça de Queiroz diz:

    Caro Gabriel, soubesse eu da existência de outro exemplar ia dizia-lhe como encomendá-lo. Seja como for vou fazer, talvez já na próxima semana, uma súmula do que o livro diz — e digo-lhe já que é francamente interessante e curioso. Uma das coisas com importância sociológica e histórica (acho eu) é a de que a promoção da escravatura como negócio corrente era da responsabilidade dos locais, pois ninguém negociava nas feiras espalhas pelos vários ‘quilombos’ sem o acordo dos respectivos sobas e régulos — que se encarregavam também de fornecer os infelizes que seriam vendidos e depois mandados para o Brasil. O livro tem um monte de termos de época que estão actualmente em uso no Brasil (samba, por exemplo). Faço tenções de editar o glossário com todos esses termos.
    Para já dê uma espreitadela no texto que o meu Pai escreveu no seu livro ‘Seara dos Tempos’ a respeito da Jinga:

    http://www.etudogentemorta.com/2010/11/por-terras-da-rainha-ginga/

  16. José Matos diz:

    Li este livro quando estudava no Liceu de Benguela por volta de 1961.Foi-me emprestado por um colega do Lobito e há anos que procuro por tudo o q é livraria,alfarrabista,vendas de livros antigos para tentar comprar um e nada.Sorte a sua q conseguiu.,

  17. António Eça de Queiroz diz:

    Caro José Matos, como poderá ver na secção ‘Queridos Mortos pus lá o que consegui resumir do livro — que é óptimo e muito bem documentado, com transcrições inteiras de factos históricos e testemunhados (desculpe, se o leu sabe disso muito bem!). Chama-se «D. Ana de Sousa, rei de Matamba e mãe de todos os Jingas». Também o pode apanhar na listagem dos meus postes, que aparece se clicar no meu perfil (em cima do nome na lista de autores). E há lá mais textos sobre Angola eu estive lá e nunca mais esqueci. Tive esta sorte incrível realmente — mas é bem capaz de haver alguns por aí esquecidos. Eu se encontrar outro compro-o logo, tal é a listagem de interessados.
    Um abraço e obrigado pelo comentário.

  18. José Matos diz:

    Obrigado pelo interesse.Vou ler os textos.

  19. Armando Assis de Sousa e Brito diz:

    Um exemplar deste livro foi-me oferecido pelo meu Pai, tinha eu 14 ou 15 anos, na década de 50 do século passado, já lá vão muitos anos. Infelizmente, por razões que desconheço o livro desapareceu!

    Há anos que procuro um exemplar dessa grande obra, por tudo quanto é sítio, mas debalde. Já procurei por alfarrabistas, feiras de livros usados, mas infelizmente não encontro outro exemplar.

    Há dias mandei mais um mail distribuído a uma entidade que por sua vez o divulga por cerca de quatro dezenas de alfarrabistas, mas ainda não obtive resposta favorável.

    Escusado de dizer que desejo ardentemente reaver essa obra.

    • António Eça diz:

      Caro Armando de Sousa e Brito: é como eu digo, tive imensa sorte…
      E a verdade é que já outras pessoas me perguntaram se não sabia onde havia mais! Mas não sei, infelizmente.

  20. Delfino Cerqueira d'Azevedo Nunes Beirão diz:

    Caro António Eça de Queiroz,

    Como neto do autor da obra que acima refere, no início do tópico, devo referir que fiquei deveras sensibilizado, pelos encómios que ao autor e/ou obra dedicou.
    Curiosamente, nunca li o livro (“em casa de ferreiro, espeto de pau”!…), mas dado que meu irmão possui um exemplar, confesso que me deixou com alguma curiosidade de o fazer na primeira oportunidade.
    Cordialmente,

    dcanb

    • António Eça de Queiroz diz:

      Escrevi uma continuação deste texto que pode encontrar na secção Queridos Mortos que se chama «D. Ana de Sousa, rei de Matamba e mãe de todos os Jingas», se quiser dar uma espreitadela…
      Cumprimentos

  21. António Eça de Queiroz diz:

    O livro tem muito interesse, garanto-lhe, particularmente para aqueles que gostam de tudo o que diz respeito à África por onde os Portugueses andaram.

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