No início era como uma onda gigante, que me levava dali, onde estava, para ali, onde ia parar. Dentro dela, arrastado, deixava-me ir, evitando obstáculos e agarrando-me a objectos e a pessoas também elas presas na vertigem desse moto continuo. Tudo instabilidade criativa. Tudo ondulação improdutiva. E apesar da velocidade e do espaço percorrido, desse tempo vi pouco e retive um quase nada.
Vislumbro-me agora como que debaixo de uma cascata. Quase não me mexo. Estou ali de pé, imóvel como um bocado de rocha dentro de uma parede de água. E apesar desta me cair pesada sobre os ombros, sou finalmente senhor do meu movimento. Apesar da cortina liquida que em catadupa me turva a vista, vejo agora melhor os contornos de tudo. Sobretudo dos outros. Apesar de estático, vejo agora mais longe, e mais perto também.
No fim destes caminhos líquidos do tempo, espero um dia encontrar um lago de águas mornas e planas. Um lago onde poderei finalmente ver os pés e as mãos e o resto do corpo, dentro e fora, meu e dos outros, tudo através de um fluido que desejo transparente e cristalino. E aí, com movimentos lentos, flutuando a teu lado, dar-te-ei a minha mão, sabendo já que nesse tempo, quererei de novo o mar inteiro e que terei saudades do vento e das ondas e da espuma que nelas vive.
Em Janeiro do ano de 2000, Noah Kalima, resolveu aprisionar o tempo em forma de fotões luminosos, dentro do seu disco pessoal. Fotografou-se todos os dias, numa rotina diária e religiosa e a esse tempo não deu quartel, desafiando-o sem um sorriso, sem uma expressão no rosto. Sem nunca respirar. Com o cabelo ao vento.

















que texto bonito
Gostei tanto da sua descrição líquida do tempo e da eternidade: onda, cascata, lago, onda… A serpentina ouroboros há-de ter ficado de ciumeira, enquanto nós, noahs aflitos, à pressa, sem respirar — vale-nos o cabelo ao vento.
Muuuito bom.