
Porque razão é que na Imprensa francesa, inglesa, alemã, julgo que mesmo na espanhola, os jornalistas fazem estas coisas:
1. Numa reportagem, num artigo temático, recorrem muitas vezes a exemplificar ou a documentar uma ideia referindo livros;
2. Quando indicam o título do livro incluem entre parêntesis o editor;
3. Quase sempre publicam igualmente, mesmo que seja numa fotografia minúscula, a capa desse livro.
Digo isto porque, em Portugal:
a) Raríssimas vezes se referem livros existentes e que muitas vezes se percebe terem dado substância ao artigo;
b) Omite-se o nome do editor mesmo nos raros casos em que um livro é citado;
c) A regra é não se publicar a capa, nem mesmo quando o livro é a base da reportagem ou até em entrevistas com os autores do livro que só têm lugar por se tratar do lançamento da obra.
E se mudássemos esta prática entre duas áreas que têm em comum a necessidade de criar leitores?

















Evidentemente. Acho que isso acontece em Portugal porque nós temos, desde há muito, uma cultura de oportunismo pessoal e exclusivista. Somos tão egoístas como vígaros, é o que é.
concordo
Já que perguntou:
1. dizer não sei é sentido como uma vergonha, não como motor para vou informar-me;
2. uma vez informados, apontar para um autor, livro, editor, mesmo que, e especialmente quando, ele dá, como bem disse, substância a um artigo, ao pensamento, ou à génese de um pensamento, é sentido como dar crédito a outrem e não a si mesmo, e há sempre a expectativa de que passe por próprio o que é de outrem. A mentira é funda porque não é só ao outro, é ao próprio; a realidade torna-se plástica não pela intervenção que nela se faça, mas pela manipulação que dela se faz;
3. não se considera desonesto ser-se criativo com a criatividade dos outros, ser trabalhador com o trabalho dos outros; sente-se vergonha de ser criativo a partir de, trabalhador por junto com. É uma mais valia de chico espertismo onde se manifesta mais do que o desrespeito, o desamor pelo sonho, trabalho e criatividade de quem os teve, pelos próprios que os tiveram.
Se sequer se é grato a quem pensou o que não pensámos para que pensássemos isso e mais além, se se faz do roubo puro e simples modo de ser, como espera ver referidos/mostrados autor, livro e editor? Nada é mais arrogante do que ignorância. Patético também esse gato escondido de rabo de fora. O Manuel Fonseca coloca a questão muito positivamente. Mais do que o merecido. Não se produzem bens culturais de qualidade assim.
É gigantesca a incapacidade para citar, referir, respeitar autorias. Bem sabes o que se passa com a utilização de imagens, imagino agora, pelo que escreves, o que se deve passar com os livros. Tudo está “aí”, é só deitar a mão… Não é falta de respeito, é mesmo uma cultura.
Estou com o Zé Navarro. Citar, indicar fontes e autorias, são um princípio básico de qualquer referência objectiva e “científica”. Dúvido que seja uma falta de respeito deliberada, mas apenas uma falta de cultura cientifico-cultural. É apenas um dos sintomas, tal como o “copy-paste” académico, dos mais tenros aos mais graúdos. Por ventura agrava-se num meio — o jornalístico — em que a actividade é cada vez mais de secretária, lidando com comunicados de imprensa e notas de agências, com cada vez menos de trabalho de campo.
É como notou: não é o jornalismo, não são os jornalistas ou os estudantes ou os professores, é o referente cultural copy paste ou parafrásico…
Estimados co-autores que vieram, generosos, comentar este meu post de “reflexão editorial”. Abriram um campo interessante de debate em que terão porventura razão. Mas o meu ponto era mais simples e simplesmente profissional. Estava a falar doutra coisa e, de tanto estar metido no assunto, expliquei-me mal.
Estava a falar das relações de um editor com jornalistas. Aqueles jornalistas que se interessam por um livro e fazem, na televisão, nas revistas (A Visão e a Sábado, por exemplo), nos diários e nos semanários, um trabalho a partir de um livro. Em França e em Inglaterra, os critérios editoriais dos directores levam a que o livro seja obrigatoriamente referido, com menção do editor e com a tal fotografia (um selinho que seja) da capa. Em Portugal, os jornalistas dizem-nos que os critérios definidos fazem com que a capa não apareça. Já tive situações de autores que vieram do estrangeiro, foram entrevistados e o título do livro que serviu de base nunca apareceu e muito menos apareceu o editor. Como se assim se lavassem as mãos de uma pretensa publicidade com implicações de mercado. Na melhor imprensa internacional que referi, Estados Unidos incluídos, essa questão não se põe. O que converte a Imprensa num aliado da Edição e vice-versa.
Desculpem ter-me explicado mal. Já agora, o critério é coxo porque quando chega ao cinema e à música a exposição de que são objecto entidades transnacionais como a Disney, a Warner, Fox, e outros, é vastíssima. Não estou contra. Estou contra essa estrita e fundamentalista aplicação a uns cambaleantes editores portugueses de livros.
Explicou-se muito bem, Manuel Fonseca: circunscreveu uma situação e tratou-a orientando para um futuro benigno, como sempre faz quando critica: oferece solução ou consolo. Porém, e sendo o post seu, isso não obsta a que nesta altura sobre todas as outras olhemos para o que está mal, não para nos determos nos erros, mas precisamente por estarmos a pagá-los, para os identificarmos e corrigirmos.
Está a ver, Eugénia de Vasconcellos, como explicou tão bem porque é que me expliquei tão mal. Thanks again.
Gosto
Lá fora, nos “países”, como dizia o Cesariny, nem são precisas essas situações para referir um livro, porque se usa de facto o critério de informar o leitor. Por exemplo, o último número dos Cahiers dedica várias páginas a Manoel de Oliveira e quando ele se refere ao novo projecto de um filme a partir de 3 histórias de Machado de Assis, logo indicam os livros de MdeA traduzidos para o francês (informação sobre a editora incluída). E outros livros de autores que vão surgindo ou na conversa com ele ou nas críticas ao último filme, O Estranho Caso de Angélica. Algo que raramente por cá vemos.
É a civilização, my friend!
«b) Omite-se o nome do editor mesmo nos raros casos em que um livro é citado;
c) A regra é não se publicar a capa, nem mesmo quando o livro é a base da reportagem ou até em entrevistas com os autores do livro que só têm lugar por se tratar do lançamento da obra.»
E omite-se frontalmente o autor (exacto) das obras traduzidas, o tradutor; a menos que venha a jeito para escaqueirar
Completamente de acordo. É verdade que já vi elogios, mas são raríssimos. A norma é ignorar.
Caro Manuel,
Cheguei aqui através do blogue da Pó dos Livros (até podia fingir que cheguei cá em voo directo, mas não era a mesma coisa) e ainda bem que cheguei. Na mouche!
Vou levar para divulgar no ISTO NÃO FICA ASSIM! Aparece por lá quando quiseres e puderes. É um espaço aberto às gentes do livro.
Grande abraço,
Luís Guerra
Se isto não ficar assim seria mesmo muito bom, caro Luis. E que bom ver-te por aqui.
Entretanto, aproveito para agradecer a simpática referência feita pelo Pó dos Livros que é livaria e é um tão bom blogue, a visitar aqui.
E eu que achava que aqui e que tinhamos uma falha nessa relacao ( nao sei usar os acentos do teclado desse terminal).Nosso maior problema talvez seja mesmo a divulgacao editorial como um todo.O que nao entra nas grandes redes de livrarias cai no anonimato.
[…] daqui, com o devido agradecimento a Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & […]