Nada a declarar?

           Ainda há pouco as nuvens tão perto ali abaixo. Agora já tão distantes lá acima.

           As rodas agarram-se à pista sem solavancos, o alívio dos passageiros ecoa em palmas. Sorrio, ouvidos aluados, costas no encosto, olhos nas arrepiadas asas que contrariam o vento e progridem, já inúteis, no chão de Lisboa. Este é o meu chão. Estou de volta.

         Na alfândega, piscam dois caminhos de saída: o vermelho, das chatices, o verde, para quem quer fugir delas. Escolho. Os polícias miram-me o cabelo mal dormido, os suspeitos chapéus de palhinha orientais atados à mala de mão, o excesso de autocolantes da mala de porão e formam em muro à minha frente: ‘Tem a certeza que nada a declarar?‘

        Hesito uma fracção de segundo. A vontade de provocar está à beirinha.     

        Digo ou não digo?

Falo-lhes do marfim da selva? Das moedas da Indochina francesa? Das jóias do casamento khmer? Do elefante de três cabeças? Dos caixões esculpidos nas árvores? Do mistério de Phu Asa? Dos caranguejos sardentos de Kep? Da moto no autocarro? Do camião de cimento? Da oitava maravilha do mundo? Dentro desta mala cabe isto e muito mais.

        Para minha surpresa, ouço a minha voz adiantar-se: 

        ‘Sim, tenho algo a declarar’.

        Os polícias avançam ombros e sobrancelhas espessas.

         ‘……Siiiim?’

         ‘Declaro que estou muito feliz por estar de volta e que apreciava uma almofada fofa para dormir 24 horas de seguida’.

         ‘Bem, almofadas para 24 horas não temos, mas para 2 ou 3 ainda se arranja’. 

Estivessemos num sketch dos Monty Pyton e a resposta bem poderia ter sido aquela. Não foi.  Assim como assim, ía jurar que vi uns bigodes estremecidos em sorriso:

        ‘Vá lá à sua vida’.

         E eu cá vim.

Comentários a “Nada a declarar?” (14)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Olá Teresa! Seja bem aterrada neste cemitério!
    Como é essa da moto no autocarro?…

  2. Teresa Conceição diz:

    Olá António!
    Vou gostar de aterrar e de me enterrar de novo neste nosso cemitério.

    Mas ainda tenho de resolver os sonos, todos ao contrário, antes de abrir a mala para desenterrar as histórias.
    O António tem olho, a história que escolheu é gira, tivesse eu artes para a contar.
    Mas assim que a desembrulhar, vai directinha para si.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Fico à espera, durma bem.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Teresa, gostei muito de te saber traficante de sonhos e de histórias. Caramba, este blogue — tanta virtude até nos pode fazer mal — já estava a precisar de alguma delinquência, vício e corrupção. Bom regresso e agora vê lá se abres os tesouros.

    • teresa conceição diz:

      Manel, já me fez rir.
      Mas ‘delinquência vício e corrupção’ parece-me classificação muito acima da média para as minhas modestas andanças.
      É certo, trouxe pimenta de Kampot. Deve ser o item com sabor mais aproximado ao desejado picante que há-de sair ali da mala…

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Acorde, sua lufada de ar fresco! Já é meio dia e quero dizer-lhe: bem vinda!

    • teresa conceição diz:

      Eugénia! Como vê, estou mais de meia noite do que de meio dia. Mas é sempre boa hora para agradecer o despertador.

  6. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Olá Teresa. Há muitos anos tive a mesma experiência. Mas vinha de combóio, de Genève, trazendo mochilas, sacos, etc. e uma viola de 12 cordas comprada em Montreux dentro de uma enorme caixa triangular, feita de cartão. Tudo muito sujo, eu especialmente. E o guarda espanhol perguntou-me três vezes, cada vez com ar mais grave e voz mais forte, se eu não tinha nada a declarar. Disse três vezes que não, como São Pedro, e ele foi-se embora. Mais tarde vendi essa viola. Que disparate. Tinha um som lindo. Está a ver. As coisas de que já me fez lembrar!?

    • teresa conceição diz:

      Gonçalo, que boa lembrança de se ter. Não estava nada a vê-lo a fazer interrail!
      E estou em crer que essa história até dava mais que um post. Essa e outras que não cabiam numa caixa triangular…

      • Gonçalo Pistacchini Moita diz:

        E tem razão Teresa, porque nunca fiz interrail. Mas lá que fui à boleia por essa Europa afora e andei trabalhando e andando de mochila às costas, lá isso andei. Histórias, infelizmente, não tenho muitas, muitas. E algumas nem lhas posso contar. :) Olhe, mas lembrei-me agora de estar na Suíça, já nem sei bem onde, a pedir boleia com uns amigos numa estrada qualquer, começar a cair uma carga de água terrível e, de repente, reparar que um champô que tinnha dentro da mochila estava mal fechado. Como é que reparei? Porque a mochila, bem como toda a roupa e tudo o que eu tinha, que estava lá dentro, estava tudo completamente encharcado e absolutamente cheio de bolhinhas. Um desespero. Como tinha 17 ou 18 anos, ri-me. Bendita idade!

  7. Pedro Lisboa diz:

    Teresa, bem vinda !
    Estou ansioso para viajar nas suas novas histórias e tesouros…pela breve, mas intensa, descrição que fez teremos muito para sonhar e imaginar…

  8. Turmalina diz:

    Bom regresso!!!
    Faço parte daquele grupo de passageiros que sente-se aliviado quando as rodas tocam o chão firme. Só aí é que solto o peso do corpo no encosto e perco toda a pressa de sair da aeronave.Afinal já sei o que me espera, filas e perguntas.Mas tudo bem também, porque sempre trago mais histórias e fotografias do que objetos concretos.
    Agora fico à espera dos seus textos!!!

  9. teresa conceição diz:

    Obigada, Turmalina!
    Eu acho é que os textos vão demorar mais do que eu a acordar…

  10. Joana Vasconcelos diz:

    Teresa, que delicioso relato!
    Devo dizer que o calafrio que o título de imediato me causou só se dissipou bem no fim, quando a vi seguir, formosa e segura, pelo canal verde, com as suas malas tão coloridas por forma como, estou certa, por dentro.
    É que ainda tenho bem presentes os anos e anos em que, míúda, regressava sozinha de Macau no fim das férias e em que mais de 18 horas de viagem culminavam — era fatal como o destino -, com aqueles senhores a lançarem-se avidamente sobre as minhas malas, que remexiam com zelo e diligência, para não encontrar nada, claro, enquanto — achavam eles — atenuavam a barbaridade de tudo aquilo com uma despropositada simpatia tipo “então andas a estudar o quê?”, “quando começam as aulas?” e por aí fora … Ainda hoje quando chego e os vejo a olhar para os passantes … fervo, ó se fervo!

    E needless to say que estou aqui mortinha por ver tudo o que de extraordinário trouxe nessas malas …

Comentar